Press "Enter" to skip to content

Mês: abril 2011

A rocha

 

Estive
lá!… Não poderia me furtar ao direito de presenciar pessoalmente
este momento histórico do município que me viu nascer e crescer,
apesar da magnífica cobertura ao vivo da imprensa caçadorense…
Não adianta! Não dormiria em paz se não visse este fato ao vivo,
com estas córneas astigmáticas e ceratocônicas, perfeitamente
corrigidas pelas lentes anti-reflexo que escurecem ao sol e que quase
me custaram os olhos da cara, mas conseguem me dar um conforto visual
razoável…

 

Estive
lá outras vezes, porém, como nunca antes estive, lá estava… Vi a
“casa do povo” cheia até as beiradas. Era tanta gente que foi
preciso instalar um telão no rol de entrada da câmara de vereadores
para que todos pudessem ver e ouvir o que acontecia no plenário
Osvaldo José Gomes… Vi o pessoal apreensivo: os defensores da
situação querendo ficar, aqueles que defendiam a oposição
querendo entrar… Fiquei em pé, mas mantive minha carcaça presente
neste momento tão importante de nossas vidas…

 

Normalmente
se vê a oposição de um lado e a situação de outro. Neste dia,
porém, por conta da urna que ocupava um dos lados, situação e
oposição ocuparam, juntas, o mesmo espaço. Quiçá fosse o lado do
povo que anda tão esquecido por todos os lados que por lá passaram
ultimamente…

 

Estive
lá, e lá vi o juiz eleitoral falando da construção da democracia
ao longo da história mundial e justificando a legalidade daquele
ato. Vi dois candidatos de lados opostos prometendo tomar parte do
lado da população através de seus discursos que comoveram pelas
palavras argumentadas e embasadas nas experiências de vida e
política que ali pleiteavam a prefeitura de Caçador…

 

Vi um
por um dos vereadores levantarem-se de suas poltronas confortáveis
dadas a eles por nós e dirigirem-se, mediante aplausos dos presentes
até a cabine de votação, depositarem o voto na urna e voltarem
para a cadeira acolchoada e giratória daquele plenário… Vi a
população caçadorense, representada por aquelas oito gravatas,
mais o Adilsão que preferiu não usar estes trajes, votando de dez
em dez por cento, aos olhos atentos do juiz eleitoral, do promotor,
dos outros vereadores e da população ali presente… Vi os votos
sendo apurados, um a um, em silêncio pela mesa de honra e o
resultado divulgado pelo Carlão: O novo prefeito de Caçador é Imar
Rocha…

 

Vi as
pessoas que o apoiavam começarem a festa ali mesmo, numa algazarra
nunca antes vista naquele auditório… Vi a situação, de orelhas
murchas tornar-se oposição e a oposição transformar-se, de
repente, em situação… Porém, a festa maior foi da democracia que
permitiu a plena execução da justiça, ainda que tardia, já que os
antigos ocupantes do cargo tinham sido condenados por crimes
eleitorais ainda de 2008…

 

Estive
lá e vi, pela primeira vez, um prefeito ser diplomado e empossado
menos de meia hora depois de eleito. Na mesma votação, uma mulher,
Luciane Pereira, minha colega de profissão, eleita e empossada em
tempo recorde como vice-prefeita pelo mesmo partido da presidenta
Dilma, outro fato inédito por aqui… Vi o prefeito tomar posse na
presença do seu netinho que cantou o Hino Nacional melhor que muitos
dos presentes… Vi a prefeita em exercício, agora vereadora da
oposição, chorar ao ouvir as palavras do novo prefeito enaltecendo
seu trabalho naqueles quase trinta dias que ela esteve a frente do

executivo…

 

Vi que
ainda existe uma esperança de se romper com todos aqueles
contra-valores que vemos correndo soltos em cada eleição que
presenciamos… Vi e assim espero, que a democracia tome novos rumos
em Caçador… E que nosso novo prefeito, apesar de não representar,
em tese uma grande mudança, faça valer seu sobrenome. Tenho a
esperança de que esta rocha que agora assume o executivo, seja forte
o suficiente para resistir aos pedregulhos deste caminho castigado
pelo descompromisso que pairava até então…

 

 

www.cacador.net

 

www.portalcacador.com.br

 

Jornal
Folha da Cidade – Caçador, SC

 

1 Comment

Nas mãos deles

 

Não gosto muito de escrever sobre assuntos que todo mundo escreve, fala consistentemente, ou apenas comenta… Enfim, não me agrada dar pitacos naquilo que todos já estão “carecas” de saber, pois corro o risco de saber menos que os outros e escrever bobagens, apesar de não ter compromisso com a verdade nua e crua e sim com a análise subjetiva dela, deixo esta parte para os jornalistas. Sou apenas um cronista que sonha ser reconhecido pelas palavras que podem se tornar ação, não pelo dinheiro, pelas riquezas acumuladas, por mostrar o corpo no BBB, nem por ser um rico empresário de sucesso que cresceu explorando aqueles que fazem o milagre da produção e ficam com as migalhas daquilo que o capitalismo produz…

Mesmo assim, resolvi dar a versão de minha mente criativa e viajante para o cenário político local: Já tenho mais de três décadas de vida e, pela primeira vez, estou presenciando em Caçador um ato de justiça que a democracia permite, mas poucas vezes acontece em nosso país: Tivemos um prefeito julgado e cassado por seus atos ilícitos durante a campanha eleitoral, estes, a meu ver, inúteis, pois ninguém pode obrigar a outrem votar diferente daquilo que a sua consciência manda, a não ser que seja convencido por alguém que lhe apresente boas propostas que provem o contrário… Perdão! Acho que estou delirando com um povo politizado… Utopia de escritor meia boca que quer mudar o mundo!…

Pois bem, estamos diante de um ato inédito e histórico na capital da indústria desmatadora de florestas e exploradora de pobres, fato já divulgado para o Brasil todo em alta definição… Depois da cassação, pela primeira vez uma mulher assume o executivo municipal por um tempo além do licenciamento de um prefeito. Mesmo que seja por linhas tortas, estamos vivendo mudanças consideráveis na política que começa a mostrar uma cara nova… Bem! Nem tão nova assim…

Os cabides, cheios de intenções particulares, encontram-se apreensivos, pois temem perder o cargo conquistado com muito esforço, ou melhor dizendo, troca de favores. E o povo? Fica na plateia, quando na verdade deveria ser protagonista de sua história. Mas foi assim com os trabalhadores do contestado, continua sendo assim com os coronéis enrustidos que continuam mandando até nas vontades do povo humilde que hoje constrói a ferrovia moral para levar toda a riqueza para os engravatados injetando “compromisso” nos nobres cidadãos cassados pela justiça eleitoral…

Agora nosso futuro prefeito está nas mãos do legislativo… Qual dos vereadores recebeu seu voto nas últimas eleições? Foi consciente, ou aconteceu outra troca de favores?… Quantas vezes, depois do pleito, seu candidato voltou à sua rua, colocou o pé na poeira ou no barro, abraçou suas criancinhas e sorriu para você?… Quantas das promessas, o seu candidato, no caso de ter sido eleito, cumpriu?… Acha que ganhou ou perdeu seu voto?… Você conhece aquele cujo número foi digitado na urna por você?…

É esta equipe, eleita por nós, que vai escolher o novo prefeito… Portanto, aí está a maior prova concreta da importância do poder legislativo para um município, ele nos representa, cria e vota leis que podem mudar nossas vidas e junto com o executivo faz as coisas acontecerem. Ao povo cabe o papel de cobrança e fiscalização, afinal, esse pessoal está nos representando e agora no dia vinte vai votar, por nós, e escolher o novo prefeito.

Está tudo embolado, não se sabe se é este ou aquele, apesar de parecer óbvio, só sei que não podemos esperar, neste momento, uma grande inovação na administração municipal. Como disse no início, todo mundo sabe e todo mundo dá palpites, mas poucos atentaram para o avanço democrático em nossa cidade. Em anos de história de corrupção e compra de votos, finalmente uma punição que deveria servir de exemplo para as próximas eleições diretas que já começam a ser desenhadas a partir desta indireta que viveremos em breve… Estamos representados por oito pessoas com poder de voto, cada uma delas pesa quase dez por cento da população… Estamos nas mãos dos vereadores. Votamos neles, agora eles votam para escolher nosso prefeito…

Márcio Roberto Goes

www.marciogoes.com.br

1 Comment

Os desenhos da minha vida

De vez em quando é bom e se torna necessária uma faxina geral nas bagunças do dia-a-dia… É o que estou fazendo esta semana. Meu nariz não gostou muito, pois, onde tem poeira, existem constantes sequências de espirro para quem usufrui de uma rinite alérgica…

Fuçando os arquivos pessoais, mais precisamente aqueles referentes à minha história vivida na escola, encontrei uma pasta com meus desenhos da década de oitenta e início dos anos noventa… Meus cadernos de desenho eram sempre cheios, pois sempre ia além daquilo que a professora de arte (na época chamava educação artística) propunha… De certa forma, desenhei parte de minha história, porém como aconteceu com o narrador de “O pequeno Príncipe”, logo esqueci os desenhos e tratei de me preocupar com coisas mais adultas e menos sonhadoras, redescobrindo a importância dos desenhos em nossas vidas anos depois, com uma professora de artes visuais e artista em potencial, como eu…

Lá, nos desenhos de minha vida, relatei uma Páscoa de quando ainda não achava bobagem acreditar em coelhinhos que botam ovos de chocolate, também fui testemunha da greve dos professores de 1987, cujo desfile do dia sete de setembro foi um fracasso em virtude da falta da maioria dos mestres da escola que lutavam por melhores salários e condições de trabalho. Certamente, naquela época eu ainda não tinha a devida consciência do que tudo aquilo significava para os professores, tampouco para os alunos utópicos como eu que buscava a fuga para os problemas de uma família desestruturada nos cães e nos desenhos, além de fabricar meus próprios brinquedos com os conhecimentos de carpintaria passados a mim por um pai que raramente estava sóbrio…

Enfim, meus desenhos fizeram a minha história e logo comecei a aflorar minha veia humorística desenhando algumas caricaturas. Nada em especial, somente rostos caricatos que existiam na minha mente e ganhavam vida na ponta dos lápis de cor… Assim foi minha infância e parte da adolescência. Sempre era solicitado para ajudar os colegar nalgum desenho que lhes parecia difícil de começar…

Até que um dia me encantei pelas palavras e esqueci os desenhos… E hoje percebo que a comunicação se faz de várias formas e existem vários jeitos de se expressar as ideias e emoções, o desenho é um deles, a palavra é outro, ambos podem se completar e formar obras maravilhosas… Foi preciso eu desentocar meus rabiscos quase duas décadas depois para perceber o óbvio: A arte imita a vida e a vida imita a arte, o que nos faz ter uma visão mais clara dos fatos cotidianos, ou históricos, pois se trata de expressão e o ser humano se expressa de várias formas, basta abrirmos o coração e percebermos com maior ternura as obras de arte ao nosso redor…

Já passou pela sua imaginação que este espaço onde se encontra este texto só poderia ter sido desenvolvido por uma veia artística aguçada?… Alguém pensou em toda a arte visual e gráfica desta página que ora é lida por você. Meu texto está aqui, mas ao seu redor existem muitas coisas além da nossa imaginação, sintetizadas para agradarem aos nossos olhos… Pois é! Minha mente criativa e viajante começa a perceber que a arte não pode ser feita como monólogo, necessita de muitos olhos, ouvidos, cabeças e sentimentos para cumprir seu verdadeiro papel…

Voltando aos meus desenhos antigos, sinto que está na hora de resgatarmos o artista mirim que encontra-se preso lá no meio de nossas preocupações e trazê-lo ao mundo real. Quem sabe, pensando como crianças, poderemos resolver os grandes problemas de relacionamento da humanidade que tornou-se desumana poque esqueceu-se dos valores aprendidos na infância e sufocados pelo egoísmo do adulto que insiste em tomar o lugar daquele coração puro e utópico?…

www.cacador.net

www.portalcacador.com.br

Jornal Folha da Cidade – Caçador, SC

Leave a Comment

Vassourinhas encantadas

Era uma vez duas vassourinhas jovens, bonitas, perfeitas, de cerdas macias e cheias de sonhos… Uma verde, outra amarela, ambas de náilon da melhor qualidade… Fresquinhas, recém saídas da linha de produção que garantiu o sustento de vários trabalhadores, apesar de nenhum deles ter a merecida recompensa pelo milagre da produção…

Ainda na expedição de uma empresa qualquer ganhadora da licitação, conversavam sobre seus planos, uma ao lado da outra: “O que será de nós?”… Indagava uma. “Para onde iremos?”… Perguntava a outra. “Queria ser escalada para varrer a rampa do planalto, por onde passam muitas pessoas importantes”… Sonhava a primeira. “Eu gostaria de me instalar no gabinete da presidenta, com ar condicionado e todo o conforto possível, para varrer o caminho dos convidados mais especiais do país”… Delirava a segunda.. As duas sonhavam… Ambas queriam ser nobres… Viajavam em suas utopias…

Mas para as vassouras não é permitido sonhar… Seu destino cruel é amarrotar toda aquela cabeleira macia de náilon onde quer que seja para que tudo esteja limpo e arrumado, são eternamente dependentes das mãos que as operam… É preciso destruir-se para construir um ambiente mais limpo e agradável… Nunca deixarão de arrastar-se com suas cerdas coloridas para garantir a limpeza, a não ser que sejam adquiridas por uma bruxa que as usará como meio de transporte cortando o céu em voos rasantes… Mas isso só acontece nos contos de fada… É utopia, como os sonhos de nobreza das nossas amigas vassourinhas que juntas, formam o par mais famoso das cores da bandeira nacional…

E eis que nossas amigas foram levadas para o mesmo caminhão… “Será que teremos o mesmo destino?”… Perguntava ansiosa a primeira… “Espero que sim.”… Ponderava a segunda… E durante todo o caminho seguiam confabulando sobre seus sonhos de varrerem as sujeiras mais nobres deste país, penetrarem os ambientes mais chiques e importantes da nação…

Chegaram, finalmente ao destino, o entregador, antes de descarregá-las, deixa uma fresta aberta por onde a primeira pode ver o mundo lá fora… “E então, onde estamos?”… Perguntou a segunda… “Você não vai acreditar!” – “No palácio do Planalto?” – “Melhor!” – “Nossa! Então estamos no gabinete da presidenta?” – “Não estamos nem perto de Brasília, mas isso aqui é muito mais nobre!” – “Meu Deus! Viemos parar no vaticano?” – “Não exagera! Mas mesmo assim é um dos lugares mais importantes e edificantes do planeta” – “Diga logo! Onde estamos?” – “Veja você mesma!”…

E a porta se abriu totalmente. Puderam ver de perto uma escola pública estadual… Cheia de crianças brincando. Era hora do recreio, alguns adultos cuidando para que a infância e a adolescência perdidas não causassem nenhum problema. Enfim, uma escola normal…

“Que bom! – Disse a segunda – Vamos nos juntar às outras vassouras e fazer aquilo que nos cabe: limpar o chão por nonde passam os futuros gênios de nossa nação”…

“Isso é mil vezes melhor que a rampa do planalto!- Exclamou a primeira – pois aqui ainda passam pessoas de coração puro e com ideias que podem revolucionar aquela rampa lá de cima, tornando-a sinônimo de justiça e igualdade, se espalhando por todos os poderes de todos os estados e municípios!”…

Mas de forma desumana e cruel foram jogadas num armário onde deveriam esperar até que fossem úteis, o que não demorou muito, pois logo descobriram que seriam disputadas por quatro funcionárias que só teriam elas como materiais de limpeza por muito tempo… Porém, apesar de solitárias, sentiam-se realizadas ao perceber que varriam o caminho das pessoas mais nobres das nobres: os estudantes e seus mestres que juntos são a esperança de uma faxina moral na política e na igualdade de direitos garantida pela nossa constituição…

www.cacador.net

www.portalcacador.com.br

Jornal Folha da Cidade – Caçador, SC

1 Comment