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Mês: setembro 2011

Andar a pé

 

Caminhar, além de fazer bem para a saúde, também nos remete para um mundo desconhecido àqueles que vivem sobre quatro rodas. Infelizmente, as correrias do dia-a-dia nos obrigam a usar menos as pernas e mais os pés de borracha do veículo automotor… Só que um automóvel ainda é um bem que a maioria da população não tem direito a usufruir, a não ser que seja alienado a algum banco, ou financiadora que têm total poder sobre aquele bem até que seja quitado pelo proprietário, que na verdade não passa de um locatário pagante de um valor final muito maior do que aquele estipulado pela tabela por conta dos juros, quase sempre abusivos…
Quando o comprador de um veículo é atingido pelos tropeços da vida e, porventura deixa de pagar as parcelas acertadas em contrato “unilateral” pelo banco, este tem o direito, garantido por lei, de tirar o veículo do comprador, independente do número de parcelas pagas… Aí a instituição financeira que é legalmente poderosa, dá uma de cordeirinho e faz uma proposta de renegociação. O pseudo-proprietário do carro lê (ou não) e assina, concordando em refinanciar seu pezinho de borracha. Depois de algum tempo, dá-se conta de que o grande favorecido foi, de novo, o banco que jamais entra numa negociação para perder… Afinal, o capitalismo exige que os gigantes cresçam cada vez mais e os pequenos, por sua vez, se conformem com a pequenez desumana que sempre os distancia da dignidade…
E quando a situação não melhora para os pequenos?… O recurso é devolver o veículo para seu verdadeiro dono: o banco. Normalmente é feito um contrato de devolução amigável. Por telefone, o funcionário fantasma sem rosto e sem nome, que representa uma empresa terceirizada, sempre chamada de “Alguma coisa advogados” só para pressionar psicologicamente o infeliz (des)proprietário do veículo, faz uma proposta de devolução amigável com quitação de contrato. Isso é o que diz o título, mas o conteúdo só favorece ao banco que tem direito de vender o carro pelo valor que achar conveniente e, se este valor não corresponder à quitação da dívida, o desproprietário continua devendo ao banco um valor que nunca foi seu… Quem assinar um contrato nada amigável destes, estará dando totais poderes aos já poderosos para continuarem dominando o bolso e a dignidade dos pequenos…
Infelizmente, a lógica do mercado automobilístico é simplesmente ilusionista. Em nome do status, adquire-se uma dívida que se transforma numa bola de neve morro abaixo…
Por essas e outras, resolvi usar um pouco mais os pés e gastar menos o bem que é do banco, pois se houver algum dano e eu tiver que devolvê-lo, os prejuízos sempre serão meus…
Caminhando pelas ruas, vejo cachorros em busca de atenção e carinho em virtude do abandono de donos relapsos, isso quando têm dono… Vejo novas construções urbanas que, dentro de um carro jamais mereceriam minha atenção. O mesmo acontece com as árvores a beira da estrada e as pessoas que me encontram. Sim! As pessoas precisam de atenção e enquanto as vemos de dentro de um veículo automotor alienado a uma grande instituição financeira através de um contrato unilateral, jamais poderemos desfrutar de uma boa conversa que cura qualquer desafeto da vida sem precisar de diagnóstico, ou receituário…
Mas é preciso tempo, algo escasso na vida moderna para aqueles que vivem atarefados e correndo contra o relógio. Neste caso, a alienação de um pé de borracha se torna indispensável para o transporte rápido… Mas por que não há tempo?… Porque é preciso trabalhar mais, para ganhar mais dinheiro, pagar as contas e financiar um veículo.. Aí é preciso aproveitar o tempo livre que resta e deixar de “conversa mole” nas esquinas para ganhar mais dinheiro, pagar as dívidas antigas e adquirir novas…
Andar a pé, portanto, é usufruir das delícias que a vida só oferece para quem ousa tocar o chão com os pés vagarosa e atenciosamente, sem preocupação com o tempo, ou com os compromissos capitalistas e alienistas…

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Jornal Folha da Cidade

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Educador ao chão

Dificilmente encontro alguém que elogie, de coração, despretensiosa e gentilmente meu trabalho. Tampouco sei qual a razão de, em pleno século vinte e um, cultivar-se os (des)valores da educação tradicional, desumana e repressora que ainda sobrevoam nossas escolas, sejam elas públicas ou particulares. Aliás, este ano existe um pequeno diferencial na minha vida, estou conhecendo in loco a realidade da educação privada, não vejo grandes diferenças e absolutamente nenhuma vantagem em relação à rede pública, com exceção de uma: Neste caso a educação é paga duplamente, nos impostos cotidianos e nas mensalidades para a escola cujo aluno está matriculado
e, justamente por isso, existe uma cobrança e um compromisso muito maior por parte dos pais e da família em geral em nome do “controle de qualidade”…
Mas não perdi e jamais perderei minha paixão pela escola pública, além do meu amor aos alunos, sejam eles da rede pública ou privada. É este amor que me permite e me obriga a abraçá-los periodicamente, rir e chorar com eles, participar das suas vitórias e derrotas, amá-los e respeitá-los como merecem, além de ser alegremente amado e respeitado pelos meus queridos aprendizes de gênios…
Porém, os risos francos de meus amados alunos numa aula de redação parecem incomodar o resto do mundo e, especialmente, alguns gestores que sentem-se realizados somente ao verem estudantes e professores com “cara de sexta-feira santa”, pensando ser esta uma prova concreta da qualidade de ensino utópica pregada e defendida por eles e pelas instituições que os governam…
Meu abraço acadêmico incomoda, nosso riso escolar estorva a escola dos “gigantes” da educação. Minha postura parece inadequada para uma instituição de ensino que se diz perfeita… mas não é só alí. A minha pessoa já sofreu e continua sofrendo duras críticas também na rede pública, por aqueles que pensam ter o direito de nivelar o ser humano achando-se uns melhores que os outros… Além das denúncias sem rosto, sem cara, sem nomes… Ninguém sabe quem foi… Ninguém sabe quem falou… Só se sabe que estão falando, indignados… Quem está indignado?… Que rosto tem esta indignação? Quem está falando? Esta fala tem cara?… Aliás, estas ideias são reais e pertencem mesmo a estas criaturas anônimas?…
Aquele abraço que eu e meus alunos tanto gostamos, despretencioso, mútuo, recíprocro, espontâneo e voluntário só é destacado pelos olhos dos “pesos mortos” da educação quando acontece entre professores e alunos do sexo oposto. Estes olhos que o enxergam são muito maiores do que aqueles que veem o mesmo abraço entre professores e alunos do mesmo sexo…
Outro dia, nos corredores do Wandão, encontrei um aluno vindo em minha direção com os braços abertos e olhar fraterno de amigo. Também me despi de quaisquer preconceitos e restrições, e parti em sua direção para realizar o mais bonito gesto de carinho entre grandes amigos: o abraço… Porém, a força foi tanta e o impacto gerado pela ânsia de abraçar foi tão grande que nos levou até o chão… Por sorte, caí por cima, o Janerson amorteceu minha queda. Sou grato a ele pela coragem de me abraçar em público sem medo das críticas e por ter me livrado de algumas possíveis contusões e hematomas…
Mas caímos por uma boa causa. O corredor inteiro parou para ver a cena do abraço que levou ao chão educador e educando… Se é para ambos caírem, que seja po causa de um gesto de carinho e não por consequência de uma briga…

 

Márcio Roberto Goes

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Para que serve um amigo

Um amigo serve para nos fazer companhia, do contrário, sentimos falta de alguém com um ombro generoso para chorar, ou um sorriso para compartilhar… Está sempre presente nas horas certas e nas incertas também… É um irmão de pais diferentes, alguém que faria até mesmo aquilo que a família se  negaria… Um amigo é, como diz a canção, um “bem maior”… Infeliz comparação, já que não se trata de um bem material e sim de alguém que nos eleva a alma e nos faz conhecer o amor fraterno: do Latim, frather quer dizer irmão, portanto, um amigo é, de fato um irmão enrustido que nos foi enviado para completar nossas famílias tão imperfeitas na vida terrena…
Um amigo serve para rir, chorar conosco e por nós. Nos acompanha nas conveniências e nas inconveniências também, nos acertos e erros… Nos ajuda a acertar. Nos ajuda a errar. Nos ajuda a corrigir… Ou não… De qualquer forma, está ali, discreto ou indiscreto, ativo, ou inativo, concreto, ou abstrato, masculino, feminino, coletivo e tantas outras flexões do substantivo e do adjetivo. Aliás, adjetivo é o que não falta para descrever um grande amigo… E os pequenos também… Mas, com amor… amor de amigo, o pequeno se torna grande, o feio é bonito, o desagradável nos agrada, a tristeza nos faz rir e, às vezes, o riso nos faz chorar e choramos juntos, rimos juntos…
Um amigo real, quando recebe sua visita e só tem um prato de comida, lhe oferece a metade, pois as amizades verdadeiras dividem o que têm para que se multiplique o sentimento sem se preocupar com a falta que, eventualmente, isso fará futuramente… Com ele, meia fatia de pão é sua, meia bolacha é sua, metade da vida dele é sua e metade de sua vida é dele… E assim,  a amizade nos completa. Só nos tornamos seres humanos plenos porque temos os amigos…
Os amigos se conhecem quase que na totalidade, o bastante para saber as fraquezas e fortalezas um do outro. Uma faca de dois gumes, pois se alguém resolve dissolver a amizade, tem subsídios o suficiente para transformar o amigo em inimigo e vencê-lo… Mas as amizades verdadeiras não se dissolvem facilmente, aliás, jamais se dissolvem, pois são edificadas sobre a rocha e as tempestades da vida não têm poder para derrubá-las.
Por conta do conhecimento mútuo, os amigos se respeitam, conhecem seus limites e sabem que juntos são mais, podem mais, sabem mais, fazem mais… A amizade verdadeira nos dá forças, asas e pernas para prosseguir o caminho tortuoso da vida, tomar novos rumos, voar novos voos, experimentar novas situações e dar sentido às antigas…
Um amigo encara você quando o resto do mundo lhe dá as costas, o ajuda a subir quando o mundo lhe pisa, o acalma quando o resto do planeta resolve testar sua paciência com situações altamente estressantes, confia em você quando os demais seres humanos desconfiam, substitui a família quando ela resolve negar a plenitude que lhe cabe, estipular valor material às coisas morais e à própria vida…
Um amigo, enfim serve para amá-lo quando o resto do mundo o odeia…

 

Márcio Roberto Goes
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Jornal Folha da Cidade

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