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Mês: julho 2010

Até quando seremos ignorados?

O texto a seguir é dos professores da Escola de Educação Básica Dom Orlando Dotti, Caçador, SC. Porém, faço minhas as palavras deles e me solidarizo inteiramente com a causa já que trata-se de assuntos de interesse de todos nós, professores da rede estadual de Santa Catarina.

A seguir, o texto na íntegra:

ATÉ QUANDO SEREMOS IGNORADOS?

Numa sociedade democrática, pensar a educação e traçar suas diretrizes não pode ser privilégio de um pequeno grupo, deve ser o resultado de um amplo debate, envolvendo todos os agentes envolvidos no processo. No entanto, o que nós, professores, estamos vivenciando aqui na rede estadual de Santa Catarina é uma situação extremamente preocupante. Parece que nós, professores, somos sujeitos tornados objetos, colocados fora do processo histórico, fragmentados em nossa humanidade, retalhados, sufocados numa prática pedagógica contraditória, destituída do diálogo, como se fôssemos incapazes de pensar e tomar decisões.

Senão vejamos:

O processo pedagógico de ensino e aprendizagem recebe pouca atenção e fica sob a responsabilidade de cada professor isolado em sua disciplina, em sua sala de aula. O que importa ao poder público não é discutir conteúdo, currículo… Importa o número de aprovação/reprovação. Quer dizer aprovação, número, quantidade, pois isso é o que dá legitimidade às ações governamentais. E a qualidade? Existe o louvável esforço de incluir no ensino regular os alunos com necessidades especiais e, dentro dos limites, estamos tendo sucesso nesse trabalho. E como fica a situação dos demais alunos da escola pública, uma vez que ao concluírem o ensino médio apresentam evidentes desvantagens em relação aos alunos da rede particular e, portanto, ficam excluídos das universidades públicas, dos bons empregos…

O ensino fundamental de 9 anos foi implantado de forma estranha. Resultado: criou-se um vácuo na seriação. Este ano (2010) não tem 5° ano. No próximo ano (2011) não haverá 6° ano. Diante do fato, o que vai acontecer com a carga horária dos professores efetivos numa escola, como a nossa, onde funcionam cinco quintas séries? Talvez a solução seja remanejar… Mas remanejar para onde se o fato ocorrerá em todas as escolas estaduais? E onde irão estudar os alunos dos 6º anos oriundos de escolas municipais? Ficarão sem estudar um ano, uma vez que a rede municipal não tem estrutura para absorver esses estudantes? Não seria o caso de se ter bom senso, e havendo a demanda, serem abertas turmas de 6º ano nas escolas da rede estadual? O que nos deixa intrigados é como as redes particulares e a rede municipal fizeram com tranqüilidade a transição dos 8 para os 9 anos sem deixar nenhum vácuo na seriação!…

Outra grave implicação do citado vácuo na seriação diz respeito à aprovação automática, que já foi implantada em algumas séries dos primeiros anos do ensino fundamental. Isso significa que o aluno, independente do que aprendeu ou não, será aprovado. Nós, professores, nos sentimos cada vez mais amarrados frente a tantas leis criadas para defender direitos de crianças e adolescentes, mas que esquecem de mencionar que, para cada direito conquistado, existe um dever a ser cumprido. E agora ainda por cima, não pode reprovar. Que motivação o aluno vai ter para se dedicar aos estudos, se sabe de antemão que independente do que fizer será aprovado? Como vamos cobrar posturas adequadas? Como vamos forjar o caráter da justiça baseado no princípio de que para cada ato existe uma consequência? E frente à complexidade do assunto, é insustentável o argumento de que isso tem a ver com a competência do professor (salvaguardadas as exceções), pois apesar do descaso como somos tratados, buscamos incessantemente estudar, planejar e tornar as aulas atrativas e com qualidade. E mesmo que fosse o caso, por que não implantam a aprovação automática na USP onde estão os melhores professores do Brasil? Fica claro que aprovação automática não tem nada a ver com qualidade…

Nas primeiras séries do ensino fundamental foi decretado que avaliação deve ser descritiva. Em plena era da informatização em que os signos são cada vez mais condensados, preenchem-se folhas e mais folhas, com informações repetitivas, que ninguém, além do professor, irá ler, uma vez que a maioria dos pais não consegue interpretar os tais descritores de cada disciplina. Para que sufocar o professor com tanto trabalho inútil? A avaliação expressa em números é absolutamente clara e transparente, acessível à leitura de qualquer cidadão. Não seria uma forma de mascarar a “real” qualidade da educação de nossa rede estadual? Não seria mais inteligente e “produtivo” que, ao invés de preencher papéis, nós, professores, tivéssemos um processo de formação permanente onde os tais descritores fossem compreendidos e incorporados à nossa prática pedagógica?

Até ano passado, no ensino médio, o aluno reprovado em duas disciplinas poderia frequentar a série seguinte e fazer dependência para ser aprovado nas referidas disciplinas. Então, por decreto, o direito à dependência estendeu-se para as 7ª e 8ª séries. Bem, a escola está gerenciando o efetivo problema criado por tais dependências. Não há espaço físico para todos estes alunos frequentarem aulas no contraturno. Então, por decreto, novamente, acabaram-se as dependências! E os alunos que a freqüentam, deverão terminá-la até a metade do ano. Mais uma vez, decisão tomada e nenhum professor consultado. Mudaram-se as regras no meio do jogo (quer dizer, no meio do ano letivo). Por quê? Ninguém até agora apresentou uma justificativa convincente. Se é assim, por que, nós, professores, pensamos o processo pedagógico, elaboramos PPP e fazemos planejamento? Fica cada vez mais óbvio que tudo isso é perda de tempo. De uma hora para a outra as regras são outras e todo o trabalho que fizemos perde a validade…

O aluno que não atingiu média suficiente tem direito à recuperação paralela. Entende-se como recuperação paralela a revisão de prova e um reforço do conteúdo não apreendido. Isso feito com todos os alunos no tempo normal das aulas. Mas o resultado não está sendo satisfatório, apregoam os especialistas. Então vamos mudar! A partir de agora é assim: o aluno estuda o conteúdo, não atingiu a média; faz recuperação paralela, faz nova prova. Ah, mas ainda não atingiu? Mais uma chance, é claro! Vem à tarde, no contraturno, pois o professor estará ali para dar aulas particulares. Afinal para que servem as horas atividades? Lógico, não é para nós nos prepararmos para ministrar aulas de qualidade, ler, estudar, fazer avaliações e correções inerentes ao processo pedagógico. Pouco importa o conjunto! É preciso recuperar, recuperar, recuperar… E alguns ainda têm a audácia de exigir que a hora atividade deve ser cumprida exclusivamente na escola! Como conseqüência se instaura a política educacional do faz de conta. Como podemos aproveitar bem a tal de hora atividade em escolas que têm um computador para 40 professores, uma biblioteca sempre movimentada, uma sala de professores sem nenhuma possibilidade de concentração e barulho, muito barulho. Depois de nos submeter a essa prova insana, voltamos para casa, vamos à nossa biblioteca particular, ao nosso computador, ao nosso silêncio e fazemos todo o trabalho que não foi possível realizar nas horas atividades, inclusive nos finais de semana! Somos heróis da resistência? Até quando? Não é de se admirar que Santa Catarina deixou de ter a melhor educação do Brasil, segundo resultado do IDEB de 2009.

Não estamos aqui afirmando categoricamente que todas essas políticas estejam totalmente equivocadas. O Problema é que elas não levam em consideração a realidade da escola pública catarinense. O processo de recuperação paralela proposto seria pertinente numa escola que funcionasse apenas por um turno (pela manhã) e os professores fossem contratados por 40 horas, sendo que na parte da manhã ministrassem as aulas e à tarde cumprissem a hora atividade, ficando à disposição dos alunos para desenvolver projetos, fazer reforço escolar e recuperação, com espaço físico adequado e material didático suficiente. Mas a realidade não é essa! Especialistas que baixam tais decretos desconhecem o que é o chão da sala de aula com todas as mazelas, violência, desinteresse e por vezes a solidariedade e a genialidade que brotam mesmo num terreno tão hostil. Isso sem falar na superlotação de alunos e na precariedade do espaço físico! São as contradições sociais que ganham contorno no ambiente escolar e, inevitavelmente, se confrontam. E o professor mediador precisa dar conta do seu conteúdo, educar (porque, em muitos casos, já foi o tempo em que educação vinha de casa) e recuperar o que as outras instituições sociais não deram conta…

Então fica a dúvida: o poder público acredita que nós faremos o “milagre”, ou simplesmente não confia em nós e por isso sequer ouve a nossa opinião, nem faz uma leitura crítica da realidade das escolas públicas. O que esperamos do poder público catarinense? Esperamos que tenha discernimento para compreender, respeitar e apoiar a multiplicidade de experiências pedagógicas realizadas em nossas escolas, que saiba conviver com as diferenças, que incentive e pratique o diálogo e a construção de diversas propostas pedagógicas.

Queremos que nossos direitos sejam respeitados: formação permanente em serviço, acompanhada de condições concretas como melhoria salarial, progressão na carreira e avanço na escolaridade. Queremos resguardar, assim, a dimensão humana e a dimensão histórica que nos constitui, enquanto profissionais da escola pública catarinense. Uma proposta não se implanta de fora, mas se planta junto, na prática cotidiana e em meio a seus embates, confrontos e divergências. Mediante os fatos aqui mencionados, ainda não está claro para nós, qual é afinal a proposta pedagógica da secretaria estadual de educação e da gerência regional de educação.

Colegas professores, este texto pretende ser o início de uma discussão sobre a educação em Santa Catarina a partir das experiências que vivenciamos concretamente em sala de aula. Temos consciência do nosso papel fundamental na melhoria da qualidade da educação. Não são os prédios (diga-se de passagem, bastante precários), nem tecnologia, nem uniforme… que farão a diferença. Mas o efetivo trabalho do educador em sala de aula. Infelizmente cada vez mais nossa profissão está desprestigiada, sendo menor o número de jovens que desejam ser professores. Diante disso, o que será do futuro? Por isso, não podemos mais deixar de manifestar nossa opinião. E se você concordar conosco, repasse este manifesto para seus colegas professores e outras pessoas interessadas em melhorar o nível de educação do povo catarinense.

Professores(as) da Escola de Educação Básica Dom Orlando Dotti.

Caçador SC, 14 de julho de 2010.

 

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Comemorando meia dúzia

Seis anos da Paola 

 

Em festa de aniversário de criança o que tem de alegria, tem de bagunça, o que tem de ingenuidade, tem de estratégias, o que tem de inocência tem de joguinhos de interesse…

Dia desses fui convidado para uma festa de seis anos de minha sobrinha. Já começou pelo almoço, farto e suculento e com mais da metade dos convidados que estariam no ato solene do corte do bolo mais tarde… Nunca vi tanta gente junta numa única casa, tampouco vi tanta criança reunida num ambiente doméstico… Lá fora, alguns pupilos brincavam de qualquer coisa usando uma bola improvisada, metade ficava na varanda e os demais no barro mesmo… Que importância tem as roupas sujas, se todas as marcas de detergente em pó prometem limpar com facilidade e segurança?… Além do mais, porque se preocupar com a roupa, se a infância pede o direito a um espaço que não é eterno e, por isso, tem que ser vivido intensamente?…

Lá dentro, brincava-se de tudo: boneca, cozinha, adivinhações, música… O ambiente decorado com muitos balões que os meus pulmões ajudaram a encher, aperitivos apareciam a toda hora, linguicinha, xixo, refrigerante e para os adultos, com exceção deste que vos escreve, uma cervejinha…

Na hora do almoço, cada um se virava como podia, a mesa tornou-se pequena, então qualquer ambiente estava propício para as refeições, o importante foi a comida que não deixou a desejar e, com certeza saciou a fome de todos os presentes.

À tarde, a tradicional canção: Parabéns a você, seguida do apagar da velinha que ainda é composta de um único algarismo e do corte do bolo, igualmente delicioso e tentador para aqueles que estão de regime… É claro que não é o meu caso, pois preciso manter minha elefância.

A anfitriã nos convidou para ver os presentes. Reunimos-nos, mais ou menos uma meia dúzia de populares curiosos num dos quartos para prestigiar os regalos da aniversariante que os desempacotava orgulhosamente aos nossos olhos: Esse foi de fulano, esta de cicrano, a boneca da tia tal, a jaqueta do tio negão, o pijama, os brinquedos… De repente, vejo os cobertores se moverem… O que é isso, meu Deus?… Era a avó materna que tirava uma pestana (ou, pelo menos, tentava)… Parece que a nossa presença, finalmente a despertou… Nunca fui de segurar riso e desta vez não foi diferente, obriguei-me a cair na gargalhada sem breque… A distinta senhora virou-se para a minha pessoa: “Escuta, você acha que nunca ‘vai ficá véio’?”… Não sei bem o motivo, mas o riso abandonou meu rosto naquele momento e tratei de me justificar, afinal eu não estava rindo da idade, nem criticando a velhice que reflete a experiência digna de nosso respeito e admiração. Meu riso sem freio era pelo fato de estarmos vendo presentes diante de uma pessoa que não queria nada mais que repousar sossegadamente por alguns minutos e nós não estávamos deixando.

O restante do dia, como toda tarde de festa infantil, correu com brincadeiras e diversões e, como sempre, a arrumação ficou por conta dos pais e familiares que continuaram na hora extra até que tudo estivesse no seu devido lugar…

Festa infantil é isso: cheia de alegrias, surpresas e até cochilos interrompidos pelos adultos curiosos ante os presentes da aniversariante…

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O Cronista na Escola

Por: Clarice Hauffe

Professor Márcio com alunos da escola Pierina Santin Perret, Caçador, SC
Professor Márcio com alunos da escola Pierina Santin Perret, Caçador, SC

 

            Na terça-feira, dia 13 de julho, o professor e escritor Márcio Roberto Goes esteve na Escola Municipal de Educação Básica Pierina Santin Perret. Na ocasião conversou sobre sua experiência enquanto escritor, cronista e professor com os alunos das duas oitavas séries. O evento faz parte do processo da II Olimpíada Nacional de Língua Portuguesa que está acontecendo em todo o Brasil. Os alunos das escolas públicas estão sendo desafiados a escrever textos em diferentes gêneros literários, no caso das oitavas séries, o gênero é crônica.

            Márcio cativou os estudantes com seu humor, espontaneidade e simplicidade ao tratar temas pertinentes à realidade pessoal e social dos cidadãos caçadorenses. Destacou, entre outros, a importância de se valorizar os pais e os professores como formadores da base da personalidade de cada indivíduo.

            O cronista também apresentou o livro “Antologia Delicatta IV”, trata-se de uma coletânea de poesias, contos e crônicas de jovens escritores brasileiros e portugueses. Três crônicas do escritor caçadorense fazem parte da obra o que impressionou muito os alunos pelo fato de um cronista da nossa terra estar recebendo o reconhecimento a que, com certeza, faz jus devido à qualidade do trabalho que realiza.

            A presença de Márcio na escola foi um momento de alegria, emoção, poesia e aprendizagem. Contribuiu para reforçar a importância da leitura e da escrita como ferramentas essenciais para a apropriação da língua portuguesa. E deixou claro que o escritor é uma pessoa comum e não “um ser encantado” que vive fora da realidade.

Professora de Português: Clarice Hauffe

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Jobulani no quintal

 

            Domingo, final da copa… Eu, ao contrário da maioria dos brasileiros, cochilo levemente no quarto de minha residência oficial das quatro estações, enquanto ouço, lá no fundo da bigorna, o jogo entre Holanda e Espanha, ainda virgens de gols nesta partida… Lá fora, algumas crianças jogam uma pelada, também parecem não estar preocupadas com o que acontece no Soccer City…

            Meu cérebro sonolento já não diferencia os ruídos da TV e os da rua, ambos têm sons de bola no pé e vuvuzelas, que, aliás, tomaram conta nas redondezas da minha casa nesta copa…

            De repente, ouço um quicar mais próximo que os demais, meu cão de guarda late incansavelmente, mas minha preguiça é maior que a vontade de ver o que acontece no quintal… Alguém força o portão, mas parece desistir ao ver o cadeado, uma voz de criança balbucia: “Bata palmas”… Ouço então, umas palminhas muito fracas que não conseguem ultrapassar os decibéis da África do Sul… Mas, como toda criança, elas são persistentes e ouço a mesma vozinha dizendo: “Vamos bater palmas juntos!”… Foi o que fizeram:

            Minha preguiça não suportou tamanha persistência e união das crianças em busca de uma bola perdida. O mundo preocupado com quem dos dois será primeiro pela primeira vez campeão mundial, e meus pequenos vizinhos preocupados em recuperar uma bola… Ouço meu nome sendo chamado… Ué? O Galvão me conhece?… Mas não parece a voz do locutor esportivo da poderosa do Plim! Plim!… É uma voz infantil, Aliás, a mesma que se destacou ainda a pouco na multidão e nas vuvuzelas. Está no portão, pensa que eu não ouvi e convida seu amiguinho para chamarem juntos… Não suporto tamanha dedicação, persistência e carinho pelo meu modesto nome, que vem do Latim e significa guerreiro…

Pois o guerreiro, finalmente desperta para o mundo real… Quem se importa com o campeão mundial de futebol? Existe uma partida paralisada em minha rua, a Jobulani da “piazada” está aqui no meu quintal e não tem gandula para recuperá-la… Levanto-me, tiro a “remela do zóio” e trato de fazer minha parte para salvar a diversão da meninada. É preciso vestir uma cara de bravo, apesar de não me agüentar de vontade de sorrir: “Da próxima vez, eu não devolvo”…

Tento voltar a dormir, mas a algazarra não deixa, sobretudo porque agora me tornei um curioso com o jogo da molecada. Na TV, angústia diante de duas traves da melhor qualidade que não se movem… Na rua, duas traves improvisadas com pedras que seguidamente são atravessadas pela bola dantes libertada do meu território… Na África, a Jobulani tem medo da rede… Do outro lado do portão, a infância se materializa destemida e insistente diante dos meus olhos, que agora permanecem bem abertos na janela e o Galvão falando sozinho na sala…

Do outro lado do Atlântico, quase final do segundo tempo da prorrogação, finalmente a pelota encontra uma trave, a da Holanda… Final de jogo, o juiz apita anunciando o novo campeão do mundo… Do outro lado da cerca, quase final de tarde, mamãe apita na janela. É hora de tomar banho e recolher-se… Os holandeses reclamam a derrota… As crianças reclamam o fim da brincadeira… Um escritor maluco, da janela, reclama a falta de assuntos que mereçam uma crônica… É! Todo mundo reclama de barriga cheia!…

Márcio Roberto Goes

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Máscara branca

Fonte: http://realidadecontundente.blogspot.com
Fonte: http://realidadecontundente.blogspot.com

 

É de suma importância os cuidados com a saúde física: manter uma boa alimentação, praticar esportes, consultar um médico regularmente, entre outros cuidados que tornam nossa vida melhor e mais confortável… Sem falar é claro, da saúde mental e espiritual: fazer boas leituras regularmente, acreditar em Deus e nos irmãos, praticar atitudes que melhorem a vida das pessoas ao nosso redor…

Mas uma boa saúde, seja ela física ou mental, não será possível se não tiver início na boca, no sentido real ou figurado: Na boca está a língua, uma faca de dois gumes, pode ser promotora ou acusadora, agradar ou desagradar, amar ou desamar… Na boca estão os dentes que contribuem para o sorriso, muitas vezes contagiante, e com a mastigação, essencial para o processamento de uma boa alimentação…

Numa das visitas à pessoa que me deixa, literalmente, de boca aberta, foi diagnosticada a necessidade de se fazer uma tratamento de canal num dos incisivos superiores. Dali pra gente, foram três dolorosas e demoradas visitas ao dentista… Na primeira, tivemos que matar o bichinho… Um dente morto não dói, porém continua exercendo sua função mastigatória, pena que, com o tempo, perde a cor da vida e o branco torna-se cada vez mais escuro até chegar ao tom de um sorrido cor de milho vencido.

Para realizar o assassinato do pobre incisivo indefeso, o dentista colocou um tubo exaustor no canto esquerdo da minha boca, ligou aquela britadeira, gentilmente chamada de broca que só de ouvir já causa arrepios e começou a tortura… Enfiou, sem dó, as duas mãos em minha boca. Parece que o trabalho estava difícil, de vez em quando sentia alguns cacos de dente deslizando por minha língua e rapidamente serem sugados pelo exaustor… Até aí, tudo bem. Procedimento normal, o problema é que fiquei mais de uma hora na horizontal com a boca aberta e cheia de ferramentas estranhas, enquanto o homem da máscara branca e óculos estilo para-brisa de kombi bipartida me enchia de perguntas. É claro que não consegui responder nenhuma, pois meu aparelho de fala estava todo ocupado com as ferramentas assassinas do “Máscara Branca”… Quando fazemos uma pergunta, esperamos uma resposta. Mas se o interlocutor estiver impossibilitado de falar?… Isso é muito cruel!…

Finalmente, senti uma puxada que quase levou meu cérebro junto, era a raiz do meu querido dente sendo mostrada ao sol pela primeira e última vez… Pronto! Aqui jaz um dente, não deve doer mais… Após uma semana com um curativo tapando aquela cratera, volto ao cara de Kombi para fazer um novo remendo. Desta vez, a orientação era de levantar a mão ao sentir dor, só não fui avisado que a bandeja dos equipamentos estaria em cima do meu tórax trazida por uma mesa móvel… Doeu e eu fiz o gesto combinado, só vi as ferramentas odontológicas do mascarado voando por cima de mim até encontrar o chão frio e cheio de bactérias. O Máscara branca do zóião de vidro pulou da cadeira assustado, alguém abriu a porta e juntou gente pra ver… Incrível, como a desgraça, em qualquer nível, tem o poder de juntar populares que buscam mais um assunto para comentar e fofocar… Depois de tuto reunido e encaminhado para uma nova esterilização, inclusive o dente, tive que voltar na semana seguinte para tapar, definitivamente, o buraco da morte…

Depois de tudo isso, creio que o cara de kombi bipartida não queira me ver novamente, pois o prejuízo foi muito grande só para uma eutanásia de um incisivo que teimava em doer…

Márcio Roberto Goes

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Jornal Informe – O diário Regional

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