Press "Enter" to skip to content

Mês: dezembro 2011

“Caba não, mundão!”

 

Em 2011 consegui, novos amigos, novos inimigos, resgatei antigos amigos, perdi grandes amizades… Conheci novos alunos, outros terminaram sua jornada na escola pública, agora vão em busca de sucesso e realização na universidade, curso técnico, ou mesmo fora dos bancos escolares… Tive a experiência de trabalhar, pela primeira vez, na rede particular por quatro meses… Depois de catorze anos, tive um registro na carteira de trabalho, pedi demissão, fui, voltei, lutei, perdi, venci, abandonei o barco, o barco me abandonou… Pela primeira vez gozei uma licença prêmio de três meses, apesar de não ter me desligado totalmente da escola. (Um apaixonado não se afasta facilmente de sua paixão)…
Neste ano que ora termina, mudei conceitos, estado civil, visual, vestimenta… Usei mais bermuda e chinelo, menos terno e gravata. Tomei decisões que marcaram minha vida positiva, ou negativamente Fiz aquilo que meu coração mandava e, por vezes calei a voz dos sentimentos… Lutei por ideais antigos, descobri novos ideais e novos parceiros na luta… Aprendi a amar mais meus alunos como seres humanos, apesar das acusações ao meu redor dizerem que não devo proceder assim…
Sempre gostei de cachorros, tive alguns este ano: o Gerúndio, uma bolinha branca e peluda, mistura de pinscher com poodle que virou Duque ao ser doado a uma pessoa que não conseguia pronunciar seu nome… O Bilu, quarto da dinastia, que viveu somente trinta e dois dias e o Bilu quinto, nascido em primeiro de maio, que permanece vivo, hiperativo e bagunceiro, alegrando minha residência oficial das quatro estações, destruindo sofás e vassouras: Um animalzinho esquisito, sem raça definida, oitenta por cento focinho e rabo, rebaixado nas quatro patas, amado por mim e pelas pessoas que frequentam minha modesta casa…
Nunca comprei um cão, sempre adotei, ou ganhei… Aliás, o mercenário que resolveu estipular preço à vida de um animalzinho, se esquece do detalhe que ele e todos nós também somos animais e nossas vidas não têm preço, nem valores diferentes só por causa da raça, ou cor… Portanto, um cão não pode valer mais que outro só por causa das divisões da espécie, ou da aparência… Meus cães sempre foram de porte pequeno, ou médio. Nunca gostei de cachorros grandes… Mudei completamente meu conceito ao conhecer o Simba, um labrador que, em pé, alcança minha altura, presente do meu sobrinho querido que hoje faz companhia a mim e ao Bilu Quinto, tornando minha vida mais humana ao perceber que um quadrúpede de mais de cinquenta quilos também é um ótimo amigo, que gosta de troca de carinhos e faz festa com minha presença… Escrevo estas palavras com o Simba deitado nos meu pés e o Bilu ao meu lado, no sofá, ressonando, dormindo tranquilamente… Ambos protegendo e com a certeza de estarem sendo protegidos…
Em 2011, ganhei, além do Simba, muitos presentes significativos: Uma máquina de escrever que me deixou fascinado e saudoso, várias canetas, uma bombacha para acompanhar a “Xuxinha” numa vaneira faceira, um gravador do tempo da fita K7, um kit churrasco na rifa do terceirão, perfumes, livros, além de tantos outros mimos ao decorrer do ano… Aprendi que as coisas não precisam ser novas para serem boas…
No ano que se finda, mudei muitas coisas: Troquei de automóvel, de banco, mudei de jornal impresso e acabei ficando sem espaço nos folhetins, troquei de operadora de celular, de endereço, de móveis, saí e voltei ao Martello, perdi e descobri  o amor, perdi tudo, recuperei quase tudo e percebi que é possível viver com muito menos do que se almeja, principalmente no quesito bens materiais… Fui ao vale e voltei ao pico…
Descobri que sendo eu mesmo e me aceitando assim, as pessoas ao meu redor também se sentirão confortáveis com minha presença e que tendo alguém ao meu lado, olhando para a mesma direção, o caminho se torna infinitamente mais agradável, mesmo quando atravessamos os pedregulhos… Percebi que a maturidade não depende dos cabelos brancos e sim da mente e do coração de quem ama…
Tenho mais de três décadas de vida e, neste tempo o mundo já acabou incontáveis vezes na mente e nas previsões de pessoas que parecem não ter mais o que fazer. Agora me dizem que em 2012 o mundo vai acabar de novo… Não é possível!… Tantas vitórias, tantas conquistas, tantas descobertas em três décadas e meia de existência tanta coisa ruim terminando sua existência, tanta coisa boa aflorando e se enraizando em minha vida… Preciso curtir meu cães, aproveitar minhas descobertas e conquistas, passar pela experiência do tão falado ensino médio integral que até agora é uma incógnita… Preciso continuar interagindo com as pessoas evoluindo com elas e ajudando-as a evoluir. Necessito continuar no melhor lugar para se conhecer pessoas: a sala de aula… Quero abraçar mais, trocar mais experiências, fazer novas amizades e regar, diuturnamente, as antigas…  Preciso viver intensamente o amor verdadeiro e despretensioso… Portanto, “caba não mundão”!…

 

 

 

Márcio Roberto Goes
www.cacador.net
www.portalcacador.com.br

Leave a Comment

Meu epitáfio 2011

(Parafraseando Sérgio Brito -Titãs)

Devia ter deixado de ser quem não sou…. Devia ter feito aquilo que meu coração mandou… Devia não ter sido aquela pessoa que os outros queriam… Devia ter sido aquela pessoa que eu queria… Devia querer ser aquela pessoa que sou… Devia lutar para que os outros quisessem que eu fosse aquilo que sou… Devia ter lutado para que as pessoas ao meu redor quisessem ser aquilo que são, não o que os outros quiseram… Mas não fui, mas não sou… Ou será que fui?… Ou será que sou?…

 

Devia ter sido aquele professor que sempre fui… Devia ter sido aquele escritor que sempre fui… Devia ter sido aquele amigo, irmão, companheiro, palhaço que sempre fui… Devia ter acreditado mais nos elogios e menos nas críticas… Devia ter sido aquele “amigo certo nas horas incertas”, ou o amigo incerto nas horas certas… Devia ter prometido menos e cumprido mais… Não devia ter esquecido aquele almoço na prima, aquela janta no melhor amigo, o nome daquela pessoa querida… Não devia ter acordado tão tarde aquele dia… Devia ter dormido mais cedo aquela noite… Naquele fim de semana, deveria ter dormido mais tarde e acordado mais cedo… Devia ter construído mais pontes e menos muros nas relações humanas ao meu redor… Devia ter sido canal de união, nunca de discórdia…

 

Queria ter feito mais por aqueles que fizeram tanto por mim… Queria ter tempo e condições para exercitar mais a gratidão… Queria ter valorizado mais as coisas simples da vida: os presentes simples e singelos, as palavras simples e transformadoras, as atitudes simples que se agigantavam nas intenções, as coisas, os alimentos e as roupas simples que nos tornam mais nobres a cada dia, mais humanos e divinos, mais felizes e inquietos…

 

Queria ter promovido a paz, porém, queria ter tumultuado mais a fim de que se fizesse justiça… Não queria ter me calado diante daquelas injustiças contra mim e contra os colegas… Não queria ter sido tão submisso… Não queria ter deixado aquela pessoa levantar a voz contra mim sem resposta a altura da minha parte…

 

Devia ter sido um oponente a altura do opressor… Devia ter desmascarado o tirano… Devia ter saído daquele local muito antes. Ou será que deveria ter ficado e mantido a luta?… Devia ter antecipado a felicidade e retardado o desânimo… devia ter lutado por uma educação democrática… Não devia ter abandonado o barco tão cedo… Não devia ter me rendido ao condicionamento enraizado que não deixa o lado humano fluir naquela escola… Não devia ter desviado do caminho correto só porque os outros e os gestores gostam de mascarar o caminho errado…

 

Devia ter feito mais… Devia ter sido mais rebelde e menos dócil, mais transformador, protagonista da minha própria história… Devia ter ouvido mais os amigos de verdade e menos os traíras… Devia ter amado antes e com mais intensidade, odiado menos e em doses homeopáticas… Devia ter dito aquelas verdades com mais convicção e me calado na hora reservada ao silêncio que incomoda os injustos… Devia ter sido mais mestre e menos dador de aulas…

 

Devia ter lido mais e visto menos TV… Devia ter atualizado mais meu blog e menos Facebook, Orkut, Twitter… Devia ter sido mais aquele escritor com palavras polêmicas para defender a educação pública e menos relapso abstendo-me da responsabilidade do “nada a declarar”… Devia ter sido a voz dos emudecidos pela tirania, as pernas dos aleijados pela discriminação, os ouvidos dos ensurdecidos pela ditadura mascarada da cadeira daqueles que pensam que mandam, mas também são vítimas da repressão disfarçada de democracia, o cérebro daqueles que são retardados pela mídia que prefere pensar por eles…

 

Por fim, não deveria ter deixado um pecíolo e um limbo seco calarem minha voz quando todos esperavam uma resposta…

 

Devia ter sido mais eclético, menos teimoso e egoísta…

 

Márcio Roberto Goes
www.cacador.net
www.portalcacador.com.br

Confira o video:

Epitáfio – Titâs

Leave a Comment

Que noite feliz é esta?

A vitrine iluminada
Movimento na avenida
Promoções por todo lado
Comércio movimentado
Todos vendendo alegria
Férias pro trabalhador
Mais trabalho ao vendedor
Cresce mais a economia
De quem não economiza
Mas também nunca reparte

No Natal capitalista
De quem é o aniversário?
De quem são as homenagens?
Pra quem vai nosso presente?
O que é feliz natal?
Que noite feliz é esta?

Tem papai Noel na rua
Dando doces e abraços
Tem presentes a comprar
Árvores a enfeitar
Familiares para ver
Cartões para entregar
Alegria a desejar
Tanto luxo e desperdício
E o aniversariante
Dorme lá na manjedoura

” Dorme em paz ó meu Jesus”
Enquanto ainda é criança
Pois, sabemos que ao crescer
Alguém vai te condenar
Por só dizer a verdade
Vai morrer, ressuscitar

Veja o vídeo

Que noite feliz é esta?

 Letra: Márcio Roberto Goes

Música: Leandro Souza de Matos

 

Leave a Comment

Sonho que se sonha junto

Tudo pronto! A sede campestre reservada, o torneio realizado, dinheiro arrecadado… Os salgadinhos e o bolo encomendados, a carne temperada, a salada e a maionese prontas para o preparo… Os professores, direção e funcionários, todos convidados e informados de todos os detalhes do evento… Mas um deles não deveria saber antes da hora: o homenageado. Para garantir sua presença, encarregaram-no de levar alguns alunos até o local do evento…

 
O professor foi buscá-los um a um em suas casas, parou em frente à escola par acertar os detalhes e atravessou a cidade em busca do desconhecido… Chegaram! Parecia tudo normal: Os churrasqueiros preparando o fogo, as mulheres encarregadas da salada, a Keli lavando as folhas de alface na mangueira que derramava água na valetinha em direção ao riacho… “Precisam de alguma ajuda?” Perguntou ele, solidário… “Não! A gente se vira…” (Um homenageado, mesmo ingênuo no processo, normalmente não trabalha no evento em sua homenagem)…

 
Pois bem, este que vos escreve ficou ora sentado vendo o jogo de futebol através do alambrado, ora conversando com o povo presente e tomando um refrigerante… Até que descobriu uma rede de dormir e tirou uma soneca… De vagarinho, os outros convidados foram chegando e se abancando, contando causos, molhando a goela e acompanhando os preparativos.

 
Hora do almoço. Tudo normal, xixo, pão, salada, galeto e maionese: tudo carinhosamente preparado pelos alunos e familiares que “mataram a pau” no quesito organização. Comemos e bebemos (refrigerante, é claro) e nos alegramos na presença de pessoas tão queridas e generosas…
“Vamos até lá atrás ver e fotografar os pés de guabiroba?”… Perguntava alguém, então fomos eu, alguns alunos e duas professoras “fazer hora” no meio do mato (No bom sentido, é claro!). Pisamos nas grimpas, atravessamos um riacho, atolei o pé na lama, fizemos fotos em vários lugares e as guabirobas foram esquecidas… Este professor meia-boca então voltou ao local do evento, sem noção, desligado, ingênuo, como  se diz em espanhol: plomo! Acompanhado de alguns alunos, uma professora conterrânea e outra baiana: todos cúmplices descarados…

 
Na chegada, fui recebido com a canção “Parabéns a você”. Momento emocionante por si. Ao se aproximar, este funesto escritor avista na mesa de tábua bruta um bolo com as palavras “Parabéns professor Márcio”… Não tem quem não se emocione num momento desses, mesmo que seja um dia depois do aniversário… Mas a emoção maior ficou por conta da revelação de que todos aqueles eventos, desde o torneio para angariar fundos, o almoço, os salgadinhos e o bolo,  haviam sido produzidos com um único propósito: homenagear o professor pela passagem do seu aniversário e declarar publicamente o apoio mútuo ao seu jeitão meio polêmico de trabalhar em sala e lidar com as pessoas ao seu redor…

 
Ou seja, meus sonhos para a escola pública, são os mesmos de todo aquele povo que estava presente, revelados através de uma magnífica homenagem surpresa por conta dos meus trinta e oito anos vividos a maioria na rede pública de ensino, seja como aluno, ou como professor…
Para completar minha surpresa profética, a Dani me presenteia com um livro intitulado: “Nunca desista de seus sonhos”, de Augusto Cury… Pois é, com tantas surpresas e sinais só posso chegar a uma conclusão: Meus sonhos não são só meus, fato que é um pé na realidade… Acho que estou no caminho certo…

 

 

Márcio Roberto Goes
www.marciogoes.com.br

Leave a Comment

Os terceirões da minha vida – Parte III – Meu querido Wandão

Nãop oderia terminar esta sequência sem escrever sobre a escola que me
abraçou como efetivo há cinco anos, além de trabalhar lá como ACT
(admitido em caráter temporário), desde 2002, antes mesmo te ter
uma sede própria e se transformar no Abacatão mais querido do
Martello…

Lá, na escola Wanda Krieger Gomes, tenho vivido grandes experiências que só
fazem crescer cada vez mais meu amor pela educação pública que tem
muito mais calor humano, existe luta coletiva por melhores condições,
o que torna a equipe unida, seja ela composta de alunos, professores,
ou ambos. Encontram-se lá,  pessoas que respeitam o professor,
inicialmente como ser humano e, principalmente como amigo… Amigos
se amam, com um amor tão fraterno que chega a ser partilha de
vida… Vidas que, apesar das diferenças, se unem em favor de uma
educação de qualidade que favoreça realmente o povão e os
profissionais envolvidos, ao invés de engordar o bolso daqueles que
foram eleitos para trabalhar em favor da população e não o
fazem…

Foi no Wandão que encontrei uma turma de segundo ano de ensino médio capaz
de produzir um torneio, angariar fundos, alugar uma sede campestre,
envolver famílias, professores, direção e os próprios alunos,
organizar um almoço com o dinheiro arrecadado no torneio, comprar
salgadinhos e bolo… Tudo isso só para homenagear um professor
aniversariante, tentando reanimá-lo a fim de continuar sua missão
mais sublime que é simplesmente ser professor… Conseguiram! Este
que vos escreve teve uma injeção de ânimo ao ser homenageado de
surpresa num evento que parecia ser uma comemoração de final de ano
letivo… Mas tinha algo mais: o amor pela educação pública também
presente em meu coração passional…

Nesta escola querida, já tive vários terceirões. Fiz amizades que até
hoje permanecem vivas e atuantes, encontro ex-alunos e não me furto
o direito de “jogar uma conversa fora”. Isso me faz revigorar as
forças e a esperança de dias melhores para nossa educação
pública. Ver meus alunos crescendo e atuando na sociedade é
suficiente para alimentar a alegria de ser professor…

Este ano, tenho orgulho de trabalhar com três turmas de formandos em
ensino médio, uma matutina e duas noturnas… Minhas manhãs são
abrilhantadas por uma galerinha pró-ativa que quebra a inércia da
escola: Tem as meninas do fundão, sempre solícitas, a piazada que
gosta de fazer tudo, principalmente quando não tem relação com a
matéria. À frente, minhas porcelanas, entre elas, a futura juíza
que fez bonito no júri simulado… Enfim, uma turma que jamais
poderia passar desapercebida mesmo aos olhos e corações mais
distraídos…

Minhas noites são melhores graças ao convívio com os alunos, sobretudo
dos terceiros anos que nos empurram para a juventude novamente sem
pedir licença… Lá  tem um povo que gosta de lutar pelos seus
direitos, o que nos torna cúmplices nas lutas estudantis, pois onde
estiver nosso aluno, lá estará um pouco de nós também. Numa das
turmas, encontra-se a maior concentração de meninas por metro
quadrado da escola: um representante do sexo masculino e mais de
vinte do sexo feminino, fato que transforma a sala na mais dinâmica,
característica marcante nas mulheres…

Enfim, trabalhar no Wandão chega a ser uma filosofia de vida, a cada dia
aprendo coisas novas no melhor lugar para se conhecer pessoas: A sala
de aula… E quando se trata de terceiro ano de ensino médio, o
aprendizado é ainda maior, pois lá estão aqueles que têm maior
bagagem de conhecimento e experiência entre os alunos da educação
básica, o que nos torna seres humanos ainda mais iguais, podendo nos
relacionar de forma igualitária e verdadeira sem receio de que as
diferenças de idade e conhecimento nos tornem estranhos… Sou grato
aos terceirões do Wandão por me fazerem uma pessoa melhor a cada
ano…

Márcio Roberto Goes

1 Comment