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Mês: maio 2010

Uma escola guerreira

Sempre que se fala em projetos nas escolas, já fico com as antenas ligadas, pois é através deles que tenho conseguido os melhores resultados no meu trabalho de educador… Sempre que posso, tento desenvolvê-los nas minhas aulas e, às vezes, pego carona nas boas ideias a nível federal, estadual, ou municipal… Tem sido assim com o “Encontro Marcado” promovido pela Unimed e pela 10ª GERED, as “Olimpíadas da Língua Portuguesa” do MEC e tantas outras incitações à valorização dos talentos e habilidades dos nossos alunos…
O Wandão mergulhou de cabeça na segunda Feira do Conhecimento que acontece agora a nível regional e estadual… Visitei cada um dos trabalhos, fotografei, filmei, conversei com alunos e professores e percebi que cada um de nossos estudantes têm um gênio adormecido esperando por alguém que o ajude a despertar… Esse alguém deve ser o professor… Contrariando todas as estatísticas que insistem em ser negativas, nossa escola realizou uma feira de qualidade invejável, mesmo com poucos recursos e apoio limitado das autoridades competentes. Foi difícil para os avaliadores escolherem os melhores trabalhos a serem apresentados na fase regional, uma disputa acirrada com diferenças mínimas entre os melhores… Mesmo assim, foram escolhidos, a duras penas, dois trabalhos: um a nível de quinta a oitava série, outro a nível de ensino médio…

Primeiro lugar na categoria: Ensino médio
A casa Ecológica

Porém, o que mais me impressionou, foi o empenho despretensioso dos alunos e professores em busca da prática como consequência da teoria estudada em sala de aula. O resultado não poderia ser outro: sucesso absoluto… Um evento que mais uma vez marcou a Escola Wanda Krieger Gomes no livro da história da educação de Caçador e região, apesar da mídia não ter dado a devida atenção ao acontecimento, perfeitamente justificável, já que não houve briga, nem morte, nem acidente grave o suficiente para merecer uma capa ou uma manchete de destaque…
Mas nossa escola é assim… Guerreira… Lutando contra o preconceito e a discriminação constantes entre os seres humanos egoístas, que ainda se julgam uns melhores que os outros. Lá, temos gente de todas as raças, cores, credos, situações sociais e financeiras.. Mas numa coisa existe unidade: Queremos uma escola melhor! Professores, alunos, equipe pedagógica, serventes, amigos da escola, comunidade, famílias… Todos queremos e precisamos de uma maior atenção ao nosso educandário. A casca está linda, verde, bem estruturada, porém não melhor que a casca mais recente construída no centro que ainda parece merecer maior atenção das autoridades… Dentro da casca verde do Wanda, encontram-se, laboratórios e biblioteca sem mobiliários, salas de aulas com móveis da sobra de outras escolas em uma obra faraônica e oca. Um curso Técnico em Edificações que só funciona graças à garra dos profissionais e dos alunos que ali constroem os alicerces de uma profissão a nível técnico que mesmo depois de quatro anos ainda carece do mínimo de estrutura… Só não é mais oca, graças aos seres humanos que a escolheram como local de trabalho e estudo, continuam acreditando na utopia de uma escola perfeita em todos os sentidos.
As pessoas que estão diuturnamente na escola, fazem sua parte, mas parece que aqueles “lá de cima” só se preocupam em entregar cascas bonitas para servirem de vitrine, iludindo o povo simples aqui embaixo…
Nossa escola mostrou-se, mais uma vez, guerreira, lutando e realizando maravilhas, mesmo com a ausência de apoio daqueles que deveriam ser os primeiros a voltar seus olhos para o povo que os elegeu…

Márcio Roberto Goes
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Jornal Informe – O diário Regional

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A fé da minha infância

A lembrança mais remota que tenho em minha mente é de minha mãe fazendo um curativo em meu cotovelo, certamente fruto de alguma travessura, enquanto me ensinava a rezar o “Santo Anjo”. Eu não devia ter mais do que três anos… Daí para frente tive minha fé alimentada por minha mãe e pelas canções que falam das coisas de Deus, sobretudo a música do Padre Zezinho…

 

A fé da minha infância
Fonte: fanzineepisodiocultural.blogspot.com/2010/04/...

Quem de nós, trintões e quarentões católicos não teve a infância e a juventude embalada pela música deste que foi um dos primeiros sacerdotes cantores do Brasil?… Padre Zezinho SCJ, resiste ao tempo, aos modismos, ao fogo de palha… Depois dele vieram muitos que tiveram um surto de fama, aparecendo em todos os canais de TV aberta e, do nada, desapareceram… Deixaram de ser notícia, deixaram de interessar para “a poderosa do Plim! Plim!”…

Ele porém, não é uma estrela pop, não se rende aos interesses capitalistas das grandes redes de mídia e das gravadoras… É um servo de Deus, canta para evangelizar. Seu encontro com o público é muito bem fundamentado, traz conselhos que nos ajudam a manter os valores mais sublimes, inclusive a família, espécie em extinção na contemporaneidade… Vendo alguns trechos de seus shows na Internet, percebe-se que não existe apenas “Glória e Aleluia”, não vemos só mãos erguidas batendo palmas e louvando o Senhor… Claro que Louvar o Criador é importante para nós, criaturas humanas e limitadas, porém se estas canções não nos levarem à ação, de nada adianta o louvor sem obras que ajudem a melhorar a vida de nossos semelhantes…

Cresci ouvindo a “Utopia” de uma família muito distante da minha realidade, mas como toda utopia, ainda tenho esperança de ser o progenitor de uma delas… Vi minha mãe chorar cada vez que ouvia “Maria de minha infância” lembrando de minha avó que morreu aos cinquenta e oito anos. Mamãe viveu dez anos a mais, hoje eu ou ouço a mesma canção e sinto a mesma saudade… Sentimentos que nunca se esquece e que nos dão forças para continuar, embalados por canções que nos fazem crescer e amadurecer na fé e nas atitudes, tornando o mundo ao nosso redor muito mais fraterno… Mas não bastam as palavras bonitas, é necessário que elas provoquem reações que levam a ações concretas para nós e para nossos irmãos…

No mundo conturbado em que vivemos, parece fácil ficar algumas horas por semana cantando e louvando ao Senhor, fazendo calo na língua e nos joelhos de tanto orar, tentando “converter” aqueles que acreditamos estarem desviados, desrespeitando o livre arbítrio enquanto o próprio Deus o respeita… É muito cômodo acreditarmos numa salvação imediata, nos milagres que muitas vezes não são tão reais quanto parecem, dando a ilusão de que nada depende de nosso esforço, Deus faz tudo por nós…

Outro dia assisti na TV a um programa de uma igreja qualquer que divulgava testemunhos de alguns fiéis. Todos diziam ter enriquecido depois de se converterem para aquela “placa”. A vida era uma droga, entregue ao álcool e outros vícios e, de repente, tudo se transforma e conseguem ter dinheiro sobrando… Ora, o que sobra para uns, faz falta para outros… A fé que aprendi desde a minha infância não consegue acreditar numa religião que prega a exploração do homem pelo homem, onde seus fiéis se regozijam mostrando carros novos e casas luxuosas, adquiridas depois da conversão, enquanto muitos de seus semelhantes permanecem na mais lastimável e desassistida miséria… Estou certo de que não podemos generalizar, pois na sua maioria, as Igrejas Cristãs fazem também seu trabalho de educação para a cidadania além do louvor, porém aquelas de fundo de quintal, continuam a explorar os fiéis enchendo de “graças” a conta bancária de poucos…

Márcio Roberto Goes

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Jornal Informe – O diário Regional

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A explosão da cobiça

 

 

Eram cinco irmãos: uma mulher e quatro homens. Seus pais haviam morrido e eles herdaram uma grande propriedade, onde a progenitora viveu quase toda a sua vida depois de casada. Todos nasceram e se criaram naquelas terras que uniam a família nas datas especiais. Cada irmão tomou seu rumo e só o derradeiro ainda permanecia na casa até a morte de sua mãe. O pai, por sua vez já não vivia mais com eles ao falecer, fruto de uma separação depois de trinta anos de vida conjugal…

Mas, como sempre ocorre com os bens materiais, aquilo que era símbolo de união tornou-se motivo de desavenças e cobiça. A família unida deu lugar a um jogo de interesses mesquinhos… A terra que os unia, agora era de todos e de ninguém…

O primogênito, sensato e objetivo, tentava manter a calma e, mesmo de longe, aconselhava seus irmãos a continuarem cultivando a união. O segundo entregou-se ao álcool e às drogas, não tinha sequer consciência do que aquela propriedade significava para a família, mas entrava na briga só para ver o tumulto. A do meio, cultivava os sentimentos e a saudade que lhe corroía a alma, tentando buscar uma forma de conservar a história daquela família conturbada. O penúltimo só queria poder voltar à casa quando quisesse para lembrar das coisas que ali viveu, apesar de não ter aproveitado e contribuído para que as lembranças fossem totalmente agradáveis, tanto para ele, quanto para o restante da família. O mais novo tentava manter o controle e tomar atitudes sensatas a fim de não deixar a matéria sobressair aos valores espirituais, morais e éticos…

Vendo que o acordo entre os herdeiros estava cada vez mais distante da realidade, o mais novo resolve retirar-se daquele local para que não houvesse desigualdade de condições, mas as desavenças continuaram rondando aquele chão e a família continuou dividida. Entrou em contato com a do meio e chegaram a seguinte conclusão: “Já que é isso que divide a família, vamos destruir a casa, assim o mal acaba”… Organizaram um plano perfeito, compraram os explosivos e instalaram tudo conforme manda as normas de segurança para uma implosão…

O derradeiro ficou encarregado de acionar o botão e o fez sem pestanejar… Ele e sua irmã esperaram ansiosos dez segundos, vinte, trinta, um minuto… E nada… A razão de suas desavenças continuava intacta, nenhum ruído, nenhum tremor, nenhuma reação. A inércia física e moral continuava sendo uma constante naquele local… E agora?… Não funcionou!… Alguém precisa entrar lá para ver o que houve… Mas é arriscado, pode detonar tardiamente e acabar machucando, até matando alguém…

Sem hesitar, o caçula se prontificou a ir, a do meio não gostou da ideia, mas ele foi sem pensar nas consequências… O caminho do cordão de isolamento até o local dos explosivos foi triplicado por conta dos pensamentos que permearam sua mente: “O que estou fazendo? Os bens materiais são o que são: matéria. Não são tão essenciais quanto pensamos, não levaremos nada disso para o túmulo, nem para a vida eterna… Mas nem por isso temos o direito de destruí-los só por causa de interesses mesquinhos… O fato de não conseguirmos destruir esta casa é a prova de que tivemos uma segunda chance, não vou desperdiçá-la…”

Alguma coisa havia impedido a corrente de chegar até os detonadores e o caçula se encarregou de desconectar qualquer chance daquela explosão acontecer. Tudo foi desligado com suas próprias mãos. Ao voltar para a rua, como num milagre, encontra seus quatro irmãos unidos novamente em torno daquele monumento histórico da família, que depois disso, tornou-se moradia para outras pessoas que não tinham um teto, cumprindo assim sua obrigação social de abrigar a quem precisa de ajuda, atitude tomada pela progenitora durante todo o tempo em que viveu ali…

Márcio Roberto Goes

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Mural

 

A cada dia que passa, mais me surpreendo com a rotina escolar, por vezes, a surpresa não é muito agradável, mas esta semana vivi mais uma experiência marcante…

Há dias que via duas colegas pintando o mural do rol de entrada do Wandão… Devagarinho as cores foram se destacando e revelando diferentes formas… Era possível notar um fundo verde-claro, algumas folhas verdes e flores brancas em ambas as extremidades…

Certo dia, ao entrar na escola encontro algumas letras rabiscadas a lápis por cima da tinta e no canto inferior direito, o nome do autor: Paulo Freire… Já fiquei antenado, pois, apesar de ser professor há quase dez anos, só agora tenho a oportunidade de conhecer melhor a obra deste que é considerado o maior educador brasileiro, apesar de ter sido reconhecido somente após desenvolver sua teoria no Guiné-Bissau, pois aqui não tinha credibilidade… Esta oportunidade sorriu para mim através de minha irmã que cursa o quarto ano de magistério…

A aula transcorreu normalmente, passou-se um dia letivo, e outro… Numa hora de folga, olho para o mural, agora quase pronto e, finalmente consigo ler a frase que já estava toda escrita: “Não se pode falar de educação sem amor”…

Mural da EEEB Wanda Krieges Gomes, Caçador, SC

Enquanto ainda contemplava aquela obra de arte, passa pela minha frente um menino, deveria ser de alguma turma que não dou aula. Ele também para por alguns segundos, lê o painel com atenção e fala as seguintes palavras: “Um dia, vai ter uma frase minha aí nesse mural”… Disse isso meio que divagando entre seus pensamentos, como quem tem a consciência de que ninguém ouviu e, na verdade, não era sua intenção ser ouvido, tratava-se de um grito interior… Era a alma querendo crescer e pedindo maior empenho do corpo…

Como me ocorre frequentemente, fiquei com este fato preenchendo minha mente criativa e viajante, confabulando, analisando e tentando saber o que se passa na cabeça de um adolescente que profere estas palavras para si como que se desafiando… A partir daí percebo o quanto a escola pode transformar a vida de uma pessoa e nós, professores, temos em mãos a maior fortuna da humanidade: o conhecimento que somado com a força de vontade e determinação de alunos e professores pode render muitos bons frutos…

Espero, sinceramente ver uma frase deste aluno num mural de escola, surtindo tanto efeito quanto esta, apesar de não saber seu nome, qual sua sala, se produz bons textos, se gosta de estudar, se sua família é bem, ou mal estruturada… Não sei nada sobre este figurante que virou protagonista de meu texto, só sei que se trata de um futuro escritor em potencial, despertado por uma frase que fala da importância de se humanizar a escola… Algo simples, pintado com tinta guache no mural que antes só servia para inflamar a poluição visual com avisos que nem sempre chamam a devida atenção…

Um dia, também eu sonhei ser um escritor, tive muito apoio de meus professores, sobretudo na graduação e aqui estou, digitando estas palavras que acabam de ser lidas por você, esperando que, também elas o façam refletir, formar opinião e produzir bons frutos… Portanto, está na hora de criarmos algo novo, menos maçante e mais proveitoso nas escolas… Já passou o tempo da cara feia e das filas indianas… Já não é possível educar com aquelas provas de decorebas, que só provam o quanto somos tolos ensinando um monte de regras e fórmulas inúteis na vida prática ou para o crescimento pessoal de nossos estudantes…

Está mais do que na hora de despertarmos para o fato de que não trabalhamos com seres inferiores, e sim com seres humanos, nossos semelhantes, que têm um gênio adormecido só esperando por alguém que o desperte… Porém, antes de despertarmos o gênio de outrem, é necessário acordar o nosso…

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A solidão do álcool gel

 

 

A solidão é o pior dos sentimentos… Assola a alma e o coração de qualquer ser humano, ou não, animado, ou inanimado, ativo, ou inerte, útil, ou inútil…

Em agosto do ano passado, vivenciei a extrema valorização de um produto quase em desuso por pessoas normais… O tal do álcool gel. Todo mundo tratou de se prevenir e adquirir seu potinho para fazer a higienização das mãos, por conta do tal H1N1. Dispensaram-se as aulas, proibiram-se os abraços e aglomerações em locais fechados, difundiu-se, mais do que nunca, a importância da higiene pessoal para nós e para as pessoas que nos rodeiam… E durante todo este tempo e em todos os lugares, lá estava ele: o álcool gel, seja em potinho, um frasco parafusado na parede, ou em embalagens menores que cabem no bolso e na bolsa…

Passado o perigo, voltamos a nos abraçar, nos aglomerar, espirrar e tossir sem medo… E o pobre do miserável do álcool gel foi esquecido, abandonado, deixado de lado… Já não tem mais tanta importância, já não vale mais a pena aderir a prevenção e a higiene…

Pobre álcool gel! Agora é só mais um artigo abandonado nas prateleiras das farmácias e supermercados… De vez em quando lembrado e visitado pelo espanador… Às vezes, alguém o pega na mão, sente o calor humano momentaneamente, mas é subitamente devolvido, pois existem outros artigos de maior importância a serem comprados… Não existe mais perigo, não é mais importante usá-lo na limpeza das mãos…

Mas o perigo está prestes a voltar, por isso já fui vacinado, passei um dia amuado, com sono por conta da reação que, segundo o que se divulga, é leve… Sendo assim, não quero conhecer a reação pesada, já que não conseguia manter meus olhos abertos durante os dois dias fatídicos seguintes à agulhada no glúteo… Mas valeu a pena… Estou imune, não corro mais o risco de ser contaminado pelo vírus da gripe suína que, na verdade, não tem nada a ver com porco… Aliás, o nome faz sentido, já que um dos fatores de risco é a falta de higiene e, teoricamente a metáfora faz sentido…

Porém, sou ultra-prevenido e já providenciei álcool gel a fim de imunizar também as pessoas ao meu redor numa possível volta do vírus… Mas eu sozinho não posso garantir a sobrevivência da espécie dos “álcool-gelicus”, portanto, quero conclamar a todos para me ajudarem a livrar da extinção esta importante espécie criada pelos cientistas, da mesma forma que foi criada, acidentalmente ou não, a própria influenza A, o HIV e tantas outras doenças do mundo moderno…

Por favor, não deixem o pobre potinho perecer… Será que ninguém se comove ao ver o miseravinho abandonado num canto escuro das lojas, supermercados e repartições públicas?… Será que ninguém vai acordar para a importância de salvar o álcool gel da extinção?

Será que vamos nos render novamente ao sistema que diz que tudo o que cai em desuso deve ser descartado?… Isso se faz com objetos, animais e até seres humanos, por conta de atos desumanos dos seus semelhantes que se julgam melhores só porque têm mais dinheiro ou detêm os meios de produção…

Parece estranho, mas não é… Tudo o que não serve aos poderosos deve cair na obsolescência… é natural que isso aconteça também com o pobrezinho do álcool gel…

Mas ele voltará, assim que os “grandes” acharem necessário…

Márcio Roberto Goes

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