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Mês: setembro 2010

Saber não saber

 

(Parafraseando Alcides Buss)

 

Sabemos que urge a necessidade de melhorias na escola pública estadual… Não sabemos, porém que estas melhorias devem ser na qualidade de ensino, não apenas nas edificações lindas, porém com estrutura precária e vazias, construídas para apresentar uma educação de vitrine e iludir o povo…

Sabemos que fomos iludidos por promessas vãs proferidas por excelentíssimos que, nem sempre têm a verdadeira intenção de ajudar o povo a resolver seus problemas mais básicos e arcaicos… Não sabemos, porém deixar de votar naqueles que continuam desviando verba pública e rindo da nossa cara a cada pleito conquistado…

Sabemos que o projeto “Encontro Marcado” é algo altamente proveitoso para professores e alunos que têm a oportunidade ímpar de trocar ideias com escritores catarinenses “ao vivo e em cores”… Não sabemos, porém, que nossos alunos mobilizam-se da melhor forma possível para acompanhar e contextualizar as obras de cada escritor convidado, mesmo não tendo seus trabalhos expostos no dia do evento…

Sabemos que nossos jovens vibram com o uso das tecnologias e produzem vídeos em homenagem ao escritor… Não sabemos, porém que imprevistos acontecem e que, ocasionalmente, o arquivo pode não abrir em qualquer computador, visto que a obsolescência exige que cada versão mate a anterior…

Sabemos que todo esforço é válido na busca do conhecimento e da melhor qualidade na educação… Não sabemos, porém, valorizar esse esforço com a motivação necessária e merecida, mesmo quando nem tudo acaba bem…

Sabemos que o Wandão é a única escola que participou de todas as edições do “Encontro Marcado”, desde a primeira, quando ainda era extensão do Irmão Leo… Não sabemos porém, incluir o nome: “Wanda Krieger Gomes” nas imagens do evento do ano passado, quando Fábio Brugemann esteve presente no maior evento deste educandário, mobilizando toda a escola e a comunidade…

Sabemos deste acontecimento, sabemos que o escritor esteve lá… Não sabemos, no entanto destacar este fato no vídeo de apresentação, restringindo-se apenas a três ou quatro fotos misturadas com as de outra escola…

Sabemos que a presença de um escritor em nossa cidade é um acontecimento histórico e edificante para alunos, professores e todos aqueles que amam a cultura e as artes… Não sabemos, porém, dar o devido destaque nos órgãos de imprensa nem nas próprias escolas envolvidas…

Sabemos que Alcides Buss, convidado deste ano, é um poeta que gosta de ser chamado simplesmente de “escritor” e escreve por amor às letras… Não sabemos, porém ser leitores que retribuem este amor quando não deixamos os outros retribuírem da forma como prepararam, sem máscaras, ou retoques…

Sabemos que somos escola pública, porém não sabemos ser escola, tampouco pública… Sabemos que projetos coletivos trazem muito mais resultados que as cadeiras individualistas de chapa de compensado da sala de aula… Entretanto, não sabemos fazer projeto, nem sabemos ser coletivo…

Sabemos que nosso aluno produz música a partir da poesia… Não sabemos, porém o que é cantar um poema, não sabemos, nem mesmo quem é nosso aluno…

Sabemos que somos gente e as pessoas ao nosso redor também, porém não sabemos quem somos nem sabemos quem são aqueles que nos rodeiam… Não sabemos ser gente…

Márcio Roberto Goes

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Olhares

 

Há mais de dez anos que uso óculos, descobri quase que de forma tardia, minhas deficiências: hipermetropia e ceratocone… Hoje, sou dependente dos óculos, ou das lentes de contato para quase tudo, exceto para tomar banho e dormir… Necessito acompanhamento semestral para que se possa fazer um diagnóstico antecipado e preventivo a fim de corrigir, constantemente, meu olhar…

E toda vez que visito o Jonathan, meu oftalmologista, faço uma maratona por toda a clínica, já sou íntimo de todos os aparelhos: aquele que a gente olha um pontinho vermelho no meio de um espiral, parecendo um alvo (só o vento que sopra em minha córnea que não é dos mais agradáveis… Me emociono, cada vez que vejo aquela casinha lá no fundo da mata que testa minha acuidade visual e a nitidez de minha visão… Já me sinto até confortável apoiando o queixo e a testa nos aparelhos e, se não fosse obrigatório manter os olhos abertos, juro que tiraria até uma soneca… Divirto-me cada vez que dilato a pupila: vejo tudo, mas não enxergo nada…

Quando pensei que já tinha feito de tudo naquela clínica, o seu Aguni vem com mais uma: “Temos que fazer uma foto da córnea”. Meu coração não cabia no peito de tanta alegria, meus olhos estavam prestes a fazer a primeira três por quatro de suas vidas… Foto feita, recebi por correio eletrônico e, no retorno, o médico oftalmologista analisou, sem retoques, o nu artístico dos meus olhos. Eu achei aquilo horrível! Ainda bem que o mundo que vejo é mais bonito do que o instrumento que uso para tal, cheio de veias e com defeito de fabricação que me acompanham há mais de três décadas…

Conversa vai, conversa vem, o Jonathan interrompe a consulta para dizer que sempre lê meus textos (fato que muito me alegra) e resolveu comentar sobre um deles em particular: a crônica intitulada “Amigo fiel”, em homenagem ao cão que me acompanhou durante catorze anos de minha modesta vida, sendo meu amigo e companheiro de todas as horas. Junto com o texto, publiquei uma foto do Bilu e o profissional que cuida dos meus olhos deu um diagnóstico preciso sobre meu cãozinho falecido: “Sabia que o teu cachorro tinha catarata?”…

Quando o cara é profissional, não existe escapatória, tudo é analisado, nem cachorro morto escapa. Pena que eu soube tarde demais que meu amigo já não enxergava o mundo da mesma maneira que outros cães; também tinha uma deficiência visual, mais um ponto em comum com este “quatro zóio” que vos escreve.

Quanto a mim, ainda existem recursos, afinal, estou vivo e torcendo para escapar de uma intervenção cirúrgica no futuro… Mas o importante é cuidar bem dos olhos, pois é com eles que vemos o mundo ao nosso redor e, para falar a verdade, usar óculos não é tão ruim assim, afinal, quebra a monotonia, pois podemos variar modelos e cores de vez em quando e fazer dele, um acessório a nosso favor…

Márcio Roberto Goes

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A professorinha

 

Era uma vez uma escola quase tradicional, quase moderna e o meio termo ficava por conta do tratamento dado aos seus alunos, que cresciam em sabedoria e graça, às custas de muita exigência através da “psicologia do cagaço”… Naquela escola, problemas do cotidiano, principalmente os comportamentais eram facilmente resolvidos no grito e no chingamento. Os alunos já estavam convencidos de que eram uns “retardados” e não conseguiam aprender nada direito… Acomodaram-se e passaram a ter o mesmo comportamento com os colegas e professores. Mas tudo ficava em paz depois de alguns chingamentos por parte dos gestores, mesmo que este processo precisasse ser repetido diversas vezes durante o dia para manter a paz e a harmonia naquele renomado e bem conceituado educandário público…

E eis que foi trabalhar naquela escola, uma professorinha jovem, universitária, cheia de novas ideias e boas intenções. Fazia um curso superior de Artes Visuais por dois motivos: Amor às artes e amor à educação. Ao ser apresentada para a direção, ela que aparentava menos idade do que tinha, foi olhada da cabeça aos pés pela gestora que lhe perguntou: “Tem certeza de que vai dar conta?”… Sua resposta, apesar da pergunta humilhante, foi positiva, afinal, estava cheia de novas ideias para pôr em prática, sonhava com cada trabalho, planejava cada aula, mesmo antes de ser contratada… A diretora, meio ressabiada, aceitou a professorinha e encaminhou a papelada para o contrato temporário para cobrir uma licença…

E eis que a professorinha começou a trabalhar… Na primeira turma que entrou, foi calorosamente recebida, a maioria dos alunos fez as atividades propostas com louvores. Estava realizada, era aquilo mesmo que queria para sua profissão. Sentia-se feliz… Já na segunda turma, foi preciso a interferência do setor pedagógico que resolveu o problema no “cagacionismo”. A professorinha assustou-se, ficou com a voz daquela mulher zunindo na bigorna, imaginando que os alunos deveriam estar sentindo o mesmo… Naquela turma, não conseguiu realizar um trabalho satisfatório, não foi respeitada pelos alunos por não usar de chingamentos e ameaças. Queria propagar o amor as artes, não lhe agradava deixar as crianças fazendo um desenho “nadavê” só para mantê-las ocupadas e em silêncio. Mas era somente isso que dava resultado, aliás, resultado só para a comodidade do professor, pois os alunos, após alguns gritos, permaneciam quietinhos, comportadinhos e vazios… Vazios de conhecimento, aprendizado e de exemplos… A professorinha agora entendia a razão de tanta rebeldia daquelas crianças, elas só estavam retribuindo o tratamento “vip” a elas dispensados e seria quase impossível consertar vários anos de estrago em apenas três meses de trabalho.

E eis que a professorinha pediu ajuda… Mas também usaram a “psicologia do cagaço” com ela. “Esses alunos são assim mesmo, se mostrar os dentes, eles tomam conta”… Dizia a diretora: “Tem que entrar na sala de cara amarrada e ser bem ruim com eles”… Mas a professorinha ainda acreditava que poderia mudar aquela situação… Sei lá!… Fazer alguma coisa por estas crianças que só serviam para os poderosos comprovarem seu poder através das ameaças…

Ao terminar o turno, um aluno apontou para a professorinha e disse: “amanhã vamos fazer esta professora chorar”… E eis que no dia seguinte, a professorinha chorou… Chorou indignada, chorou desconsolada, chorou por não poder fazer nada por aqueles seres humanos que já tão cedo estavam calejados pelas agressões morais… A professorinha então desistiu. Não teve mais forças para lutar contra um estrago causado desde o primeiro dia do primeiro ano de escola daquelas crianças… E eis que contrataram outra substituta que seguia feliz, dando desenho para passar o tempo e mantendo a ordem da desordem de uma escola que só dá apoio ao professor, quando utiliza o método do “cagacionismo”…

Era uma vez uma escola…

Márcio Roberto Goes

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Quem ama, cuida

 

Semana da Pátria é para festejar a data da nossa independência, quando cortamos o cordão umbilical que nos ligava a Portugal… É bem verdade que agora dependemos de outros países, mas também, muitos deles dependem de nós… Nunca gostei do tal desfile do dia sete de setembro: Tiramos nossas crianças cedo da cama no feriado para bater o pé na frente das autoridades que, quase sempre, abusam de nossa paciência e inteligência, haja vista tudo o que nos mostram os noticiários cotidianos… Mas tem um lado bom: o protesto. Muitas instituições, ou grupos de pessoas usam o desfile para protestar. Infelizmente, ainda a única forma dos pequenos serem ouvidos é através do protesto, um grande exemplo disto é o “Grito dos excluídos” que a cada ano revela um sistema que, apesar de ter melhorado muito nos últimos anos com a redemocratização, ainda fortalece quem já é forte…

Esta semana me faz lembrar uma viagem que fiz até a vizinha Argentina, ainda quando era acadêmico de Letras. Fui com a turma da faculdade a fim de praticar nosso Espanhol. Lá ficamos três dias sem poder falar nossa Língua materna, justamente quando os argentinos comemoravam o cumpleañios de sua Pátria… Visitamos algumas escolas e vimos todas as crianças com fitinhas azul e branco no peito, expondo orgulhosas as cores de seu país… Foi inevitável a comparação como o Brasil, onde só lembramos do verde-amarelo durante a copa do mundo, esta semana da Pátria, ainda não vi ninguém vestindo as cores da bandeira, é verdade que não vi nem a bandeiras por aí, só durante a execução do Hino Nacional, prática ainda exercida no Wandão. E o pior de tudo é que pouquíssimas pessoas sabem a letra completa do nosso Hino, tampouco sabem o sentido daquelas palavras escritas pelo Joaquim e musicadas pelo Francisco.

Tenho certeza que tanto o Joaquinzinho quanto o Chiquinho não imaginaram um povo “despatriotizado” no século vinte e um, também não consigo imaginar os autores do Hino Nacional projetando uma música maravilhosa para ser cantada com fervor apenas nos momentos que antecedem a um jogo de futebol, ainda assim sem saber a letra toda… Fatos lastimáveis que revelam o quanto somos relapsos com a Terra que nos viu nascer…

Voltando a falar de minha primeira viagem internacional: Ao voltarmos, paramos na fronteira para identificação, mais ou menos uma hora para conferir todos os documentos de todos os passageiros, isso de madrugada, todo mundo bêbado de sono… Logo depois vivi uma das cenas mais emocionantes de minha vida: Quando o ônibus recém cruzou a fronteira, algumas pessoas lá do fundão começaram a balbuciar o Hino Nacional Brasileiro e, em poucos segundo já se formava um coro de vozes universitárias homenageando a “Pátria Amada, Mãe Gentil” que nos recebia novamente em seu berço esplêndido, à luz do céu profundo…

Voltamos a nossa Terra natal com amor maior do que na partida, pois foi preciso ficarmos três dias na terra de nossos rivais futebolísticos para aprendermos o verdadeiro respeito à nossa Pátria. Isso não consiste apenas em subir a avenida com alegorias e pelotões, nem no fato de vestir a camisa da seleção brasileira para torcer durante a copa do mundo chingando o juiz e o Dunga. Amar a Pátria é cuidá-la e respeitá-la, diminuindo a emissão de gazes poluentes, reciclando o que é reciclável, deixando a natureza agir no ciclo da vida, dividindo as riquezas de forma igualitária, buscando soluções para os grandes problemas da sociedade moderna, votando conscientemente após analisar as propostas de cada candidato a um cargo público e sabendo cantar o Hino Nacional…

Já diz a canção: “Quem ama, cuida”… Assim deve ser também com nossa Pátria…

 

Márcio Roberto Goes

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