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Mês: agosto 2011

Porco com batatas

 

Sempre gostei de animais. Quando tinha cerca de doze anos, tínhamos um porquinho e, por se tratar de um bairro próximo ao centro, era necessário limpar muito bem o chiqueiro todos os dias para não haver nenhum mal-cheiro que atrapalhasse a qualidade de vida dos vizinhos. No verão, a sequência da higienização era ainda maior. Eu era encarregado da limpeza da residência oficial daquele suíno que se tornou um de meus melhores amigos de infância, ocupando o lugar ocupado pela dinastia de cães chamados Bilu e o periquito que vivia no meu ombro quando eu tinha remotos cinco aninhos…
Meu porquinho gostava tanto de mim que, ao me ver, chegava a abanar o rabinho em alta velocidade. Todos os dias, eu calçava a bota de borracha, puxava a mangueira do poço até sua casa e ligava o motor para transladar a água até aquele local. Lavava todo o ambiente, depois dava banho no meu amigo que gostava a ponto de deitar-se para receber carinho na barriga, depois enchia o coxo da mais deliciosa lavagem que, para ele era um manjar dos deuses… Era muito bom cuidar de outra vida animal e poder, mesmo involuntariamente, identificar o humano dentro dele… Um  quadrúpede, originalmente fedorento e com hábitos não muito higiênicos, me ensinava a cada dia aquilo que a humanidade toda precisava e ainda precisa aprender: o amor ao próximo…
Nossa relação suína era altamente humana e ganhava de muitas pseudo-amizades que vemos por aí entre seres humanos racionais com o encéfalo altamente desenvolvido e polegares opositores… Por várias vezes tentei abraçar meu porquinho, perdi o equilíbrio e fui parar no chão, na mesma altura e situação dele… Apesar de tudo, não parecia tão mal assim viver num chiqueiro…
Acima do chiqueiro, que ficava ao pé de um pequeno morro, havia uma plantação de batatas-doces, cuidadosamente preparada por minha mãezinha querida… Ocorre que um dia caiu um toró e o morro quase veio abaixo em forma de enxurrada. Era água que não acabava mais, nunca tinha visto tanta chuva em tão pouco tempo. As batatas-doces desceram o morro junto com a terra vermelha e invadiram a casa do meu amiguinho… Da janela, eu olhava preocupado, sem saber o que fazer. Minha mãe não me deixava sair naquela chuva para socorrê-lo, temendo que eu fosse levado também pela enxurrada… Então eu ficava olhando a chuva cair e amedrontado pela possibilidade de perder meu amigo no meio da tempestade…
Mas depois da chuva vem a bonança e, quando tudo acabou, voltei ao chiqueiro para ver se conseguia encontrar algum vestígio do meu porquinho e grandiosa foi minha surpresa quando o vi atolado até a barriga, imóvel e, sem nenhuma preocupação com o resto do mundo, comendo batata-doce trazida durante a chuva…
Mais uma vez, aprendi com ele… Aprendi que nem toda tempestade traz desgraças… Aprendi que podemos tirar proveito das situações, aparentemente, negativas… Aprendi que, se olharmos com atenção ao redor, sempre encontraremos as batatas-doces no meio da enxurrada. Mesmo que estejamos imóveis e atolados até a barriga, sempre existe uma possibilidade de sobrevivência… Aprendi a ver desafios em cada situação complicada… E, acima de tudo, aprendi que se nos jogarem lama de cima para baixo, é possível encontrar, no meio da amargura humana, uma batata-doce que alimente nossa esperança e nos dê forças para reagir e tirar o pé da lama…
Só não consegui entender a razão pela qual minha família me tirou de casa um dia cedo e, quando voltei, meu melhor amigo já estava sem vida na geladeira, parte dele na panela e algumas migalhas de amizade transformadas em salame…

Márcio Roberto Goes
www.cacador.net
www.portalcacador.com.br
Jornal Folha da Cidade

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Cadeira do dragão

Fonte: baciadasalmas.com
baciadasalmas.com

 

 

 

Já fui diretor sem saber, já fui líder de greve sem ser, já fui até jornalista sem ter escrito uma única notícia… Agora sou subversivo interrogado na cadeira do dragão:
– Por acaso você quer o meu lugar? Eu deixo ele pra você…
– Não! Nem todo mundo faz as coisas unicamente querendo levar vantagens particulares. Luto pelas causas populares e esta é uma delas. A minha luta é a mesma da equipe…
– Sei que você estava no grupo que chamou o secretário…
– Não. Você está equivocada, mas acho que foi uma sábia atitude, apesar da reunião ter sido feita na sua ausência…
– Eu fui acusada pelos colegas teus que são traíras e oportunistas!
– Traíra e oportunista seria eu, se concordasse com aquilo que você está dizendo…
Eu estou conversando com todos os envolvidos e até agora sei que só tem três pessoas, realmente contra mim.
– Pode ter certeza que é muito mais. Nem todos têm coragem de assumir uma posição.
– Se fosse verdade, eles me falavam.
– As pessoas têm medo de você. No teu lugar, eu repensava minhas atitudes…
– Eu tenho que cumprir aquilo que determina minha função: manter a ordem.
– Manter a ordem, não significa tortura psicológica, nem repressão pois, a meu ver, as decisões que envolvem a equipe, devem partir da equipe e não virem de cima pra baixo…
– Eu não entendi algumas coisas que você disse e que estão relatadas na ata.
– Tudo o que aí está escrito, eu já disse pessoalmente a você, e não me intimido se precisar falar novamente em nome do grupo. Não disse nada que não tivesse coragem de dizer aqui e agora..
– Mas você não cumpre seu papel, anda abraçando as alunas no corredor ao invés de subir logo para a sala.
– O abraço que dedico a elas é o mesmo dedicado a qualquer outro aluno. Outro dia, um memino me deu um abraço que quase me quebrou as costelas e ninguém se posicionou contra. Quer dizer que o problema é só com as meninas?
– Você tem que entender que aluno é aluno…
– Sim, mas antes de ser aluno, ele é um ser humano e deve ser tratado como tal… Trabalho com gente, não com cabeças de repolho. Os alunos têm sentimentos, reações e, principalmente, sabedoria. Em muitos aspectos, eles são muito mais sábios que eu e você.
– De qualquer forma, sinto que você é sincero. E isso é bom.
– Claro, mas nem todos são sinceros quando devem. E não são estas suas palavras bonitas que vão me fazer mudar de ideia, ou de ideologia.

Agora, sou narrador: Pois bem… Na repressão, depois da cadeira do dragão, o que resta a um comunista subversivo?… O Pau-de-arara, a prisão,  o exílio e, quem sabe, a morte… Mas, infelizmente, esta não é uma decisão que compete à vítima…

Márcio Roberto Goes
www.cacador.net
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Jornal Folha da Cidade

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O tronco do Zé

Tudo pronto. A mesa ampla e arrumada, pratos e talheres em seus lugares, cadeiras enfileiradas… A equipe de bar e cozinha trabalhando exaustivamente, afinal a ocasião merece, o homenageado é muito importante e todos os convidados dependem dele…

A primeira a chegar é Aurélia, meio ressabiada, pois nunca havia participado de um evento social, nem baile, nem festa, quem dirá um jantar chique como este. Ela vem acompanhada de Fernando Seixas, já acostumado com a alta sociedade e que não se intimida com a situação. Um contraste a olhos vistos. Ele deixa chapéu e casaco na recepção, ambos dirigem-se até a mesa indicada pelo garçom vagarosamente, observando atentamente a decoração e o requinte do local preparado especialmente para aquela ocasião…

Em seguida, chegam Mário e Alice, um jovem casal apaixonado desde a infância, aproximados pelo destino depois de Mário salvar Alice da maldição do Boqueirão, acompanham Negro Benedito que finalmente desencostou-se do tronco do ipê e, com muito custo, submeteu-se a vestir um terno listrado e, pela primeira vez, seus pés viram um sapato…

Augusto, apesar de não ter sido criação do homenageado, comparece em nome de Joaquim Manuel de Macedo trazendo os cumprimentos do próprio. De qualquer forma, sempre é bom ter um médico por perto, ele vem muito bem acompanhado pela Moreninha, sua grande conquista daquela viagem à ilha…

Peri, um autêntico Goitacá, chega pelo jardim de surpresa, a cavalo numa onça pintada, com Cecília na garupa. O espanto é geral, mas logo ele dispensa a fera para acalmar os ânimos dos presentes, dizendo ser aquilo apenas um pedido de sua portuguesinha amada e ele nunca nega um mimo para seu amor, não seria agora que o faria…

E assim, chegaram um a um, personagens vivificados pelo milagre da arte de usar as palavras, talento concedido a poucos, entre eles a grande personalidade que ora recebe esta homenagem: É a criação que se torna grata a seu criador e, como num passe de mágica salta das páginas dos livros para a existência física… (Pelo menos na mente deste que vos escreve)… Todos tiveram suas aventuras, amores e desamores que, apesar de fictícios, deixaram sua marca na Literatura nacional que vestiu as cores e a cara da nossa Terra a partir da obra deste que compõe o seleto grupo do movimento chamado Romantismo, em meados do século XIX…

De repente, ouve-se um zumbido no jardim: um enxame… milhares de abelhas perseguindo uma índia Tabajara que, sem tempo para tomar uma decisão mais sábia, atira-se na piscina. O Potiguara vem em seguida chamando por Iracema. Mário, ao ver o tumulto, tem um surto de síndrome do pânico, por um instante vê, na piscina, o Boqueirão e atira-se heroicamente para salvar a jovem índia em apuros. É recebido por um tapa na rosca do ouvido: – “Eu sei nadar, seu inútil!”… – “É claro!” …pensava ele… “Todo índio sabe. Como pude ser tão tolo”… Já em terra firme, Iracema justifica que sofre constantes ataques de abelhas depois que ele a descreveu como “A virgem dos lábios de mel”…

Por fim, beneficiado pelo mesmo milagre que chamou seus personagens à  existência, José de Alencar surge, no meio de sua obra para contemplá-la e ser contemplado por ela. Todos o recebem com aplausos e, para retribuir, o gênio prosaico cumprimenta-os um a um, lançando-lhes aquele olhar paterno de quem tem orgulho ao ver seus filhos crescerem.

Os tempos mudaram… A vida mudou… Os escritores já não são os mesmos, as obras literárias também não… Mas José de Alencar continua sendo o pioneiro na arte de usar as palavras em favor de nossa Terra e nossa realidade…

Márcio Roberto Goes
www.marciogoes.com.br

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Infelizes

Assistindo aos comerciais de TV, percebe-se um grande empenho em fazer o consumidor sentir-se valorizado pela mercadoria, quando na verdade acontece o contrário: as grandes empresas argumentam de tal forma que atribuem superpoderes a seus produtos nos fazendo perceber o quanto somos inúteis enquanto não nos rendermos à obsolescência planejada dos gigantes do capitalismo…

Sinto-me desconfortável ao assumir que não gosto de cerveja, seja ela quadrada, ou redonda, seja aquela que estufa, ou não… Aliás, para mim é tudo a mesma coisa, tudo o que vejo nos comerciais desta bebida oriunda da cevada, eu consigo conquistar sem ela, inclusive dirigir melhor. Mas a TV me mostra que preciso beber cerveja para ser feliz e fazer feliz as pessoas ao meu redor e, ao final dos trinta segundos, uma voz do além diz: “Se dirigir, não beba!”… E agora? Não posso ser feliz e dirigir ao mesmo tempo?… Céus! Acho que não sou deste mundo. Pelo menos não do mundo que a cerveja prega…

Me acho o pior dos homens quando me vejo rodando por aí com um automóvel 2003, pois os comerciais dizem que devo aproveitar a oportunidade e adquirir um carro zero, só assim serei feliz. O problema é que toda montadora diz que o seu é o mais completo da categoria, é o melhor, mais econômico, mais forte e com melhores condições de pagamento… Mas ninguém divulga que, ao adquirir um carro destes, é preciso pagar milhares de parcelas que, nem sempre cabem no bolso, quando há atraso, o juro é infinitamente maior que qualquer outro do mercado e, pior: qualquer negociação de dívida, certamente se desenha em favor da financiadora e nunca do proprietário do veículo que, se bobear, fica com a dívida e sem o carro… Sem falar que, por precaução, é melhor contratar um seguro que não é nada barato…

Mas os comerciais que mais me causam contradição são os de creme dental… Já percebeu que todo comercial de pasta de dente divulga que aquela marca é a mais recomendada pelos dentistas?… Ou os dentistas são muito indecisos, ou alguém está mentindo por aí… Todos prometem branqueamento e diminuição da sensibilidade, refrescância e hálito puro, mas não gostam que usemos todo o produto. Outro dia tentei aproveitar tudo o que podia de um tubo de creme dental, apertei o máximo com as duas mãos até conseguir meio centímetro pra fora, quando larguei uma das mãos para pegar a escova, o desaforado voltou para dentro. Continuei com os dentes sensíveis, não tão brancos e sem o hálito puro prometido pelo fabricante… Mas bem sabemos que o creme dental tem função exclusivamente estética e olfativa, já que os dentes são limpos, realmente pela escova que, seja qual for, também é a mais
recomendada pelos dentistas indecisos…

A verdade é que, cada vez que se produz um comercial de TV, ou outra mídia qualquer, existe um único propósito: Fazer-nos sentir
infelizes com aquilo que temos e somos, do contrário, não buscaríamos coisas novas se as velhas nos fossem úteis. Aí vemos um monte de campanha em favor do meio ambiente no meio dos comerciais que nos obrigam a consumir cada vez mais. E, bem sabemos que, quanto maior o consumo, maior a poluição… O que adianta reciclar inocentes garrafinhas pet, se continuamos procurando produtos novos para antigas necessidades. Cada carro novo que sai da montadora, corresponde a toneladas de entulhos gerados só para manter o conforto e o status de alguém que se julga infeliz pelo simples fato de não ter um carro zero… Porém os comerciais nos fazem infelizes sem o automóvel novo. Quando o temos, somos felizes por pouco tempo, pois logo deixa de ser zero quilômetro…

Mas é preciso manter o consumo, girar a economia, gerar emprego, renda e poder de compra. Afinal, é muito deprimente para os grandes empresários, perderem um único ponto percentual nos seus lucros. Quando isso acontece, sacrificam-se os funcionários do chão de fábrica e suas famílias que, para o sistema, não se importam de baixar o padrão de vida em favor dos lucros do patrão…

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