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Mês: abril 2012

Sonhos Azuis – CAPÍTULO XIII

Como vai o professorzinho, Cema?

Perguntava Adam, ironicamente, logo cedo, enquanto ajeitava a gravata no colarinho, segurando alguns papéis no antebraço…

Você deve estar brincando comigo… Quem me chama de Cema é o meu amor…
Pensei que não estivessem mais juntos…
Por que?
Há dias que não vejo aquele monte de lata azul vindo te buscar…
Há dois dias, mais especificamente… Mas é bem verdade que você raramente está aqui no final do expediente. Quase sempre tenho que fechar esta espelunca sozinha…
Desculpe! Parece que temos alguém nervosa por aqui…
Ele está cuidando da mãe no hospital…
Que futuro você acha que vai ter com este cara?
Em primeiro lugar, não é da sua conta… Em segundo lugar, estou com ele por amor…
Será que ele te ama mesmo?
Claro que sim!
Então porque está te abandonando aos poucos?
Está cuidando da mãe dele, já disse!
Quando alguém ama de verdade, abandona tudo para viver o amor…

Iracema é salva daquela conversa desagradável com a chegada de um cliente… Adam o atende, enquanto isso seu pensamento viaja… Por um momento imagina que as palavras de Adam possam ser verdadeiras. A mãe do João não está nada bem, mas ele tem outros irmãos que poderiam cuidá-la… Sente medo de perdê-lo para uma velha que está a beira da morte… Seu coração apaixonado começa a cultivar dúvidas e mais dúvidas sobre a sua relação com o professor sonhador de sonhos azuis… O fusquinha já não parecia tão aconchegante como antes, estava batendo a lataria, algumas vezes precisava ser empurrado para pegar no tranco, visto que estava com a bateria fraca, não tinha aparelho de som, como o carro do Adam e de tantos outros que conhecia e vendia… Parece que seu amor agora era instável… Precisava resgatar o João, ou o perderia para sempre. Por outro lado, se continuasse com ele, teria que ajudá-lo a cuidar de sua mãe por toda a eternidade, caso sua doença melhorasse, ou conviveria com uma pessoa que por muito tempo choraria a morte da velha… De qualquer forma, era melhor garantir que não perderia este que ainda era o grande amor de sua vida: Aquele que causou uma profunda transformação em seu caráter e sua personalidade. Nunca mais foi a mesma pessoa depois que conheceu o João… Nunca mais brincou com o amor como se fosse um jogo de cartas. Outra Iracema nasceu no dia em que conheceu aquele jovem sonhador de sonhos azuis…
Adam volta ao balcão sem realizar a venda, mas não parecia nervoso por isso:

Sabia que estou sozinho?
E sua mulher?
Acabei de me separar… Não dava mais certo… Muito ciumenta…
E os filhos?
Ficam com ela, poderei vê-los de vez em quando…
Sinto muito!
Já que seu professorzinho anda meio distante, não gostaria de jantar com um homem de verdade, hoje?
Sinto muito de novo!…
Ele não te merece!
Não me obrigue a ser mal educada com você…

Salva, novamente por um cliente, a moreníssima encosta os cotovelos na mesa, apoiando o queixo com ambas as mãos e põe-se a observar seu patrão que tentava realizar a primeira venda do dia. Via-o diferente das outras vezes: mais bonito, mais elegante… Sempre de terno e gravata, sempre impecável… Nem se comparava a calça jeans, camisa social e colete usados por seu professorzinho. Percebia Adam charmoso pela primeira vez… Observava o jeito de parar, com uma mão na cintura e a outra no queixo… Os cabelos castanho-claros, quase loiros, sempre bem penteados, a barba bem feita diuturnamente, seu perfume, seu sorriso, seus olhos verdes… Tudo, de repente começou a lhe chamar a atenção. A antiga Iracema ressurgia, por um momento, das cinzas. Teve ímpetos de aceitar seu convite para jantar, mas manteve a postura de funcionária. Subitamente volta a si e percebe que está prestes a cometer mais uma besteira em sua vida… Já havia cometido tantas e nunca terminaram bem. Agora que tinha firmado compromisso com um único homem e já estava de casamento marcado para fevereiro do próximo ano, precisava manter a postura… Mesmo abalada, a atitude de boa moça precisava prevalecer…
Mais uma vez, o cliente sai sem comprar um veículo… Mais uma vez Adam volta, cheio de charme ao balcão:

E então, vai aceitar meu convite?
Um outro dia!

Não quis ser deselegante desta vez. Um “não” poderia parecer grosseria, assim ela se livrava da situação e não criava atrito com seu patrãozinho… Na verdade, não respondeu negativamente por falta de coragem, ou porque seu coração, em dúvida depois de tanto tempo, não deixava…

O próximo cliente, você atende… E trate de começar a vender mais, se não cabeças vão rolar… E você sabe que cabeça rola primeiro… A corda sempre arrebenta do lado mais fraco, querida!
Tudo bem!

Aquilo soou como uma ameaça em seus ouvidos, situação que deixou seu coração ainda mais dividido…
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Sonhos Azuis – CAPÍTULOXII

 

No dia seguinte, ele não tirava Cema da cabeça… Ela não esquecia da noite maravilhosa que passara ao lado do João… E assim permaneceram, rotineiramente, por algum tempo. Encontravam-se quase todo dia, só folgaram nas festas de fim de ano, porque já tinham combinado com suas famílias, cada qual passou as festividades junto dos seus… João, como há muito tempo não acontecia, conseguiu passar o Natal e o fim de ano com sua mãe e os quatro irmãos… Iracema, acompanhou as festividades com seus tios, que já não pareciam mais tão terríveis assim: Amando o João, ela aprendeu a amar também seus padrastos.
João e Iracema: um casal que se completava com suas diferenças, loucamente apaixonados um pelo outro… O mundo parecia parar quando estavam juntos… Aquele amor parecia ser eterno, nada os abalaria, nada os venceria, nada destruiria esta relação baseada em muito carinho e dedicação. João dos sonhos azuis nunca antes estivera tão bem e feliz, em todos os aspectos… Nunca mais seria o mesmo, jamais sofreria novamente por amor… Estava vivendo a melhor fase de sua vida…
Seis meses se passaram. Era inverno. João já havia se efetivado como professor em uma escola pública no centro da cidade, graças ao concurso que fizera três anos antes. Cema continuava como vendedora de carros. João, todas as manhãs passava no trabalho dela antes da hora do almoço, por vezes almoçavam juntos. Algumas vezes ele dormia na casa dela, outras ela dormia na casa dele… Raramente passavam um dia sem se ver e quando isso acontecia, ficavam pendurados ao telefone durante horas… Esta era a rotina de nosso casal de sonhos azuis…
Numa manhã de frio, João acorda com a tosse de sua mãe, que aparentemente voltava com mais força que no ano passado:

Tossindo de novo, mamãe?
É! Quase não dormi esta noite… Mas logo passa, meu filho, se Deus quiser.
Se cuida, minha véia!

O café parecia mais amargo naquele dia, engolia o pão com dificuldade enquanto ouvia aquela tosse insistente de sua mãe agravando-se sem dar tréguas. Sentiu um grande aperto em seu coração, mas procurou não demonstrar… Poderia não ser nada, só uma crise de tosse típica dos fumantes… Nada que um chá caseiro não resolvesse.

Tô indo! Bença, mãe?
Deus te abençoe, meu filho…

Não conseguiu se concentrar direito no trabalho: alunos e colegas perceberam que João não estava bem… Ele tentava disfarçar, mas não conseguia… Seu coração, ainda apertado, parecia estar prevendo algo muito impactante em sua vida. Só pensava em sua mãe, sabia dos riscos que um fumante corre, principalmente ela que não largava o tabaco desde os treze anos, e já nos sessenta e oito, aos poucos, dava sinais de rendição.
Onze horas e quarenta e cinco minutos da manhã… Nosso sonhador de sonhos azuis sai da escola ansioso, passa na revendedora e leva sua namorada par almoçar em casa. Chegando lá, Cema também percebe a situação da mãe dele:

O que houve, dona Áurea?
Não sei, deve ser uma gripe muito forte!

João, percebendo que a situação se agravava, sabia que deveria tomar uma atitude:

Mãe, hoje à tarde estou de folga. Vou levá-la ao médico… Depois do almoço esteja pronta, quando eu levar a Cema, levo a senhora junto e passamos no posto de saúde.

Assim o fez. O médico a examinou e prescreveu alguns remédios, entre eles um xarope para a tosse… Enquanto Áurea tomava o xarope, a tosse foi amenizada… Isso por uma semana, depois a situação voltou a ser como antes…
Durante quatro meses a tosse continuava e os médicos que a examinavam receitavam remédios e mais remédios que, de forma alguma resolviam o problema.
João já não dormia direito, só pensava em solucionar o problema de sua mãe, mas não via nenhuma melhora considerável… Praticamente abandonou seu amor, ele e Cema viam-se de vez em quando e por pouco tempo. Pediu ajuda a Anita que atendeu prontamente seu clamor:

Maninho, vamos levar mamãe no plantão do hospital. Hoje, o plantonista é um médico muito bom. Tenho certeza que ele vai resolver de uma vez por todas este nosso martírio, pelo menos poderá dar um diagnóstico mais preciso do que se passa com a velhina.
Tudo bem, Anita. À noite vou levá-la no plantão e você vai comigo. Certo?
Certo!
Só tenho um grande medo… Espero que eu esteja errado…
O quê?
Tenho medo que seja câncer…
Não! Magina… Isso deve ser alguma infecção mal curada. É só dar o diagnóstico certo e a medicação funciona.

Na verdade, Anita tinha o mesmo medo do João… Abraçaram-se e concomitantemente uma lágrima correu em seus rostos… Lágrima de medo e insegurança mútuos. Estavam preocupados, mas não deixavam que dona Áurea percebesse…queriam poupá-la de qualquer preocupação antecipada… Mas o medo existia e a possibilidade era grande.
O médico plantonista examinou a mãe de nosso sonhador e, pela primeira vez, pediu um raio X, que foi feito no próprio hospital… João pode ouvir de longe o médico, com a chapa na mão, falando ao telefone:

Doutora, estou com uma paciente que apresenta algumas manchas preocupantes no pulmão. Poderia examiná-la?

Ao desligar, dirige-se a João e Anita que já estavam de mãos dadas e rosário no meio das mãos, esperando o diagnóstico. O médico então dirige-se a eles:

Vamos ter que interná-la. Chamei a doutora Angélica para examiná-la mais precisamente, só assim poderemos saber com mais precisão o que é que a mãe de vocês tem.
É grave, doutor?
Calma, Anita… Vamos esperar o diagnóstico da doutora

João via suas suspeitas cada vez mais perto da confirmação… Infelizmente… Ele sabia que a doutora em questão era especialista em oncologia. Seu coração ficava cada vez mais apertado e já não tinha mais esperanças de melhora da sua progenitora.
Aquela noite, dona Áurea passou em observação no hospital, acompanhada por sua filha Anita. João foi para casa e levou Cema para fazer-lhe companhia, porém passou a noite em claro…

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Sonhos azuis – CAPÍTULO XI

No dia seguinte, nosso protagonista apaixonado dos sonhos azuis não conseguia tirar aquela morena do pensamento. Tudo o que imaginava para seu futuro, envolvia aquele par de olhos negros em um rosto angelical de pele morena ladeado por cabelos longos e negros, da cor da noite… Sua preocupação se dividia em revê-la mais tarde e nas crises de tosse que continuavam acompanhando sua progenitora.

Mamãe, o chá não está resolvendo… Vamos ao médico!
Prá quê?… Ele vai me receitar um monte de remédios e xaropes que não vão resolver, fique tranquilo que logo ficarei boa… Deve ser este tempo seco, mas estou tomando água o tempo todo para lubrificar a goela…
Vou dar mais uma volta de fusca…
Se cuida, meu filho…
Por três vezes passou em frente a revendedora, mas não teve coragem de parar… Tinha medo de atrapalhar o trabalho de sua nova razão para viver, afinal as coisas estavam preocupantes para o lado dela também. Precisava vender mais para continuar garantindo o emprego.

A linda morena, por sua vez, também não parava de pensar na noite anterior enquanto observava a chuva que começava a cair, e seu coração tão calejado rendia-se aos caprichos da paixão… Pela primeira vez, sentia-se amada novamente desde que perdera seus pais… Porém, lá no fundo de seus pensamentos tinha medo deste sentimento que lhe assolava o coração e a alma tão repentinamente… Temia não fazer-se feliz, temia não fazer o João feliz… Tinha medo de magoar-se, tinha medo de magoar o pobre e apaixonado mancebo. Ainda não sabia se o amor que sentia em seu peito era verdadeiro… Ainda não sabia se o amor de seu príncipe moreno dos olhos cor de mel revelava também um sentimento verdadeiro…

Por um instante, o filme de sua vida passou em sua frente: Lembrou-se de todas as travessuras feitas na infância e adolescência. Fugiu da casa de seus tios por duas vezes, só para deixá-los preocupados e criar a ilusão de que assim teria uma importância maior na vida deles… Era a mais cobiçada do bairro… Os meninos faziam fila para dar-lhe um selinho e ela tomava aquilo como uma inocente brincadeira. A menina cresceu e sua inocência diminuiu, porém continuava sapeca… Mas os riscos agora eram maiores, pois tudo que um adulto faz, tem repercussão infinitamente maior que as atitudes de uma criança ou adolescente. Já teve envolvimento com outros homens, brincou com os sentimentos deles, tinha-os como descartáveis… Eles precisavam dela, porém não parecia que ela precisasse deles, a não ser para o sexo… De repente tomou consciência de suas atitudes passadas e em silêncio, propôs-se uma mudança: tentar ser a mulher dos sonhos do João, fazê-lo feliz, ser feliz também… Já não lhe causava mais prazer o fado de brincar com os sentimentos alheios…

Iracema percebeu então no João, a solução para todos os seus problemas. Poderiam casar-se, ela sairia definitivamente da casa dos tios ingratos, tornar-se-ia independente, teria finalmente um lar, um marido amoroso que a tratasse como merecia… Poderia constituir família e descobrir a felicidade, enfim… Seu exame de consciência foi repentinamente interrompido pela voz de seu patrão:
Parabéns pela venda ontem!

Obrigada!
Aquilo lhe causou certa estranheza… Adam nunca lhe tinha feito um elogio, mesmo quando os negócios do engomadinho iam bem. Além do mais, com tantos carros melhores, mais novos e mais valorizados na loja, por que seria elogiada, justamente pela venda de um monte de lata velho, redondo e azul?… De qualquer forma, o fusquinha vendido ontem era da cor do céu, da cor de suas esperanças ressuscitadas e da cor da salvação de seu emprego… Aquilo fez Iracema mudar seus conceitos sobre seu patrão, antes tão intransigente e amargo, agora um pouco mais relacionável…

Seis e meia da tarde, calor de vinte e oito graus naquele vinte de dezembro… Encosta na frente da revendedora aquela mancha azul-celeste, da cor dos desafetos do Adam, da cor da esperança de Iracema, da cor dos sonhos do João que adentra ao estabelecimento com um sorriso estampado no rosto, há tempos não visto… Cumprimenta Adam e espera ansioso pela liberação da sua morena. Adam aproxima-se de Iracema resmungando a meia boca:
Você está namorando esse professorzinho?

Sim! Algum problema?

Não! Só para perguntar…
De fora do balcão, João cumprimenta a razão do sua alegria:
Oi Cema!

Oi amor! Já estou indo!…
Antes de entrar no carro, Nosso apaixonado João a convida para fazer um lanchinho a noite, mas antes passa em casa para que ela e sua mãe sejam apresentadas…

Oi, mãezinha? Melhorou?
Sim, meu filho! Acho que era a poeira, a chuva de hoje a tarde acabou com minha tosse…
Se cuida, minha véia!… Olha, esta é Cema, minha namorada…

De cara, dona Áurea não gostou muito da morena dos cabelos negros cor da noite, cor de sua preocupação, cor de sua desconfiança… As mães sempre enxergam muito além da percepção de seus filhos, ainda mais uma senhora experiente de sessenta e oito anos… Porém conteve-se:
Muito Prazer!

O prazer é meu!
Por meia hora, a jovem foi submetida ao interrogatório típico das mães que recém conhecem sua nora: Onde mora… Quantos anos tem… Quem são seus pais… Onde trabalha… Como conheceu seu filho…

Em seguida, passam na casa de Iracema para ela tomar banho e se trocar para a ocasião. Ao sair do quarto, parecia ainda mais linda: Pela primeira vez, João a via sem o uniforme de trabalho. Trajava um vestido azul, da cor de seus sonhos um pouquinho escurecido, revelando enfim as curvas perfeitas daquela morena dos cabelos lisos e cheirosos, com os ombros e as costas a mostra, deixando nosso sonhador ainda mais apaixonado.

Fizeram seu primeiro lanche a sós, numa lanchonete simples do centro da cidade… A sobremesa: Amor… dentro do fusquinha azul, da cor de seus sonhos e do prazer mútuo que pela primeira vez sentiam com aquela intensidade. O vestido já não importava mais, pois começavam a conhecer-se um ao outro integralmente, e para isso, as roupas não eram bem-vindas.

Com os bancos reclinados, contemplavam a lua cheia pela janela, trocando carícias que já previam o próximo ato… Estavam felizes: João, sentia-se jubiloso pelos dois sonhos realizados: o carro e o amor… Cema, pela primeira vez em muitos anos, sentia-se feliz na companhia de outra pessoa… Estava selado o compromisso entre duas almas que se completavam através de suas diferenças. O restante do mundo não interessava. O momento era de intensa paixão… E quando dois seres estão apaixonados tudo fica mais bonito…

No fundo do pensamento de ambos, se desenhava um futuro feliz, um namoro curtinho, um casamento longo, casa própria, filhos… Uma nova família… Não conversavam sobre isso, mas os olhares revelavam as intenções mais coesas…
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