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Mês: fevereiro 2012

Sonhos Azuis – CAPÍTULO VII

 

Adam é um bem sucedido empresário, herdeiro dos negócios de seu pai que começou comprando, reformando e vendendo carros usados, dando início a uma revendedora, hoje autorizada e perfeitamente documentada de veículos… Porém, mesmo vivendo mais um fim de ano, os negócios não andam nada bem para este jovem empreendedor que luta para aumentar seus lucros, apesar de já ter dinheiro o suficiente para viver confortavelmente por muito tempo. Emprega duas pessoas em sua garagem de revenda, um rapaz e uma moça. Por conta do movimento fraco, deu férias para o rapaz, mas fez um brilhante e sinistro jogo psicológico com a moça, dizendo-a que seria despedida caso não fizesse ao menos uma venda em uma semana… Nosso microempresário acorda, desafortunadamente mais tarde neste dia:

Bom dia, querida! Que hora são?
Oito e meia, meu amor!
O que?… Eu já deveria estar trabalhando! Disse para minha mulher que voltaria de viagem ainda hoje e que passaria em casa antes de ir para a revendedora… Deixei o carro na garagem da revenda para não levantar suspeitas, mas se a loja abre sem mim, minha mulher pode passar por lá e vê-lo, pensando que eu me encontro no recinto… Poderá entrar para falar comigo e tirar satisfações, visto que não passei em casa antes.
Não aguento mais esta situação. Você trate de escolher: ou eu , ou ela…
Querida, você sabe que te amo, mas para mim é difícil abandonar meus filhos…
Cansei de mendigar seus carinhos. Para mim chega! Me deixe em casa!
Mas meu bem…
Adam, há dois anos que você me engana e eu fico sempre com as sobras.

É, parece que aquela manhã de verão não amanheceu nada bem para nosso engravatado, mas ele poderia resolver o assunto com a amante depois. O importante agora era chegar o mais rápido possível na loja para tocar os negócios antes que sua mulher suspeitasse qualquer coisa, visto que seu escritório de contabilidade ficava no caminho da revendedora e se ela visse o carro do marido o tempo poderia fechar de vez.

Cadê meu celular?…
Na cabeceira da cama…
Mais essa agora. Tenho que ligar para a loja. Espero que aquela inútil já esteja lá…
Inútil? Até ontem ela era sua funcionária mais querida… O que houve? Ela não quis fazer o teste do sofá como eu?
Ah! Não amola!

Sua amante, esticada seminua, na cama daquela suíte de motel de luxo, ria despreocupadamente, um riso sarcástico, quase infantil, enquanto Adam tentava se justificar ao telefone:

Alô! Iracema?!
Bom dia, Adam… Temos um cliente querendo comprar o fusquinha azul…
E você não foi capaz de fechar negócio com ele, sua desnecessária?
Seria, se o carro estivesse aqui…
Onde está, afinal?
Esta com você, lembra?
Certo!…

Arrependeu-se da gafe, mas tentou não demonstrar… Não fica nada bem um patrão admitir o erro diante da plebe. Mesmo estando sentado a beira de uma cama de motel, com alguém que não é sua esposa, é preciso manter a classe que só os nobres têm.

… Já estou indo! Tive que passar na oficina fazer uns reparos… Carro velo é um problema, até foi bom aparecer um comprador, assim nos livramos desta bucha…
O que digo para o cliente?
Diga que já estou a caminho…

Ao voltar-se para a loira de olhos azuis, ainda na cama, exibindo um corpo bem desenhado e estonteante, percebe, pela primeira vez, o descaso em seu olhar que parecia tão excitante na noite anterior. Tiveram momentos de pura delícia, entregaram-se de corpo e alma para os prazeres carnais e imorais que só as coisas proibidas têm o poder de proporcionar aos mortais superiores do capitalismo selvagem. Há dois anos tinham a mesma rotina, nas horas vagas encontravam-se às escondidas, realizaram várias viagens juntos. Mas agora, ela estava decidida a acabar com aquela história, afinal já havia conseguido sugar de seu amante um apartamento, um carro zero e uma vida relativamente confortável, resultado de um único esforço: oferecer-lhe o melhor dos prazeres carnais… E isso a ninfeta tirava de letra. Adam dirige-se a ela em tom nervoso e egoísta:

Vista-se!… Tenho que ir para a loja o mais rápido possível.
Eu não tenho pressa…
Mas eu tenho… – Segurando-a pelos ombros- Tenho muita pressa. O meu casamento está por um fio, meus negócios não vão nada bem e você ainda tem humor suficiente para ser irônica comigo?…
Ai! Não faz assim que eu gamo, gato!…
Chega!… – jogando-a contra a cama – Vista logo esta droga de roupa que eu estou atrasado. Deixo você em casa… Seja discreta… Ainda bem que não estou com meu carro…
Havia esquecido que saímos com aquela lata velha azul… – vestindo vagarosamente a roupa – Odeio a cor azul!… É muito melancólica, me causa náuseas…
Você sabe ser deselegante quando quer…
Sou a amante… Esqueceu?… Tenho direito de ser complicada sem que meu parceiro ache isso o cúmulo.
Pois isso não me agrada mais!

Já vestidos os dois na lata velha azul, da cor das melancolias da filial loira, Adam resmunga reclamando o dia terrível que o esperava depois de uma noite maravilhosa. Não sabia o que fazer para correr contra o tempo… Sabia que tinha que passar pelo centro da cidade antes de ir para a revendedora, mas desta forma, passaria obrigatoriamente em frente a loja, podendo ser visto com outra mulher, e o pior, com outro carro… carro não, uma condução azul. Tudo isso para mascarar a situação… Preferiu dar a volta pela rodovia, fazendo o dobro do percurso. Estaciona a condução uma quadra antes do prédio da bonequinha loira:

Tchau querida!… Quando nos vemos novamente?
Por mim, nunca mais. Ou você me assume, ou não me procure mais!
Não tenho tempo para balelas, desça logo…

Ela desce indignada, mas sem perder a pose, jogando a bolsa sobre os ombros, ajeitando o vestido e batendo os calcanhares na calçada. Adam sai cantando pneu no asfalto rumo a revendedora para salvar uma venda e um casamento…

 

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Amo um homem

Amo um homem, quase dois mil anos mais velho a quem chamo de Mestre. O nome dele é Jesus, o filho de Deus. Esteve por aqui em carne e osso há dois milênios pregando um mundo novo, uma nova forma de ver e interagir com a humanidade e com o planeta. O povo não acreditava, então partiu para os milagres: ainda não era sua hora, mas pela intercessão de sua mãe, a quem amo também, fez água tornar-se vinho nas bodas de Canaã… Ensinou que quando temos pouco, se juntarmos com o pouco do outro e colocarmos em comum, todos terão em abundância (o verdadeiro socialismo)… Nos apresentou as verdades divinas. Fazia sermões sem medo nem vergonha de proclamar o Reino de Deus… Mesmo assim o povo não acreditou…

Fonte: lennyoliveira10.loveblog.com.br
Fonte: lennyoliveira10.loveblog.com.br

 Ele incomodou as autoridades com suas verdades que doíam a quem não sabia nem queria repartir. Condenaram-no à morte, e morte de cruz… Suou o sangue da agonia naquele monte. Por um momento pediu que o Pai o livrasse de tamanho sofrimento, mas como todo bom filho obediente, por fim deixou que se fizesse a vontade de seu Pai, afinal ele precisava passar por isso para salvar seus outros irmãos dos prejuízos do pecado…

 Porém, nenhuma das autoridades competentes queria assumir a responsabilidade da condenação de um homem do povo. Um jogava para o outro, o outro jogava para um, este pediu que seus assessores passeassem no congresso para convencer alguns líderes a pedir a condenação. Como sempre, a maioria do povo votou sem analisar, sem saber quem era o condenado e quem o estava condenando… Certamente os grandes fizeram uma vaquinha e pagaram cestas básicas para que alguns dos pequenos gritassem: “Crucifica-o!… Crucifica-o!”, contagiando o resto do povo que, como sempre, vai na onda, segue a moda, as tendências…

Então, o tal Pilatos lavou as mãos. Como sempre acontece, as autoridades criam o problema, apostam na memória fraca do povo, condenam quem se volta contra eles e depois, simplesmente lavam as mãos… Não têm nada com isso… Julgam-se inocentes… O errado vira certo e o certo vira errado… Neste contexto, ser justo e lutar pelas causas populares, transforma-se em crime hediondo. Os líderes dos grandes movimentos em favor do povo, normalmente são perseguidos e condenados… Condenados por quem?… Os gigantes lavam as mãos e jogam para o povo decidir, este nem percebe estar sendo induzido… Manipulado…

O Galileu, ou Barrabás? No BBB de Pilatos, o povo manipulado escolheu Jesus para deixar a casa, mas ao contrário do que acontece na “poderosa do Plim! Plim!”, o eliminado foi recebido lá fora com insultos e chicotadas que lhe dilaceravam a carne e o deformavam cada vez mais…

Mas não bastava crucificá-lo, confeccionaram uma coroa para o rei, uma coroa de espinhos que cravou em sua fronte, iniciando-se ali mesmo o derramamento de sangue pelos “erros” da humanidade…

Jesus cumpriu toda a sentença calado, não tinha reação a não ser perdoar. Perdoou aquele que o vendeu por trinta moedas no dia anterior, em mais uma demonstração de que quem abre a mente do povo deve ser condenado… Judas se enforcou depois, mas a condenação já estava feita… O perdão, aliás era uma constante na vida daquele que as autoridades não perdoaram por defender as massas. É bem verdade que nem as massas o reconheceram como salvador…

Subiu a montanha carregando a cruz da discriminação e da intolerância… Como um filho de carpinteiro pode ser rei?… “Quem nasceu para ser tostão nunca chega a milhão”… Todos sabiam que Ele era só um jovem sonhador, delirava dizendo-se filho de Deus, “viajava na maionese” pregando um mundo divino, de igualdade e fraternidade, onde todos eram um e um por todos… Um louco que queria ser rei…

E eis que o louco revolucionário foi crucificado. Mas não bastava a cruz. Era preciso reforçar o sofrimento, por isso seus punhos e seus pés foram transpassados pelos pregos da insegurança… Talvez o filho de Deus conseguisse se desamarrar e fugir. Os pregos seriam mais seguros…

Lá estava ele: braços abertos, pés juntos. Respirar era o resultado de um esforço sobrenatural… “Ô meu pai… Por que me abandonaste?”… Gritava ele num surto de humanidade e insegurança… E o último grito: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito…” A cortina do Santuário rasgou-se, o céu escureceu, ouvia-se trovões… Mesmo assim, pouquíssimas pessoas acreditaram que era o filho de Deus… Nos dias de hoje, pediriam DNA no programa do Ratinho. Não seria difícil coletar uma amostra física de Deus, já que somos todos seus filhos, mas quando os grandes querem, os pequenos se convencem de que serão pequenos para sempre…

Três dias depois, uma nova surpresa: O defunto levantou do túmulo. Estava vivo novamente… Ah! Agora sim ele convenceu a todos de sua descendência divina!… Nada… Poucas pessoas acreditaram na sua ressurreição, ainda assim porque o viram vivo novamente, Thomé foi o mais difícil de convencer…

Dois milênios depois, ainda se discute a veracidade destes fatos, mas a verdade é que Jesus de Nazaré foi um marco na humanidade, tem milhões de seguidores em todo o mundo, apesar de dividirem-se em praticantes e não-praticantes. Emplacaram muitas e muitas igrejas em seu nome, algumas bem fundamentadas, outras, nem tanto…

Hoje, o mundo ainda se divide em quem acredita e quem não crê que Ele é o filho de Deus. Nos tribunais, vemos a cruz que simboliza o reconhecimento da maior injustiça de todos os tempos feita por um júri… Algumas igrejas preferem não mostrá-la, ou mostrá-la sem o Mestre, pois cruz vazia simboliza libertação…

Amo este homem e sei que ele me ama… Sei que ama também quem não acredita desta mesma forma… Ele e eu respeitamos o livre arbítrio, mas também acreditamos na liberdade de expressão, afinal, Jesus foi condenado por expressar livremente a verdade. Mataram-no e, pela verdade, venceu a morte… Seria tudo muito melhor se pudéssemos nos unir para vencer a morte moral em nome daquele que foi o primeiro a vencê-la…

Amo este homem!…

 

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Sonhos Azuis – CAPÍTULO VI

 Capítulos anteriores

Ao chegarem na revendedora, os dois irmãos de coração não avistaram o tal fusquinha azul. João para desconsolado, olha para todos os lados, vê todo tipo de carro: esportivos, utilitários, novos, seminovos, velhos, muito velhos, de todas as cores e modelos… porém a materialização de seus sonhos azuis não estava lá. Por um instante sente o chão desaparecer de seus pés, uma lágrima quase rola em seu rosto… Suas esperanças caíram no abismo, estava condenado a ficar, sabe Deus mais quanto tempo a pé… Não lhe agradava outro carro, queria aquele azulão, foi amor a primeira vista. Sua reflexão melancólica foi interrompida pela voz de Teófilo:
Cadê teu fusca, home de Deus?
Sei lá!… Acho que já venderam, vamos embora…

No segundo passo em direção a rua, ouve-se uma voz feminina e doce, que soou como música aos ouvidos do pobre e desanimado João dos sonhos Azuis:
Em que posso ser útil, senhores?
Como num passe de mágica, João paralisa e lentamente, nosso sonhador volve-se para trás novamente, ao som daquelas cordas vocais que penetraram seus ouvidos em direção ao coração, fato que, por um segundo o fez esquecer de toda a tristeza que invadia seu peito naquele momento. Agora encontrava-se frente a frente com o exemplar mais maravilhoso do sexo feminino que já havia visto: Seus cabelos longos, incrivelmente lisos e negros como a noite chegavam a reluzir com o sol da manhã e mover-se lentamente com a brisa, presos por uma discreta tiara, tergiversando um rosto puro e angelical de pele morena… Aqueles olhos negros e brilhantes pareciam penetrar sua alma como uma flecha que apesar de dolorida, era incomensuravelmente prazerosa… Um sorriso encantador, meigo e contagiante que alegraria até mesmo um cortejo fúnebre, composto por uma dentição perfeitamente formada. Um corpo escultural pelo que deixava-se revelar debaixo de um terninho azul-marinho e camisa branca… Todo este monumento perfeitamente acomodado sobre um par de pés de princesa que calçava sapatos pretos, conduzindo-a ao encontro dos dois jovens… Nosso sonhador azul não conseguia desviar o olhar daquela formosura personificada, mas seus ouvidos puderam ouvir a voz de Teófilo, que subitamente o faz voltar ao mundo real:
João, ela tá falando com a gente!

Quem?

A moça.

Há, sim! – E voltando-se novamente para sua mais nova musa – Bom-dia, senhorita!

Bom-dia! Posso ajudá-los?

Acho que não, queria testar um fusca que vi ontem, mas parece que já venderam…

Que pena, foi vendido ontem, no final da tarde.

Neste momento, João estremeceu por dentro, achando que tudo estava perdido, quando a moreníssima vendedora continuou:

Era um vermelho, né?

Não! Ontem eu olhei um fusca azul, estava aqui, perto da cerca…

O azul?… Ontem esteve aqui um senhor dando uma olhada, mas acabou levando um carro mais novo e financiou em trinta e seis vezes.

Entendo! Mas onde está o fusquinha azul então?

O Adam foi com ele para casa ontem.

Adam!?… Foi com ele que eu conversei na tarde de ontem.

Você é o João?

Sim, sou eu…

Adam disse que você viria hoje. Daqui a pouco ele chega. Quer aguardar?

Sim!

Dentro de meia hora ele deve estar aqui, vamos entrar. Vocês aceitam um cafezinho?

Claro! – Olhando para o crachá – Obrigado Iracema!

As ordens!

João parecia mais leve com a possibilidade de voltar para casa a bordo de seu sonho azul, enquanto entravam no escritório, não pode deixar de observar novamente Iracema que parecia desfilar a caminho da porta, como numa passarela… Nem sentiu o gosto do café, poderia estar frio, fraco e amargo que não faria diferença diante da beleza inenarrável que a sua frente observava. Sobre o teclado do computador, deslizavam dedos finos, de unhas bem cuidadas em duas mãos de fada que lhe deixavam quase extasiado.

Enquanto isso – estorvava Teófilo perguntando para a moça– podemos dar uma olhada nos outros carros?

Fiquem a vontade, se precisarem de ajuda é só chamar.

E lá se foram os dois irmãos de sentimento, se distraírem um pouco com os outros modelos a venda. Teófilo, não se conteve:

Você não tirava os olhos da moça, João!

Bonita, né? – Na verdade, ele queria dizer linda, maravilhosa, formosa, extraordinária, sobrenatural… e tantos outros adjetivos que aquela beldade merecia…

Será que meu melhor amigo está apaixonado?

Magina! Já não dou mais bola para estes sentimentos ilusórios…

Aquela meia hora parecia demorar uma eternidade… João dividia-se entre a ansiedade de ver o fusquinha azul e levá-lo para casa e a vontade quase incontrolável de voltar ao escritório para aproximar-se novamente da vendedora, mas conteve seus impulsos e permaneceu observando os demais veículos à venda… De vez em quando, com o canto dos olhos fitava o escritório discretamente e por duas vezes, cruzou seu olhar com aqueles olhos negros que o fizeram quase perder o rumo da conversa com seu amigo.

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Martinha

Ela estava desempregada… Sempre foi uma pessoa simples, mas por onde passou, deixou sua marca registrada de boa profissional: vendedora, atendente de posto de gasolina, caixa de supermercado e panificadora, microempresária. Esta última experiência frustrou-a profundamente após a falência…

Agora, inflava as estatísticas daqueles que procuravam um emprego. Estava só, com dois filhos e uma vida cheia de altos e baixos… Precisava dar a volta por cima… Precisava reagir… Parece que as forças já não eram as mesmas… As oportunidades já não sorriam para ela como outrora… Sofria a discriminação doída daqueles que se acham os juízes da vida alheia… Não tinha mais perspectiva de avanços… Só tinha a oitava série do ensino fundamental. Seria difícil conseguir um bom emprego com tão pouco estudo, apesar da grande e eclética experiência adquirida durante anos de dedicação por onde passou… Mas tanto empenho só engordaram o bolso de seus patrões e a deixaram na sarjeta, sem voz, sem oportunidades, sem futuro…

Porém, o destino a levou até o melhor lugar do mundo para se conhecer pessoas: uma escola pública. Não era o melhor trabalho do mundo. Tinha que pegar na vassoura, usar luvas de borracha que deixavam suas mãos com um odor desagradável, principalmente quando precisava limpar os dejetos dos gênios e futuros gênios distraídos o suficiente para errar a mira do vaso sanitário e evitar a fadiga de dar descarga no momento oportuno. Calçava botas de borracha, lavava o chão por onde transitava o conhecimento, as paredes onde brotavam a sabedoria e as escadas por onde desciam e subiam os conteúdos que tornariam melhores os seres que por ali passavam…

Seus dotes foram logo identificados. Agora estava na cozinha. Sua função era preparar o lanche dos mestres e seus discípulos… Que maravilha! Poderia usar seus conhecimentos culinários para melhorar a vida das pessoas ao seu redor através do paladar… Estava feliz! Fazia seu trabalho simples e desvalorizado por alguns com muito amor… Recebia elogios, pedidos… Conversava com todos, sem discriminação… Servia com carinho, desde o mais humilde aluno até o professor mais cheio de títulos… Sentia-se cansada no final do dia, porém realizada por ver cada sorriso, cada agradecimento sincero à tia da cozinha… “Deus que ajude, tia!… O lanche estava delicioso!”… Diziam os alunos mais educados…

Mas, na concepção de alguns, ela não poderia continuar ali. Era muito para uma servente… Conseguiram fazê-la voltar ao lugar de onde nunca deveria ter saído… Enquanto limpava uma sala de aula, subitamente para, encosta o cotovelo na vassoura e observa lentamente as carteiras, o chão por limpar, o lixo por recolher, as cortinas balançando ao vento como bandeiras da paz, parecendo chamá-la para aquele mundo, o quadro branco… Viu tudo com outros olhos, com olhos de sonhadora. Lembrou-se de todas as batalhas vencidas até então. Sempre foi forte e corajosa, nunca deixou a desejar no seu trabalho… aquele ambiente lhe chamou especial atenção…

Vinte e cinco anos depois, ela volta aos bancos escolares. Matricula-se no magistério, curso que prepara bons professores, expondo-os a conhecimentos que nem mesmo a faculdade proporciona… Volta no tempo, compra alegremente seus materiais e dedica-se de corpo e alma a uma nova, fascinante e edificante profissão… Durante o dia, continuava limpando e organizando, discretamente a vida escolar de professores e estudantes, ouvia muitas críticas, sofria muitas discriminações, mas continuava lá, cumprindo seu papel, fazendo sua parte para o bem da educação pública… À noite, mesmo cansada da labuta, sentava na cadeira do aluno… Estudava, buscava o conhecimento, pesquisava, errava, acertava… Descobriu, inclusive as maravilhas do mundo virtual que a ajudou na busca por conhecimento… Aprendia a aprender novamente… Aprendia a ensinar…

“Não vai aguentar muito tempo!”… Cochichavam em segredo os mais pessimistas ao seu redor… “Você é especial!”… Diziam-lhe outros… Quando queria desistir, alguém lhe batia no ombro e dizia: “Vá em frente! Você é capaz de vencer novamente! Aqueles que te humilham hoje, num futuro muito próximo a verão largando a vassoura para abraçar os livros e os pincéis a fim de ajudar as crianças e jovens em busca do conhecimento…”

“O problema não é limpar banheiro…” Dizia ela… “O problema é aguentar desaforos, todos os dias, daqueles que se julgam melhores…” E como tem gente que se acha melhor que os outros…

Mas ela era persistente e, com sucesso, concluiu os quatro anos de magistério… Nem acreditava ao receber o diploma… Noites de sono perdidas, estágios, relatórios feitos e refeitos tantas vezes… Mas não bastava, afinal continuava limpando fezes e aguentando insultos durante o dia… Ela queria mais. Só mais um pouquinho!… Passou no vestibular para Artes Visuais e, ainda na primeira fase, assumiu algumas aulas na educação de jovens e adultos numa cidade vizinha… Sua rotina continuava corrida: De dia servente… À noite, pegava a estrada cheia de curvas até Rio das Antas para lecionar e, nos finais de semana, ocupava um lugar nos bancos acadêmicos… Continuava, pacientemente servindo alunos e professores com carinho… Continuava estudando e buscando mais conhecimentos… Mas agora, em alguns momentos, era a professora, amada e respeitada pelos alunos que, como ela, não tiveram a oportunidade de estudar no tempo certo… Seu testemunho fazia seus amigos estudantes acreditarem que nunca é tarde para t
omar a decisão de aprender…

Porém, o contrato de professora era temporário e acabou… Ficou triste… É assim que ficam os professores que educam com o coração quando não podem mais continuar em sala de aula… Seu trabalho de servente também estava sofrendo duras críticas e não podia mais voar. Suas asas estavam machucadas, seu exoesqueleto de besouro teimoso, danificado… Não suportou a pressão e “chutou o balde”… Não teve direito nem mesmo ao aviso prévio. Saiu da mesma forma que entrou, sem nada, sem dinheiro, sem emprego, sem dignidade… Mas olhava o infinito… Mesmo sem emprego, sentia-se feliz…

Sua esperança a levou a inscrever-se no concurso de ACT (Admitido em caráter temporário) na rede estadual… Primeira chamada nem chegou perto da sua classificação, segunda chamada… nada… Terceira chamada. Estava lá a Martinha, carregava uma história única e, apesar do meio século de vida, trazia nas veias o desejo juvenil de contribuir para a melhoria da escola pública… As vagas passavam, apagavam-se do telão uma a uma… Desanimou. Deu alguns passos até a porta de saída, mas alguma coisa lá dentro de seu coração segurou seu corpo naquele recinto, como que dizendo: “Você chegou, com muito custo até aqui. Não é hora para desistir…” Não demorou muito até chamarem seu nome. Meio desconfiada aproximou-se da mesa e, ao sair de lá, trazia nas mãos a conquista de anos de luta contra a discriminação e humilhação… Um contrato de quarenta horas semanais numa das principais escolas públicas estaduais de Caçador, onde há décadas havia cursado o ensino fundamental… Ali nascia uma nova artista… Uma nova professora calejada pelos tropeços da vida que agora estava apta a entrar na escola pela porta da frente e ficar, diuturnamente no melhor ambiente para se relacionar com seres humanos: a sala de aula…

Com certeza, seus alunos, orientados por ela, saberão o valor de cada trabalho dentro da escola e colaborarão com a ordem e limpeza do ambiente escolar, pois ali está uma ex-servente que hoje tem a responsabilidade de auxiliar na limpeza da alma e do coração daqueles que serão o futuro da nação…

Márcio Roberto Goes

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Sonhos azuis – CAPÍTULO V

Acompanhe desde o início

Nascida em 1994, Iracema é uma jovem sonhadora, perdera seu pai aos cinco anos, vítima de câncer no pulmão, mas ainda guarda as lembranças dele a carregá-la no colo, passeando  na pracinha do bairro, chegando da fábrica onde trabalhava de braços abertos para recebê-la ainda na rua, momento em que rodopiavam alegres antes de entrarem para o café da tarde… Sua mãe também partiu cedo, quando ela ainda era uma adolescente, vítima de um derrame que a imobilizou por alguns meses, antes do último suspiro. Da mesma forma, as lembranças ainda teimam em permanecer em sua mente: lembra de uma mãe dedicada e amorosa, sempre preocupada com a educação e a postura de sua filha mais querida. Acompanhava sua vida escolar assiduamente.  Mesmo depois dos quinze anos, Iracema ainda era segurada no colo, às vezes, e merecia um cafuné de mãe amorosa.

Depois da partida de seus pais, a jovem nunca mais se sentiu amada novamente. Por vezes, mesmo rodeada de pessoas, na casa de seus tios, onde passou a viver, sente uma tristeza profunda em virtude da imensa solidão que invade seu peito, principalmente ao deitar-se para dormir: momento em que todo silêncio torna-se ensurdecedor para quem tem o coração vazio… vazio de amor… de passado… de presente… de futuro… Iracema é assim, vive cada momento sem pensar no futuro, não tem medo de nada, exceto de amar, pois tudo o que tinha de mais precioso já perdera: seus pais. Mesmo assim, ela busca lá dentro de seu coração, um sorriso a fim de parecer simpática aos olhos dos clientes da revendedora onde trabalha.

O nome não é a única semelhança com a personagem do romance de José de Alencar, pois trata-se de uma moça linda e apaixonante, sempre gosta de caprichar no visual, bem vestida e perfumada, como diria o próprio romancista:

“Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos que seu talhe de palmeira. (…) O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado.”

De fato, seus pais a batizaram com tal nome, em homenagem à protagonista de uma das maiores obras do Romantismo brasileiro. E veio a calhar, pois além de ser descendente de Kaigángs, um dos cinco povos indígenas mais populosos do Brasil, ela trazia consigo toda a beleza e simpatia inerentes a índia Tabajara do romance.

Mas, como já disse anteriormente, apesar de toda a beleza exterior, ela trazia em seu peito uma grande amargura: Depois da morte de seus pais, não encontrou o mesmo carinho e dedicação por parte de seus tios que a tratavam como empregada… Não parecia, a julgar pelo comportamento deles, que ela era um membro da família. Lá no fundo de seus sonhos, ela alimentava a ideia de, um dia deixar aquela casa e ter uma vida independente, libertar-se das malhas daquela família ingrata e desumana, tornar-se livre, enfim… Mas jamais deixou transparecer esta ideia, guardava para si,  inconscientemente, o momento certo e a pessoa certa para tirá-la daquela situação e oferecê-la uma vida melhor e mais confortável.

Em síntese, Iracema é uma jovem em constante conflito de relacionamentos, de pensamentos e de ideais; ora sonha alto, ora reclama a má sorte do passado, ora vive inconsequentemente o presente, ora espera uma grande mudança no futuro. Uma coisa ela tem certeza, precisa realizar pelo menos uma venda no dia de hoje para não ser dispensada, pois ultimamente não tem dado o melhor de si no trabalho.

Por detrás do balcão, a jovem fica vagando em seus pensamentos e, de vez em quando, dá uma olhadela na garagem e no pátio, sempre que sente algum movimento diferente, esperando que seja algum cliente querendo abandonar a vida de pedestre, ou ainda trocar seu veículo por outro modelo mais novo. Precisa vender para manter o emprego, pois apesar de ser descendente de uma civilização que sobreviveu séculos sem conhecer o capitalismo selvagem, ela vive num mundo capitalista que exercita a lei da oferta e da procura, onde o lucro vale mais que a subsistência. Acaba de abrir a loja, seu patrão ainda está por vir. Quer fazer uma venda antes da chegada dele, para que sua moral comece o dia em alta. Porém, em um segundo pensa que isso não tem importância. Quem já perdeu tudo, perder agora um empreguinho desses não vai fazer nem cócegas…

Pela janela, observa a chegada de dois indivíduos que parecem procurar algo no pátio. Seria sua primeira venda do dia?… Ela estava por um fio, portanto teria que confiar, mais do que nunca na sua sorte e no bolso dos recém-chegados…

 

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