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Mês: março 2011

Duas vassouras

 

 

Tenho dez anos de educação pública estadual, o que não quer dizer que já tenha visto de tudo, apesar de assim pensar a cada fato hilário, ou intrigante com que me deparo…

Já vi professores fazendo prevalecer a vontade da maioria e escolhendo, democraticamente seu diretor, mesmo sabendo que ainda se trata de um cargo de confiança do partido, ou coligação que estiver no poder… Vi também o corpo docente derrubando um diretor por não atender aos interesses das pessoas realmente envolvidas no processo educativo, sobretudo os alunos…

Porém, vejo muitos professores conformados, deixando as ordens autoritárias vindas de cima regerem suas vidas, como se fossem escravos do sistema… E na verdade, infelizmente o somos, mas assim será somente enquanto o deixarmos acontecer sem reagir, pois quando os pequenos se unirem, tornar-se-ão maiores que os grandes e os derrubarão…

Há algum tempo, ouvi uma diretora dizendo que não se deve dar espaço para o aluno argumentar, deve-se entrar na sala, imediatamente após o sinal sem parar para conversar com qualquer educando, manter permanentemente a turma quieta, um cheirando a nuca do outro. E quando alguém ousar levantar-se para expressar sua opinião, o professor deverá cortá-lo no ato. Segundo esta gestora, o professor deve manter o controle e não dar espaço para o aluno, senão vira bagunça… Na minha humilde opinião não acho que silêncio seja sinônimo de aprendizado e o aluno deve ser protagonista de sua história, para tanto, necessita ser ouvido por aqueles que estão encarregados de ajudá-lo a descobrir o gosto pelo conhecimento…

Outro dia, outra diretora disse a um colega, na sala dos professores de uma certa escola pública estadual de Caçador, que estava quase se aposentando e, quando isso acontecesse, ela passaria em cada escola onde trabalhou para cuspir no chão… Essa nem vou comentar! É por esses e outros fatos que a educação continua um caos…

Mas a maior de todas, ouvi de um colega: Numa outra escola pública, correu a notícia de que as autoridades competentes haviam, finalmente enviado materiais de limpeza. No outro dia, encostou um caminhão e descarregou, solenemente, duas vassouras… Parece piada! Só faltava chamar a imprensa e fotografar algum engravatado entregando as vassouras para as serventes… Mas segundo meu informante, a escola tem quatro serventes, o que é uma raridade… A solução seria fazer um rodízio para usarem as vassouras… E o pior é que, aquelas que estiverem de folga, não terão nem uma mísera vassourinha para encostar-se e bater um papo…

Trabalho numa escola pública, sei que nossos serventes fazem das tripas o coração para manter tudo limpo e em ordem, isso se agrava com a carência de materiais adequados de limpeza… Mas agora tudo está resolvido, pelo menos para uma das escolas estaduais de nossa cidade: lá tem duas vassouras novinhas, o que vai melhorar muito a qualidade da limpeza, a aparência da escola e o trabalho das serventes que ficarão muito mais confortáveis… Isso se não tiverem que fechar as vassouras numa redoma de vidro e esperar, como escrevi acima, que uma autoridade venha fazer a entrega oficial e dar a vassourada inaugural nos eleitores, professores, alunos e comunidade…

Mas logo teremos eleições e a chance de fazermos uma varredura naqueles que jogam nossos direitos no lixo com vassoura e pá… Será que conseguiremos fazer valer nosso voto, de modo a transformar em benefício público esta realidade que só dá poder a quem já é poderoso?

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Jornal Folha da Cidade – Caçador, SC

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No porão da marcha-a-ré

 

Lá em cima, estão os bem-sucedidos, eleitos, ou não pelo povo, usufruindo de todas as regalias legalmente pagas por aqueles que os elegeram (ou não)… Lá está o orgulho da nação, todos os nomes de peso na política e no empreendedorismo nacional. Fazem história… A própria história encarrega-se de contar as histórias de sucesso deles nos órgãos de imprensa e, futuramente, nos livros didáticos, fazendo nossas crianças e jovens acreditarem que só os “engravatados” constroem este país, ignorando as lutas populares, as guerras sangrentas por motivos fúteis, os conflitos em busca de dignidade e terra para todos, as manifestações populares em favor da democracia e tantos outros fatos cujo protagonista continua sendo o povo do porão da sociedade, mas quem leva a fama é quem dá o canetaço…

Aqui, no porão da marcha-a-ré, estão aqueles que escolhem o pessoal lá de cima, muitos deles sobem a partir daqui, usando-nos como degraus e depois esquecendo-se de suas raízes… No porão do capitalismo, existem ruas, como a tal José Ioos Júnior, que ao transitá-las, quando nos libertamos de um buraco caímos em outro maior e, nos dias de enxurrada, as crateras ferozes ficam mascaradas, como o pessoal lá de cima… Pavimentação meia-boca é o padrão dos porões, pois seus habitantes não são merecedores de algo melhor, no ponto de vista lá de cima… E a Albino Felipe Potrick, maior avenida de Caçador, que nem asfalto meia-boca mereceu ainda, nos seus quatro quilômetros e meio de extensão?

Lá em cima, desperdício e riqueza… Terno novo, apartamento de luxo, carro do ano… Aqui, no porão da marcha-a-ré, casinha de quarto e cozinha para oito ou dez pessoas, roupas doadas por alguma instituição de caridade e o transporte é a sola do sapato (quando tem), pois para caminhar menos é preciso pagar cada vez mais pelo transporte coletivo que agora tem as cores da cidade, mas ainda não vestiu as cores dos mais necessitados…

No sobrado, ou no terraço, estão aqueles que mandam no porão, apesar de ignorarem o fato de que só existe seu poder porque lhes foi dado pelo povo do térreo… Lá em cima, do bom e do melhor: desperdício a olhos vistos. Aqui embaixo, orienta-se a reciclagem e o cuidado com a natureza. Acontece que para cada saco de lixo de um habitante do porão, são produzidos cerca de setenta sacos pelas pessoas jurídicas lá de cima. Para ganharem mais dinheiro, é necessário produzir mais e quanto mais se produz, mais se polui… Enquanto isso, o porão da marcha-a-ré tem que reciclar, assumindo sua responsabilidade no processo de economia sustentável… E a responsabilidade lá de cima, quem assume?… O porão também, é claro!…

No porão, é jogado tudo o que se julga sem serventia, porém é daqui que vem o milagre da produção que enriquece o pessoal lá de cima… E os poderosos retribuem com aquilo que cabe ao porão: migalhas…

Mas no porão existe também muita gente boa, que sonha em subir as escadas e melhorar sua condição. Muitos conseguem e levam seus semelhantes consigo… Outros, porém, ao subirem o primeiro degrau, só têm olhos para cima, esquecem-se daqueles do degrau de baixo, que poderiam também participar da escalada. Seguem sozinhos e usufruem solitários das alturas. Talvez um dia, sejam jogados de volta ao porão pelo mesmo sistema que os ergueu… E aí, será tarde demais: o porão já não os reconhecerá como um deles…

Lá em cima, correm em quinta marcha, aqui embaixo, andamos em marcha-a-ré… E assim, enquanto um dos lados não mudar de direção, nos distanciaremos cada vez mais… Porém, transitamos numa esfera, um dia, poderemos nos encontrar no lado oposto e só vai sobreviver ao choque, quem estiver unido em maior número…

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Jornal Folha da Cidade – Caçador, SC

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