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Mês: fevereiro 2011

Desabafo na licença

 

Apesar de tudo, é bom saber que muitos dos direitos adquiridos pelos trabalhadores ainda permanecem intactos… Como funcionários públicos do magistério estadual, também temos alguns direitos e, ao contrário do que se pensa, outros (muitos) nos foram furtados: não temos fundo de garantia e não somos regidos pela CLT (consolidação das leis trabalhistas), ou seja, a assembleia legislativa e o senado podem brigar até altas horas pelo ridículo aumento do salário mínimo que não nos afetará diretamente, até porque não temos a mesma periodicidade de reajuste salarial e precisamos “viver na luta” para ter nossos direitos garantidos e cumpridos na prática…

Mas os trabalhadores do magistério público estadual têm a possibilidade de usufruir da licença prêmio de três meses após cada quinquênio trabalhado… Que coisa boa! Apesar de sentir muita falta da sala de aula, estou feliz no gozo de uma delas. Quando soube que foi aprovado o pedido de licença, já comecei a fazer planos: Viajar, visitar meus parentes, estar mais com meus amigos e familiares e fazer algo pelas pessoas que, por ventura, precisarem da minha ajuda neste período… Mas muitos dos meus planos necessitam de dinheiro para serem concretizados e os vi despencarem no abismo do desânimo quando conferi meu contracheque…

Acontece que nossos governantes que têm aposentadoria vitalícia milionária garantida depois de deixarem o cargo, pensam que um professor em licença não precisa de dinheiro: não lhe faz falta a regência de classe, não lhe importam as aulas excedentes e não precisa comer, pois até o vale alimentação garantido por lei, some da folha de pagamento… O pior de tudo é que, em nenhum momento, li no estatuto do magistério público estadual de Santa Catarina, qualquer parágrafo que dissesse que um profissional usufruindo de licença prêmio perderia honorários, nem mesmo os abonos… Enquanto isso, o Luizinho, o Pininho, o Pavão Misterioso e tantos outros, usufruem de uma “modesta” aposentadoria vitalícia de mais de vinte mil reais mensais como ex-governadores. Uma para cada mandato, ou seja, quem foi re-eleito recebe em dobro…

O que será que passa pela cabeça destas autoridades quando veem um cidadão obrigado a trabalhar sobre condições precárias durante trinta e cinco longos anos para conseguir uma aposentadoria miserável de R$ 545,00?… Pelo jeito, não passa nada em suas mentes, pois já perderam a noção de justiça, mergulhados no dinheiro do povo que nunca vai lhes faltar, pois eles mesmos já garantiram seus direitos em tempo vergonhosamente recorde…

Tenho muito orgulho em ser professor da rede pública, sinto-me feliz em poder contribuir com o futuro de nossas crianças e jovens. Estou nesta profissão, que chega a ser uma filosofia de vida, por amor… E é o amor pela escola que me permite continuar nesta jornada, porém dependemos das decisões lá de cima e, quase nunca, o povo aqui de baixo é consultado e raramente têm seus direitos garantidos sem precisar lutar…

Já escrevi milhares de vezes e vou escrever de novo: “Até hoje, não vi nenhum político, eleito por nós que trabalhasse, realmente pelo povo”… O que vejo são vitrines eleitorais que, no fundo, valorizam seus “amiguinhos” que financiaram a campanha esperando o (des)merecido retorno daqueles que já foram eleitos “com o lombo” cheio de encostos e compromissos firmados longe das vistas dos eleitores…

A eles, nosso voto de confiança… A nós o descaso deles… Quem não acredita, faça uma visita às nossas escolas públicas e verá prédios praticamente novos interditados, cursos técnicos sem a mínima estrutura necessária para um bom aproveitamento, uma merenda terceirizada cujos funcionário que a fazem raramente recebem salário… Claro que o lanche é de qualidade nunca vista na escola pública, mas os trabalhadores que a produzem deveriam ser merecidamente valorizados… Sem falar na desvalorização dos profissionais da educação, cuja recompensa por uma vida inteira de estudo é um salário que, nem de longe se equipara com outros profissionais com o mesmo nível de formação… E durante a licença, do pouco que nos foi garantido, metade é abortado… Uma lástima!…

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Jornal Folha da Cidade – Caçador, SC

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Lava-rápido

Lavação rápida 

 

Quando aquele palitinho de dente começa a inclinar-se para a esquerda no painel, rumo à região vermelha é hora de abastecer novamente… Encontrado o posto, é só dizer ao frentista o que deseja e deixar que ele faça sua parte…

– Gasolina, ou álcool?

– Gasolina.

– Comum, ou aditivada?

– Comum…

Enquanto completa o tanque, o funcionário do posto, certamente orientado por seus superiores que visam sempre o maior lucro possível, faz outra série de perguntas, um verdadeiro interrogatório que, por vezes, chega a ser entediante…

– Água e óleo?

– Tá tudo certo…

– Extintor?

– Em dia…

– Parabrisa?

– Inteiro…

– Quer que jogue uma água no parabrisas?

– Não! Prefiro um vale-ducha…

– Quer pôr um aditivo na gasolina? De vez em quando é bom…

Depois de concordar com a ideia, percebo o quanto fui relapso. Afinal, qual a razão de usar gasolina comum e depois adicionar um aditivo?… Não seria melhor e mais barato abastecer com aditivada duma vez?… Vitória do capitalismo!… É, depois de posto, não tem como tirar o aditivo do tanque, a não ser queimando junto com o combustível….

Pois bem! Resolvi gastar o vale-ducha no mesmo dia… Fila de doze carros precisando de água. Esperei pacientemente a chegada da minha vez e, tomado pela preguiça, permaneci dentro do veículo durante a lavagem… Um esfregava daqui chacoalhando todo o meu veículo oficial, outro jogava água dali com uma pressão que dava medo… Descobri que entra água entre os vidros… Descobri também que a limpeza exterior é muito importante, porém, meu “fiestinha branquelo” permanecia sujo por dentro. Tapetes embarrados, poeira no painel, impressões digitais nos vidros, uma lástima… Mas a lataria estava limpa e isso é o que importa, pois é o que os outros veem, a limpeza interior pode esperar mais um pouco…

O carro, no momento em que estamos dirigindo, é uma extensão do nosso corpo, pois qualquer veículo motor perde sua motricidade se não houver uma vida humana orientando seus movimentos. Por sua vez, o automóvel é também uma extensão de nossa vida… Se ficarmos esperando um vale-ducha para começar a limpeza, estaremos remetendo esta responsabilidade para outrem… E pior, enquanto fazemos uso só da lavagem de aparência, jamais nos tornaremos pessoas realmente limpas. Aos olhos dos outros, um brilho falso que acompanha a maioria das autoridades eleitas por nós… Por dentro, no entanto, a coisa é diferente: sujeira em cima de sujeira, afinal ninguém verá se não estiver no interior do veículo, e quem estiver lá, tem uma grande chance de fazer parte da mesma sujeira perfeitamente camuflada depois de uma ducha caprichada…

Nos carros e na vida, nem sempre o que vemos é a essência… Nem sempre as imagens revelam o que existe no interior.. Enquanto assim for, continuaremos iludindo e sendo iludidos pela ducha do sistema…

Márcio Roberto Goes

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Jornal Folha da Cidade – Caçador, SC

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A folha

 

Já fui uma semente, que brotava lentamente em busca do sol… Lá debaixo da terra procurava as profundezas e o infinito, queria criar raízes sólidas, porém subir cada vez mais alto em busca de liberdade… Sonhava… E lá no fundo de meus sonhos, delirava… Queria estar ali, queria sair dali, crescer, buscar novos horizontes, conhecer outras terras, outras raízes, outras sementes, fazer parte de outras realidades… Viver… Interagir…

Fui arbusto que continuava a buscar o chão e o céu concomitantemente, sonhava ter um caule resistente, sustentar galhos e folhas, dar frutos… E dos frutos, novas sementes… E das sementes, novos arbustos sonhadores…

Cheguei a ser árvore, com raízes profundas, acolhi outros seres, igualmente, dando-lhes sombra, porém, um vegetal não pode mover-se por si só, depende da força motris de outros seres, do vento, das chuvas. Não pode partilhar sombra e frutos além dos limites estipulados pela lei da natureza… Mas eu queria mais, não bastava ter raízes, buscar o solo e o céu… Não me agradava saber que a única coisa perceptível a outros seres era a sombra, ignorando todo o tempo, esforço e dedicação necessários para produzir este merecido conforto, que por sua vez, não deixa de ser momentâneo…

Então, na tentativa de buscar o infinito, a tão sonhada liberdade, tornei-me folha, na copa, no ponto mais alto da minha árvore vital… E de lá, pude ver o mundo de uma nova perspectiva, tudo parecia diferente, vi sementes caindo, imaginando que estavam mergulhando no caos da podridão fétida, porém fértil e, em poco tempo, brotando novamente para a vida, buscando o infinito como eu… Vi arbustos curiosos, procurando descobrir o mundo ao seu redor, mas sem se descuidar da luz do sol nem da seiva da vida… Vi árvores anciãs, com raízes tão profundas que, a elas, já não importavam mais o que havia acima, ou nas profundezas…

Minha árvore incomodou-se ao ver uma de suas folhas buscando o infinito, queria exclusividade, não se agradava ao vê-la, tão pequenina, interagindo com o resto do mundo, ninguém mais deveria ter o direito de olhar para aquela folha, a não ser que olhasse primeiro para a árvore grandiosa, magnânima e egoísta… Recusou-se a fornecer a seiva da vida e, involuntariamente desprendi-me…

Ao desprender-me, cheguei ainda mais perto do céu, fui ao chão e ao céu novamente… Percebi que tudo é composto de ciclos, quando acaba um, começa o outro… O fim de um, não significa o fim de tudo, tampouco o começo de outro, não quer dizer o começo de tudo… Trata-se, apenas de uma transição e, através dela, a evolução, às vezes obscura, mas necessária…

Hoje sou apenas uma folha, buscando o infinito, sem esquecer, porém das raízes e dos outros seres que encontrei nesta jornada… Uma entre tantas outras folhas que se desprenderam dos galhos em busca de liberdade… Uma entre tantas rejeitadas, simplesmente por quererem ser mais do que um reles fragmento de vegetal que, embalado pelo vento, bate continência diuturnamente para o mesmo tronco que se acha dono de todas as folhas…

Sou só mais uma folha, livre deixando as palavras fluírem espalhadas pelo vento procurando outros seres a quem possam ser úteis… Vou levando a vida, fazendo minha parte a espera do dia em que o outono da vida me torne uma folha ceca e inerte. absorvida pela terra a fim de alimentar outra semente sonhadora como um dia fui…

Sou apenas uma Folha… da Cidade…

 

 

Márcio Roberto Goes

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