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Mês: novembro 2009

Inversão de valores

 

 

Há algumas semanas, uma acadêmica de uma grande universidade brasileira comparece à aula em trajes não muito convencionais… Pelo menos é o que se espera de uma universidade… Causa o maior tumulto, aparece na mídia, é expulsa e readmitida pela direção acadêmica e por fim, fica famosa… Já perdi a conta de quantas entrevistas já vi com esta criatura na televisão… Convidam-na para pousar nua… apesar de declarar não ter aceito ainda… Dá uma ajeitada no visual, certamente sob algum patrocínio… Enfim, torna-se uma celebridade, arranja amigos e inimigos, dá autógrafos e muitas pessoas disputam lugar a seu lado para fazer uma foto de lembrança…

Fonte: www.google.com.br
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Dia desses resolvi analisar meu comportamento como profissional e eterno aprendiz que sou… Analisei minhas atitudes, minhas palavras, minha vestimenta… Concluí que está tudo errado ou comigo ou com o resto do mundo…

 

 

 

 

Por acaso alguém sabe quem é o melhor aluno desta universidade?… Pois é! Eu também não… Acaso alguém teve preocupação em divulgar isso?… Interpretação a gosto do consumidor… Por aí podemos traçar padrões de valores da nossa sociedade de hoje…

Pois bem, há cinco anos que escrevo crônicas… Já produzi um romance e pedi patrocínio para a publicação… Não consegui sequer uma resposta positiva das pessoas que consultei e poderiam ajudar a cultura e a arte em nosso município. Inscrevi-me no projeto Antologia Delicatta da livraria Cultura de São Paulo, tive três textos selecionados para compor o livro, novamente busquei apoio dos empresários de Caçador. Ouvi respostas do tipo: Não temos verba… Estamos empenhados em outros projetos… O responsável por este setor não se encontra… blá…blá… blá…

Porém, três empresas apoiaram minha modesta obra, duas delas preferem não se identificar, além de algumas pessoas físicas, que também escolheram o anonimato… Consegui ajuda, mas muitas outras empresas e instituições prometeram e não cumpriram, me deixando a espera do apoio que não veio…

Na verdade não pretendo fazer uma queixa egoísta, porque sei que muitos outros escritores e artistas também passam por todo este desgaste para conseguir apoio na sua obra, afinal, as empresas ajudam se levarem alguma vantagem, como sempre… É assim no capitalismo, quem já tem de sobra, sempre quer mais…

Estamos, portanto diante de uma inversão de valores… Será preciso eu ir trabalhar só de cuecas para ser visto e lembrado?… No Brasil, aqueles que têm boas intenções só aparecem quando resvalam na moral, ou quando realmente não têm os melhores propósitos. Enquanto isso, o reconhecimento sorri para alguém que propositadamente chama a atenção fazendo de tudo, menos o que é primordial em uma universidade: estudar… E o conhecimento?… E o reconhecimento?… Continuam irreconhecíveis a olho nu.

Márcio Roberto Goes

www.cacador.net

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Jornal Informe da tarde – O diário Regional

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Insolação mórbida

 

Fonte: www.google.com
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Pouca gente sabe, mas já dei minhas cacetadas na poesia. Escrevi alguns versos que compuseram dezoito poemas musicados pelo meu amigo Leandro Souza de Matos… Duas destas músicas foram inscritas no último FEMIC e uma delas defendida por mim no palco do auditório da UnC.

Na tarde do ensaio, uma das mais quentes do ano, antes de me dirigir até o auditório para passar o som com a banda, conversava com um dos meus novos vizinhos sobre diversos assuntos corriqueiros que todo mundo fala quando não tem nada pra falar, entre eles, o tempo… Falávamos sobre como o mundo anda estranho, invertendo-se as estações do ano… Como o calor parece muito mais danoso para os seres vivos do que antigamente… Concordo plenamente com toda esta estranheza quanto ao tempo “louco” em que vivemos, ainda mais quando se trata de alguém, como eu, que há quase trinta e seis anos vive neste mundão de meu Deus e ainda não se adaptou com o verão subtropical… Não existe conforto no calor escaldante, mesmo na nudez que desidrata, como relatou Paulo coelho em “As valquírias”

A conversa durou alguns minutos entre eu e o vizinho, separados pela cerca de ferro de sua propriedade, mas uma coisa dita por ele me chamou a atenção e meu cérebro leigo, apesar de muito criativo ainda não conseguiu desvendar por completo a teoria expressa por meu interlocutor. Dizia ele:

– “Os cientistas, com suas experiências, estão puxando o sol cada vez mais perto da Terra… Por isso que o tempo está ficando cada vez mais quente.”

 

Há! Agora entendi! Tudo ficou mais claro! Acho que meu amigo deve ter assistido ao filme “O todo poderoso”, onde Jim Carrey, no papel de Bruce Nolan, laça a lua com uma corda imaginária e a aproxima da Terra para impressionar sua amada… Parece que os cientistas tiveram a mesma ideia em relação ao sol… Mas minha dúvida é o seguinte: Onde arranjaram uma corda, mesmo imaginária, forte o suficiente para suportar o calor de aproximadamente 15000 ºC do astro-rei?… Bem… Não sou nenhum gênio, nem cientista, portanto não perderei o sono por cauda disso…

Mas a grande verdade é que, meu vizinho, dentro de sua sabedoria adquirida pela faculdade da vida tem razão, pois pela ação humana, a camada de ozônio que protege nosso planeta dos raios ultra-violeta está sendo destruída, portanto estamos mais vulneráveis aos malefícios desta estrela diurna, o que faz meu cérebro leigo e criativo concluir que, mesmo de forma conotativa, o sol está mais perto da Terra, derramando de forma mais intensa seus raios que quando ultrapassam a dose ideal, transformam-se em veneno mortal.

Com esta ideia na cabeça, corroendo minha mente viajante e minha alma irriquieta, subi ao palco para cantar meu poema… Uma experiência inenarrável que me rendeu um troféu, igual o de todos, identificado como prêmio de participação… Nem eu, nem meu amigo que defendeu nossa outra música, conseguimos êxito, porém valeu pela participação… Aliás, sempre vale, quando existe a determinação de se expor para defender suas ideias e sua arte: Foi o que corajosamente fizeram os catorze participantes do festival… Mesmo assim, resolvi jogar a culpa toda na pessoa que laçou o sol e o atraiu para mais perto da Terra, afinal, um cérebro fervendo não consegue comandar um corpo inadaptável ao calor repentino…

Ironias a parte, quero felicitar os classificados para a fase regional e desejá-los boa sorte nas próximas etapas para que possam continuar bem representando nossa cidade e que o sol continue brilhando para nossa diversidade cultural e artística…

 

Márcio Roberto Goes

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Jornal Informe da tarde – O diário Regional

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Quanto vale um guarda-chuva?

Um automóvel, sem combustível, torna-se imóvel, mesmo sendo um fusca, mesmo sendo do João dos sonhos azuis…

Num destes dias cinzentos na vida deste sonhador, precisando sair a pé na chuva, com uma pasta rechonchuda nos braços que parecia pesar uma tonelada, nosso protagonista passa o tempo a queixar-se da vida e filosofar… Fez um desses empréstimos consignados que penduram a maioria do povo assalariado. O cara do banco garantiu-lhe que o dinheiro estaria em sua conta na sexta-feira, mas já era quinta da outra semana e o extrato só mostrava uma sequência de zeros no saldo disponível… Por conta disso, deixou atrasar aluguel, boletos e mais boletos que não querem saber como está a vida financeira do devedor, se ele tem família, se o carro quebrou ou ficou sem gasolina, se o aluguel não foi pago, se falta leite para seus filhos, se o “pão nosso de cada dia” não frequenta sua mesa, se a falta de dinheiro tira-lhe a dignidade e a alegria de viver num mundo capitalista selvagem, desumano e cruel para os pequenos, porém muito generoso para os que já têm de sobra por conta da mais-valia…

Andava ele na chuva com vento, debaixo de um guarda-chuva tamanho família com dois aros descosturados, molhando os pés, a pasta e metade do tronco; descendo a ladeira, pensando como tudo seria diferente se os ricos ganhassem menos às custas dos trabalhadores como ele, se o proletariado fosse valorizado como grande realizador do milagre da produção, se tivesse um salário digno que cobrisse todas as despesas essenciais e lhe fizesse valer o direito à saúde e ao lazer garantidos na constituição…

Conversava com seus botões sobre: como tudo seria melhor se a renda fosse distribuída com menos diferenças, se todos fossem iguais perante a lei, outro direito garantido pela constituição, se existisse a vontade sincera dos governantes voltarem seus olhares realmente par ao povo e não para as próximas eleições, se a escola pública tivesse toda a qualidade que as autoridades pregam baseadas em cascas de escolas mal-construídas e abandonadas pelo poder público logo depois da inauguração…

Tudo isso pensava João dos Sonhos Azuis, na ausência do fusquinha da mesma cor de seus sonhos enquanto encharcava-se de H2O que caía do céu em abundância junto com suas esperanças de uma sociedade mais justa e igualitária e o guarda-chuva tamanho “extra G” não dava conta…

Aproxima-se um cidadão de calça azul-marinho, boné da mesma cor e camisa amarela… Era um carteiro, também estava a pé, debaixo do mesmo céu carregado de nuvens pungentes, despejando água sem dó nem piedade, mas este, pelo contrário, sem nenhuma proteção. O jovem enxuga os olhos que se dirigem ao João e fala com um sorriso que oscila entre o hilário e o irônico:

 

– Cara, que inveja que tenho do teu guarda-chuva!…

 

O funcionário dos correios sobe o resto da rua seguido pelos olhos arregalados do João… Aquilo contorce seu cérebro queixoso que chega a seguinte conclusão: Parece que a situação momentânea que vivia, era menos grave do que parecia e que a luta por valorização do ser humano e respeito a dignidade não pode ser algo isolado. Percebeu então que seus sonhos azuis não eram só seus, mas de toda uma classe massacrada pelo sistema elitista em que está inserido… e se todos os sonhadores se unissem, fariam de seus sonhos uma vitoriosa realidade…

 

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Vivendo e desaprendendo

Aprendi a colocar os ovos na gaveta própria para isso na porta da geladeira… Desaprendi… Agora divulga-se a ideia de que não é o ideal, pois com o abre-e-fecha, os ovos estão expostos a mudanças bruscas de temperatura, prejudicando sua qualidade… Aprendi também, em nome da preservação dos recursos naturais, a economizar água nas tarefas domésticas como lavar louça, tomar banho e lavar as mãos… Desaprendi… Agora surge um tal “H1N1” que nos obriga a lavar as mãos com água corrente e sabão em abundância, sem falar no álcool em gel que nunca foi tão consumido…

Na minha infância, mais precisamente quando iniciava a vida escolar para nunca mais parar, ouvi de minha mãe que eu deveria respeitar os professores como seres humanos e como profissionais do conhecimento, com o passar do tempo desaprendi… Aprendi que o professor, agora sou eu e que existem muitos e muitos alunos com os quais convivo diuturnamente que, nem sempre ouvem os mesmos conselhos de seus pais… Aprendi que eu devo ser o primeiro a me respeitar e respeitar meus jovens estudantes… Que apesar de tanta decadência na educação, ainda é muito importante para a vida destes jovens, tudo aquilo que seu mestre faz, pensa, ou fala…

Aliás, aprendi, sem nenhuma falsa soberba a ouvi-los me chamando de “mestre” mesmo sem ter cursado um mestrado (ainda) e penso que todo professor deveria fazer o mesmo, afinal, qualquer médico recém-formado emplaca seu consultório com o título de “doutor”, mesmo sem ter cursado um doutorado… Nada contra, penso que seja até merecido, portanto os professores podem e devem ser chamados de “mestres”, precisamos popularizar esta palavra em relação aos educadores da mesma forma que a palavra “doutor” foi popularizada para médicos, dentistas e advogados…

Aprendi que a gramática era importante, que era fundamental reconhecer o sujeito e o predicado da frase, que quem não sabia análise sintática não aprendia Português, que era necessário a decoreba para preencher os vazios das provas ameaçadoras, organizadas com os alunos cheirando um a nuca do outro… Aprendi um monte de regrinhas de acentuação e tenho até hoje minha tabelinha com estas regras, feita em cartolina na quinta série… Desaprendi (Graças a Deus!), primeiro porque as regras mudaram em nome de uma unificação que nunca deixará de ser inviável. Além do mais, quanto mais estudo, mais vejo que elas não são, nunca serão fundamentais… Conheço alunos ótimos nas decorebas de gramáticas que são incapazes de expressar suas ideias num texto de forma coesa e coerente… Quem tem que saber as regras é o juiz, os jogadores devem jogar… Nossos alunos são os jogadores, portanto devem fazer uso da comunicação escrita de forma prática. Ler, analisar e produzir textos: isso realmente será importante para a vida e o crescimento pessoal dos estudantes e dos professores…

Aprendi que deveria obedecer, cegamente, tudo o que o professor mandasse, sem pestanejar, reclamar, discutir, ou analisar… Desaprendi (Mais uma vez, graças a Deus)… Pois sei que não posso exigir que meu aluno escreva textos maravilhosos se ficar batendo na tecla da gramática pura, elitista e desumana, insistindo naquela visão falsificada de que, quem fala a linguagem culta é melhor do que aquele que faz uso da forma coloquial… Aliás, quem foi que definiu o que é culto e o que é coloquial?… Quem será que se achou no direito de dividir os seres humanos pelas variações linguísticas que só enriquecem nosso idioma?…

Por fim, aprendi e não desaprendi, que não posso exigir que meu aluno produza bons textos se ele não tiver a oportunidade de ler este e outros textos produzidos por mim…

Vivendo e desaprendendo…

Márcio Roberto Goes

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