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Mês: novembro 2010

Saudade dos oitenta

 

Na década de oitenta do século vinte, pisei pela primeira vez numa sala de aula e dali pra frente a escola pública se tornou proprietária do maior tempo útil da minha vida… Quanta diferença com o passar dos tempos…

Sou da geração que começavam as aulas no dia primeiro de março, julho era todo férias e no dia primeiro de dezembro estávamos todos em casa, com ou sem exames finais. Não se ouvia falar da obrigatoriedade de duzentos e poucos dias letivos, nem no fato de se inventar cinquenta e poucos tipos de eventos aos sábados para completar a carga horária… Fui alfabetizado pela minha mãe, o barquinho amarelo e o menino azul: métodos já em desuso graças a Freud, Piaget e Vigotski…

Desde pequeno já acompanhava o descaso com a educação pública, principalmente na valorização do profissional… Vi o primário e o ginásio se tornarem primeiro grau e depois, ensino fundamental; o colegial se transformar em segundo grau e, por fim, ensino médio, sempre mantendo a essência e a luta por uma educação pública de qualidade. Fui presidente de grêmio estudantil, estive presente nas lutas pelos direitos dos estudantes… Só faltou eu ser preso, ou exilado. Neste caso poderia pleitear a presidência da república…

E eis que o destino me trouxe de volta a sala de aula compondo o corpo docente efetivo da rede pública estadual de Santa Catarina… Nunca vi grandes avanços naquela educação que tive, como aluno, nos anos oitenta, a única diferença é que, hoje, o professor tem menos autoridade e mais responsabilidades sobre a vida e a formação de seus alunos, mais até que a própria família. Fazemos papel de pai, mãe, psicólogo, enfermeiro, confessor, irmão mais velho, conselheiro… Ou seja, somos multifuncionais por um salário composto metade por abono que é ilegalmente furtado durante qualquer tipo de licença que o profissional da educação precise, ou resolva usufruir…

Como se não bastasse, o estado demora a despertar para o ensino fundamental de nove anos, nos obrigando a mendigar aulas por aí, já que não será possível abrir turmas de quinta série, nem de sexto ano no próximo ano letivo, causando um efeito dominó que trará efeitos colaterais por, no mínimo quatro anos… Nem o “Silveirinha”, nem o “Pinho”, tampouco o “Pavão Misterioso” resolveram este problema. Agora me chega um cara “Co lombo” quente, acompanhado, de novo pelo “Pinho”, defendendo os mesmos interesses capitalistas dos outros dois, fato que me faz pensar se ainda existe alguma esperança de progresso na educação como um todo… Porém, duma coisa tenho certeza: Continuaremos vendo cascas de escolas, lindas e vazias sendo construídas e inauguradas, alimentando uma educação de vitrine que dá voto, mas não melhora em nada a vida dos estudantes e dos profissionais, nem a qualidade de ensino…

Mas a gota d’água veio pela voz dos ilustríssimos que inventaram que quinta série equivale ao quinto ano, o que não é verdade, pois o primeiro ano substituiu o pré-escolar, de modo que o quinto ano equivale a quarta série… Só estão querendo, pela falta de noções matemáticas, que o nosso aluno retroceda um ano, o que é ilegal… Mas para corrigir um absurdo, criou-se outro: o aluno de quinta série, teoricamente, não poderá ser reprovado, pois não existirá nenhuma turma equivalente na rede estadual no próximo ano letivo… E aí ocorre o efeito dominó de novo… Ou seja, por no mínimo quatro anos, corremos o risco de ter que “empurrar” alguns alunos não aptos pelo resto do ensino fundamental, acionando uma bomba relógio que há de explodir lá no ensino médio e, em menos de uma década denegrir totalmente o ENEM…

Queira Deus que eu esteja errado, mas pelo caminho que se desenha, estamos rumo ao caos da educação pública… Que saudades dos anos oitenta!…

Márcio Roberto Goes

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Coração alado

Fonte: moisesaugusto.blogspot.com
Fonte: moisesaugusto.blogspot.com

 

Quarta-feira, logo após o dia de finados. Depois de um feriadão, fica até difícil subir as escadas… Meus pés não obedeciam ao comando do cérebro para mudar os passos rumo ao terceiro piso, onde ficam os cursos de ensino médio, mas meu coração é apaixonado pela educação e, se os pés não obedecem ao cérebro, são submissos ao sentimento passional que os guia até o melhor lugar do mundo para se conhecer pessoas e estar perto da juventude: a sala-de-aula…

Mas minha rotina retomada depois do merecido descanso é bruscamente interrompida por um cadáver em pleno corredor da escola… “Meu Senhor da Glória!” O que é isso?… O pior é que, cada aluno que passava por perto não sossegava enquanto não dava um chute no miserável do defunto que , ao que parecia, era fresco, a julgar pela consistência e indolência daquele corpo cadavérico e solitário de um pobre passarinho…

Aparentava ser um pardal… Meio cinza, meio preto, meio… sei lá… cor de burro quando foge… Ou melhor, cor de passarinho quando morre… Só sei que meu coração passional pela educação se sentiu comovido por aquela cena desumana se desencadeando em minha frente. Interrompi a tortura futebolística necropsial para tomar conhecimento da situação… Pouco adiantou, pois ninguém sabia dizer o que houve com a pobre ave falecida…

Pois bem, meu coração que já quase esquecera do compromisso com os alunos, guiou meu cérebro para buscar uma solução, afinal, ninguém pode trabalhar sossegado sabendo que lá no corredor existe um pobre corpo que perde a inércia por causa de outros corpos que se julgam melhores só porque estão ainda vivos e têm pés maiores que o cadáver em questão, achando no direito de chutá-lo sem dó nem piedade…

Peguei o pobrezinho pela cauda e o desloquei até a direção, a fim de se tomar as devidas providências… Enquanto descia aos olhos admirados dos demais estudantes e professores que por mim cruzavam, pensava em como dar um enterro digno àquele pobre ser que chegou ao fim de seus dias como eu gostaria: dentro de uma escola pública…

Joga no lixo! – Disse o diretor, parecendo não dar a devida dimensão ao problema… Lixo? Devo jogar um pobre animal morto no lixo?… E os sentimentos mais sublimes de amor a vida, onde ficam? Só porque era uma ave bem menor que os seres humanos, não mereceu nem mesmo uma cova, por mais rasa que fosse… Pobrezinho!… Miseravinho!… Meu coração, neste momento quase saltou pela goela de tanto dó, mas tive que cumprir a ordem do meu superior…

Porém, onde jogar? Na coleta reciclável não dá: não era plástico, nem metal, ou papel, tampouco vidro… Era uma vida que, apesar de breve, cumpriu seu papel no mundo dos vivos… E tudo o que tem vida, mesmo depois de perdê-la, é matéria orgânica… Então, a única opção era o lixo orgânico, separado dos outros latões bonitinhos e coloridos, fétido, abandonado num canto da escola de forma que o caminhão da coleta possa recolhê-lo e jogá-lo num lixão. Quiçá ainda sirva de adubo para uma outra vida vindoura, seria melhor que entupir um ralo e causar um alagamento num dia de chuva forte…

Tive meus trinta segundos de gari e levei-o até o lixo, mas antes dei uma última observada naquele pobre corpo cheio de penas e já vazio de vida. Seus pequenos pulmões já não sentiam o vir do oxigênio e o ir do gás carbônico, seus olhos já não enxergavam mais o mundo ao seu redor, já não ouvia o canto de seus amigos… Jamais poderia voar novamente rasgando os céus, coisa que o homo-sapiens nunca conseguiu sozinho, precisou anos de estudo até se criar uma máquina capaz de voar como os pássaros que simplesmente se deixam levar pelos ares. São livres, planam quando querem, não dependem de mais nada, nem ninguém…

Mas a vida é curta, seja para os seres humanos, ou para os pássaros… A morte leva quem voa e quem não voa, não faz nenhuma distinção de sabedoria, ou de habilidades. Quando é chegada a hora, nenhum ser escapa… Como dizia minha finada mãezinha: “Pra morrer, basta estar vivo”…

Márcio Roberto Goes

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“Tô enem aí!”

 

 

Este ano, trabalhei no ENEM… Prestei um trabalho que dignifica qualquer pessoa, afinal, não é para qualquer um monitorar uma prova que mede o conhecimento de alunos concluintes do ensino médio em nível nacional… Porém, vi muita coisa que nunca esperava presenciar num exame desta estirpe…

Sábado, estávamos todos presentes à reunião inicial, nós, a polícia militar e os malotes que mais pareciam o saco do Papai Noel, pontualmente às dez horas, horário de Brasília. Recebemos todas as orientações para que as provas fossem realizadas de forma mais justa e inviolável possível…

Já na sala, ao meio dia, esperávamos ansiosos pelos protagonistas daquele evento: os alunos, que chegavam um tanto apreensivos, meio ressabiados, sem saber o que lhes esperava… Na verdade, nem nós sabíamos. Tão grande era o segredo daquelas provas, que nem mesmo o MEC tinha conhecimento do que nos esperava…

À hora marcada, demos as instruções para os pupilos. Coisas do tipo: Não pode usar celular, nem qualquer outro tipo de aparelho eletrônico durante a prova, para ir ao banheiro seria necessário a presença de um fiscal, só até a porta, é claro!… E outras coisas mais, já ditas em rede nacional pelo “Gabriel o Pensador”…

Faltando cinco minutos para o início das provas, abrimos os envelopes após a certificação de que estavam realmente lacrados e de lá saltaram cadernos brancos, rosas, azuis e amarelos, estes últimos já marcados com o selo da discórdia… Tudo transcorreu normalmente, até que alguém notou que os títulos do gabarito estavam invertidos… E agora?… Liga pra Brasília!… O que fazer?… Não sei! Só sei que fomos orientados a orientar os alunos a seguir a numeração das questões, sem se preocupar com o título no gabarito…

Mas peraí!… como seguir a numeração se ela também estava errada no caderno amarelo?… Substitui o caderno!… Não tem caderno certo para todos!… E agora?… Registra em ata!… Tudo bem, mas como ficam as questões não respondidas?… Não foram respondidas porque não existiam… E a 21 e a 23 que eram iguais?… No fim das contas, muita gente foi, com certeza, prejudicada, só por causa de um erro gráfico primário que levou a ser impresso e encadernado uma mistura de caderno amarelo com caderno branco… Como é que ninguém conferiu isso?… Está me cheirando a sabotagem…

À noite, a imprensa já divulgava os enganos gráficos que, segundo autoridades não prejudicou nem um por cento dos alunos… Mas esse um por cento existe e não deve ser ignorado, principalmente para o aluno que está nele enquadrado…

No domingo, todos os alunos adentraram a sala com medo da maldição do caderno amarelo e quem o recebia não fazia uma cara muito bonita… Mas, ao contrário do sábado, tudo correu bem… Felizes foram os três adventistas que, protegidos por lei, esperaram no local da prova até o por do sol de sábado para começar a responder as questões, tempo suficiente para os erros serem reparados e ficarem livres da azaração amarela…

Amarelo é a cor do sol, do ouro e do azar! Graças a esta prova que, no dia seguinte foi anulada pelo ministério público, o amarelo passou a ser a cor da vergonha! Tudo isso por causa de uma meia dúzia de engravatados que querem desmoralizar um exame nacional criado para facilitar a vida dos estudantes de ensino médio que pretendem cursar uma faculdade… Infelizmente, os seres humanos julgam-se uns melhores que outros e se acham no direito de boicotar uma prova que os torna iguais, os coloca diante das mesmas oportunidades, independente de classe social, cor, raça, ou crença, pois presenciei até os aspectos religiosos sendo respeitados, provando que a melhor forma de se diminuir as diferenças é a democracia… Mas, infelizmente, alguns dos “poderosos” não tá “enem” aí com a democracia…

Márcio Roberto Goes

 

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Ela conseguiu!

 

 

Sempre tive a postura de analisar e estudar bem meus votos. Nunca votei sem antes conhecer, o mínimo que fosse, o candidato que mereceria ter seu número digitado por mim na urna, no dia da eleição…

Mas como a maioria dos brasileiros, estive quase desiludido. Neste segundo turno consegui me aborrecer com o horário eleitoral… Infelizmente, propostas é o que menos se via nas propagandas eleitorais na TV. Prevaleciam os insultos, críticas, manipulação de fatos e números, na maioria das vezes para denegrir o outro, nunca para ajudar o povo a conhecer melhor o candidato e sim para tentar fazê-lo odiar o concorrente…

Mas enfim… Infelizmente, a política (Ou a politicagem) tem dessas coisas, ainda… Porém um fato me deixou muito feliz e esperançoso. Creio que qualquer militante de esquerda como eu ficaria: Elegemos a primeira presidenta do Brasil desde que se tornou república… Não vou dizer aqui que ela vai ser outra Princesa Isabel e abolir todas as escravaturas morais e éticas que ainda existem, mas que o Brasil tem potencial para dar um grande salto pelas mãos de uma mulher, isso tem…

Nasci no final da ditadura… Participei de movimentos estudantis. Não fui torturado nem exilado. Graças a Deus!… Mas presenciei a primeira eleição para presidente depois de vinte e quatro anos de repressão. Apesar de ainda não votar, já imaginava um operário barbudo com um dedo a menos vencendo barreiras, quebrando tabus e transformando meu país… E lá se foram quatro eleições até que visse meu sonho realizado…

Primeiro, veio o caçador de marajá, cheio das palavras bonitas, jovem e exibicionista… Ainda bem que eu não tinha nenhuma conta bancária na época, senão estaria confiscada… No entanto caçaram o caçador de marajá que deu lugar ao “Fuscamar”: Eu e o João dos Sonhos Azuis que somos apaixonados por fusca, ficamos exultantes de alegria ao vermos o besourinho sendo fabricado de novo no Brasil. Mas também não se viu muitos avanços na área econômica e social…

Nas eleições seguintes, eu já tinha, com muito orgulho, meu título de eleitor… No dia da votação, contive meus ímpetos de sair por aí mostrando o meu documento que ainda estava com cheirinho de novo e me daria passaporte para adentrar a cabine e tornar concreto o desejo de ver aquele metalúrgico no palácio do Planalto… Não foi desta vez. Elegeu-se o sociólogo… Menos mal, já que, teoricamente, quem estuda sociologia deve saber como resolver os problemas sociais de um país continental como o nosso… Foi ai que vi nossa moeda mudar de nome depois de muitas outras tentativas: Cruzado, Cruzeiro, cruzeiro novo, cruzeiro real, URV e, finalmente Real (não necessariamente nesta mesma ordem)… Mas ainda não era o que sonhávamos, queríamos mais e o plano Real deixou o sociólogo por dois mandatos…

E o grande dia chegou! O operário conseguiu, degrau por degrau, subir ao posto máximo do nosso país, com votação recorde conquistou popularidade e criou programas que ajudaram muita gente a voltar a sonhar, inverteu o jogo com o FMI e nos fez passar por crises financeiras como se nada tivesse acontecido… Foi re-eleito, provando que estávamos no rumo certo…

Agora, elegemos a primeira mulher para o cargo mais alto do executivo… Apesar de todas as barbaridades do horário eleitoral, ela chegou lá e provou que as mulheres podem e devem conquistar seu espaço, mesmo diante de tantas blasfêmias… Depois de mais de quinhentos anos de história, foi preciso um operário dar o rumo certo para nosso país e agora é a vez da economista, que também venceu barreiras e quebrou tabus… Nossa primeira presidenta tem uma grande missão pela frente, continuar as melhorias iniciadas pelos seus antecessores. É fácil fazer algo de bom quando tudo está mal, difícil é manter e aumentar o nível daquilo que já está em crescimento, mantendo a autenticidade e fazendo um mandato novo sem esquecer as coisas antigas…

Lula, o operário, já cumpriu sua missão, sai do governo com índices invejáveis de aceitação que deixam qualquer doutorzinho engravatado “no chinelo”… E agora entrega sua faixa presidencial para uma mulher, que apesar de tantos movimentos pela igualdade, ainda sofre muita discriminação por parte da sociedade… Mas ela conseguiu!… A Dilma conseguiu!… Fez e fará, como protagonista, parte da história deste país: a nossa história…

Márcio Roberto Goes

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“Eu entendo vocês”

 

Ainda era um acadêmico de letras no antigo campus da Unc Caçador, quando, em 2002 encontrei um dos maiores exemplos na profissão que eu estava abraçando: a professora Ilse, que numa de suas aulas nos trouxe outro exemplo de vida. Trata-se da história de Gabriel Emmer:

Gabriel Emnmer

 

O Gabriel nasceu com paralisia cerebral que afetou severamente o desenvolvimento de sua coordenação motora, jamais seria capaz de falar, andar, ou ter domínio total sobre seus movimentos. Sua família, sobretudo dona Sofia, sua mãe, nunca teve vergonha ou reclamou do fardo. A partir do momento em que seu filho atingiu a idade escolar, caminhava com ele nos braços por quilômetros do interior do município até o ponto para pegar o ônibus da APAE…

Com o passar do tempo, vieram morar na cidade, mas a rotina continuava e assim, o Gabriel cresceu ao redor de pessoas, com exceção da família, que o tratavam como criança e subestimavam sua capacidade de compreender o mundo ao seu redor… Passavam-se os dias, e aquele jovem continuava sem progresso aparente, apesar dos inúmeros esforços das professoras que teimavam em alfabetizá-lo… Enquanto cuidavam, carinhosamente daquele jovem, faziam seu trabalho de alfabetização, aparentemente sem resposta para muitos, mas elas sabiam em cada sorriso, em cada olhar que o esforço estava sendo de grande valia…

Um dia, os alunos da APAE foram convidados a fazer uma experiência no laboratório de informática da Unc. Amarraram o Gabriel numa cadeira em frente a um computador e lá o deixaram… Alguns minutos depois, ouviu-se gritos inexprimíveis do jovem que reagia ao ver as letras correndo no descanso de tela… Todos ficaram assustados e então, a professora Ilse tomou uma atitude que mudaria a vida dele: Abriu o Word e pediu-lhe que escrevesse algo. Muito demoradamente, com a ajuda da professora para apoiar os braços, ele digitou, letra por letra:

“EU ENTENDO VOCÊS”

Palavras simples, corriqueiras, mas que, em vista da situação, tocam nos mais profundos e sublimes sentimentos humanos… Atitude que só foi possível depois da determinação de pessoas, que mesmo desacreditadas teimaram em alfabetizá-lo. Depois disso, foi dado a ele uma máquina de escrever que o permitiu declarar seus sentimento ante o mundo ao seu redor através de uma carta onde dizia ter consciência da própria deficiência e revelava a angústia que sentia quando era tratado com desprezo, ou de forma diferente das outras pessoas, só porque sua comunicação não poderia ser recíproca, já que até então, não lhe havia sido dada a devida oportunidade…

Passei a admirá-lo sem conhecê-lo e contava esta história a toda turma nova que eu assumia… Numa destas turmas, uma aluna se manifestou dizendo que o conhecia e queria nos levar para fazer-lhe uma visita, já que no dia seguinte haveria uma exposição na APAE. Consultei a direção e tive uma resposta negativa. Enquanto subia aqueles degraus, pensava numa maneira de dar a má notícia aos alunos. Ao dizer-lhes que o diretor não havia autorizado nossa saída no dia seguinte, a turma toda levantou-se e foram, em peso falar com ele. Diante de tamanha pressão, nosso gestor obrigou-se a autorizar o passeio, desde que este professor que vos escreve, ficasse responsável…

Era tudo o que eu queria!… Fomos a pé da escola Irmão Leo, que ainda funcionava nas dependências da antiga Universidade do Contestado, até e APAE e nenhum aluno ficou pelo caminho. Todos saíram e todos chegaram ao destino. Assistimos ao teatro e lá estava nosso herói, fazendo o papel de aluno, amarrado na cadeira de rodas, atuando com seu sorriso e seu olhar que nos fazem perceber o quanto são importantes as pequenas atitudes para transformar nosso dia, nossa vida e a vida daqueles que nos rodeiam… Buscamos coisas grandiosas e deixamos de perceber a ternura e o amor fraterno através de um tetraplégico que nos fala sem palavras que somos muito maiores do que pensamos… E que diante de Deus, somos todos iguais, embora nos julguemos uns melhores que outros…

Neste dia, vivi uma das maiores emoções de minha vida de educador: Ao terminar o teatro, dirigi-me até a sala onde o Gabriel expunha seus trabalhos, tendo em minhas mãos a cópia daquela primeira carta produzida numa antiga máquina de escrever, sentei-me ao seu lado, em cima de um lixeiro e, com a folha na mão, perguntei-lhe: “Gabriel, você conhece este texto?… A alegria tomou conta daquele corpo amarrado à cadeira de rodas e seu sorriso contagiou todo o ambiente. Então completei: “Aí fora tem trinta e poucos alunos que leram suas palavras e querem conhecê-lo”…

Com a ajuda de sua professora e de uma tabela onde ele me mostrava as letras do alfabeto, conversamos alguns minutos e o levamos até o pátio onde foi recebido com aplausos pela turma que me acompanhava naquela visita. Fizemos fotos, conversamos e meus alunos saíram dali, com certeza melhores, assim como eu, repensando muitos dos valores que prezamos em nossa breve vida terrena…

Minha emoção foi ainda maior alguns dias depois, quando recebi um bilhete digitado por ele, que entre outras, destaco as seguintes palavras dirigidas a minha pessoa: “Gostei de você porque me tratou normalmente”… Tenho certeza que fiz bem, porém se não soubesse, antecipadamente da história deste que tem nome de anjo, não teria a mesma atitude diante de uma pessoa tão especial… Hoje o entendo, graças à oportunidade que ele teve de, um dia, quase por acaso, ser o primeiro a dizer que nos entendia…

O computador é sua comunicação com o mundo

 

Agora, nos comunicamos, com certa periodicidade por correio eletrônico, tenho a alegria de encontrá-lo no MSN e no Orkut… É por essas e outras experiências que revigoro, a cada dia minha motivação para seguir a sublime profissão de professor, além de expressar minhas ideias através da palavra escrita, da mesma forma que o Gabriel…

Márcio Roberto Goes

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