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Mês: dezembro 2010

O estranho de cristal

Por Daniel Portela Nunes

Daniel portella Nunes, Professor de História. EEB Wanda Krieger Gomes, Caçador, SC.

 

Enquanto secava o vidro do espelho embaçado, depois do banho, pensava na quantidade de vezes que já repetira aquele gesto. Aquela mesma forma de segurar a toalha de rosto com a mão direita. A expressão fingindo surpresa ao deparar-se com os cabelos desgrenhados, os olhos vermelhos pelo excesso de xampu, a mesma forma de segurar o velho pente escuro mal cheiroso enquanto recolocava a tolha de volta em seu lugar. Tentou repartir o cabelo de forma diferente, como já fizera milhares de vezes, mas ao abrir os olhos, novamente não viu uma figura recomposta e sim o mesmo rosto de tantos outros outonos.

Aproximou o nariz cada vez mais daquela figura estranha e patética que o observava de outra dimensão até o ponto de se tocarem. Sua respiração tornou a embaçar a boca e o nariz de cristal, muito mais séria do que ele sempre imaginou. Franziu as sobrancelhas e lançou um último e fulminante olhar. Semelhante a uma luta de espadas eterna onde os combatentes se defenderiam com tanta paixão fosse por ódio ou por amor. Então recuou. Soltando de leve a respiração para comemorar a vitória. A toalha de novo, o pente de novo, o cabelo, desta vez para o lado certo, logo iria à sala e a poltrona. Novamente vencera o desafio, a provocação.

Mas dessa vez sentia nojo, raiva. Perguntava ao estranho desconhecido: O que ele estaria fazendo? Onde queria chegar? Realmente pelo quê era isso tudo?

Fixando novamente os olhos percebeu que tanto fazia se os mantivesse abertos ou fechados. O estranho de dentro do vidro o fitava até mesmo no escuro de seu quarto, no vazio de sua cama onde por várias vezes tentou imaginar-se sem um corpo. Sem pernas doídas, sem braços cansados. Apenas energia e consciência vagas nos labirintos do nada inequívoco e ainda assim o encontrava em algum canto com um meio sorriso em algum canto da boca e um martelo nas mãos a contar e julgar suas ações.

Às vezes discutiam, às vezes trocavam confidências e às vezes enquanto um trabalhava, o outro cantava feliz em uma praia deserta. De vez em quando invertiam.

Varias vezes se perguntara: Qual dos dois seria o verdadeiro? A figura do martelo na mão e dos cantos escuros (ou claros) da consciência? Ou aquele do lado de cá da bancada onde poderia segurar o pente e a toalha e depois correr se refugiar na poltrona?

Antes de abrir a porta do banheiro, uma rápida olhadinha para trás, um sorriso e a sensação de ter vencido mais uma vez. Até quando não sabia.

Daniel Portella Nunes

Professor de História

EEB Wanda Krieger Gomes

Caçador, SC

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