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Mês: novembro 2011

Os terceirões da minha vida – parte I – Santo Damo

 

Durante minha modesta vida de onze anos de educação, já passei por várias turmas de formandos de ensino médio, nas escolas por onde andei. Quase todos os anos sou escolhido como regente de terceiro ano, portanto, quase sempre cabe a mim a difícil tarefa de apaziguar as relações de turmas que se conhecem muito bem, portanto sabem qualidades, defeitos e pontos fracos, uns dos outros… Porém, este ano foi diferente. Em virtude da licença prêmio usufruída por este que vos escreve nos três primeiros meses letivos, eu não estava presente, portanto não fui votado como regente… Este fato me dá, enfim, condições de escrever sobre meus pupilos formandos de forma imparcial. Mas, como convivo com seis turmas de terceiro ano em duas escolas públicas e uma particular, um só texto seria pouco para falar de todos, portanto resolvi dividir em partes, de forma que se torne mais confortável para os leitores e se encaixe neste espaço aqui ó… Sem sobrar, nem faltar…

 
Pela primeira vez, trabalho na Escola Estadual de Educação Básica Dr João Santo Damo, onde convivo com uma “galerinha sangue bom” de dois terceiros anos… Lá, vejo de tudo: professores sonhadores como eu, que se sentem indignados com a situação da educação pública, companheiros, parceiros para todas as horas e alunos mais ecléticos ainda…

 
Entre os estudantes é que encontramos grandes exemplos de vida: Os gênios de óculos (ou não), que lutam contra sua deficiência, leve, ou grave em busca do conhecimento (ou não)… Tem aqueles que sempre estão a postos para ajudar seus mestres no carregamento do conhecimento a tiracolo, na organização da sala, apagando o quadro negro e até escrevendo nele quando o professor é portador de rinite alérgica e não pode ter uma relação amigável com o giz, que na verdade, já deveria estar extinto dos educandários do século vinte e um…

 
Encontra-se, lá no fundão, uma turma que gosta de trabalhar sempre em equipe, mesmo que não seja para fazer aquilo que o professor pede… À frente, grupo quase sempre composto por meninas, estão as mais interessadas (Pelo menos aparentemente), que sempre têm disposição para responder os questionamentos, apontar soluções e revelar sugestões sobre o assunto proposto, além  de, nos dias cinzas do cotidiano escolar, encarregarem-se de distrair o professor para que ele escreva o mínimo possível e alongue o debate sobre o que for: fato que não é de todo mau quando se trata de Língua Portuguesa, disciplina que trabalha também a comunicação e expressão…

 
Na sua maioria, nossos alunos Santodamenses são pró-ativos, o que revela uma excelente base filosófica e de cidadania, mérito de todos os outros professores antecedentes. Vivemos juntos, muitas alegrias: projetos, discussões, produções de texto magníficas, socializações de trabalhos, integração com os anos iniciais do ensino fundamental através da obra de Monteiro Lobato, festa julina, entre tantas outras…
Porém, um fato me deixou flutuando de satisfação (é assim que fica um professor quando vê um aluno caminhando com as próprias pernas): Uma aluna, mais precisamente a Ellen, da turma 302, conhecida por todos, amada por uns e odiada por outros, me procurou durante a reposição de aula no dia da proclamação da república, com caderno, lápis e borracha em mãos: “Queria que desse uma olhada num texto que produzi durante a viagem ao congresso da UBES”…

 
Para tudo!!!… Eu não pedi que os alunos participantes do congresso produzissem textos sobre o assunto… Isso quer dizer que ela escreveu por livre e espontânea vontade, sem pressão, sem promessa de nota (até porque já garantiu seus vinte e oito pontos)… Ou seja, escreveu com o coração!… Já gostei!… Gostei mesmo!…Sem ler, já gostei!… Pois o ser humano escreve bem quando o faz com o coração… Li e gostei mais ainda: palavras que revelam uma aluna consciente e cheia de vontade de lutar pelos seus ideais e pelos direitos das pessoas que a cercam… Uma escritora em potencial…

 

 

 

 

 

Márcio Roberto Goes

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Um cigano Martellense

Fonte: prontosparaaluta.com.br
prontosparaaluta.com.br

Domingo, mais de uma hora da manhã… De repente, lembro do hino da minha cidade natal… “Aqui eu vivo, aqui eu trabalho e me orgulho até demais”… Incrível e contraditoriamente, estas palavras vêm à tona assistindo a poderosa do “Plim, plim!”…

 
Caçador é uma pacata cidade do meio-oeste catarinense, dizia o repórter do Jornal Nacional, algumas horas antes… Penso que “pacata” seja generosidade do jornalista que, certamente não conhece nossa querida capital da indústria exploradora de mão de obra, pois acontecem aqui, muitas coisas que movimentam esta cidadezinha de mais de setenta mil habitantes e não vão parar na telinha do “Plim, plim!”, nem nas capas dos jornais a nível nacional… Temos aqui, uma coletânea de talentos na música, na literatura e no esporte, que não aparecem porque teimam em permanecer e valorizar sua terra natal… Infelizmente, amargam o gosto do anonimato, pois ninguém lembra desta cidadezinha que, até pouco tempo, não estava nem no mapa, a não ser que algum de nós vá buscar a sorte fora daqui, só assim existe alguma chance de se tornar uma celebridade…

 
Sinto-me realizado quando vejo, em sites de relacionamento, fotos de ex-alunos explorando o mundo, viajando, trabalhando, se destacando nacional e internacionalmente nas mais diversas áreas do conhecimento e das artes. Fico feliz quando vejo alguém que foi, ou ainda é meu aluno, aparecendo positivamente nas diversas mídias… Fico orgulhoso quando, mesmo ouvindo de algumas pessoas que não sei dar aulas, vejo meus educandos passando em vestibulares, tendo boas notas no ENEM, evoluindo, vivendo, aprendendo… Flutuo de emoção, quando vejo aqueles e aquelas que passaram pelas escolas por onde trabalhei e trabalho, dando “show de bola” nos palcos da vida…
Às vezes, resolvo subir a avenida principal desta pacata cidadezinha a pé e, a cada estabelecimento que paro para conversar, é pela simples razão de ali existir um atendente ex, ou atual aluno, ou aluna que me recebe carinhosamente, com um abraço e um sorriso sincero num rosto que já esteve, ou ainda está fazendo parte do meu cotidiano escolar… São eles a razão do meu trabalho… É por eles que sou professor, é por eles que me tornei escritor… É por eles que às vezes uso de figuras de linguagem para expressar meus sentimentos e ideias sobre o cotidiano, num gênero chamado “crônica”…

 
Mas hoje, parei para ver alguém que não foi meu aluno, nem teve relação com minha experiência escolar, porém é caçadorense como eu, do bairro que escolhi para morar há mais de dois anos… Como eu, o Cigano do Martello também é de origem pobre e teve que lutar, literalmente, para ter reconhecidos seus talentos, apesar de terem sido descobertos do outro lado do país… Foi muito além do que ele e nós imaginávamos. Uma celebridade que agora carrega um cinturão de campeão de um esporte que, devo confessar, não tenho nada a favor… Mas, enfim, é um dos nossos… Fez nossa querida e pacata cidade ser citada e lembrada a cada momento da breve luta que o tornou campeão mundial, na “pacata” telinha daquela que quer ser dona do mundo, da copa, da FIFA, do carnaval, das olimpíadas, perdeu o PAN e derrubou o ministro dos esportes só por birra…

 
É bom ver alguém da nossa terra se destacando mundialmente. Isso me faz tão feliz, que neste texto, acabo de quebrar meu pacto com a conduta de não escrever sobre assuntos que todo mundo comenta… Mas o assunto é alguém da nossa terra natal, do meu bairro, gerado e criado neste chão vermelho das lutas do contestado… Merecedor das homenagens deste conterrâneo que também não deixa de ser um lutador… Lutador de palavras…

 

 

 

 Márcio Roberto Goes
www.cacador.net
www.portalcacador.com.br
Jornal Folha da cidade, Caçador, SC

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Dois pregos no Martello

 

Ainda era aluno de magistério na década de noventa quando tive a primeira experiência como professor numa escola municipal de Caçador. Tratava-se de uma segunda série do ensino fundamental. Gostava muito deles. Conseguimos uma relação tão sólida e amigável que não era preciso dar ordens. Meus alunos sabiam quando era possível ir ao banheiro e quando era preciso atenção ao que o professor explanava. Sabiam também que nenhum aluno poderia se ausentar da sala de aula se outro já estivesse fora. O professor estando ou não na sala implicava no mesmo comportamento por parte dos alunos que, desde cedo, já sabiam organizar seus horários e compromissos… Mérito só meu? Não! Com certeza tinha uma enorme responsabilidade nas costas da professora a qual eu substituía enquanto ela aproveitava sua merecida licença…
Vivi muitas e inesquecíveis experiências, foi lá que aprendi a abraçar de coração e sem preconceito, pois as crianças sempre agem com o coração, os adultos é que as ensinam a ser falsas com o passar do tempo… Constantemente ganhava presentes dos alunos, mas um deles, o primeiro de todos, me chamou especial atenção: Dia de festa junina, nossa turma ficou encarregada da quadrilha… Era hora deste que vos escreve mostrar o que aprendera no magistério com o professor Adalberto. Ensaiei passo a passo, cuidadosamente com as crianças e o resultado não foi outro: um espetáculo que rendeu muitos elogios aos meus anjinhos. Após a apresentação, um aluno procurou-me, abraçou-me demoradamente conforme havíamos aprendido e me ofereceu um masso de palha de milho que usava como ornamento atrás da orelha: “Meu presente pra você, professor” – Disse-me ele, agradecido… Este presente… Este pequeno presente, guardo comigo até hoje. Para muitos não passa de um montinho de palha, mas para mim foi a primeira de muitas agradáveis lembrancinhas  que recebi nas escolas por onde andei…
Depois disso, ganhei de tudo: soldadinhos de chumbo, bilhetinhos (não respondi nenhum, é claro), balas de todos os gêneros, cartas quilométricas, canecas das mais diversas formas, bichinhos de pelúcia, canetas… muitas canetas, cartões para todas as ocasiões e até flores… Na verdade já ganhei de tudo e tudo tem o seu valor, pelo menos para mim. Uma lembrancinha, por menor que seja, recebida de um aluno, merece um lugar especial na minha caixinha de lembranças que fica lá dentro de meu coração apaixonado incorrigivelmente pela educação pública… Não importa o presente, o que importa é o coração tanto de quem recebe, quanto de quem o oferece… Experimente você, dar uma flor a uma vaca. Provavelmente ela vai comê-la, ou na melhor das hipóteses “não dará a mínima”. Porém, se fizer o mesmo presente à pessoa que ama, a reação será completamente oposta. Na verdade, junto com cada presente, vai um pedaço do coração de quem oferece… E quem recebe, ao agradecer sinceramente, está dando também um pedaço de seu coração…
E eis que, mais de dez anos depois, no Abacatão do Martello, meu querido Wandão que continuo amando apesar das intempéries, quando pensava que já tinha ganhado de tudo dos meus alunos, me acontece um fato inédito: Um aluno, o mesmo que outrora me derrubara por conta da força motriz de seu abraço amigo, para em minha frente com dois pregos na mão, aliás, dois pregos bem novinhos: “Meu professor querido” – Disse-me depois do costumeiro abraço de quebra-costelas – “Encontrei estes dois pregos na rua e resolvi lhe presentear.”… Agradeci sorrindo, como se estivesse recebendo duas canetas foleadas a ouro e lhe dei um novo abraço. Fato merecedor de grande destaque, pois não é todo dia que recebemos dois pregos de presente de um amigo, ainda mais quando se trata de um amigo-aluno que, como poucos, não tem vergonha de demonstrar carinho pelos seus professores… Alguém pode me dizer que não passa de uma brincadeira da parte dele… Mas, com quem ele teria intimidade suficiente para brincar desta maneira?… Somente com alguém que julga ser seu amigo a ponto de rir da situação e retribuí-lo com o mesmo senso de humor e carinho. Sinto-me honrado por ser merecedor destes dois pregos encontrados nas ruas do Martello…

Márcio Roberto Goes

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