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Mês: maio 2011

Vadios

Durante nossa greve, semana passada estivemos mobilizados no início de uma certa noite, no semáforo da parte baixa da Avenida Barão do Rio Branco… Acompanhavam-nos faixas e cartazes expondo nossa indignação frente às atitudes de um governo estadual que não quer cumprir uma lei federal, fato que já constitui uma ilegalidade daqueles que deveriam lutar pelo cumprimento da lei, afinal foram eleitos pelo povo para representá-lo e defender seus princípios… Porém, existem outros interesses que precisam ser atendidos primeiro, principalmente daqueles que injetaram dinheiro, na maioria das vezes de procedência duvidosa, na campanha daquele que já foi eleito “colombo” quente e obediente aos princípios do capitalismo que financiou seu pleito…

Lá estávamos nós, fazendo nossa parte, “botando a cara na rua”,pedindo que se cumprisse a lei… Muitos populares se aproximavam,alguns solidários à luta, outros de cara feia, afinal interrompíamos o caminho dos conformados… Virei-me, por um momento para trás e, por entre a vitrina de uma loja infantil que tem nome de bruxa, entre os manequins e mostruários, vi uma moça bonita, certamente vendedora, balbuciava algo de forma a deixar dúvidas sobre o fato de querer ser ouvida… Mas pude ler claramente em seus lábios: V a d i o s…

Pois bem, sou um vadio que passou a infância e adolescência numa família que precisava lutar diuturnamente pela sobrevivência até que um de seus filhos, após ser explorado num chão de fábrica, resolve abraçar a profissão que julgava a mais importante e digna de todas: Professor…

Sou um vadio que estudou todo o ensino fundamental em escola pública, tendo que juntar as moedinhas para comprar os materiais e livros didáticos que, na época, não eram fornecidos pelo governo… Alfabetizado pela própria mãe e complementado pelas cartilhas: Barquinho Amarelo, O menino azul e o livro: Português Dinâmico de quinta a oitava séries…

Sou um honorável vadio que cursou, com a mesma dificuldade, o magistério: quatro anos e meio de ensino médio me preparando para ser professor das séries iniciais… Aprendi lá, muita coisa que nem mesmo a faculdade me ensinou…

Este que vos escreve, é um digníssimo vadio, beneficiário do artigo 170, única opção para os menos abastados cursarem uma graduação no início dos anos 2000, ainda assim, com direito a apenas trinta por cento de desconto no valor das mensalidades…

Mas, a partir da primeira fase do curso de letras, sou um vadio, orgulhosamente atuante em sala de aula, com um infeliz intervalo de dois anos num cargo de confiança, que só me despertou desconfiança perante a politicagem que ainda impera nos bastidores desta política que só dá poder a quem já é poderoso e empobrece quem já é pobre…

Desde que me tornei educador, sou um vadio que trabalha quarenta horas semanais para garantir uma remuneração que não representa nem a metade daquilo que outros profissionais com o mesmo nível de graduação contemplam em seus contracheques…

Sou um magnífico vadio que investiu numa pós-graduação que me deu o título de especialista em análise e produção de texto, a fim de ajudar meus amados alunos a descobrirem o escritor em potencial que existe em cada um deles… Sou vadio do tipo que mostra a cara na rua e na capa do jornal com um único propósito: Dar uma aula de cidadania, com a ajuda de muitos companheiros que ainda alimentam o sonho de uma escola pública de qualidade…

Este magnífico escritor meia-boca encerra com um recado para esta querida vendedora, extensivo a todos que ainda nos incluem o adjetivo “vadio”: Se você tem um emprego digno hoje, se sabe se expressar a ponto de ser vendedora e ter vocabulário suficiente para convencer o cliente da qualidade daquilo se propõe a vender… Enfim, se você é uma cidadã de bem, entre outros, é graças aos vadios como eu que passaram pela sua vida quando esteve em sala de aula…

Márcio Roberto Goes

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Cumpra-se

Não sei até quando um povo suporta ser pisado, massacrado e humilhado…
Só sei que, na qualidade de professor, estou indignado vendo nossa
classe ser tratada igual a porcos que ficam com os restos dos
outros… Qualquer profissão a nível superior, tem valorização
muito maior que a nossa em qualquer instância, seja particular ou
pública nas esferas municipais, estaduais, ou federal…

Tenho muito orgulho em ser professor, sinto muita vergonha pela falta de
consideração de alguns colegas que não lutam pela classe e,
principalmente, daqueles engravatados que foram eleitos por nós para
defender nossos interesses, mas sabemos que na prática a coisa é
diferente…

Desde 2008 existe um piso salarial para o magistério público, estipulado
pelo governo federal e, alguns governadores (inclusive o nosso que
mudou de sigla, mas continua defendendo os mesmos interesses
capitalistas engomados), acham-se no direito de negar aquilo que a
lei nos garante com a desculpa de que não há verba, ou é
necessário esperar uma decisão não sei de quem, blá, blá,
blá…. Primeiramente, o governo federal garante ajuda financeira
aos municípios e estados que não tiverem orçamento suficiente para
pagar o valor do piso aos profissionais de educação, desde que se
comprove a situação calamitosa… Nosso estado não se manifestou
para documentar a falta de verba, o que leva a crer que ela existe,
se não nosso governador já tinha pedido ajuda… Ou ainda, não há
interesse por parte das autoridades na valorização real e concreta
dos professores de escola pública… Sinceramente, voto nesta última
opção…

Vemos uma educação de vitrine, cheia de construções faraônicas,
superfaturadas e ocas, pois dentro destes prédios magníficos não
se encontra quase nada que possa, de fato, melhorar a educação como
um todo: estrutura, material de pesquisa e prática, valorização do
profissional… Simplesmente se inauguram novos prédios e o
professor é jogado lá no meio do nada, com uma construção linda e
vazia, sendo obrigado ao contorcionismo moral e intelectual a fim de
se fazer um trabalho realmente significativo na vida destes alunos…

Alguém me disse que seria melhor eu mudar de profissão, em virtude do
descontentamento, que existem pessoas com faculdade trabalhando em
pontas de caixa e no chão de fábrica; e por isso deveria me
conformar. Outro alguém me veio com esta frase: “A educação já
esteve pior!”…

Parece que os excelentíssimos se agradam com nosso conformismo, nivelam por
baixo, dão esmolas, dizem que já esteve pior, querem nosso sorriso
e satisfação, afinal está melhor que antes…

Pode até ter sido pior no passado, mas o presente poderia ser muito
melhor, não fosse o descaso das autoridades e de algumas pessoas da
comunidade, formadas por nós, que dizem ser perda de tempo esta luta
por melhores salários e condições de trabalho…

Não sou advogado, nem engenheiro, nem médico, valorizo cada um destes
profissionais, mas valorizo também o meu trabalho que, para ser
digno, precisou do mesmo tempo de formação que o deles, no entanto,
nossa recompensa financeira é menor… Não podemos esquecer, porém,
que qualquer destes profissionais, um dia precisaram de professores
para validar aquele diploma bonito que ostentam na parede…
Portanto, não se trata apenas de uma luta particular dos
professores, mas de toda  uma comunidade que dependeu, depende e
dependerá de nosso trabalho digno, honesto, magnífico e
desvalorizado…

Abono e gratificações não são salários… O piso é lei. Cumpra-se…

 

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Tô voltando pra ficar

Todo trabalhador tem direito ao descanso, a fim de revigorar suas forças
para uma nova jornada de trabalho. Além de ser um direito, a folga é
uma necessidade humana e combate o estresse…

Mas o ócio nem sempre é agradável, principalmente quando se ama a
profissão abraçada e se dedica a cumprir seu dever da melhor forma
possível…

Estive gozando de uma licença prêmio durante três longos meses da minha
vida, logo depois das férias de fim de ano, o que somam quase cinco
meses… Meu Deus! Cinco meses longe da escola!… Cinco meses
“azedando” na cama!… Cinco meses sem me comunicar com alunos e
professores!… Cinco meses de descanso. Verdade?… Mentira!…

Quando saiu a portaria da minha licença, pensei que não iria aguentar
tanto tempo longe da escola. Ao decorrer dos dias comprovei que minha
angústia era verdadeira, pois não deixei de visitar o educandário
que me faz feliz, periodicamente, apesar de alguns colegas
incomodarem-se e me mandarem de volta pra casa descansar: “Quando
eu pegar licença, não quero nem passar perto da escola.” Dizia
um… “Não vejo a hora de me aposentar!” Ponderava outro! “Você
é louco. Vá viajar, se distrair…”

De fato, segui o conselho deste: viajei, me distraí, passei uns dias
fora da cidade. Porém ao retornar, o primeiro lugar que mereceu
minha visita foi a alface gigante do Martello, meu querido Wandão…
Está certo que precisamos descansar, porém alimentar ódio pela
escola durante a folga é preparar a desgraça moral e intelectual
futura de professores e, principalmente, alunos…

Durante minhas férias prolongadas, muita coisa mudou ao meu redor: mudei de
jornal impresso, temos pela primeira vez, uma presidenta da
república, uma mulher também esteve a frente do executivo municipal
durante quase trinta dias, presenciamos uma inédita cassação de
prefeito e vice, e uma eleição indireta também inédita. A
oposição e a situação tiveram uma relevante e surpreendente
mudança de posição. Nomearam nova direção para nossa escola e
para a gerência regional de educação. Quiseram calar minha voz…
Quiseram me ouvir…

Para as más línguas, fui diretor de duas escolas estaduais aqui da nossa
cidade, traí e fui traído, quiseram minha retirada… Porém nenhum
fato comprovado, já que todos sabiam detalhes dos acontecimentos
cujo protagonista era eu, que não sabia de nada… Todos me
perguntavam, mas ninguém ouvia a minha resposta, ninguém sabia
minha versão, ou aversão…

Já as boas línguas orientaram os bons e maus ouvidos para me ouvir…
Conversei com jovens e adultos, alunos do CEJA de Caçador e Rio das
Antas… Iniciei um trabalho voluntário no projeto PESCAR CDL…
vivi grandes experiências… Ri e fui rido, Chorei e fui chorado…
Alegrei e fui alegrado… Li e fui lido… Ouvi e fui ouvido… Vivi
e fui vivido… Morri e fui morrido… Estudei e fui estudado…

Agora, estou de volta… Reinicio o trabalho que sempre me realizou e,
apesar de alguns me julgarem utópico e sensacionalista, sinto-me
extremamente feliz em poder ser este grão de areia na construção
de uma sociedade um pouco melhor… Dei a volta ao mundo sem sair das
redondezas: falei novas palavras e descobri algumas antigas, chorei
novos choros, sorri novos sorrisos, senti novos sentimentos, conheci
novos desconhecidos e desconheci velhos conhecidos… Errei novos
erros e acertei novos acertos, acertei velhos erros e errei velhos
acertos… Quebrei paradigmas, iludi, desiludi… Transformei e fui
transformado… Fui e voltei.

Voltei ao melhor lugar do mundo para se conhecer pessoas. Voltei para o
local de onde nunca deveria ter saído: A sala de aula, mas não é
qualquer sala, ela pertence a uma escola pública, o que a torna
ainda mais nobre…

 

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CEJA cidadão

 

Semana
passada tive a honra e a satisfação de fazer duas visitas ao CEJA
(Centro de educação de jovens e adultos). A primeira,
segunda-feira, na vizinha cidade de Rio das Antas, a convite da
professora de Arte, Marta Aparecida Goes que acumula o cargo de minha
irmã. Lá conversei sobre a arte de escrever com alunos, na sua
maioria moradores do interior da cidade e que, com muitas
dificuldades, se deslocam quilômetros para saciar a sede do
conhecimento, ainda que em tempo diferente da maioria dos seres
humanos…

 


havia estado outras vezes por lá, acompanhando a Martinha no
exercício de sua missão como professora de jovens e adultos. Sempre
fui bem recebido, respeitado e indagado em diversos assuntos do
cotidiano. Todos os alunos têm algo a dizer, lhes falta serem
ouvidos… Todos querem ouvir o professor, falta-lhes o interesse
sincero dos educadores… Mas, como nosso tratamento sempre foi de
amigos, estávamos livres destas barreiras, inclusive com a
professora…

 

Na
quinta-feira, foi a vez do CEJA de Caçador. A convite da professora
Marinês, lá estive e encontrei com a professora Kátia, ambas
minhas colegas de faculdade. Minha conversa com os alunos também foi
acompanhada pela professora Karem, todas as três habilitadas em
língua Portuguesa e Literatura, como eu….

 

Em ambas
as turmas, mesmo tratando-se passagens rápidas, conversei com alguns
alunos que me procuraram no final do evento. Todos tinham algo a
dizer e acrescentar nas minhas palavras, fossem elas escritas ou
faladas, alguns traziam comentários positivos, outros negativos,
outros ainda sugeriam assuntos para textos futuros, porém a maioria
queria mesmo expressar a satisfação e a admiração pelo fato de se
identificarem muito com aquilo que escrevi em determinado texto, ou
falei durante o encontro…

 

Esta foi
minha grande surpresa da semana: Existem pessoas crentes de que
minhas palavras foram escritas para elas, se identificam com o texto,
têm uma história semelhante para contar, riem, choram, indignam-se,
sentem vontade de mudar a realidade… Sei que não se trata de um
milagre das minhas palavras, mas da enorme vontade do povo expressar
suas ideias e, às vezes sentem uma certa realização sentimental ao
verem que alguém escreve palavras que os fazem buscar sentimentos,
muitas vezes sufocados por este mundo versátil, capitalista e
desumano…

 

Nos dois
casos, terminamos um pouco antes do horário costumeiro das aulas, o
que é, de certa forma bom para alunos do noturno que poderão
descansar mais cedo a fim de recuperar suas forças para o trabalho
no dia seguinte. Mas, tanto em Caçador, quanto em Rio das Antas, vi
alunos, mesmo já dispensados abordando as professoras para saber se
não teriam aqueles poucos minutos restantes de aula, indagando sobre
trabalhos, tarefas, ou pesquisas… Em todas as escolas em que
trabalhei, dificilmente encontrei alunos que reclamassem ao sair mais
cedo da escola, a maioria sentia prazer em “perder” tempo… Será
que isso é uma característica inerente aos jovens e adultos que não
querem nem precisam mais perder tempo? Ou será que não estamos
ensinando aos nossos alunos a verdadeira importância do tempo que
passamos nos bancos escolares?…

 

A
verdade é que nem sempre poderemos ter  uma segunda chance. Quando a
temos, agarramos de unhas e dentes, se não, corremos o risco da
estagnação que leva a inércia moral e intelectual: Tudo o que os

poderosos querem, pois um povo sem conhecimento é fácil de
manipular…

 

Cabe a
nós, profissionais da educação, sobretudo de jovens e adultos,
seja qual for a área de atuação, não deixarmos de levantar
discussões sobre assuntos, fatos e ideias cotidianas que regem
nossas vidas de cidadãos…

 

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