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Mês: outubro 2009

Consciência ecológica

Fonte: www.google.com.br
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Na calada da noite… ouve-se um tiro… e outro… outro… mais um… Alguém se incomoda e olha pela janela, do outro lado do rio… Mais uma capivara é cruelmente assassinada em nome do conforto humano para satisfazer a gula desumana…

Estes mamíferos só querem viver, são animais silvestres protegidos por lei… Mas, na calada da noite, não existe lei… A justiça torna-se cega de um olho, não vê a crueldade sofrida pelos animais roedores que agonizam sem socorro, não vê o porte ilegal de armas dos outros animais, os que se dizem humanos…

A moça da janela procura ajuda… a ajuda não vem. Dizem que tem que pegar em flagrante… Ninguém tem boas intenções ao portar uma arma de fogo, ainda mais se for ilegal (como deveria, a meu ver, ser todas as armas que não estão sendo portadas pela polícia)… Nenhuma pessoa mata ouro animal, humano ou não, por amor… Mas “à noite, todos os gatos são pardos”, mesmo no Gioppo, mesmo na beira do rio, que conforme o lugar privilegiado que se encontra recebe asfalto, passeios e ciclovia… Mas este local não aparece, não rende votos, não é interessante urbanizar… Melhor deixar a mercê dos caçadores interesseiros, soturnos, sorrateiros e cruéis de capivaras.

O ser humano é o único animal cruel o suficiente para criar um animal, dar-lhe alimento e depois matá-lo só para satisfazer seu paladar, ou tirar algum proveito do cadáver… Às vezes, “mata só para ver o tombo”, apesar de sabermos que existem muitas outras formas de saciar a fome sem precisar do sacrifício de vidas inocentes…

“Mas é só um animal!”… Me dizia alguém, esquecendo-se que também é um animal, mamífero que vive para comer, “trepar” e defecar tão, ou mais fétido que aquela capivara morta, jundo com tantas outras desenfreada e desumanamente, enquanto outros buscam flagrantes…

É inadmissível, revoltante até, o fato de um pobre animal morrer pelo simples fato de se comercializar, clandestinamente seu óleo precioso, ou satisfazer as pupilas gustativas com o sabor do holocausto…

Comer carne é uma atitude adotada por muitos, até por mim, apesar de estar diminuindo o consumo deste tipo de “desalimento” por não me agradar com o fato de que uma vida seja sacrificada para me alimentar, sendo que existem outras formas menos cruéis e mais saudáveis de matar a fome… Mas tudo bem! Não condeno os comedores compulsivos de carne. Quem sou eu para isso? Porém, não podemos aceitar o exagero, a matança sem controle que pode até se transformar num desequilíbrio ecológico ainda maior num planeta que, há muito tempo pede socorro sem ninguém para ouvir seu clamor…

Até quando vamos matando os animais na beira do rio, jogando dejetos (humanos ou não) em suas águas?… Por quanto tempo ainda deixaremos de reciclar o que é reciclável? Até as fontes se esgotarem? Será tarde demais!…

Nada é eterno, nem o rio, nem o lixo, seja ele reciclável ou orgânico, nem a capivara, nem eu, nem você… Mas podemos fazer de nosso breve passeio por este planeta azul, algo mais confortável, sustentável e longevo, se usarmos nosso cérebro para exercitar a consciência ecológica…

 

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Uma criança na lotação

Ônibus é um dos melhores lugares para um cronista. Lá acontece de tudo… Briga de casais, discreta, é claro, o grosso da coisa termina em casa… Pessoas carregando compras de todo tipo que vão desde aparelho de som até acolchoados, ou plantas… No ônibus coletivo tem lugar para todos, como o próprio nome latino sugere: “oni” significa tudo ou todos, e “bus” significa para, ou seja, o ônibus é, pelo menos morfologicamente para todos, e um veículo coletivo que circula em toda a cidade leva consigo as alegrias, tristezas, indignações e todo tipo de características de um povo que dele usufrui…

Na lotação, que é como se chama este veículo em Caçador, tem lugar para pessoas de todas as raças, credos, cores, classes sociais, idades… Já escrevi sobre o motorista que parou o carro para ajudar uma senhora a subir… Pois bem, desta vez, me chamou a atenção uma pessoa jovem, aliás, muito jovem, aparentava seus cinco anos… Um menino, bem a vontade, segurando no apoio do banco da frente, parecia estar acostumado a este tipo de transporte, tudo era familiar. Ele sorria para todas as pessoas, trajava uma jaqueta marrom-clara com uma listra vermelha em cada manga, calça jeans e um par de tênis cinza… Brincava de motorista, repetia os gestos do condutor do veículo. Não pude perceber quem eram seus pais, só sei que ele parecia muito a vontade sozinho, sentia-se seguro, estava em casa, mantinha a privacidade, mesmo com o ônibus lotado…

Não creio que estivesse só, pois passava das seis da tarde e já era escuro, ninguém deixaria seu rebento a essas horas sozinho dentro de uma lotação… Este menino estava tranquilo porque não fora ainda contaminado pelas precauções da vida na cidade, talvez por não se tratar de uma metrópole e a violência urbana ainda ser algo raro por aqui…

Chegamos ao bairro Martello, na esquina da escola Wanda Krieger Gomes, meu ponto de desembarque, mas aquele garoto me deixou como a maioria das pessoas desconhecidas me deixam quando chamam a minha atenção: pensando, confabulando, analisando, raciocinando, contabilizando… e tantos outros gerúndios que só servem para prolongar a ação do verbo…

Até quando veremos esta calmaria suficiente para uma criança se sentir a vontade, sozinha num banco de ônibus ou fora dele?… Se depender de muitas pessoas que ainda acreditam nas pequenas coisas da vida, vai durar eternamente, mas existe muito egoísmo entre os seres humanos que se acham uns melhores que os outros, o que resulta sempre em violência física, moral, ou psicológica… Alguém sempre se acha no direito de fazer outra pessoa de refém moral, por outro lado, muitos se deixam dominar por palavras e atitudes ameaçadoras…

Tudo seria diferente se fôssemos como aquele menino, despreocupados, confiantes, tranquilos, querendo viver para realizar nossos sonhos e tentando seguir os bons condutores, imitando suas qualidades e avaliando seus defeitos… Tudo melhoraria se nos despíssemos do orgulho e do preconceito que insiste em fazer morada no coração humano, tendo como consequência todos os males da intransigência e da tirania, que originam todos os tipos conhecidos e desconhecidos de violência…

Enfim, seríamos mais felizes e faríamos as pessoas ao nosso redor também felizes se fôssemos simples e verdadeiros como aquela criança num banco de ônibus, distribuindo sorrisos despretensiosos e sinceros, sem medo e sem vergonha de ser feliz…

 

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A bolsa da Zita

Minha amiga Zita que de longe não é normal (nem de perto), cidadã lebonregense, a pouco chegada em nossa metrópole Caçador de sessenta, setenta ou oitenta mil habitantes (ninguém sabe, nem mesmo o censo), acostumada com a calmaria da cidade vizinha que presenciou in loco todo o desfecho da história do primeiro DNA de vaca feito no Brasil… Esta criatura, andava pela rua, despreocupada, cantarolando uma canção qualquer do Roberto Carlos, carregava consigo uma bolsa destas que toda mulher moderna carrega, porta-trecos e afins. Estranhava o peso demasiado, não sabia se era a bolsa que pesava, ou ela que tinha ficado mais fraca.

Percorria o caminho pela calçada, em plenas duas horas da tarde, natural e anonimamente, quando ao aproximar-se da delegacia encontra um jovem mediano, cabelos e olhos claros, tênis, camiseta colorida, calça jeans, boné virado, aproxima-se sorrateiramente na tentativa de surrupiar a bolsa da minha amiga…

Num ato de desespero, ao sentir as mãos daquele delinquente deslizando de um modo nada carinhoso sobre a alça de seu porta-trecos, mais rápida que o ladrão vespertino, a corajosa Zita desfere-lhe uma bolsada certeira naquela cara sem-vergonha de ladrãozinho meia boca, deixando-o no chão, inconsciente por uma fração de segundos… Recuperando rapidamente os sentidos, porém não totalmente o equilíbrio, o sujeitinho sai, “tastaveando” no meio da rua, atrapalhando o trânsito, enquanto um senhor do outro lado grita: “Pega ladrão!”… E dirigindo-se a Zita que estava em estado de choque: “A senhora está bem?”… “Estou, mas acho que o rapaz não.”…

Passado o pânico, a jovem senhora começou a raciocinar… “Como pude derrubar aquela rapaz só com uma bolsada na cara?”… E conferindo o “porta-trecos três listras”, percebe um corpo estranho em seu interior: uma peça de metal, nada leve, do veículo do seu marido, que deveria ser levada para o conserto e nossa heroína havia esquecido … Era o objeto errado no momento certo…

Passados alguns dias e consultada sobre o sucedido, minha amiga responde indignada:

– Quero matar aquele infeliz!

Claro que se trata de uma hipérbole, uma força de expressão, digamos, uma metáfora. A Zita, pelo que sei, não é assassina (assim espero), porém, a surpresa maior ficou por conta de sua justificativa:

– Com a bolsada na cara daquele sujeito, danifiquei meu celular. Parece que acionou alguma coisa em seu mecanismo que agora, todo dia ele desperta as duas horas da tarde, fazendo-me lembrar do dia em que derrubei um marginal com uma bolsada em frente a delegacia sem precisar chamar a polícia que tava tão perto… Não tem como desprogramar, pois a tela não funciona.

É! Jamais devemos subestimar uma mulher aparentemente indefesa, principalmente quando carrega alguns quilos de metal em sua bolsa…

 

 

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