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Mês: janeiro 2012

Sonhos Azuis – CAPÍTULO III

Leia também capítulos I II

 

 

No caminho para casa, tira o rosário do bolso e começa a rezar, pedindo a Deus que permita que aquele besourinho azul da cor de seus sonhos possa ser seu… Quase uma obsessão… Nem olha para os lados, não percebe a presença dos conhecidos: o amigo da loja de instrumentos musicais, na José Boiteux, sempre vendendo a perder de vista para ele, a moça da loja de presentes perto da ponte de madeira, cartão postal da cidade, onde sempre parava para jogar conversa fora, o amigo da agropecuária onde periodicamente levava seu cãozinho para tomar banho, os jovens da revendedora de autopeças, o colega da eletrônica,  a cabeleireira, sempre com o salão cheio, mas nunca se negava a trocar umas palavrinhas com nosso sonhador, o senhor da frutolândia que lá trabalha com sua família, a moça do caixa do supermercado, ex-aluna, as atendentes da padaria da esquina do cemitério, as pessoas sentadas no banco da praça em frente a Paróquia Nossa Senhora Rainha… Aliás, nem ele lembrou de sentar um pouco naquele banco, bater um bom papo, fazer uma boa leitura, ou simplesmente, descansar a mente… As crianças esperando o horário da catequese em frente a igreja, os transeuntes… O corredor no meio do cemitério e a ponte sobre o riacho que dá acesso ao seu bairro, as crianças brincando na rua, a dona Otacília e o seu Juvenal na varanda da casa verdona da esquina, a dona Regina tomando chimarrão perto do muro…

Nada lhe tirava a atenção dos seus pensamentos sonhadores de sonhos azuis… Quando caiu em si, estava em casa, com o cachorro no colo, conversando com dona Áurea:

Pois é, mamãe. Acho que meu destino é viver a pé mesmo. Não consigo encontrar um fusca descente e um carro mais caro não tenho condições de pagar.
Calma, piá! – Dizia ela enquanto ajeitava o café com pão caseiro, margarina e um doce de abóbora feito pelas suas mãos carinhosas e hábeis – Pra tudo Deus dá um jeito… Se for da vontade dele, este fusquinha azul é seu.

Prendeu seu amigão na coleira, fazendo-o carinho que foi retribuído com algumas lambidas e o balanço da cauda.

Porque é que as coisas parecem tão difíceis para mim, mamãe?
Não está fácil para ninguém. Tenha certeza que existem muitas outras pessoas em situação pior… O café tá na mesa!
Eu só queria uma condução… Será que estou pedindo demais? – Indagava enquanto se ajeitava na cadeira da cozinha – Se não conseguir comprar um carro, vou gastar este dinheiro do acerto com outra coisa… Não vejo a hora de terminar a faculdade e me efetivar em alguma escola pública estadual… O concurso eu já fiz, apesar de me chamarem de louco…
Louco por que?
Porque fiz a prova do concurso sem concluir a faculdade. – Dizia, enquanto preparava seu café com quatro colheres de açúcar e trinta por cento de leite…
Mas você passou, mesmo assim.
Porém, não posso assumir sem diploma. Espero que não me chamem antes de tê-lo em mãos.

Tomava seu café preocupado, o pão descia meio arranhando a garganta, o café não tinha o mesmo gosto… Tudo parece estranho quando estamos angustiados e dependemos das indecisões da vida… Todos os seres a nossa volta parecem se comportar diferente, todos parecem nos olhar com outros olhos, nos sentimos nus diante das intempéries. Parece que o mundo todo está nos vendo e nos julgando, nos condenando por darmos tanta importância a coisas tão simples e fugazes segundo o julgamento dos mais céticos… O raciocínio lógico fica prejudicado e confuso. Não é possível, mesmo com todo o esforço do mundo, perceber que em qualquer situação, ainda existe um lado bom, tudo depende do ponto de vista…

O restante da tarde, João passa calado, refletindo sobre os problemas cotidianos de um professor não-habilitado, contratado temporariamente que todo final de ano fica desempregado, sem nenhuma perspectiva para o ano seguinte… Enquanto contempla as hortênsias azuis, da cor de seus sonhos pela janela da cozinha, lembra de quando terminou, com muito custo o ensino médio, magistério… Emprestou dinheiro para prestar o vestibular, fez a prova e passou… Começou uma faculdade, mesmo desempregado, porém no mesmo ano que iniciou seus estudos acadêmicos, conseguiu, pela primeira vez, um contrato temporário de professor: Uma vitória em sua vida, pois dali tiraria seu sustento, o de sua mãe e o dinheiro para o curso universitário, tudo mudaria em sua vida, não precisaria mais empreitar terrenos para capinar, calejar as mãos no chão de fábrica de uma indústria madeireira perto de sua casa onde trabalhara por cinco longos anos, nem aguentar a exploração reservada para os funcionários do comércio, que têm hora para começar o dia de trabalho, mas nunca sabem a hora de voltar para casa… Estava feliz, por ter uma carteira de motorista, o que naquele momento significava um passo para sua liberdade que sempre quis e pela qual, sempre lutou. Porém estava com o coração apertado sem saber o que seria o dia de amanhã… Estava apaixonado pelo fusquinha azul, mas guardava para si: Tinha medo de ser ridicularizado e humilhado por ter um sonho tão simples, por não sonhar com casa de luxo, ou carro do ano…
À noite, recolhe-se no quarto mais cedo que de costume e volta a sonhar acordado com seu fusquinha azul: ele e sua namorada imaginária sem rosto passeando pela cidade a bordo daquela simpatia de carro, com as janelas abertas, cantando uma canção qualquer e buzinando para os conhecidos.
Adormece… preocupado… porém, otimista, pois sempre exercitou o pensamento positivo em vários momentos de sua vida… Agora estava sonhando, seu subconsciente o transportara para dentro de seu sonho de consumo: Azul, da cor de todos os seus sonhos, estofado preto, volante esportivo, vidros escuros… Regulava os espelhos, o banco, passava o cinto de segurança, batia a chave… Escutava o ronco do motor e sentia o vento pela janela… Dirigia despreocupadamente… Estava feliz, sonhava feliz… Por um momento, num delírio sonhador, seu fusquinha criava asas e voava rumo ao infinito. Lá de cima podia visualizar toda a sua querida cidade: a casa velha de madeira, os túmulos no cemitério, onde também existem diferenças de classes: quanto mais rico o defunto, mais luxuosa sua derradeira morada… A rodovia, a escola onde trabalha… O fusquinha subia cada vez mais e, a sua frente, só escuridão. De repente, um raio de luz, não conhecia aquele lugar, apesar da sensação de já ter estado lá em algum momento… E assim foi a noite toda, passando pelos mais desconhecidos lugares com seu fusquinha azul da cor do céu, da cor do mar, da cor de seus sonhos…

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Torneira relapsa

 

Seja bem-vindo ao meu modesto lar. Ainda não é meu de verdade… Busco um financiamento para a casa própria… Mas aqui você encontrará muito calor humano. Pode não ser a casa mais organizada que deve ter visitado, mas sempre tem um bom lugar reservado aos amigos e pessoas de bem…

Já na entrada, encontrará dois seres mais humanos que muitos homo sapiens desumanizados. Meus grandes amigos: um labrador e outro vira-latas que, apesar de terem valores diferentemente estipulados pelo capitalismo selvagem, ocupam lugares idênticos em meu coração, entre nós circula o amor verdadeiro, sem pretensões, sem cobranças, sem limites… Vez por outra, visto uma roupa sujável e dou um banho em minha alma ao rolar no piso com eles. Meus companheiros ficam felizes e eu também, aliviamos as tensões, eles abanam o rabo e eu alargo o sorriso de orelha a orelha. Às vezes, a namorada mais maravilhosa do mundo chega de supetão e não pensa duas vezes antes de entrar na brincadeira e provar também da sensação de que não é preciso riquezas materiais para o enriquecimento da alma… Mas peço perdão, neste momento em particular, pelo canil um tanto sujo. Mesmo os melhores amigos do homem produzem dejetos… A parte sólida foi possível juntar, mas o líquido evaporou e deixou apenas o odor que se reforça nas tardes ensolaradas de verão…

Depois de passar pela prova de resistência canina, fique a vontade para entrar num lar feliz. Não tire o calçado. Entre, puxe uma cadeira e sente-se. Sinta-se confortável e, por favor, não olhe para a pia, pois toda a louça do café da manhã e do almoço ainda está por lavar… De onde está sentado, é possível visualizar a lavanderia improvisada anexo à cozinha, lá se vê uma montanha de roupas esperando para serem lavadas. Por gentileza, não repare…

Se precisar usar o banheiro, por favor, evite fazer o número dois, pois não se pode dar descarga temporariamente e as mãos não poderão ser lavadas… Não pense que sou relaxado, relapso, ou não tenho asseio pessoal. Minha humilde residência sempre foi muito bem cuidada para que eu e meus visitantes pudéssemos nos sentir bem, confortáveis, com sensação de leveza e limpeza. Mas há dias não é possível, pela constante falta de água… Sim! O líquido precioso é raro pelas bandas do Martello, mais precisamente no loteamento Morada do Sol. Nunca sabemos se podemos iniciar o banho essencial e diário, sem sermos surpreendidos com o enfraquecimento do chuveiro e a consequente interrupção do processo… Se deixo para lavar o canil depois, posso não obter resposta alguma ao abrir a torneira… Após o café, não tinha água, foi assim durante toda a manhã. Após o almoço, mesma situação. A louça ainda espera ser lavada e agora, não existe água potável nem mesmo para oferecer-lhe um cafezinho passado na hora, ou um chimarrão para compartilharmos, na cuia e na bomba, esperanças e temores… A máquina de lavar roupas também  não consegue cumprir seu papel se não tiver uma ajuda líquida inodora, sem sabor e incolor…

Amigo visitante, esta situação já se arrasta há meses… “Estamos fazendo manutenção”, dizem os responsáveis para justificar as constantes interrupções no abastecimento… Me parece um tanto demorada a tal manutenção, pois moro aqui há cinco meses e a falta de água é constante… Final do ano passado, compareci a duas solenidades de formatura de ensino médio, numa delas exerci o papel de mestre de cerimônias, na outra, compuseram a mesa de honra as autoridades que contribuem para esta situação humilhante. Em ambas, tive que vestir o terno sobre o banho do dia anterior e deixar a barba por fazer…

E o pior de tudo é que, a cobrança da tarifa é a mesma. Pagamos pelo vento na torneira, pagamos pelo odor de um canil não higienizado, pagamos pelo spray de ar sobre os cabelos quando tentamos tomar um banho descente. Pagamos pelo descaso dispensado aos moradores dos bairros mais afastados do centro financeiro e comercial, luxuoso, capitalista, chique, privilegiado… Afinal a elite não pode sofrer a falta do líquido precioso. A ela é permitido esbanjar e o meio ambiente que “sifo”…

Nossa conta está lá todo mês. Se usamos demais, pagamos mais, se usamos de menos, a taxa não diminui. Não me parece justo pagarmos a mesma taxa por um fornecimento pela metade. Não me parece legítimo sofrermos constantes danos morais e higiênicos, e ainda pagarmos por isso. Não me parece nada legal sermos obrigados a adivinhar os momentos certos para tomar banho, lavar roupa, louça, ou mesmo fazer as refeições… Não é nada agradável vermos tantas campanhas pela preservação dos recursos naturais, pela economia sustentável, pela coleta seletiva do lixo e, principalmente pelo uso consciente da água, se aqueles que coordenam o processo não têm consciência da importância deste líquido precioso para a vida de todos os seres humanos, sejam eles ricos, ou pobres, do centro, ou da periferia… Todos precisamos e temos direito à água potável. Nem todos a temos o suficiente para as necessidades básicas diárias, mas todos pagamos como se a tivesse…

Mas o capitalismo desumano é assim, tira de quem não tem e dá para quem já não sabe onde acumular. Defende a ilegalidade de quem deveria lutar pelo cumprimento da lei e condena sempre o indefeso… Dá poder a quem já é poderoso e tira os direitos de quem já não os tem…

Parece que o líquido precioso só está sendo fornecido abundantemente para quem já é nobre… E o pobre? Que vá tomar banho de rio!… Ainda assim poderá ser condenado por poluir a água que, depois de tratada, será vergonhosamente negada a ele nas torneiras da vida…

Márcio Roberto Goes

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Sonhos azuis – Capítulo II

» Leia também: Capítulo I

João, meio cabisbaixo, caminha até o ponto, na esperança de que seja a última vez que volta ao lar de ônibus…

Ponto de lotação é um lugar propício a se conhecer pessoas, além de se presenciar as mais diferentes e hilárias situações: Uma senhora sentada na ponta do banco de madeira de lei, coberto com telhado de tabuinha, moribunda, comendo uma bolacha recheada e se mijando tudo, como se o mundo ao seu redor não importasse… E, na verdade, não importava mesmo, pois ninguém vê os moribundos, ninguém enxerga as pessoas necessitadas, dificilmente alguém pararia para conversar com aquela senhora de casaco marrom e uma calça de agasalho pertencente ao uniforme das escolas municipais, provavelmente doada por alguma instituição de caridade que arrecadou de alguém que, por sua vez, não gostou da cor, ou do modelo… Existem pessoas que acham que escola é lugar de desfile de moda, por isso rejeitam o uniforme, não se tocam que não estão lá para ficar bonitas aos olhos alheios, e sim para aprimorar seus conhecimentos. Então, o uniforme vai parar no cesto de doação, isso quando não vira pano de chão, ou tapete de banheiro…

Logo chega outra senhora, óculos de lentes espessas, guarda-chuvas daqueles de proteger umas oito pessoas mais ou menos que, na ocasião servia de guarda-sol, já que o tempo estava limpo, vestido florido, chinelo de dedo, carregava uma sacola de supermercado e uma bolsa roxa, de onde começou a catar as moedinhas para pagar a passagem. Cumprimentou João com um sinal de cabeça e voltou a procurar o trocado do ônibus…

Em seguida, aproxima-se uma moça, aparentando seus dezessete anos com uma criança no colo, olha enojada para a senhora idosa e invisível no banco e senta, meio contrariada, na outra extremidade. Com uma bermudinha que revela a vontade de fazer mais um filho… ou pelo menos treinar… uma blusinha branca que deixa a mostra a barriguinha, revelando o piercing no umbigo e um sutiã preto, propositadamente vestido para dar o contraste e ser visto por qualquer transeunte… Só tem olhos para o filho, um menino aparentando não mais que um ano de idade…

Um senhor de bengala se aproxima, já com a carteirinha de aposentado na mão, boina cinza, camisa xadrez, calça social e sapatos pretos bem cuidados, cabelos grisalhos exageradamente penteados de frente para trás… Passa pelo João com intenção de cumprimentá-lo, mas seu olhar não desvia do chão, às vezes olha a rua para ver se seu ônibus se aproxima, mas logo volta à inércia. Não nota a presença de nenhuma daquelas pessoas ao seu redor, não percebe alguns conhecidos do outro lado da rua que também tentam chamar sua atenção em vão…

Fato estranho, pois todos que o conhecem, o percebem um cara simples, conversador, não escolhe seu interlocutor, fala com todos como se fossem amigos de infância, sempre chega em qualquer lugar cumprimentando os presentes de mão em mão. Constantemente tem algo agradável para dizer às pessoas, nunca nega um sorriso, ou um abraço a quem quer que seja. Sempre espontâneo, brincalhão. Onde ele vai, a alegria o acompanha, frequentemente faz graça com os atropelos da vida. Ama estar rodeado de gente e nunca se sente desconfortável nas multidões, pois onde quer que vá, sempre existe um conhecido, amigo, colega, ou aluno. Nunca se deixa levar pelas aparências, se dá com todos, jamais alimenta inimizades, prefere calar-se a provocar a ira de alguém. Seu único defeito: ser sonhador.

Naquele momento, nosso sonhador de sonhos azuis já não era o mesmo. Quem o visse pela primeira vez, o julgaria mesquinho, entojado, nojento, “seachão”. Não conversou com ninguém. Sua mente não lembrava nenhuma piada, ou frase que fizesse graça no ambiente, não tinha nenhuma palavra amiga para as pessoas ao seu redor, não abraçou nem pegou na mão de seus semelhantes ali presentes… Estava no mundo da lua. Pobre joão! De tão sonhador, deixou-se abalar pela possibilidade de não realizar um de seus sonhos. Queria o fusquinha, mas “tremia a base” por saber que não poderia tê-lo porque alguém chegara primeiro. Sua mente sonhadora não processava a informação de que poderia ser só mais uma estratégia do vendedor para valorizar o bezourinho azul… Em sã consciência, seria o único a notar a presença da mijona e cumprimentá-la, seguraria, gentilmente a sacola para a senhora do vestido florido contar as moedas mais confortavelmente, faria alguma gracinha para a criança de colo e puxaria papo com o vozinho da bengala…

Oi professor!

Sua inércia, finalmente é quebrada. De repente, passa a perceber novamente o mundo ao redor, a senhora do guarda-chuva, a outra sentada, a menina com a criança no colo, o velho de bengala e, ao seu lado, com um brilho intenso nos olhos, sua melhor aluna…

Oi Roseli! Nem percebi você aí…

É! to vendo que nem olha pro lado. Tá distraído, diferente. Aconteceu alguma coisa?…

Nada! Tô distraído, só isso…

Dizia ele com um sorriso meio tímido nos lábios e os olhos teimando em buscar o chão novamente…

Roseli, que significa bela flor, não acreditou nos disfarces de seu professor, mas conteve sua curiosidade…

E o meu abraço? – Pedia ela mudando de assunto.

Claro, querida! Desculpe-me…

Não foi o abraço de sempre. Parecia frio, distante, sem vontade. Abraçou por obrigação. Não acariciou suas lindas madeixas loiras, não elogiou seu perfume e nem deu um sorriso olhando nos olhos depois do abraço… Roseli tentou conter uma lágrima que quase escorreu pelo seu rosto. Doía o desprezo inexplicável e momentâneo do seu professor mais querido. Como toda adolescente de quinze anos, sentiu-se culpada, mas novamente conteve suas palavras e, mais uma vez, tentou distrair seus sentimentos com uma pergunta…

O senhor vai pra onde?

Moro no Sorgatto…

Já passou! – Disse o senhor da bengala.

João, então transforma seu desânimo em raiva e indignação atípicas para sua personalidade e, meio sisudo, reclama:

Poxa! Perdi o ônibus…

Não! – Interrompe a senhora do guarda-chuva – Você já tava aí encostado quando ele passou, mas você não viu. Tava ca cabeça baixa… Se soubesse que era a tua lotação, tinha te avisado…

Tudo bem. Eu vou a pé mesmo…

E agora professor? – Roseli estava mais indignada que o próprio – Você também… Não ver a lotação passar! Só podia ser você mesmo…

Não faz mal! Sempre andei a pé e nunca quebrei nenhum osso…

Finalmente encontrou uma frase que provocasse um riso meio tímido nos presentes… Abraçaram-se, novamente. Desta vez, o professor pareceu mais espontâneo e melhorou consideravelmente a qualidade do abraço:

Tchau, professor!

Tchau, querida! Se cuide, hem!

Sua aluna mais querida observava, atentamente os passos do professor, enquanto espera o ônibus do Martello, até que ele sumisse na esquina… A caminhada era longa. Descia nosso sonhador a pé, na contramão da Salgado Filho, sempre mirando o chão com seu olhar meio tristonho que parecia atraído por um magnetismo moral até o solo, embora João fizesse um esforço para olhar sempre para a frente… Mas os seres humanos sonhadores são assim. Estremecem a cada vez que projetam um sonho e ele não se realiza de imediato. Para agravar, o professor dos sonhos azuis era ansioso, parecia ter nascido de sete meses. Não suportava esperar. Não gostava de coisas enroladas, nem pela metade, desesperava-se com os atrasos da vida… Jogava alto nos seus pequenos sonhos, achava tudo possível e quando não via resultado, ficava assim, olhando o chão, causando estranheza a todos ao seu redor, principalmente àqueles que o conheciam de longa data… Sentia um nó na garganta, um aperto no peito, um amortecimento fraco, mas perceptível nos braços, um tremor doído nas pernas. Uma angústia sem medida…

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Sonhos azuis – Capítulo I

(Onde a ficção se confunde com a realidade)

– “Não!… Não é possível!… Fiz quinze aulas de volante e nunca encostei no cone! Por que, justo no dia do teste eu derrubo a baliza?… Nem eu mesmo me perdoo por esse vexame… Não acredito! O que dirão meus amigos, minha família? Como vou dar-lhes a notícia, já que me saí muito bem em todas as aulas?”… Assim voltava, reclamando para si mesmo o João que acabara de fazer o teste de volante, e mesmo sem saber, tinha a certeza do resultado. Ficou muito nervoso e teve pouca atenção ao realizar o teste… acabou reprovando, pois a Autoescola é exigente, afinal, tem o dever de formar bons condutores de veículos automotores. Mas ele precisava tentar novamente para, enfim, realizar um de seus mais sonhados objetivos…

 

Quinze dias depois, João volta a fazer o teste, após ter realizado mais algumas aulas de volante, desta vez, mais atento… Conseguiu, enfim a aprovação. Uma vitória, pois antes de começar as aulas na Autoescola, mal sabia colocar a chave na ignição. Sem fazer o mínimo esforço para conter sua alegria, João volta para casa, crendo que seria uma das últimas vezes que voltaria a pé, sorridente e quase saltitante de tanta euforia. Tinha vontade de contar a novidade a cada criatura viva que cruzasse seu caminho. Há dez anos que atingira a maior idade, todo esse tempo esperando pelo tão sonhado dia em que teria sua Carteira Nacional de Habilitação em mãos. Agora era só esperar o prazo legal e retirá-la na autoescola onde realizou as provas teóricas e práticas, após alguns dias de curso. Mais um obstáculo vencido em sua vida, que não fora tão fácil assim até o momento para aquele sonhador que nunca perdera as esperanças de ter uma vida melhor e melhorar também a vida de sua família…

 

João… um nome simples e comum, tanto quanto a “Salve Rainha”. Um jovem João, no meio de tantos outros Joãos… Silva, sobrenome também comum, advindo de várias árvores genealógicas… Este é nosso protagonista. Tem muitos sonhos: casar, ter filhos, terminar a faculdade, deixar a vida de peão… sonhos azuis, da cor do mar, da cor do céu… Um de seus sonhos está prestes a se realizar: comprar um carro, seu primeiro… e o mais cogitado é um fusca; pensa que algumas economias sofrivelmente juntadas, sejam o suficiente para a entrada e como seu nome sempre foi limpo, pode financiar o restante em suaves prestações.

Sua mãe, dona Áurea (que significa: da cor do ouro), é a pessoa mais preciosa de sua vida, uma senhora com sessenta e seis anos, amiga da vizinhança e sempre disposta a ajudar no que for preciso… Em sua casa sempre tem chimarrão quentinho e hospitalidade, o que deixa qualquer visitante bem à vontade…Mãe de cinco filhos, sendo João o último e único a morar ainda com ela, que no auge dos seus vinte e oito anos nunca se casou.

Nascido na década de setenta, João não teve direito nem mesmo a um berço, dormia na cama de casal entre o pai e a mãe, nunca presenciou sequer um gesto de carinho entre eles, desde que se conhecia por gente… Seu pai, também João, cujo nome do filho o homenageava, era um carpinteiro de mão cheia, construíra a casa simples de madeira, onde moravam, com as próprias mãos em três etapas, uma delas quando João já tinha seus cinco anos, idade da sua primeira festa de aniversário, dali pra frente, lembra-se mais nitidamente da vida conturbada em família. Certa vez, teve que juntar os cacos de um prato jogado ao chão por seu pai que chegara bêbado e, por algum motivo não se agradara com a comida oferecida carinhosamente por sua mãe. Cresceu vendo um casal derrotado na sua escolha pelo matrimônio. Áurea casou por obrigação, grávida do primeiro filho, então teve mais três e um adotado. Terminou como termina qualquer relacionamento que começa mal: a separação. A senhora guerreira já não aguentava mais viver com um alcoólatra nervoso e violento e João já não suportava tanto sofrimento de sua mãe. Ambos depois de uma briga do casal por causa da bebida, saíram de casa, passaram uma noite na sua madrinha. No dia seguinte, voltaram com novas ideias para lutar pela felicidade e por uma vida mais confortável. Porém, a convivência estava cheia de feridas que, a cada dia sangravam mais. João, o pai, resolve abandonar a família no dia em que João, o filho completava seus dezesseis anos, logo depois de estragar sua festa de aniversário, chegando bêbado. Os convidados, disfarçadamente, saíram um a um… Naquele momento, João assumia, aos dezesseis anos, o papel de homem da casa e conseguiu, enfim construir, com sua mãe um lar feliz…

Dona Áurea, como toda mãe preocupada com seu filho, não gostou muito da ideia de comprar um carro. Parecia perigoso, principalmente pelo fato de seu filho nunca ter dirigido sozinho antes. Passava por sua cabeça vários acidentes noticiados na TV, rádio e jornais, envolvendo veículos automotores nas estradas do Brasil:

“Tem certeza que você terá condições de pagar, meu filho?”

“Olha mãe, prefiro pagar um financiamento a continuar gastando dinheiro com transporte para trabalhar e estudar”…

“Mas, meu filho, carro dá despesa e você ainda tem a faculdade para pagar.”

“Penso que, apesar de tudo, um veículo será muito útil para nós, mamãe. Poderemos ir e vir a hora que quisermos e para onde quisermos, sem compromisso com horário ou passagem, além do mais, já sou bem grandinho e mereço um pouco de conforto.”

Mesmo contrariado, numa sexta-feira, João começa sua busca por várias revendedoras da cidade. Já estava decidido, queria um fusca, carro simpático e apaixonante, além de ter manutenção barata… Na primeira revendedora, encontra um besourinho branco, ano 94.

“Se você quiser, pode levá-lo para passar o fim de semana com ele, e na segunda-feira, fechamos negócio.” – Disse simpático e interesseiro, o vendedor.

“Não posso! Minha carteira de motorista não está pronta e ainda me sinto inseguro”

“Onde você mora?”

“Fica um tanto longe.”

“Pode levá-lo! No trajeto até sua casa não tem polícia, principalmente se for pelos bairros, desviando o centro e as rodovias.”

“Obrigado! Prefiro não arriscar, mas daqui a pouco volto com um motorista.”

Teófilo, seu melhor amigo, irmão de coração, inclusive, considerado como filho por dona Áurea, é um jovem que tem muito em comum com o João: Não bebe, não fuma, é caseiro, não gosta de relações fugazes, prefere compromissos sérios… Um ano e meio mais novo que João, porém com muita experiência ao volante. Seu melhor amigo foi o primeiro a visitar seus pensamentos quando tentou providenciar um motorista. Teófilo (que significa, amigo de Deus), aceita prontamente, volta com João à revendedora e conduz o fusca até sua casa… Antes resolvem dar uma passeada pelas ruas da cidade, já que ao volante estava agora um motorista de verdade, com carteira e tudo. Durante o trajeto, o fusca apaga duas vezes, numa delas, João precisa descer e empurrar…

O carro é maravilhoso. Tem tudo o que o João sonhava, menos uma bateria forte. No segundo dia teve que fazê-lo pegar no tranco de novo. Um martírio!… Se passasse o fim de semana a pé, os transtornos, com certeza, seriam menores. Abandonou aquela condução em frente a sua casa por todo o resto do sábado e durante o domingo.

Na segunda-feira, depois de fazer o carro funcionar na quinta tentativa, em companhia de Teófilo, devolve o fubicão de tração humana ao vendedor, que apressadamente pergunta, já com a nota na mão e pronto para imprimir o boleto:

“E aí, vamos fechar negócio?”

“Não! A ideia de ter um carro que constantemente precisa pegar no tranco, não me agrada. Também não preciso de um poço de óleo em frente à minha casa, que só serve pra bonito, sem realizar sua tarefa principal que é transportar-nos para onde quisermos.”

“Não fique nervoso… – prosseguiu o vendedor – Sentimos muito pelos transtornos causados no fim de semana. Podemos resolver todos estes problemas fazendo uma revisão geral… Ou, se não lhe agrada, temos outros veículos melhores e mais novos…”

“… E por consequência, mais caros… Não! Prefiro ficar a pé e o meu objetivo é um fusca: é mais a minha cara…”

Procurou por alguns dias em várias revendedoras de Caçador, sem sucesso. Nada lhe agradava…Um vazava óleo, outro tinha problemas mecânicos, outro estava com estofados em estado lastimável, outro ainda, apresentava uma décima camada de pintura muito meia boca e precária… Só encontrava bomba: Volante tampinha de margarina com duas voltas e meia de folga, pneus carecas desalinhados e desbalanceados, assoalho podre, lataria pré-histórica, ausência de pedal de acelerador, extintor ou retrovisor, parte elétrica comprometida… tudo em terrível estado de conservação e superfaturado por seus vendedores…

Quando estava quase desistindo, distraidamente passa em frente a uma revendedora, que ainda não havia recebido sua visita por pensar que só tinha carros de valores muito altos, a julgar pelo capricho e beleza de sua fachada (um infeliz engano) , onde viu projetado todos os seus sonhos, fato que o fez pensar diferente: Lá estava ele: lindo, inteirão, polido, simpático e sorridente: Um fusca azul, da cor do céu, da cor do mar, da cor de seus sonhos…

Após alguns segundos, onde o tempo pareceu parar, seus olhos não conseguiam se mover, seu sorriso não deixava de brilhar naquela face sofrida e esperançosa, seus pés já não sentiam o chão… Estava nas nuvens, flutuando diante de uma máquina simples, de tecnologia alemã, criada para a guerra, que se tornou o carro mais popular do Brasil e quiçá do mundo… De olhar estático e admirado, o boquiaberto João é surpreendido por um vendedor simpático e disposto a ajudá-lo.

“Em que posso ser útil, senhor?”

“Hã?… Como?… Ah! Quanto custa aquele fusca azul?”

“Sinto muito, mas já estamos fechando negócio com ele.”

Por um instante, nosso sonhador de sonhos azuis perdeu o chão, desta vez de desgosto. Sempre andou a pé. Nunca tivera a oportunidade de dirigir seu próprio automóvel para se locomover com mais rapidez e conforto. Finalmente, depois de vinte e oito anos, tem em mãos sua carteira de habilitação, conquistada com muita dedicação e perseverança. Nunca conseguiu economizar o suficiente para realizar seu único sonho de consumo… Agora que estava prestes a satisfazer seu ego com um carrinho da cor de seus sonhos, é surpreendido com uma resposta negativa que o deixa remoendo de remorso por acreditar numa ilusão fantasiosa, quase uma obsessão… Pobre João! Era tudo o que sonhara até então… Sua única pretensão de consumo, razão das suas economias… Sentiu uma lágrima correndo teimosa e dolorida em seus olhos, mas conteve-se. Baixou a cabeça e dirigiu-se vagarosamente, sem palavras até a saída da revendedora. Quando pode ouvir, de longe o vendedor dizendo:

“Volte amanhã. Se o cliente não fechar negócio hoje a tarde, conforme o prometido, eu seguro o fusca pra você.”

João, então ergue a cabeça de vagar, sem acreditar no que seus ouvidos acabaram de escutar, respira fundo e trêmulo, vira-se desconfiado para trás, perguntando:

“Está falando comigo?”

“Sim!”

“Quer dizer que ainda tenho uma chance?”

“Amanhã, logo cedo.”

“Combinado! Amanhã estarei aqui às oito e meia.”

Nosso sonhador, vê então, ressuscitar seu sonho azul polido, inteirão, de estofado preto e películas cinquenta por cento nos vidros… Volta para casa com uma esperança renovada em seu peito de sonhador, Queria muito levar seu automóvel, razão de suas economias sofrivelmente juntadas, no dia seguinte… Porém, com aquele frio na barriga que aperta desde os rins até a garganta, expressando o medo de ouvir outra resposta negativa… Talvez não suportaria mais um tombo, mas precisava tentar… era sua última e preciosa chance. Poxa! Todos os seus amigos tinham carro, só ele sempre a pé. Seu sonho era simples: um fusca… Só um fusquinha… Não estava exigindo muito da sorte: “Só um fusquinha” – pensava ele… “Nada mais que um fusquinha…”

 

Capítulo II

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Nostalgia radiofônica

Por conta da divulgação do meu romance de folhetim visitei, esta semana, os estúdios da Rádio Caçanjurê AM e da 92 FM…

A recepção de cara nova, a sala do chefe, agora reciclada, onde no dia nove de setembro de mil novecentos e noventa e seis, às onze horas da manhã, eu recebi a triste notícia da minha demissão, a nova sala da chefe, outrora um depósito, a manutenção, o atual departamento de jornalismo… A antiga sala do mestre Joair dos Santos Lima, apesar de um pouco diferente, permanece lá a espera do jornalista mor de Caçador. A impressão que dá é que ele logo volta, vai sentar naquela cadeira, ajeitar os bigodes e fazer jornalismo na velha máquina de escrever… Voltei no tempo, eu era sonoplasta do jornal, rodava as entrevistas num rolo de fita gigantesco que, às vezes apanhava e distorcia a voz do entrevistado, via através do aquário o seu Joair se segurando pra não rir… Hoje, o entrevistado sou eu e minha voz é fielmente captada por um aparelho minúsculo nas mãos da comadre Rita Martini, que começou a carreira um pouco antes de mim e ainda permanece lá, com Denilson Araújo, Luiz Roberto Damaceno, contundido, a Anne que sinto não conseguir escrever corretamente seu sobrenome, o Flavinho e, é claro, a Tia Ita que me recebeu com a hospitalidade de sempre e me levou conhecer as novas instalações das emissoras de rádio caçadorenses…

Na sequência, não tive como deixar de parar na discoteca, repleta de vinil em desuso e, quem diria, cheia de CDs também obsoletos. Novamente, minha criatividade nostálgica desenhou em meu cérebro a imagem daquele operador de som, apelidado por um dos locutores de Garibaldo,  perdido no meio dos bolachões, segurando o disco com a mão até que o locutor anunciasse a música e a agulha, que já estava no ponto, pudesse transitar livremente sobre a superfície do vinil e levasse ao ar o pedido do ouvinte… Isso até enroscar e o sonoplasta ter que dar uma sopradinha de leve na agulha para que ela pulasse o furo… Quantas vezes o sopro era mais forte que o necessário e a agulha ia parar na última faixa, obrigando o operador a abrir o microfone e o locutor a improvisar diante da situação quase constrangedora…

Paramos no estúdio da 92 FM: Tudo diferente, um locutor diante de um computador, cujo monitor de LCD é fixado na parede. Tudo programável, tudo agilizável. Dá até tempo de bater um papinho com a visita, o bloco de comerciais é programado automaticamente. Tem até uma câmera que transmite as imagens em tempo real pela internet… Me senti no BBB… Deus me livre! Sem falar na porta de vidro, que deu um designer todo moderno para a emissora…

E a Caçanjurê? Meu ganha-pão durante três anos de minha vida… Não está mais lá. Agora, de um lado do aquário, é CPA (centro de produções de áudio), do outro é estúdio reserva… Retrocesso de tempo em minha mente de novo: Lá estava eu, dez quilos mais magro e catorze anos mais moço, fones nos ouvidos, microfone a frente na mesa redonda, acordando o povo com o “Cheiro de Terra” e tomando chimarrão com o pessoal no Entardecer na Querência. Durante mais de dois anos conversei com os ouvintes dentro de um estúdio isolado acusticamente, tendo um sonoplasta do outro lado do vidro como companhia… Às vezes, era necessário assumir a técnica também, levava o microfone para o outro lado do aquário e fazia tudo sozinho. Os comerciais eram rodados em três cartucheiras. Os cartuchos utilizados eram de fita K7 que enrolava e desenrolava no mesmo rolo, parando com um bip, que às vezes, vazava no ar, armazenados em uma torre rotatória ao lado da mesa de som. Cada comercial, ou vinheta ocupava um cartucho, portanto, o sonoplasta precisava dar o play em cada comercial separadamente. Um servição que era cumprido agilmente a cada trinta segundos. Por vezes, estava no ar, sozinho, enquanto falava com o povo, puxava um cartucho para a próxima vinheta e sem perceber, a torre toda vinha abaixo. Quem ouvia em casa devia pensar que estava desmoronando a rádio, tamanha era a barulheira… Mas o ruído maior era a mijada do chefe depois…

E onde era o CPA, agora funciona o estúdio da Caçanjurê. Lá encontrei meu amigo Flávio Henrique, solitário, sendo ouvido pela cidade inteira. A tecnologia não precisa mais do trabalho do operador… Tudo me pareceu diferente, novo e de uma estranheza que nos faz pensar o quanto a humanidade evolui sem perceber… Flavinho está no ar, é o show da manhã… Sem aviso prévio me chama para bater um papo ao vivo… Apesar de um pouco enferrujado, consigo dar meu recado… É preciso muito talento para falar na latinha sem saber quem está ouvindo do outro lado… Ser radialista é amar a solidão que reúne multidões, é preciso isolar-se fisicamente do mundo ao seu redor para que o resto da população tenha acesso a ele, se torna necessário abdicar a própria liberdade, momentaneamente para que seus ouvintes sejam livres para analisar as informações audíveis através dos amplificadores. É essencial renunciar ao direito de ir e vir, para que sua voz ecoe em todos os cantos da cidade e penetre nos mais diversos e longínquos lares, ganhando também o mundo através da Internet… Este radialista meia boca que vos escreve tomou outros rumos. Sou imensamente feliz como professor e escritor. Mas, confesso, naquele momento me deu um nó na garganta, uma saudade gigantesca e uma imensurável contrição por não fazer mais parte do mundo fascinante da radiodifusão…

Mas eu não poderia deixar o recinto sem antes relembrar o cafezinho da tia Ita. As xícaras ainda são as mesmas, o cafezinho continua saboroso e a hospitalidade não se corrompeu com o passar do tempo…

A Rádio Caçanjurê é patrimônio histórico de nossa querida Caçador, a história dela se confunde com a história de muitos caçadorenses, incluindo este que vos escreve, cujos olhos avermelham-se neste momento e as lágrimas teimam em escorrer pelo rosto, numa homenagem passional e nostálgica deste que, por três anos, fez parte de sua equipe…

Márcio Roberto Goes

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