Press "Enter" to skip to content

Mês: julho 2011

Ébrio

Quando eu não bebo… E quase nunca bebo… Sou feliz, mas dentro de minha
felicidade sóbria, vivo a realidade, sofro, rio, choro, entristeço,
alegro, luto, venço, perco, estresso, desestresso, enfim sou um ser
humano, vivo…

Quando eu não bebo e você bebe, me embriago junto, perco a noção do que
é certo e errado, faço coisas impensadas, me irrito mais, amo
menos, sou menos feliz, desprendo menos sorrisos, faço mais cara
feia, deixo de ser irmão, sou um monstro…

Quando você está sóbrio, sentimo-nos mais família, nos abraçamos,
beijamos a fronte um do outro, fazemos palhaçadas, arrancamos
sorrisos até perder o fôlego, nos respeitamos e respeitamos as
pessoas ao nosso redor, sinto-me mais irmão, sou de novo um ser
humano graças ao poder divino do sangue que nos une…

Quando você bebe e eu não bebo, você fica chato, sem noção, sem pudor,
sem freio nas palavras, sem objetivo, sem coordenação motora,
começa tudo e não conclui nada, ofende, afasta as pessoas, mente
descaradamente e culpa o resto do mundo pela situação…

Quando eu não bebo e você não bebe, passeamos com o cachorrinho,
visitamos os amigos, rimos muito, rimos até das desgraças, rimos
das cinzas do pai, das lembranças da mãe e da infância pobre que
ambos vivemos e vencemos… Vemos graça em tudo, nos comparamos com
os avós, saímos vendo lojas sem a mínima intenção de comprar
alguma coisa, ligamos os aparelhos de som do mostruário, fazemos
festa com as músicas das promoções do capitalismo, conversamos com
os vendedores sem pressa, rimos e somos ridos… A vida é uma
comédia!…

Quando estamos sóbrios, juntamos restos de guarda-roupas jogados nas
calçadas para reciclar e fazer prateleiras, paramos o carro e
pedimos para alguém do supermercado se podemos pegar as caixas de
madeira empilhadas do lado de fora, sempre arranjamos utilidade para
elas, pintamos, reformamos e damos vida para aquilo que foi
descartado pelos seres humanos descartáveis, sejam eles físicos ou
jurídicos…

Quando eu não bebo e você bebe, perco o rumo, me distraio, bato o carro,
durmo de menos sofro demais, viro as costas para o álcool que me
rouba o irmão, volto para casa chorando, não trabalho direito, não
consigo rir, não consigo arrancar sorrisos até perder o fôlego,
fico áspero, sem vida, sem perspectiva, sem ânimo… Morro um pouco
a cada porre seu… Você se mata um pouco a cada garrafa e não
percebe…

Quando ambos não bebemos, conversamos sobre tudo, consertamos o mundo, o
mundo nos conserta… Fico feliz ao ver teu sorriso sóbrio e receber
teu abraço caloroso… Já não temos pai nem mãe, temos um ao
outro e mais três irmãos… Somos uma família quando eu não bebo
e você não bebe…

Quando você está ébrio e eu sóbrio, a família desaba, divide opiniões,
divide vidas, tudo é desconfiável, o medo e a insegurança são
constantes, a festa acaba antes da hora e, às vezes nem começa…

Quando eu não bebo e você não bebe, a família se completa, lutamos
juntos, repartimos esperanças, as vidas são unidas e confiáveis,
somos fortes, nos divertimos, tudo vira festa…

Quando não convidamos a caninha, a festa dura mais tempo os sorrisos e a
felicidade são mais presentes… Somos, enfim felizes…

 

 

Márcio Roberto Goes

www.cacador.net

www.portalcacador.com.br

Jornal Folha da cidade

 

Leave a Comment

Recuo

Infelizmente, nossa jovem democracia ainda obriga as massas a radicalizarem para
que se cumpra seus direitos garantidos por lei… Não seria preciso,
se aqueles excelentíssimos eleitos por nós para criarem e fazerem
cumprir as leis, o fizessem, verdadeiramente, voltados aos interesses
do povo…

Estou voltando de uma greve de quase cinquenta dias, dos quais, participei
de trinta, resultando menos do que sonhávamos… Porém, já
conquistamos alguns avanços que, sem a pressão popular, jamais
seriam realidade, apesar de ainda estarmos aquém daquilo que manda a
lei federal…

Não fomos derrotados. Estes dias, aparentemente perdidos serão repostos
e, mesmo que não fossem, não são eles que vão definir o nível de
qualidade da educação pública em nosso estado… Nossos
governantes pregam uma educação de vitrine, gostam de construir e
inaugurar obras gigantescas e vazias, querem que cumpramos duzentos e
tantos dias letivos, mas não nos dão as devidas condições de
trabalho que começam num salário justo e vão até as salas
equipadas e escolas bem estruturadas…

Todos pagamos impostos, parte deles deveria ser destinada à educação,
mas nem aquilo que a lei manda chega integralmente ao destino, prova
disso foi o fato do governo federal negar ajuda ao nosso estado por
perceber, a meu ver de forma justa, que Santa Catarina tem dinheiro
de sobra para pagar o piso e melhorar nossas condições de
trabalho… Mas onde está essa verba toda?… Conferi minha conta
corrente e lá não está, portanto não sou culpado pela defasagem
do meu salário, nem pela situação precária em que se encontram
nossas escolas, apesar de muitas pessoas assim entenderem e acharem
justo aquilo que contemplam nossos contracheques…

Entendo que não voltamos à sala de aula derrotados, tivemos muitas
vitórias, colocamos a cara nas ruas, nos posicionamos contra este
sistema opressor que joga tudo de cima para baixo, esquecendo-se dos
protagonistas que estão diuturnamente em sala e vivem na pele a
situação que os engravatados tentam mascarar… Entenda-se este
fato como um recuo, pois a luta continua, ainda há muitos degraus a
serem subidos até a escola de nossos sonhos…

Valeu a pena ouvir críticas, pais indignados, governo estadual
desestruturado e desgastado pela situação que ele mesmo e seu
antecessor criaram… Valeu a pena até ser chamado de vadio por
aquela bruxinha sem vassoura. Valeu muito a pena ser reconhecido nas
ruas e na capa do jornal, recebendo inúmeras mensagens de apoio ao
nosso movimento… Valeu a pena lutar, de forma justa e legal pela
valorização de tudo aquilo que construímos ao longo de nossas
vidas no magistério público… Como disse a colega Amanda Gurgel:
“Não me sinto constrangido, quem deveria sentir-se constrangidos
com esta situação são os governantes”, afinal, como já escrevi,
receberam o voto da maioria para cuidar dos interesses do povo. Não
cumprir este papel, deveria ser motivo de grande vergonha…

Não me arrependo de nada nesta luta, assim como todos os meus colegas que
marcharam conosco… Volto de coração e alma limpos, por fazer
parte de um grupo de educadores conscientes e politizados que não se
calam diante das injustiças que nos rodeiam… Volto feliz pela aula
de cidadania a céu aberto nas ruas centrais de Caçador… Volto
orgulhoso pela coragem de não se calar diante de quaisquer
autoridades que foram procuradas por nós para discutir nossos
direitos… Volto agradecido ao apoio incondicional de muitos pais,
alunos, de uma fatia considerável da sociedade, do SINTE e de outros
sindicatos parceiros…

Enfim, volto para continuar esta aula de cidadania no melhor lugar para se
conhecer pessoas: a sala de aula. Volto com a certeza do dever
cumprido. Este recuo é apenas o intervalo do lenhador para amolar o
machado a fim de revigorar as forças para continuar a luta…

 

Márcio Roberto Goes

 

 

Leave a Comment

Meu pão de cada dia

 

 

Duas xícaras de farinha de trigo, duas colheres de açúcar, meia colher
de sal, uma colher de nata, fermento biológico e, se quiser, um ovo. Tudo isso
multiplicado por três, o número de pães que costumo fazer. Esta é
uma receita que, por ser relapso, não aprendi com minha mãe, mas
bem que poderia, pois até hoje não encontrei um pão caseiro melhor
que o dela… Na verdade, o segredo está nas mãos que o preparam e
não na receita em si, portanto nem tento fazer pães semelhantes aos
da minha progenitora, simplesmente os faço para consumo próprio o
que me rende uma considerável economia…

Estou diante de um deles, feito por mim… Este alimento consagrado e
símbolo do fruto de nosso trabalho. É tudo o que eu tenho no
momento: Um pão caseiro, meio pote de margarina e café o suficiente
para preparar algumas xícaras da bebida preta, pois nem leite se
encontra mais nas prateleiras… A geladeira igual às sessões
ordinárias da câmara de vereadores: quase vazia. Um punhadinho de
carne moída, algumas batatas para o molho do macarrão também
caseiro, um ovo, uma forminha de gelo cheia e inútil neste inverno
rigoroso. Nos armários, um pouco de arroz, feijão, sal e farinha de
trigo para fazer mais pão e macarrão…

Tudo isso seria o suficiente até o pagamento que estava agendado para
ontem. Meu contracheque? Este está ainda pior que a geladeira, quase
zerado, contas a vencer, cheques para entrar, boletos para pagar…
Será necessário um novo tratamento para o estresse?… Espero que
não, pois a greve é legal, direito de qualquer trabalhador.
Trata-se  de uma causa justa. Queremos que se cumpra a lei,
simplesmente… Porém eu e meus colegas grevistas fomos penalizados,
simplesmente por reivindicarmos uma educação com mais qualidade e
menos vitrine….

A nota que vemos na imprensa tenta convencer-nos de que o “Colombinho” e
seus queridos aliados foram muito além do que o governo tem
disponível para nossos honorários e pede que os professores voltem
ao trabalho… Estive na frente de batalha por trinta dias, voltei
antes das ameaças repressoras de um governo que enobrece só quem já
é nobre e mente que não tem verba para pagar o piso que é lei…
Muitos colegas, porém, continuam de braços cruzados em protesto
contra esta repressão mascarada de uma continuidade de governo que
nunca cumpriu com as promessas de valorização do magistério
público… Aliás, até hoje não vi nenhum engravatado eleito pelo
povo que trabalhasse realmente em prol dos interesses populares…

Há! Mas o governador é bonzinho!… Diante da pressão, prometeu rodar uma
folha suplementar reparando o desconto ilegal e desumano que
“quebrou” financeira e moralmente todos aqueles que ousaram lutar
por seus direitos… É assim com o pagamento deste mês, está sendo
assim com a regência de classe: Primeiro retira, depois devolve…
Qual é a intenção disso? Será que nosso ilustre governador espera
que sejamos eternamente gratos por ele devolver aquilo que nos tirou
ilegalmente?… Numa análise mais profunda, estamos diante de um
estelionato disfarçado de negociação salarial… E nos dias em que
sobrevivermos a espera da milagrosa folha suplementar, quem vai
custear os juros pelo atraso das contas?… Não será o Raimundo
que, com certeza tem sua mesa, diuturnamente recheada de guloseimas
pagas por cada um de nós…

Não que eu queira me queixar, mas não seria preciso esperar por um direito
já garantido há quase três anos enquanto degusto as fatias que
ainda restam do pão caseiro feito pelas mesmas mãos que digitam
estas palavras de protesto… Sei que, como eu, milhares de
educadores estado afora encontram-se na mesma situação lastimável,
simplesmente porque não baixaram as orelhas para os opressores que
se acham no direito de pagar um salário indigno da formação dos
educadores das nossas crianças e jovens que também esperam por uma
escola pública com aquela qualidade prometida nas campanhas
eleitorais…

De qualquer forma, já fui chamado de vadio e sobrevivi, não me dói
nada ser chamado de chorão… Sei que os gravatinhas do palácio
dificilmente lerão minhas palavras, mas se isso milagrosamente
acontecer, já imagino o comentário:

    • Ora! Larga mão de chorumelas e come teu pão bem feliz, grevista de
      bosta!

 

Márcio Roberto Goes

 

Leave a Comment