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Mês: dezembro 2009

No ano que passou

 No ano que passou, vi ser empossado o primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos da América, vi sua popularidade saltar e diminuir… Por aqui, vi dinheiro sendo escondido na cueca, nas meias e sabe Deus onde mais, as pessoas envolvidas alegarem que se tratava de uma atitude de segurança, já que um deles dizia não usar pasta… Vi também o presidente mais popular da América Latina e, porque não dizer atualmente do planeta, sendo homenageado com um filme que conta sua história até tornar-se líder sindical…
 Aqui mais próximo, vi um líder que, antes do povo que o elegeu,  deve satisfação para sete siglas que não se entendem, inaugurar um parque central… Lindo, maravilhoso, útil e prioritário, não fosse o fato de os bairros estarem há muito tempo esquecidos, para dar maior espaço ao centro da cidade… Agora, porém, todo mundo quer ser pai da criança, uns dizem que a maior parte da verba veio do governo federal, outros insistem que foi o governo do estado quem mais investiu nesta obra faraônica, outros ainda, idolatram o chefe do executivo… Ainda há aqueles, mais sóbrios que percebem o resultado de um esforço sobrenatural dos três… E o povo menos assistido, esquecido e abandonado dos bairros, quem se esforça por ele?… Parece que a população só é prioridade no palanque…
 Neste ano que se finda, vi capivaras sendo mortas na beira do rio, um sacerdote assassinado de forma desumana e cruel… Vi uma criança de dois anos, supostamente vítima de magia negra, sendo espetada por diversas agulhas em seu corpo indefeso, obrigando-a a ser submetida a várias cirurgias para desfazer a atrocidade cometida por seus semelhantes…
 Em 2009, vi a ortografia sofrer mudanças em nome de uma unificação que nunca será possível, pois a reforma é ortográfica e não de vocabulário nos oito países lusófonos espalhados por este mundão de meu Deus…
 Mas não foi só o mundo a minha volta que mudou… Eu também… Mudei de endereço, de operadora de celular, troquei de carro… Apesar de alguns dizerem que agora estou quase a pé, sinto-me realizado em poder dirigir novamente um fusquinha, é caso de paixão mesmo… dizem que fusca não anda… É verdade, ele desfila… e eu não tenho pressa, aliás, nenhum motorista deveria ter.
 No ano que passou, vi um ursinho panda tomar a atenção de minha aula, sem nenhuma culpa, pois um fato desses é sempre proveitoso nas relações pessoais da escola… Vi também minha escola perder parte do telhado da área de convivência, nos obrigando a fazer a solenidade de formatura de ensino médio na câmara de vereadores. Nada contra o local, até foi muito melhor que em nosso prédio em virtude da estrutura, além do mais fomos muito bem recebidos na casa do legislativo que é a casa do povo, porém não se pode esquecer do fato que nos levou a tomar tal decisão. A falta de um telhado não atrapalha apenas uma formatura, mas torna muito desconfortável o cotidiano de professores e alunos, principalmente em dias chuvosos. As autoridades dizem não ter verba… Não entendo. Será que a escola é uma pseudo-prioridade só para arrecadar votos?

 Por fim, terminei o ano vendo três de meus textos publicados na Antologia Delicatta IV, sendo o único representante caçadorense nesta obra que reúne autores brasileiros e portugueses…
 Como todo ano para todo ser humano, 2009 foi cheio de oscilações, mas o que importa é que vivemos o suficiente para partilharmos estas histórias corriqueiras, fatos indignantes, vitórias e derrotas que agora escrevo nestes poucos caracteres… E se você leu mais um texto meu até o final, formou uma opinião, seja ela favorável ou contrária, trocou ideias com seus interlocutores, isso já constitui mais uma vitória em minha vida… E que 2010 continue sendo assim, que possamos expor e defender nossas ideias em busca de uma vida melhor, mais democrática, humana e igualitária, mesmo respeitando as diferenças…

 

Márcio Roberto Goes

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Testemunho militar

 

Fim de ano… Natal, ano novo… Sempre nos trazem lembranças… Às vezes, elas aparecem do nada, outras se valem de algum acontecimento que nos remete ao passado… Pena que a maioria dos seres humanos ainda não descobriu o lado bom da nostalgia. Claro que estar preso ao passado é um fato que nos amarra, impedindo de viver o presente, mas é preciso voltar até a pedra para amolar a ferramenta antes de continuar o trabalho…

Alguns dias antes do término das aulas, recebemos, como de costume, a visita de um policial militar. O diretor, como sempre, convidou-o para passar o recreio conosco, tomar um cafezinho… até aí, tudo normal…

Quase sempre me demoro para descer até a sala dos professores, sempre tem um ou outro aluno que para pra conversar comigo sobre a matéria ou coisas banais, queixar-se de alguma situação, chorar o amor perdido, ou simplesmente partilhar um abraço… Neste dia, ao chegar à sala dos professores para meu costumeiro cafezinho com bolacha pedagógica, recheado com conversa fiada e brincadeiras típicas de uma equipe cujo relacionamento vai além do profissional, encontro no meio de meus colegas, uma farda… E dentro dela, um rosto conhecido não sabia de onde… Cumprimentei-o e ele, segurando minha mão direita, chamou a atenção dos demais professores para dizer o seguinte:

– Pessoal!… Se hoje eu estou na polícia militar, é por causa deste cara aqui… Foi graças a ele que eu passei no concurso…

– Como assim?… Perguntei com uma mistura de sentimentos que percorriam desde o orgulho até a curiosidade…

– Lembra que você insistia tanto na produção de texto?…

Não conseguia responder outra coisa que não fosse: Aham!…

– Pois foi justamente a produção de texto que me deu a aprovação do concurso… Lembrei-me, sobretudo da dissertação, dos passos, dos argumentos, da impessoalidade e tudo aquilo que aprendi com você… Lembra daquele poema que você me ajudou a fazer em homenagem aos quinze anos de minha namorada?…

Para falar a verdade, eu não lembrava, mas para não passar vergonha, confirmei com um sinal cabeça e perguntei…

– E aí… casaram?

– Sim! Casamos e temos dois filhos lindos…

– Que bom! O que é que um poema não faz, não é mesmo?…

Ser professor é muito mais que ser um profissional. É preciso viver as relações humanas de corpo, alma e coração. E quando nos deixamos envolver pelos alunos, transformamos a vida deles e a nossa. Lembrar-me-ei de mais este fato, cada vez que o desânimo insistir em assolar a minha alma de educador… Cada vez que minha boca quiser se abrir para duvidar da capacidade de transformação e de crescimento pessoal dos meus alunos. Por mais que tudo pareça perdido, sempre tem um testemunho que nos dá o combustível necessário para continuarmos… São fatos como este que me fazem concluir a cada dia que fiz a escolha certa para minha vida, apesar da demora de vinte e seis anos para começar a seguir carreira na educação…

Márcio Roberto Goes

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Jornal Informe – O diário Regional

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Ursinho de pelúcia

 

Quer passar por diversas experiências inusitadas e incrivelmente envolventes?… Participe do cotidiano de uma sala de aula… Foi lá que tive minhas maiores surpresas… E foi lá que coletei muitos subsídios para compor meu conceito de ser humano, principalmente no que tange aos jovens…

Em sala vi meus amados e queridos jovens descobrirem seus talentos, alegrarem-se com seu crescimento pessoal, interessarem-se e desinteressarem-se, animarem e se desanimarem, amarem e desamarem, gostarem e desgostarem, alegrarem-se e entristecerem-se, fazerem e desfazerem…

Pois esta semana vivi mais uma destas inusitadas e incríveis experiências… Ao chegar na classe para expor minha brilhante e maçante aula preparada madrugada adentro, deparo-me com um ser estranho, peludo, olheiras profundas, corpo preto e branco, um pouco acima do peso, porém inerte, nos braços de uma de minhas alunas de primeiro ano de ensino médio… Será que esta criatura está com algum problema e minha aluna resolveu dar consolo e alento no momento da angústia?… Pensava comigo enquanto preparava-me para fazer a chamada…

Sou muito curioso, minha mente fértil e criativa exigia que eu questionasse aquela situação.

 – O que é isso?… Perguntei arregalando os olhos para minha aluna psicóloga de bichinhos estranhos…

É um urso, professor!

Há! Tudo estava esclarecido!… Os pelos preto e branco, as olheiras penetrantes, a cara de tristeza profunda e desoladora, a obesidade… É um urso mesmo! Aliás, um urso panda…

Enquanto eu tomava minhas conclusões, o pobre ursinho triste, certamente por estar longe de seu habitat, passava de colo em colo e todos o abraçavam, consolavam e davam carinho… Ele levava nas mãos (ou patas dianteiras para ser mais exato) um coração escrito: “Amo você”, o que me levou a crer que o pobre animal estava apaixonado e pela feição do vivente, não estava sendo correspondido… Pobre criaturinha silvestre!… Estava sofrendo do mal de amor. Este sentimento paradoxo que assola os corações humanos e, pelo visto, os animais também…

Não pude conter minha emoção. Não só pelo sentimento do bichinho, mas pela solidariedade de minhas queridas alunas que pararam a aula em função do pobre animal bicolor apaixonado… E ainda tem gente que acha que nossos adolescentes não têm sentimentos… Se são capazes de se solidarizar com um ursinho panda, com certeza comovem-se com os outros problemas dos corações humanos buscando soluções, principalmente no que diz respeito aos sentimentos mais sublimes…

Não me contive, precisei pegá-lo também a fim de emocionar-me ainda mais e abrir meu coração comovido e irônico para a solidariedade do amor perdido… Mas minhas narinas, excessivamente sensíveis não gostaram nada da ideia e imediatamente se pronunciaram contra aquela pelúcia apaixonada e apaixonante através de uma sequência de espirros, representando a rejeição vida moderna, invisível a olho nu…

Quando a rinite alérgica começa a agir, nem os corações mais apaixonados resistem às suas reações, mesmo tratando-se de um animalzinho em extinção… Aliás, será que o amor fraterno também não é uma espécie em extinção?…

 

Márcio Roberto Goes

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Paixão desenfreada

 

Futebol!… Alegria, confraternização!… Se meu time perde, tristeza… Se ele ganha, ninguém segura a emoção!… E quando ele é campeão brasileiro, então, nem se fala… É festa, alegria e emoção sem fim… Este esporte, trazido para o Brasil por Charles Müller, é “uma caixinha de surpresas”, como diriam alguns, por vezes surpresas boas, outras, lamentavelmente nem tanto, dentro e fora do campo… Sou colorado, estou contente com o vice-campeonato, ficaria muito mais feliz com o título. Não foi possível… Paciência! Mas isso não pode ser motivo de chacota, nem de qualquer tipo de violência física, ou moral, como pudemos ver nos noticiários dos últimos dias… É desafortunadamente lamentável a reação de algumas torcidas, inclusive dos campeões, manifestando-se com violência contra seus semelhantes…

Não consigo associar esporte com violência, apesar de não saber fazer outra coisa a não ser torcer… Não entendo a razão principal destas reações… Aquilo que deveria ser uma festa, tornou-se desgraça e, tenho certeza que nenhum cidadão brasileiro de bem, seja ele torcedor de qualquer time da série A, B, C, ou qualquer outra, compactuaria com esta situação…

Sabemos que futebol é paixão e, como toda paixão, conforme a intensidade, torna-se irracional… Mas o autocontrole, próprio dos seres humanos e que nos diferencia dos outros animais, deveria prevalecer… É necessário saber perder, e no contexto atual, também saber ganhar, pois o mundo dá voltas e o campeão de hoje pode ser o rebaixado de amanhã e vice versa…

Não entendo muita coisa de futebol, como já comentei e uma das coisas que me faz renegar esta paixão desenfreada é o radicalismo e o fanatismo que tira o ser humano do seu equilíbrio normal, transformando-o num monstro sem igual entre os seres vivos, racionais, ou não…

Aliás, o radicalismo e o fanatismo, em qualquer instância só trazem prejuízos, sejam eles religiosos, políticos, ideológicos, ou futebolísticos. Onde houver fanatismo e radicalismo, sempre haverá exclusão e preconceito…

Os radicalismos político e ideológico excluem aqueles que não têm as mesmas ideias, um exemplo claro disso foram os adesivos vistos, na última campanha eleitoral para presidente, em muitos veículos mostrando uma mão com quatro dedos, dentro de um círculo e riscada por um traço vermelho transversal, com a legenda “Fora Lula”… Esta campanha, a meu ver não discriminou somente o presidente que não me cabe julgar agora, mas toda uma classe de deficientes físicos e mutilados…

O fanatismo religioso trouxe e continua trazendo muitos problemas sociais: evangélicos que não desejam “a paz do Senhor” quando cumprimentam católicos, católicos que se recusam a receber missionários de outras denominações religiosas em sua casa… Guerras pelo mundo afora de cristãos contra não-cristãos… Será que Jesus está contente com seu povo inconsequente?

Da mesma forma, o futebol: Para os fanáticos, seu time sempre é o melhor e todos os outros são “podres”, criticam e ofendem quem usa uniforme de outro clube, principalmente o rival do seu… Mas se parasse aí, até seria aceitável, pois tudo se torna uma grande brincadeira… O grande problema é quando a brincadeira dá lugar à violência… E o pior é que, nos esquecemos que, atualmente, o futebol virou um negócio milionário, onde o principal produto é o ser humano. Compram-se e vendem-se jogadores como se fazia no século retrasado com os escravos, com uma diferença: os produtos em questão têm consciência de sua venda e também ganham muito dinheiro com isso, sem falar na fama… E o torcedor, aqui embaixo brigando, enquanto os gigantes querem mesmo é ganhar dinheiro… É!… O capitalismo não perdoa nem o futebol…

 

Márcio Roberto Goes

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Jornal Informe da tarde – O diário Regional

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Padronização excludente

Atualmente, quase tudo é padronizado e fabricado em série, ou seja, se você quiser algo que não agrade a maioria das pessoas ao seu redor terá que pagar um preço muito alto, financeira e moralmente… Além disso, mesmo que não queira, aquele, ou aquela que tem medidas fora dos padrões estipulados pelos ditos “normais”, sofrerá duras penas para adequar-se a este mundo capitalista, selvagem e globalizado… Um pé adulto menor que 35, ou maior que 44, dificilmente encontrará um calçado que lhe agrade… Quem não estiver no peso considerado “ideal”, pode “tirar o cavalinho da chuva”, dificilmente, ou jamais encontrará roupas do seu gosto, o mesmo acontece com as medidas verticais, pois o ser humano, para este mundo padronizado, não pode crescer mais de um metro e noventa centímetros, do contrário, não poderá vestir-se adequadamente, sentar-se, ou dormir confortavelmente, nem passar por uma porta sem a preocupação de bater a cabeça…

Existem muitas e muitas leis de inclusão, porém o mundo continuará sendo excludente, enquanto mantiver a ideia de padrões e conceitos estereotipados de moda e beleza…

Outro dia busquei na Internet e nas lojas físicas ao meu redor, um telefone celular que aceitasse dois chips… Encontrei vários, mas nenhum me agradou pelo excesso de itens: Câmera filmadora e de fotografia com não sei quantos megapixels, MP3, 4, 5, e não sei quantos outros MPs, rádio, acesso a net, jogos, memória de não sei quantos mega, relógio, calculadora, TV digital e uma infinidade de outras opções exageradamente exageradas e pleonasmáticas para alguém que só quer poder usar duas operadoras diferentes no seu telefone móvel para falar e ouvir… Ou seja, pago caro pelos padrões estipulados pela indústria e o comércio de celulares, ou fico com uma única operadora… Neste caso, a portabilidade e a concorrência do mercado capitalista não me ajudaram em nada…

Pois bem, diante de tantos padrões, quero registrar aqui meus protestos contra a não-padronização de um item muito importante, que passa, por vezes desapercebido em nosso cotidiano: a data de validade dos gêneros alimentícios… O amigo leitor e a amiga leitora já perceberam o quanto sofrido é encontrar a data de validade nestes artigos?… Quando vou ao supermercado, demoro o dobro do tempo para fazer minhas compras por causa do descaso da indústria em divulgar esta informação… Nos enlatados, por exemplo, cada indústria coloca a data de fabricação e validade onde bem entender, nos obrigando a virar a lata de todos os lados até obter a informação procurada, nos pacotes de macarrão, arroz, feijão e outros não perecíveis, acontece o mesmo, agravados ainda mais por um carimbo meia-boca que nos obriga a adivinhar os números ali escritos. O que dizer então do café e outros artigos embalados com plástico e papel laminados que têm a data de validade cravada na beirada da embalagem nos obrigando a virar-se em todas as posições possíveis para obter a intensidade de luz suficiente para a leitura?…

Então, porque não padronizar a data de validade para que, cada vez que um produto alimentício for comprado, possamos saber o local certo desta informação?… E os astigmáticos, míopes e ceratocônicos como eu, que têm dificuldade de acuidade visual, como fazer para ler as informações mal impressas ou mal cravadas?…

Que inclusão é essa que inclui só aqueles que não se preocupam com a validade daquilo que compram? Os que julgam esta informação importante são obrigados a fazer uma busca visual cansativa até encontrar o que procuram… Que inclusão é essa que exclui aqueles que renunciam aos modismos e estereótipos da vida cotidiana, obrigados a pagar caro para serem autênticos…

 

Márcio Roberto Goes

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