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Mês: março 2012

O branco que incomoda

Aconteceu de novo!… Estou diante do computador, BR office aberto e uma página quase em branco… Será que José de Alencar também passou por isso? Ele que foi o primeiro escritor brasileiro a fazer literatura com a cara do Brasil, teria se deparado com um momento de branco total sem cara nenhuma?… Teria Machado de Assis ficado também sem um pingo de criatividade para escrever em algum momento de sua vida célebre? Seria ele, pelo menos por uma vez, protagonista de uma narrativa em branco nas páginas da história da Língua Portuguesa?… E o que dizer de Érico Veríssimo? Em algum momento as Vidas Secas estiveram na situação de vidas vazias e sem conteúdo?…

Se os grandes escritores, sobretudo os cronistas, passam por isso, eu não sei. Só sei que os meia-boca passam… Sou um deles… Como diria Raulzito: “humano, ridículo, limitado que só usa dez por cento de sua cabeça animal”… Alguns discutem, batem de frente, fazem greve, lutam por seus direitos, não se entregam jamais à tirania… Eu, simplesmente escrevo e acho que faço um pouco de todo o resto desta maneira, menos usar armas…

Mas meus dez por cento de inteligência resolveram também fazer greve hoje… Não vem nada à cabeça, não passa nada por esse cérebro passional pela educação e criativo… Quer dizer, no momento, nem tanto… Tentei imaginar tudo lilás, acender incenso, meditar, recitar um mantra e tudo o que consegui foi pegar no sono… Nenhuma palavra bonita visitou minha mente para escrever aqui e “matar a pau”… Palavras bonitas enganam muita gente, enobrecem muita gente, empobrecem outros tantos e elegem muitos dos nossos representantes que, depois esquecem as palavras e partem para a ação… Ação em favor daqueles que pagaram pelas palavras bonitas ditas no horário eleitoral e não daqueles que as ouviram… Atitudes que beneficiam os financiadores das cestas básicas e das ordens de combustível e não dos pobres de bolso e de espírito que venderam seu voto…

Porém, a verdade é cruel: não tenho palavras, tampouco ações para realizar neste momento, sou mais uma página em branco na história da literatura e das lutas populares… Espero recuperar minhas ideias que se transformam em palavras neste teclado, antes que o Bial chame seus heróis do zoológico humano lá dentro da caixinha preta que nos permite economizar cérebro, pois se eu me ligar na poderosa do “plim plim” com a cabeça vazia, talvez não sobre cérebro sadio para contar a história dentro deste crânio que sustenta a cabeça deste corpo que vos escreve…

Céus!… O que aconteceu comigo?… Quase seis anos escrevendo por paixão às letras, por amor às causas populares e em defesa de uma escola pública de qualidade e agora nada me ilumina o suficiente para merecer uma crônica… Uma lástima!… Deve ser um surto de falta de consciência…

Não ter assunto é muito embaraçoso para quem recebe uma visita e fica sentado no sofá da sala ouvindo a grama crescer lá fora, para as comadres e compadres que repartem esperanças e temores passando a cuia de chimarrão de mão em mão, para os fofoqueiros de plantão. Mas é catastrófico para um escritor… Escritor sim!… Apesar de alguns engravatados que sentam na cadeira de quem pensa que manda não gostarem deste título, eu o assumo: sou escritor… Exatamente, um escritor professor, imperfeito em ambas as situações, mas que está aí tentando fazer alguma coisa para compartilhar seus ideais e procurando ser melhor a cada dia… Se eu quero aparecer?… Sim!… E quem se incomoda com isso, deveria fazer o mesmo… Sei que existem muitos e muitos talentos para a literatura escondidos por aí e só não se mostram por falta de oportunidade, ou por medo do que os outros vão pensar… Apareçam! Se mostrem e parem de se incomodar com alguém que ama a palavra escrita e só quer divulgar suas ideias, mesmo sem nunca ganhar um centavo com isso…

Vivemos num país que garante o direito de livre expressão… Tentaram calar minha voz, não conseguiram… Tentaram de novo, conseguiram parcialmente… Tentaram uma terceira vez e, de novo não tiveram sucesso… Enquanto os grandes continuarem tentando me emudecer, continuarei com a certeza de que os pequenos necessitam de minhas palavras. Até porque sou um deles, portanto, meus textos sempre serão de autoajuda…

É tudo muito lindo, mas estou amarrado pela falta de assunto… Não tenho nada a declarar… Opa! Esqueci que estou proibido de escrever esta frase… O jeito é me render ao monstro devorador de cérebros chamado televisão, que entra em nossos lares sem pedir licença, divulgando tudo aquilo que os maus pensadores querem pôr na cabeça dos desprovidos de pensamento como eu neste momento… Sou um prato cheio para eles, pois uma cabeça vazia é um excelente objeto de dominação…

Deus me livre de esvaziar meus pensamentos todos, principalmente aqueles que se referem a meus ideais e minha ideologia, sobretudo antes de me entregar à caixinha preta que economiza cérebro… Não quero ser espectador da vida. Quero e preciso ser protagonista da minha história… Quero e preciso alertar meus jovens estudantes da diferença que faz o fato de eles também serem protagonistas da própria história…

Márcio Roberto Goes
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Sonhos Azuis – CAPÍTULO X

Dezoito horas e vinte minutos, João chega de carona com Teófilo, talão no bolso, esperança no coração:

Obrigado Teófilo!

De nada! Precisando, é só chamar…

Adentrando ao portão, avista em primeiro plano o fusquinha da cor de seus sonhos, em segundo plano, Adam com um olhar de cobiça e atrás do balcão, Iracema, que olha timidamente e o cumprimenta acenando discretamente com a mão. O microempresário mercenário o recebe no meio do caminho:

E aí João… Pronto para fechar negócio?

Sim! Como faremos?

Você pode dar uma entrada de R$270,00, mais nove cheques no mesmo valor?

Acho que sim!

Então pode dirigir-se até o balcão que minha secretária vai preencher os cheques e predatá-los.

Cada passo que ele dava em direção ao balcão parecia mais um degrau vencido na escala até o paraíso. Ao aproximar-se, pôde sentir o perfume que parecia estar sendo usado especialmente para aquela ocasião pela sua musa dos cabelos longos cor da noite.

Iracema pegou o talão com a mão direita… João não pode deixar de observar: no anelar, um anel de Tucum, igual ao dele. Ela não usava nenhum anel na tarde de ontem – pensava com seus botões – Ou será que não prestei a devida atenção?… Melhor não perguntar nada… Enquanto preenchia os cheques, os dois seguiam uma conversa tímida, mas cheia de segundas intenções:
Ao sair daqui, você vai onde, João?

Vou para casa…

Não tem nenhum compromisso?

Não!

Poderia me dar uma carona até minha casa? Adam não pode me levar hoje…

Era tudo que nosso sonhador queria… Não poderia perder esta chance, ou jamais se perdoaria… Era preciso arriscar, afinal estava fechando um negócio, fato que não o obrigava mais a voltar naquele local, a não ser para acertar a documentação e depois poderia nunca mais ver aqueles olhos da cor da noite e aquele sorriso encantador:
Onde você mora?

Na Vereda dos trevos.

É do outro lado da cidade…

Sim! E a essa hora não tem mais ônibus até lá…

Eu moro aqui perto, no Sorgatto… Mas posso te levar, sem problema algum!

Só preciso organizar uns papéis…

João Esperava com o coração disparado, repleto de ansiedade e insegurança… Não dava para acreditar: Estava realizando dois sonhos no mesmo dia… Aliás pareciam continuar sendo sonhos… Sonhava acordado… Agradeceu a Deus, no fundo de seus pensamentos, enquanto observava a dona dos cabelos negros mais lindos que já vira terminar seu trabalho. Quando voltou à Terra, ouviu aquela voz doce dizendo:

Vamos?… Estou pronta.

Vamos!

Abriu a porta para ela, deu a volta no seu novo carro e entrou. Durante o trajeto de cinco quilômetros até a Vereda, não se conteve, perguntou curioso e admirado:
Por que está usando um anel de Tucum?…

Porque ontem, vi um anel igual na mão do homem mais interessante que já conheci e resolvi fazer uma homenagem.

Você está exagerando… Não sou tudo isso.

Tem namorada?

Não!… E você?

Estou saindo de um relacionamento frustrante.

Quanto tempo faz?

Quase um mês! O cachorro me traiu com uma mulher casada…

Que pena! Você não merece uma coisa dessas…

É! Mas ele não pensava assim… Vira à esquerda na próxima esquina! A terceira casa é a minha…
A casa era azul… da cor de seu fusca… da cor de seus sonhos… Tinha uma varanda grande na frente, onde ficaram por alguns minutos. João se preocupou com a situação.
Seus pais não vão gostar da gente estar conversando na varanda de sua casa…

Meus pais já morreram…

Desculpe!

Moro com meus tios, mas eles não estão nem aí comigo. Voltam só amanhã de viagem…

Mesmo assim, não pega bem… Nós dois conversando aqui… Já anoiteceu… Os vizinhos podem falar…
Não conseguia esconder o nervosismo e a insegurança, típicos do primeiro encontro. Iracema também, porém mostrava-se mais ousada. Foi a primeira a pegar na mão do João e olhar em seus olhos, dizendo ser aquele o dia mais feliz de sua vida. João retribuiu com um abraço longo o suficiente para acariciar todo o tronco de Iracema e sentir seu coração disparado junto ao dele… Estavam tão próximos… O rosto colado um ao outro, a respiração ofegante. Afastaram-se um pouco mantendo o abraço, cruzando os olhares novamente… os lábios tremiam… Nosso sonhador acariciou levemente a face macia de Iracema, aproximando-se um pouco para sentir mais de perto seu perfume, fechou lentamente os olhos… A linda morena, por sua vez, acariciou os cabelos do João até a nuca, puxando-o de vez… Os lábios finalmente se uniram… Foi um longo e apaixonado beijo, terminaram roçando as narinas enquanto João murmurava:
Este é o dia mais feliz da minha vida…

Então temos algo em comum… Queria que esta noite nunca mais acabasse.

Só tem um jeito de não deixá-la terminar.

Como?

Quer ser minha namorada?

Já?… Assim?…

Quer ou não quer?
Iracema estava com o coração e os lábios prontos para dizerem sim, mas resolveu usar aquilo que as mulheres têm de melhor e mais intrigante, uma faca de dois gumes: o charme dos joguinhos de sedução, que deixa qualquer homem louco:
Não sei! Nos conhecemos ontem… Esse é nosso primeiro encontro… ainda não nos conhecemos direito…

Você está livre e eu também! Não é?

Sim!

Então, não temos nada a perder…

Sei lá!

O namoro servirá justamente para nos conhecermos melhor!
Iracema, acabou cedendo aos argumentos do nosso sonhador de sonhos azuis e respondeu seu sim seguido de mais um longo beijo… O penúltimo da noite, pois quando se deram conta, já passava das dez horas e João não havia avisado sua mãe que demoraria tanto… Jamais havia saído sem avisar.
Preciso ir, querida!

Já?… Fique mais um pouco comigo!

Não avisei minha mãe que demoraria.

Está certo! Cuide dela enquanto a tem.

Amanhã, posso buscá-la no trabalho?

Com certeza!

Despediram-se, finalmente com um beijo cheio de carícias… João, sentia-se novamente um adolescente que encontra sua primeira namorada. Ao chegar em casa, descarrega na buzina toda a sua alegria e entra porta a dentro gritando:
Tô namorando, mãe!… Tô namorando!…

Quem é a moça?

A senhora não conhece, mas logo a trarei aqui para vocês se conhecerem… Como vai a tosse?

Melhorou um pouco…

Se ver que não melhora, vamos no plantão consultar…

Não se preocupe, meu filho… Mas, me fale mais de sua namorada.

Calma, mamãe… Logo a senhora a conhecerá…

 

Comeu o jantar que sua mãe havia preparado a sua espera, enquanto contava sobre sua nova aquisição:
Fechei negócio… O fusca já é meu… Vou pagar com nove cheques e hoje já dei uma entrada.

Que bom! Eu também gostei do teu fusquinha… Vou me deitar.

Qualquer coisa me chame… Bença mãe!

Deus te abençoe, meu filho!

 

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Sonhos Azuis – CAPÍTULO IX

 

Adam, pediu que sua funcionária os acompanhasse propositadamente, para ficar mais a vontade e ligar para sua loirinha querida de olhos azuis:
… Mas querida, eu vou me separar dela… É só uma questão de tempo…
Pode separar… Vai ficar sozinho, porque eu não quero mais aturar um cachorro que se importa com o mundo todo, menos comigo… E não me chame de querida, seu cretino!

Na verdade, ela só procurava um pretexto para terminar tudo… E conseguiu:

Você não pode fazer isso comigo… As coisas não se resolvem assim, de uma hora para outra!
Eu estou decidida!… Pode continuar tua vidinha medíocre com aquela mocreia de cabelo queimado… Tchau! Até nunca mais!…

Queria tentar ligar novamente, mas ouve se aproximar o ruído da lata velha azul, da cor de seus desassossegos. João sai do automóvel meio atordoado pela experiência de dirigir pela primeira vez um fusquinha, ainda mais acompanhado de sua nova paixão. Adam se aproxima:

Então, João… Fechamos negócio?

Precisa fazer alguns reparos. Está aqui a lista…

Certo! Pode levá-lo e passar o dia com ele. Traga-o amanhã para levarmos à oficina a fim de fazermos os reparos.

Quanto está pedindo nele?

Dois mil e quinhentos… À vista podemos negociar um preço melhor.

Em quantas vezes podemos fazer?

Não dá para financiar, mas podemos fechar negócio entre nós mesmos… Trabalha com cheque?

Sim!

Quanto pode pagar por mês?

Não mais do que trezentos…

Aí fica difícil… Mas volte amanhã com o talão e conversamos melhor…

Então combinado… Até amanhã!

Até!

Já dentro de seu sonho azul que estava a algumas folhas de cheque de ser seu, pergunta ao Teófilo, enquanto aciona a chave:
Não tinha ração?… Porque voltou de mãos vazias?

Eu nem entrei na loja!

Por quê?

Só queria deixar os dois pombinhos a sós…

Você não presta mesmo! Aceita um café?

Sim! Mas já é quase hora de almoço…

Então… Aceita um almoço?…

Pode ser…

Foram então para a casa de João que chegou cravando a mão na buzina. Sua mãe, ao ver a barulheira, vai conferir da janela:

O que é isso meu filho?

Não estamos mais a pé, mamãe!

Estou vendo!

Cheguem que o almoço tá na mesa!

Enquanto almoçavam, João chegava a ser insuportável de tanto que falava de seu fusquinha azul: Dizia que era meio durão para dirigir, muito diferente dos carros da autoescola, falava da lataria inteira, apenas com alguns arranhõezinhos… O volante ainda era original, queria trocá-lo por outro um pouco menor o mais rápido possível… Dizia que os estofados eram quase novos… Gostava até do ronco do motor 1500… Destacava que seu fusquinha subia qualquer morro em terceira marcha…

Enquanto conversavam, notou que sua mãe estava com uma tosse insistente:
O que é isso mãe?

Não sei! Amanheci com esta tosse… Deve ser gripe!

É o cigarro!

Não! É só uma tosse passageira.

Se não melhorar, eu a levo ao médico.

Não precisa… Hoje à noite eu fervo um chá antes de dormir e amanhã amanheço bem.

Se cuida, minha véia!… Quer dar uma volta de fusca? Vou levar o Teófilo em casa depois do almoço. Se a senhora quiser, pode vir conosco.

Tenho que lavar a louça.

Nós a ajudamos.

Levaram, então o Teófilo e deram mais umas voltas a bordo daquele fusquinha, foram até a casa de sua irmã mostrar a novidade:
Boa tarde, Anita!…

Boa tarde, João! Tá motorizado agora…

Amanhã vou fechar negócio… Já é quase meu. O que achou?

Tá inteiro, né?

Anita também estranha a tosse de Áurea:
Mamãe, que tosse é essa?

 

Deve ser uma virose. Não se preocupe minha filha.

A senhora precisa se cuidar… Não é mais nenhuma menininha…

Hoje eu tomo um chá antes de dormir e amanhã estará tudo bem.

Depois de alguns minutos de conversa, ao se despedir de João, Anita cochicha em seu ouvido:
Leve a mãe ao médico… Não espere muito.

Farei o possível, mas não quero obrigá-la…

Temos que cuidar de nossa velhinha!

É verdade maninha.

Nosso sonhador de sonhos azuis passa a tarde a bordo do fusquinha da cor de seus sonhos, afim de aprender todas as manhas. Na manhã seguinte, leva-o novamente até a revendedora para os reparos. Quando vê Iracema, parece que seu coração vai saltar pela boca, mas procura ser discreto… O mesmo acontece com ela que pergunta preocupada:
A que horas você vem buscar seu fusca?

Adam me disse que estaria pronto no final da tarde.

Correto! Então pode vir um pouco antes das seis e meia, hora do final de expediente.

Na saída, encontra Teófilo com seu fusca areia que para ao avistá-lo:
Tá indo onde?

Para casa…

Quer uma carona?

Aceito!
Passaram o dia novamente juntos. João não tirava da cabeça seu sonho de fusquinha nem seu sonho de mulher.
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Analisando letras – Michel Teló (sim, é possível!). – Por Alexandre Cachoeira

Hoje vamos analisar um “clássico” da “música sertaneja”… Trata-se da música Humilde Residência, do Michel Teló. Essa música, em particular, me chamou muito a atenção, não somente porque acaba com a imagem da mulher como a conhecemos, mas também pelo fato de as mulheres do Brasil inteiro estarem cantando e dançando esse “hino”, composto especialmente para elas… É mais uma homenagem da celebridade do momento, Michel Teló.

Vamos seguir com nossa análise dividindo a letra em três partes. Eis a primeira:

Vou te esperar aqui,

Mas vê se atende o telefone mesmo se for a cobrar

Hoje eu não vou sair

Porque meu carro tá quebrado,

Eu não tô podendo gastar

Quando chegar aqui,

Me dê um grito lá na frente,

Eu vou correndo te buscar

Não tem ninguém aqui,

Mas vou deixar a luz acesa

Essa parte da música é a menos agressiva, mas já nos dá uma dica sobre a estirpe do personagem que está querendo “se dar bem”. Já direi o porquê. Antes de qualquer coisa, é bom ressaltar que o compositor não foi de todo tolo. Pelo menos, não sei se de propósito ou por sorte mesmo, ele não cometeu o erro de dizer que o personagem é humilde ou simples, como em outros “hinos” que estaremos analisando, porque humildade e simplicidade não tem nada a ver com poder aquisitivo.

Feita a primeira análise, vamos à segunda parte:

 

Já te passei meu celular e o endereço

Naquele dia em que te vi sair de casa.

Eu tô ligado que você sempre me deu uma moral

Até dizia que me amava

Agora tá mudada, se formou na faculdade

No meu cursinho eu não cheguei nem na metade

Você tá muito diferente

Eu vou atrás, você na frente,

Tô louco pra te pegar

Essa é a melhor parte, pois é aqui que ficam evidentes os “esculachos” com as mulheres. Pelo menos as mulheres sérias se sentiriam “esculachadas” com tais insultos, mascarados por uma melodia dançante e um sorrisinho malicioso no rosto do cantor, mas enfim, vamos à análise.

Já “de sola” o personagem coloca “Eu tô ligado que você sempre me deu uma moral, até dizia que me amava”. Aqui fica evidente o machismo fundamental da música, esse trecho da letra diz, nada menos, que a referida mulher sempre “comeu na palma da mão” do personagem, em outras palavras, sempre “pagou pau” e o personagem, por sua vez, sempre a esnobou.

Agora vem a parte mais engraçada, pelo menos para quem parou pra pensar: “Agora tá mudada, se formou na faculdade, no meu cursinho eu não cheguei nem na metade, você tá muito diferente eu vou atrás, você na frente, tô louco pra te pegar”. Aqui está revelada a identidade do personagem. Uma pessoa sem dinheiro? Talvez, mas isso não importa. O que realmente se destaca aqui, é o fato de que o personagem principal, o esnobe, que tem a mulher nas mãos, é uma pessoa sem nenhuma perspectiva de vida e sem nenhum respeito pelo caráter da mulher. Isso fica claro em “no meu cursinho eu não cheguei nem na metade”, posto que a mulher já é formada na faculdade, e também em “você tá muito diferente, eu vou atrás, você na frente, tô louco pra te pegar”, pois é aqui que o personagem expressa o quanto é interesseiro e utilitarista.

Note que antes o personagem não se importava com a mulher, mas agora que ela “tá mudada e se formou na faculdade” a história muda. Mas ele continua não se importando, pois alguém que “está louco te pegar” não está nem aí pra quem você é de verdade… Sendo a “gostosa” do momento, está valendo… Isso torna o imbecil popular entre os outros imbecis, não homens, imbecis mesmo.

Feita a análise principal do texto, vamos ao refrão para fechar com chave de ouro:

Vou te esperar

Na minha humilde residência

Pra gente fazer amor

Mas eu te peço só um pouquinho de paciência,

A cama tá quebrada e não tem cobertor

Perto das outras partes da música, o refrão é só a mesma ideia trocada em miúdos. O personagem vai esperar a mulher em casa, o que significa que ela vai até ele, por que não se dá o valor, e não se importa com o fato de o personagem tê-la esnobado até aquele momento. Mas o refrão tem seu ponto forte, é aqui a “mulher” se transforma em “piriguete”.

Outra curiosidade, apesar de conhecer vários pontos de distribuição, eu não conheço nenhuma “fábrica” de amor… Mas já que até as crianças estão cantando isso, não é prudente falar em transa ou ato sexual (certo?).

Finalizamos a análise da música humilde residência, do Michel Teló, esperando que você, mulher, pare de “viajar” com essas músicas, tudo bem que gosto não se discute, mas penso que ninguém, gosta de ser ofendido dessa maneira. O problema, é que a maioria das mulheres está sendo a mulher da música… Por favor, acordem.

Fica aqui o apelo. Ouvir, cantar e dançar as coreografias idiotas de músicas como essa, é identificar-se com a letra, com a música em si. Mulheres, se vocês analisarem essas músicas antes de sair por aí divulgando esse tipo de ideia, vão perceber o quanto isso é ridículo.

Ainda há esperança para o nosso país, contribua, não faça do Brasil um país de Tolos.

Alexandre Cachoeira
Acadêmico do curso de História
Uniarp – Universidade do Alto-vale do Rio do Peixe
Caçador, SC

 

 

 

 

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Carta aberta ao aluno de escola pública

 

Querido aluno, ou melhor, amado aluno… Sim! Um professor que não ama seus alunos deve procurar outra profissão… Venho pedir-lhe um favor, ou melhor, muitos favores… Nunca pedi nada aos meus alunos que não fosse o empenho em buscar o conhecimento… Agora, em  virtude dos acontecimentos, preciso pedir um pouco mais…

Não sou político marqueteiro. Não vou entregá-lo um kit escolar para aparecer com você na capa do jornal, mostrando aquilo que não passa da obrigação dos excelentíssimos, pois os elegemos para cuidar do nosso dinheiro, daquilo que contribuímos diuturnamente através de nossos impostos… Não tenho nenhum interesse em receber seu voto, ou o voto de seus pais e familiares, tampouco vou comprá-lo com cestas básicas, ordem de combustível ou qualquer outro favorzinho, pois se candidato for a qualquer cargo eletivo não farei algo que lutei minha vida inteira contra…

Estou preocupado com a qualidade da educação pública e gratuita que recebe, e com o meio ambiente… Por favor, amado estudante, cuide do patrimônio público: Não jogue chiclete usado no chão. Minhas amigas da limpeza têm um trabalhão para retirá-lo, já que gruda de um jeito que só pode ser retirado com uma espátula e, ainda assim, o piso nunca volta a ser o mesmo… alguém poderá dizer: “Mas a servente é paga pra limpar!”… Sim! É paga para limpar aquilo que é inevitável, como a poeira, mas não é sua responsabilidade limpar as porquices dos sem-noção que hoje fazem isso com as moças da limpeza, amanhã poderão fazer com a sociedade… Futuramente poderão ser eles que aparecerão na capa do jornal entregando um kit escolar para um aluno de escola pública. E a moral?…

Por gentileza, mantenha o ambiente escolar o mais limpo possível, afinal é aí que você fica grande parte do seu dia… Os papéis que você faz bolinha e joga no chão depois de ter escrito uma, ou duas linhas, estão deixando de ser reciclados, mais uma árvore terá que ser derrubada para que se possa produzir outras folhas e outros cadernos e manter a indústria do consumismo ativa, mesmo que para isso seja necessário acabar com nossos recursos naturais…

As paredes que você risca, terão que ser pintadas novamente… Mais uma vez o meio ambiente sofrerá a fim de produzir a tinta usada para tapar a sujeira que você provocou de propósito, além de ser um desperdício de verba pública. Tá Certo que os excelentíssimos não têm aproveitado bem esta verba, mas nós, ao invés de piorarmos a situação, deveríamos lutar para uma melhor aplicabilidade do dinheiro público…

E as mesas, ou carteiras, como queira chamar… Não existe uma sala visitada por mim que não tenha carteiras riscadas com as mais criativas e podres palavras que conheço… Pode ser o mais lindo poema, mas se estiver escrito em uma mesa de escola, se tornará um palavrão, pois estará contribuindo para o enfeiamento do nosso ambiente escolar… Além, é claro, de ir contra a sustentabilidade e agredir severamente o meio ambiente…

Pense bem, querido e amado aluno, um risco desses não sai só com a boa vontade da servente que você diz receber para isso. É preciso esfregar com força, com muita força… Sei por que já fiz isso muitas vezes para ajudar minhas colegas da limpeza… E para esfregar, usa-se aquelas esponjinhas que têm um lado amarelo e outro verde, as mesmas usadas para lavar a louça que, depois de descartadas ficam por décadas poluindo o meio ambiente… Sem falar nos produtos químicos utilizados para a limpeza cuja extração de matéria-prima e produção são responsáveis por despejar no ar um punhado de produtos tóxicos que agridem, silenciosamente a nossa saúde e o nosso planeta… Poderíamos diminuir pela metade esta poluição só parando de riscar as carteiras…

Pelo amor de Deus, aluno amado, colabore com o resto da humanidade! Deixe de ser egoísta… Sim, porque só uma pessoa extremamente egoísta seria capaz de desperdiçar os recursos naturais que fazem falta para os outros e para ela mesma, como esbanjar água potável, não reciclar aquilo que é reciclável, sujar propositadamente o patrimônio público provocando o uso demasiado de produtos tóxicos…

Por favor, cuide daquilo que ainda temos para que nossos filhos também possam ter a mesma qualidade de vida…

Márcio Roberto Goes

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