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Mês: junho 2010

Amigo fiel

Sempre digo aos meus alunos que o ser humano escreve melhor quando o faz com o coração… Sou um ser humano, também tenho sentimentos, o único diferencial é que escrevo o que sinto com maior frequência. As palavras a seguir, apesar de muita zombaria por parte de alguns seres humanos ao meu redor, relatam o que meu coração está sentindo. E como escritor, sinto-me na obrigação de extrapolar com o teclado e a arte de usar as palavras…

Um dos meus melhores amigos morreu esta semana, um filho adotivo, companheiro de todas as horas, ficava feliz com minha chegada e triste com minha despedida, cuidava de mim e eu cuidava dele. Era herança de minha mãe que o encheu de bardas e mimos, mantidos por mim…

Com ele, não tinha tempo ruim, sempre prestativo e despretensioso, tinha trânsito livre em minha casa, sentava à mesa comigo, dormia em meu quarto… Demorarei a acostumar com sua ausência a cada vez que retorno ao lar. Não verei mais aqueles olhos brilhando, o latido característico em homenagem à minha chegada, a cauda abanando expressando a alegria mais pura e sincera…

Bilu da silva Goes

 

Mas tudo acaba um dia, como escreveu e cantou Raul Seixas: “Oh morte, que matas o gato, o rato e o homem”… Meu amigo não resistiu a esta vilã de dois gumes agravada pelo peso da idade, afinal, um cão que completa catorze anos já é um vencedor sobrevivente. Há meses já se encontrava debilitado e, nos últimos dias, tetraplégico, ainda expressava seus sentimentos através daquele olhar mais humano do que o de muita gente que se diz racional e civilizada…

Cresci aprendendo a gostar de cães, sempre os tive por perto. Nunca comprei nenhum, pois não acredito que se possa pôr valores materiais em vidas quase humanas. Sempre os ganhei, ou adotei, vira-latas, ou sem raça definida… Aliás, não sei quem foi o mercenário que resolveu estipular valores diferentes para animais semelhantes, não sei quem inventou que uma raça é mais valiosa que outra, tampouco sei quem teve a ideia de dizer que o valor de uma vida é maior que o de outra só por causa de peculiaridades, comuns a qualquer ser vivo… Os seres humanos julgam-se melhores uns que os outros, é natural que classifiquem os animais indefesos da mesma forma: Natural, porém cruel…

Meu amigo Bilú não tem preço, não paguei nada por ele, mas enriqueceu minha vida de forma inesquecível, no que diz respeito ao crescimento pessoal e ao relacionamento humano… Incrível, mas um animal quadrúpede, que só sabe falar duas vogais, é capaz de nos ensinar mais do que muitos seres que se dizem humanos…

Meu amigo, filho adotivo, meu cão de guarda, motivo de muitas alegrias, agora me fez chorar. Um choro, todavia conformado, pois ele cumpriu seu papel neste mundo, foi feliz e me fez feliz, amou e foi amado… Viveu, como todo cão de estimação, para fazer a alegria de seu dono. Continuará, como todo animal de família, num cantinho especial do meu coração e no espaço dedicado especialmente a ele nas minhas memórias…

Não quero meu cãozinho de volta. Ele já cumpriu seu papel como todos os seres vivos cumprem o ciclo natural da vida, porém, jamais renunciarei às lembranças e aos sentimentos que ele me proporcionou…

Bilú, meu cão, meu amigo… Jamais o esquecerei, jamais serei o mesmo, pois um amigo fiel, ainda que irracional, tem o poder dado a ele pelo Criador, de transformar a vida daqueles que o cercam… Há catorze anos, minha vida tem sido melhor, entre outros, por causa de um cachorro. Tenho outro cãozinho de estimação, com certeza, terei outros ainda, porém esta criaturinha cresceu comigo, envelheceu, morreu, mas está eternizada em meu coração…

23/06/2010

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Projeto integração 2010 reúne alunos das Escolas Wanda Krieger Gomes e Esperança

 

Professor Márcio Goes e as alunas palestrantes
Professor Márcio Goes e as alunas palestrantes

 

Aconteceu nesta terça-feira dia 22 de junho, nas dependências da escola Wanda Krieger Gomes, a segunda edição do projeto Integração, envolvendo alunos do terceiro ano matutino de ensino médio e do quarto ano do ensino fundamental da escola Esperança, ambas no bairro Martello.

Trata-se de um trabalho conjunto entre os alunos das duas escolas abordando um tema proposto pelas professoras da escola Esperança contextualizado através de dinâmicas, brincadeiras e palestras pelos alunos do terceirão matutino.

 

Para o coordenador do projeto, professor Márcio Roberto Goes, “É importante fugir um pouco da rotina de sala de aula a fim de proporcionar aos educandos novas experiências. Tanto para as alunas do terceiro ano, quanto para as crianças da escola Esperança, esta atividade traz práticas e experiências que serão úteis, principalmente no que tange ao relacionamento humano e o respeito às diferenças”.

Os assuntos abordados este ano foram: Higiene pessoal e a importância da família, tratados de forma dinâmica e criativa pelos formandos de ensino médio.

Para a aluna do terceiro ano, Cristina, a manhã de terça-feira foi de brincadeiras e palestras bem divertidas e houve ampla colaboração das crianças. Para Tatiane, da mesma turma palestrante: “Hoje foi um dia muito especial, pois confraternizamos, ensinamos as crianças sobre higiene e família, para tanto, usamos algumas dinâmicas. É tão bom ver aquelas crianças sorrindo e se divertindo conosco!”. Já para Juliana, uma das alunas palestrantes, “Este projeto Integração serviu para os alunos da Esperança estarem se conscientizando sobre alguns temas muito importantes em nosso dia-a-dia, como higiene e família.”

“As palestras que as alunas do terceiro ano deram foram muito interessantes e importantes para motivar as crianças a participarem mais de atividades de integração”, declara a professora da escola Esperança, Eronildes. Já a professora Kellen, da mesma escola destaca: “Este trabalho veio para acrescentar muito. Promoveu a integração nas brincadeiras, a motivação e a valorização dos alunos.”

Os trabalhos encerraram-se com um lanche especial integrando as duas turmas que socializaram a importância da higiene das mãos antes de se alimentar e da escovação dos dentes após as refeições…

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A casa azul

 

 

Já faz tempo que não escrevo sobre meu personagem preferido. Estava até com saudades dele e de seu fusquinha azul da cor do céu, da cor de seus sonhos… Pois bem, João dos sonhos Azuis está de volta e de casa nova.

Acontece que nosso protagonista, como qualquer sonhador, espera ansiosamente pela casa própria e enquanto ela não chega, seja pelos planos de habitação do governo, ou por condições próprias, ele vai morando de aluguel.

João morava com sua esposa numa casa há quinze degraus do chão, bonita, confortável, cimento bruto por fora, rosa por dentro, num bairro abandonado, “martellado” e esquecido pelas autoridades, estrada de chão, onde a patrola passa a cada aparição do cometa Halley, sem saneamento básico e castigada pela erosão… Porém, o local o agradava muito, estava feliz, gostava da vizinhança, do ambiente e da solidariedade que sempre é uma constante no povão dos bairros, pois lá não se tem os mesmos direitos da nobreza central que a cada instante é agraciada por novas melhorias…

E eis que um dia, desses que parecem ter uma nuvem de maus presságios, ao cobrar o aluguel, sempre pago em dia, a dona do imóvel dá uma notícia que nenhum inquilino gosta de receber: Deveria desocupar a casa num prazo máximo de trinta dias, pois precisaria ser ocupada por uma pessoa da família…

Triste, cabisbaixo e desolado, nosso sonhador de sonhos azuis parte a procura de uma nova residência para alugar, já que seu cadastro para a casa própria ainda não havia sido aprovado… Não foi preciso procurar muito, logo encontrou a casa a uma esquina de seu trabalho, azul, da cor de seu fusquinha, da cor de seus sonhos. Seria alugada a princípio, com grandes possibilidades de compra. Mais um sonho azul na vida de um sonhador de sonhos azuis…

Nosso sonhador “sem-teto” contratou então o caminhão e reuniu os amigos para ajudá-lo nesta missão. A equipe estava lá, na hora marcada, transportando os móveis para fora até que se deram conta de que faltava um pequeno detalhe: o caminhão… Já passavam sessenta minutos do combinado e nada do veículo aparecer na esquina. Não havia nenhuma explicação plausível para tal fato, até então não se tinha conhecimento de nenhum imprevisto, nem “jogo da seleção” que justificasse a ausência do transporte naquele momento tão importante e conturbado na vida de um sonhador de sonhos azuis…

Até que um de seus amigos, o menor em tamanho, mas com um enorme coração, liga para um conhecido que vem prontamente com uma caminhonete a fim de salvar nosso sonhador daquela angústia… Foram quatro viagens a bordo da D20 lotada de móveis que salvaram João daquela espera ansiosa com a mobilha a céu aberto…

O fato juntou gente, na maioria populares que não contribuem em nada, a não ser para aumentar a multidão de curiosos que sempre aparecem nos momentos hilários e angustiantes de nossa vida. Porém, sete deles arregaçaram as mangas e se bolearam no trabalho para ajudá-lo: eram seus amigos, convidados anteriormente para aquela missão. Sete é o número da plenitude, da perfeição… E uma amizade plena se comprova nos momentos mais difíceis da vida de um sonhador de sonhos azuis, cor do seu fusquinha, cor do céu, cor de sua casa nova… A casa dos sonhos do João dos Sonhos Azuis…

Márcio Roberto Goes

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Toc, Toc…

   

Depois de mais de uma década calçando só sapatos, resolvi mudar… inovar… arriscar… Saí em busca de um tênis, mas precisava ser barato, confortável, bonito, resistente e combinar comigo…

Fiz um rastreamento por toda a avenida Barão do Rio Branco, dispensei uma tarde do meu precioso tempo para isso, acompanhado de minha companheira para todas as horas que me ajudou muito na decisão final… Provei todo tipo de tênis, de todos os modelos, várias cores e valores, de todas as marcas, com cadarço, com velcro, preto, branco, azul, cinza, marrom, vermelho, carijó, mestiço, de zebrinha, xadrez… Nenhum me agradou: Este não era confortável, aquele, muito caro, o outro não era bonito, outro ainda não me agradava no modelo, ou na cor… alguns preenchiam todos os requisitos menos um: o preço… Em todas as lojas procurava conter minha imensa vontade de provar um sapato, já que deste tipo de calçado não é difícil encontrar um que me agrade…

Quase a ponto de desistir, entrei numa dessas lojas populares que vivem “fincando fogo” nos estoques… É queima disso pra cá, queima total daquilo pra lá… Peraí!… Se for pra queimar, é melhor dar para alguém que precise. Pois seguindo a lógica do meu cérebro criativo, socialista e meio louco, se é necessário queimar algo a todo instante, é porque tem de sobra… E se sobra para alguns, certamente falta para outros… Mas não é bem assim. A realidade é muito mais cruel: Quem tem de sobra, não quer perder, ainda que seja obsoleto, mas quem não tem, deve esperar a boa vontade daqueles quem têm queimar os estoques e, mesmo assim, corre o risco de ficar sem, pois tudo depende daquilo que o capitalismo transformou no vilão do povo: o dinheiro…

Nesta loja que estava queimando tudo, entrei, meio “ressabiado”, com medo de pegar fogo também e provei alguns tênis… Um deles, finalmente parecia preencher todos os requisitos do meu gosto exigente e da minha namorada inovadora. Era preto com detalhes em cinza… Provei-o, andei um pouco no tapete mágico, contemplei-o no espelho próximo ao chão, caminhei mais um pouco… “Confortável, bonito e barato. A minha cara!… É esse mesmo! Embrulha que eu vou levar!”…

Aliviado, certo de ter feito um bom negócio e contente, saí pelas ruas da cidade expondo o logotipo da loja numa sacolinha branca com a caixa do meu novo tênis dentro, até encontrar meu branquelo 79 no estacionamento da catedral… O fusquinha levou este que vos escreve até sua residência oficial enquanto eu já não suportava a ansiedade que assolava minha alma para inaugurar meu novo calçado… Já me imaginava fazendo “Nhec!… Nhec!” com aquela sola de borracha macia nos corredores da escola, chamando a atenção para a novidade…

Mas, ao usá-lo oficialmente pela primeira vez longe do tapete mágico da loja, só se ouvia: Toc!… toc!… toc!… Ué?… Isso é um tênis com barulho de sapato!… Será que estou diante de um calçado com crise existencial?… Será que fui enganado pelo tapete mágico?… Ou serão as duas coisas ao mesmo tempo?… Só sei que a imagem era de um tênis, mas o áudio era de sapato… “Poxa vida!”… Pensava eu desolado ao subir as escadas do Wandão… “Será que fui iludido pelo consumismo outra vez?”

Meus pensamentos indignados foram interrompidos por um aluno no corredor que esclareceu todo o mistério:

“Olha! Que legal o sapatênis do professor!…”

Parece que, mesmo sem querer, comprei metade de um par de sapatos… Metade de mim continua o mesmo…

Márcio Roberto Goes

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Jornal Informe – O diário Regional

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