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Mês: janeiro 2011

Uma tarde no Martello

 

“Vitor!… Vitor!”… Uma voz insistente de criança interrompe meu sagrado soninho da tarde… “Vitor!… Vitor!”… Quem é Vitor?… Esse cara é surdo, ou não conhece o próprio nome? Onde anda essa criatura que uma pobre criança precisa estar clamando por seu nome no meio da rua?… Não sei o que me incomoda mais nesse momento, a interrupção da soneca ou a curiosidade. Olho para a rua, não vejo nada nem ninguém. Volto a deitar meu pobre corpo seco sem futuro na minha confortável cama box ao lado da mulher que me ama e não parece nem um pouco preocupada com o desaparecimento do Vitor…

Mais que depressa, minha tentativa de recuperar a soneca perdida é interrompida por um estrondo longo e retumbante vindo da rua de cima, uma das poucas pavimentadas não só no mapa… Foi uma carreta cujo motorista esqueceu-se da lombada e a frenagem não foi suficiente agitando todo o veículo, a rua e as casas ao redor… Na janela, só eu, minha linda acorda repentinamente, mas volta a dormir resmungando alguma coisa, nenhum outro habitante daquelas redondezas parece se importar com o sucedido, o que me leva a crer que estão todos acostumados com esse tipo de evento…

Já sem sono, deito só para cumprir tabela… Aproxima-se o rap do pica-pau, num carro de som… a música é interrompida por uma voz feminina: “Alô criançada! O carro do picolé está passando na sua rua… São cinco picolés por um real…” Poxa vida! O mundo oferecendo picolés baratinhos e eu aqui torrando no quarto tentando perder tempo numa soneca vespertina… Neste momento descubro que sou um legítimo bocó… Assumo minha bocozice e continuo deitado de olhos fechados… E o Vitor, pelo visto, continua sumido…

“Alô, alô freguesia!… É o caminhão do alemão que tá passando na sua rua…” Meu Deus! Pelo visto, vim morar na rua mais importante do bairro Martello, tudo passa por ela, é uma verdadeira feira livre sobre rodas. E o alemão prossegue sua propaganda… “É só o freguês dar um sinalzinho que o caminhão já vai parando, parando e vendendo barato, vendendo barato para vender bastante… Hoje tem a promoção da banana, cinco quilos de banana por três reais… Aproveita freguesia!”… Não acredito! Banana baratinha no caminhão do alemão e eu aqui, curtindo o ócio improdutivo. Mas antes que eu pudesse tirar a ramela do zóio, o alemão sumiu… Deve ter ido se encontrar com o Vitor, pois até então não conseguira identificar o semblante de ambos…

E a tarde prossegue nesta sequência:É o carro do picolé!… É o caminhão do alemão!… Banda Dejavu prá cá, Pan pan americano prá lá, no som de veículos cujos donos são muito generosos, pois compartilham com todo o bairro as canções que ouvem… Canções?… Nada, só consigo identificar a batida dos graves, de vez em quando identifico alguma coisa da letra… Vitor!… Vitor!… Ué! O Vitor continua sumido?… Quando abro a porta para sugerir que o pobre menino procure ajuda, sei lá, ligar para a polícia registrando o desaparecimento… eis que o Vitor aparece!… Lá vem ele abanando o rabinho, com as orelhas baixas pedindo um pouco de carinho… Quem seria capaz de dar nome de gente para um cachorro?… Certamente alguém que quis homenagear uma pessoa muito querida, pois sendo o cão um animal fiel, que ama incondicionalmente, merece receber o mesmo nome de pessoas que tenham estas características… E o meu cãozinho que se chama Gerúndio?… será que desperdicei uma oportunidade de homenagear alguém merecedor? Não sei! Só sei que terminei minha tarde ao computador registrando de forma crônica os acontecimentos.

Penso que substituir a soneca pela escrita tenha sido uma boa troca, enquanto isso, a vida continua no Martellão, com o Vitor, o carro do picolé, o alemão, a música generosa e gratuita e um bocó que registra tudo com o seu ponto de vista e ousa chamar de crônica…

 

Márcio Roberto Goes

www.cacador.net

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Qual é o meu talento?

Participando, no fim do ano passado, do trabalho de algumas acadêmicas do curso de Artes Visuais, sob o título “Qual é seu talento?”, comecei raciocinar e analisar esta pessoa que vos escreve referente a talentos desenvolvidos durante toda uma vida…

Quando era criança, eu me encantava com o trabalho de um carpinteiro, que por coincidência era meu pai. Ele me deu algumas noções de seu ofício. Hoje, me viro bem com os reparos domésticos, mas meu velho pai morreu no dia da árvore, em 2006. Será que herdei o talento dele?… Acho que não, pois o que sei de carpintaria serve apenas para consumo próprio…

Já trabalhei no comércio e, com certeza, este não faz parte do conjunto de meus talentos, pois em três meses de experiência, descobri o quanto os trabalhadores desta área sofrem, principalmente em época de fim de ano, sendo obrigados a trabalhar até sabe Deus que horas da noite e no outro dia recomeçar a rotina como se nada tivesse acontecido…

Em determinado momento de minha vida fui um projeto muito meia boca de enfermeiro. Não deu certo. O motivo? Conversava demais com os pacientes e atrasava todo o trabalho, horário de medicações, etc. É, mais uma alternativa frustrada de encontrar meu talento…

Já fui locutor de rádio, lá nos idos dos anos 90, tinha uma certa audiência e até hoje tenho amigos que conheci naquela época, mas durou pouco, cerca de três anos. Hoje ouço minhas gravações daquele tempo e concluo que eu era muito ruim. Pois bem, já percebi que este também não é meu talento…

“Tá” certo, vamos tentar encontrar alguma coisa na área acadêmica… Quando comecei o ensino médio, optei pela contabilidade. Reprovei, é lógico! Nunca me dei bem com os números, mas naquela mesma escola, o Paulo Scheffler, havia um curso que me chamava especial atenção: o Magistério… E foi lá que encontrei o caminho para nunca mais sair da escola pública, onde estou até hoje. Depois de uma faculdade de Letras e uma especialização em análise e produção de texto, vejo que meu destino é no melhor lugar do mundo para se conhecer pessoas: a sala de aula… Será que meu talento é ser professor? Também não sei e acho que vou levar esta dúvida para o cemitério…

Parece fácil identificarmos os talentos de outrem, principalmente para um professor, mas quando se trata de nós mesmos, a coisa muda de figura. Sabemos o quanto nosso aluno sabe calcular, identificar os pontos cardeais e colaterais, escrever bons textos, desenvolver as artes… Mas não sabemos daquilo de que somos capazes… E, normalmente, podemos mais do que acreditamos… Somos maiores do que pensamos…

Bem… Na faculdade comecei acreditar que eu poderia ser escritor, mais precisamente cronista. Já que algumas pessoas dizem que crônica é tudo aquilo que o escritor chama de crônica, então resolvi batizar assim meus escritos… Desde então, escrever tornou-se minha paixão e segunda profissão, apesar de nunca ter ganho dinheiro escrevendo…

Mas, qual é meu talento, afinal?… Não sei… Elenquei alguns aí em cima, acho que os tenho todos, ou não tenho nenhum… Sei lá… Como diria Sócrates: “Só sei que nada sei”…

Márcio Roberto Goes

www.cacador.net

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