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Mês: setembro 2009

Mataram mais um irmão

Um sacerdote, servo de Deus… Mas poderia não ser necessariamente um padre, poderia ser um empresário, um trabalhador, um professor, um jovem, idoso negro, branco, pardo, vermelho, amarelo… Poderia ser eu, ou você… Não importa, o que importa realmente é que trata-se de uma vida humana abreviada por causa da crueldade, da marginalidade, espelho de uma sociedade desigual, de um ser humano egoísta e frustrado que, em nome de seu bem-estar momentâneo, aperta o gatilho quatro vezes em direção a uma pessoa indefesa, por estar de costas…

“Mas o que um padre fazia àquelas horas da noite na rua?” – Perguntava alguém num comentário publicado abaixo da notícia fatídica no site caçador on line… Que pena! Além de tudo ainda existem pessoas que se acham no direito de administrar os horários e a vida de seus semelhantes, esquecendo-se de que o fato em questão é o assassinato cruel de uma pessoa, independente de sua profissão, visão filosófica e política ou dos seus horários. Nada justifica um assassinato, nem mesmo o fato de um padre estar retornando de um jantar depois da meia noite… Não nos cabe agora julgar suas intenções… No entanto, penso que, ninguém tem boas intenções com uma arma na mão fazendo um sacerdote de refém, culminando com a morte da vítima…

Era um padre, muito quisto na sua comunidade. Poderia ser um pastor, um monge, um rabino… Ou nem precisava ser uma liderança religiosa… Mas tinha uma vida, uma família, pais e irmãos que agora choram sua falta, não só pela falta em si, mas pela forma com que se desencadeou… Tinha uma comunidade, uma paróquia cheia de fiéis que esperavam dele uma palavra amiga de conforto e esperança… Mas poderia não ser assim, poderia ser apenas mais um no meio da multidão, alguém anônimo que ficava lá no banco da Igreja bebendo da fonte… Ou ainda, poderia ser um católico “sapecado”, destes que só aparecem na Igreja para eventos sociais, como casamentos e batizados, convencionalmente chamados de não-praticantes…

Era um religioso, mas poderia ser um descrente, ateu, agnóstico, ou qualquer outro tipo de crença e descrença… Não importa… Agora não… Digamos apenas que era um ser humano, nosso semelhante… Para os cristãos, imagem e semelhança de Deus, vítima de um crime não contra um padre, mas contra toda uma Igreja, contra os direitos humanos, contra a dignidade, contra toda uma sociedade, praticado por alguém que também faz parte dela…

Um sacerdote, servo de Deus, agora está mais perto de seu criador. Não sente mais dor, angústia, raiva, medo, pavor, indignação… Todos estes sentimentos ficaram conosco, que continuamos nesta vida humana, terrena e desumana…

 

 

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Carta-resposta de um inadimplente

inadimplente
Fonte: www.google.com.br

Prezado credor;

Creio que vossa senhoria não me conheça, sou apenas mais um número nos seus registros de clientes, que foi lembrado quando resolveu me enviar a correspondência que agora respondo mui cordialmente.

O senhor me mandou uma carta, gastou papel, tinta e contribuiu para o desmatamento só para me dizer aquilo que já sei: sou um inadimplente. Recebi, na citada correspondência, a informação de que não consta em seus registros o pagamento de minha dívida… Óbvio, pois eu não paguei mesmo…

Venho pois, por meio desta, justificar minha inadimplência… Sou mais uma vítima da crise capitalista, que aliás, só atingiu realmente, os pobres, porque aquela pequena porcentagem da população, a qual o senhor pertence, que concentra a maioria esmagadora da renda deste país, teve prejuízos muito menores que os meus…

Ano passado, quando fechamos o contrato, meu salário era o dobro de hoje… O senhor pode alegar que também está em crise e que as vendas de seu estabelecimento diminuíram pela metade. Acredito e não ouso discordar de seus argumentos, mas quero deixar bem claro que a sua metade é infinitamente maior que a minha… Além disso, como no ano passado minha renda era razoável, tive que me explicar com o leão no começo deste ano, e precisei parcelar o imposto de renda em oito suaves prestações que resultaram numa enorme cratera em meu orçamento mensal… Mesmo assim, não nego minha dívida. E vossa senhoria que sonegou impostos ao me vender sem nota fiscal. Tudo o que recebi foi uma tripinha de papel com uma impressão horrível que já desapareceu, só restou a folha em branco com o timbre de sua empresa no verso…

Como se não bastasse, aquele banco que era nosso e agora virou um “BBB”, resolveu ressuscitar uma dívida que nem eu lembrava, para tomar mais uma preciosa parte de meus honorários mensais com a garantia de que eu teria o crédito liberado novamente… Mas não foi isso que aconteceu, acabei ficando com mais um boleto para pagar e uma tal de restrição interna… Fizeram isso porque sou proletariado, pois se fosse mais um empresário bem sucedido as custas de seus humildes funcionários, engravatado e de fala macia, com certeza teriam negociado mais generosamente comigo.

Na cordial e bem redigida carta a mim enviada, consta a informação de que se eu não regularizar o pagamento no prazo estipulado pela sua empresa, serão tomadas medidas legais, ou seja, cobrança jurídica terceirizada… Certamente minha caixa de correio vai receber mais uma correspondência, com um remetente intitulado “alguma coisa advogados”, ou “tal coisa capitalização”. Nomes de efeito assustador, mas que não mudam, em nada minha situação nem a sua, só contribui para inflamar ainda mais nossa relação comercial… Aliás, as medidas legais não foram lembradas quando houve sonegação de impostos e cobrança de taxa pela emissão do boleto, práticas que eu e você sabemos ser igualmente ilegais, aliás muito mais que minha dívida, da qual tenho total ciência… Mas também tenho conhecimento de minhas condições atuais.

Vossa senhoria pode estar em crise também, mas enquanto seu filho estiver dormindo confortavelmente, o meu chorará de fome se acaso eu optar por render-me às suas ameaças e pagar o que lhe devo imediata e preferencialmente… Sua crise, não lhe baixa o nível social, a minha está furtando silenciosamente a dignidade e a pouca qualidade de vida que ainda resta…

Por fim, se ao receber esta correspondência, por um milagre, minha dívida já estiver quitada, favor desconsiderar o conteúdo desesperadamente aqui escrito.

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Utopia de educador

Encontro marcado 2009
Encontro marcado 2009

Uma aluna lendo… compenetradamente… O mundo ao seu redor não importa, só existe o livro a sua frente, só as palavras rodeiam sua mente… Palavras escritas, grande invenção da humanidade que revolucionou e transformou nossa história…

Ela “nem pisca”… estática, concentrada, vez por outra mexe no cabelo, ajeita-se naquela cadeira desconfortável de escola, apoia os cotovelos na mesa… Alguns colegas conversam ao seu redor, mas seus ouvidos encontram-se anestesiados para o mundo exterior, nem mesmo os passos do professor conseguem mover suas bigornas…

Às vezes, dá um suspiro, seus olhos e sua feição refletem tímidas reações que as palavras escritas provocam no mais íntimo de sua percepção…

Lá fora, uma turma em educação física: bola, apitos, gritos, barulho de todo gênero, aqueles sons próprios de qualquer esporte coletivo. Nada disso existe em sua mente de exímia leitora momentânea… Repentinamente sorri, indigna-se, ama, balança a cabeça, “desama”, anima, desanima… Parece hipnotizada, está em outra dimensão, a das palavras, a da literatura, das mentiras reais, da ficção, da verossimilhança, dos sonhos, da vida perpetuada através dos signos linguísticos, do conhecimento e do prazer que só a leitura solitária é capaz de proporcionar…

De repente, fecha o livro, levanta seu olhar para o mundo, como quem volta a mentira da realidade, troca algumas palavras com o professor sobre o objeto lido, dá uma olhada ao redor, visivelmente se desagrada com a situação, abre o livro mais uma vez e volta a ler compenetradamente, volta a viajar nas mentiras verdadeiras, emocionar-se, indignar-se, sorrir, amar, desamar…

Um sonho para qualquer professor de Língua Portuguesa, chega a ser utopia… Mas foram as utopias que revolucionaram o mundo, que fizeram os gênios, pensadores, revolucionários e “metidos” em geral, a serem o que são. Alguém insistiu mais de duas mil vezes numa utopia para recriar a luz… e recriou através da eletricidade que hoje já é uma constante no planeta e não é possível imaginar o mundo sem ela… Será que estou diante da versão feminina e brasileira de Thomas Edison?…

O mais incrível é que este sonho de educador tornou-se realidade diante dos meus olhos… Um momento único na vida de um professor… É possível termos alunos leitores… Digo leitores, não vomitadores de palavras, mas sim aqueles que leem, formam opinião e produzem novas ideias a partir da leitura e através da escrita.

Sei que existem várias formas de se conseguir bons resultados na educação, haja vista as inúmeras teorias praticáveis, ou não das quais tomamos conhecimento na graduação. Porém, quando nos desarmamos das regras vãs e descartáveis da gramática pura, elitista e desumana, conseguimos resultados surpreendentes.

A aluna em questão, estava lendo crônicas, este gênero textual feito para quem quer gostar de ler, de um escritor chamado Fábio Bruggemann, num livro disponibilizado por um projeto chamado Encontro Marcado, promovido pela UNIMED e a 10ª GERED de Caçador. O escritor, em visita a Caçador, mais precisamente na Escola de Educação Básica Wanda Krieger Gomes, viu todo tipo de contextualização de seus escritos, porém, mal sabe ele da revolução intelectual acontecida na vida daquela aluna e de muitos outros estudantes que manusearam, leram, analisaram e produziram novas ideias instigados por sua obra… Utopia de educador?… Não foi o que pareceu a meus sentidos passionais pela educação…

 Márcio Roberto Goes

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Desfile de contrastes

 Desde que me conheço por gente, vejo falar em desfiles do dia sete de setembro em homenagem à Pátria… É o dia em que todos se encontram na avenida principal para ver, ou apresentar-se, ao ar livre em homenagem à terra que os viu nascer. Começa sempre com aquela melodia maravilhosa de Francisco Manuel da Silva que deu vida, ritmo e sentimento ao poema de Joaquim Ozório Duque Estrada… O hino Nacional, julgo ser um dos mais bem construídos textos poéticos de todos os tempos em Língua Portuguesa, fazendo aquilo que só os poetas e os cronistas mais abusados fazem: dar às palavras um sentido e um sentimento que a maioria dos seres ao seu redor não dariam, usando de recursos como as figuras de linguagem ou a inversão da ordem direta.
 Porém, já faz cerca de três anos que não compareço nem para assistir, nem para desfilar… Depois que descobri o verdadeiro sentido da palavra Pátria: “O país onde nascemos, o torrão natal…”, de acordo com o dicionário Aurélio digital… Isso quer dizer que a minha Pátria não é a mesma de “los hermanos al rededor”, ao passo que eu amo esta terra, mas não preciso amar as fronteiras vizinhas, apesar de fazerem parte do mesmo continente e do mesmo planeta, e estarem repletas de seres humanos como eu e você…
 Permitam-me discordar do Aurélio e de mim mesmo, já que me contradigo em relação a outros textos que escrevi com os olhos fechados pelo preconceito nacionalista. Sou brasileiro, agradeço a Deus por isso, amo meu país, me emociono cada vez que canto ou ouço o hino nacional que sei de cor e de coração, mas amo também a humanidade, sem acepção de cor raça, nacionalidade ou Pátria, afinal, um brasileiro não pode valer mais que um argentino ou estadosunidense, nem menos… As fronteiras são o resultado da bestialidade e do egoísmo humanos…

Fonte: www.google.com.br
Fonte: www.google.com.br

 Está na hora de convencermos nossa consciência de que nossa Pátria é o planeta, e que devemos tratá-lo com amor e cuidado… Não era isso que eu via no final de cada desfile de sete de setembro, quando ainda participava: Latas e garrafas ao chão, guardanapos que só foram valorizados enquanto úteis para proteger as mãos da sujeira que se dirigia até a boca e depois eram descartados nas vias públicas… sujeira para cá, sujeira pra lá… Tudo isso depois de prestadas homenagens lindas e emocionantes à “Pátria amada mãe gentil”… Que mãe, por mais gentil que fosse, ficaria feliz com um tratamento desses?… Tiramos nossos filhos da cama muito cedo no feriado para levá-los até a avenida, expostos a todo tipo de intempérie, para vê-los desfilar só para termos o orgulho de dizer depois: “Olha, aquele é meu filho!…” Que lindo ver nossas crianças batendo o pé para aquelas gravatas infetas que compõem o palanque oficial, cheio de discursos bonitos, mas igualmente fétidos!… Que maravilha saber que, enquanto desfilamos e mostramos nosso amor incondicional à Pátria, milhões de pessoas passam fome ao redor do mundo, mas não nos interessa, pois não fazem parte desta faixa de terra que chamamos de nossa Pátria… Aliás, aqui também, muitas pessoas não têm o suficiente para manter uma alimentação digna e tudo o que fazemos é sentir pena e continuar a bater o pé na avenida, amando e idolatrando a terra, mas desprezando a maioria do povo que nela vive…
 Porém, neste ano as crianças não precisaram ser obrigadas e desfilar na avenida que idolatra os contrastes sociais, somente as forças armadas e alguns outros segmentos. Ainda bem! Mas a intenção continua a mesma…
 Infelizmente, a bandeira nacional e a Pátria só são lembradas nas solenidades oficiais e na Copa do mundo, no restante do tempo, a mãe gentil e o planeta são esquecidos e maltratados desumanamente pelos seres humanos…

Márcio Roberto Goes
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Integrando gerações

Demorei vinte e cinco anos para decidir o que queria da vida: ser educador, um ofício edificante tanto para mim quanto para qualquer pessoa que se envolve com a educação, seja ela professor, ou aluno. Naquela noite em que eu retirava meu histórico de ensino fundamental na Escola Básica Salgado Filho e o transladava até a Escola Paulo Schieffler para matricular-me no curso de magistério, também sacramentava o que seria minha principal atividade até hoje, antes porém, cursei erroneamente, um ano de contabilidade que resultou em reprovação… Graças a Deus! Só assim tive a chance de cursar aquilo que me realizaria e hoje não consigo me ver, profissionalmente em outro lugar que não seja a sala de aula ou o computador, meu canal de ligação entre minhas ideias e o resto do mundo…

Terminei o magistério e iniciei um caso de amor pela educação pública, porém atuei por pouco tempo nas séries iniciais do ensino fundamental: alguns meses que formaram o alicerce do meu perfil de educador… Depois, enveredei-me para a área das letras: um mundo fascinante e envolvente que me fez conhecer e viajar pela história e os aspectos sintáticos, morfológicos e semânticos do idioma mais bonito do mundo, o bom e velho Português…

E eis que nove anos depois, encontro-me com a professora Ema da Escola Esperança que nos brinda com a presença de duas turmas nas dependências da Escola Wanda Krieger Gomes, portanto, fazem parte da família. Esta professora, preocupada com uma melhor qualidade de ensino e com um melhor relacionamento pessoal entre seus alunos, convidou-me para fazer um trabalho envolvendo as duas turmas, regidas pelas professoras Ivone e Nelci, no âmbito do relacionamento humano…

Até hoje, não descobri nenhuma forma eficaz de se trabalhar com pessoas que não tenha distribuição de tarefas… Para dividir tarefas, é necessário uma equipe… Que equipe escolher?… Como devemos educar nossos alunos também para a cidadania, convidei meus pupilos do terceiro ano de ensino médio matutino para formar a equipe de trabalho… Durante três semanas, sem nenhum peso de consciência, “fugimos” do planejamento anual que todo professor faz, mas nem sempre cumpre, e nos dedicamos de corpo e alma a este projeto. Visitamos as turmas, construímos material, escolhemos dinâmicas e músicas de recreação… Tudo para que houvesse uma perfeita integração entre distintas gerações de alunos e duas diferentes redes de ensino: estadual e municipal.

ProjetoIntegracao 061

Como tudo o que é novo e diferente, causamos polêmica e preocupação entre alunos e professores envolvidos, porém, como sempre, me surpreendi com o brilhante trabalho dos meus jovens… Foram além das expectativas, mostrando para quem quiser ver (principalmente os que não acreditavam) que é possível e necessária a convivência entre as diferenças… Claro que, metade do mérito é das crianças que foram a razão do nosso trabalho, mas o empenho dos alunos do terceirão e dos professores envolvidos foi fundamental para esta injeção de ânimo e de esperança para estas crianças que precisam ter uma perspectiva positiva para si e para a comunidade…

ProjetoIntegracao 025

Desta forma, só resta agradecer ao empenho de toda a equipe que venceu este desafio através da ação, pois de boa vontade vestida de terno e gravata, inaugurando cascas de escola, está cheio por aí… A ação acontece mesmo é entre os jalecos e uniformes de alunos e professores que são a verdadeira base da educação e deveriam ser o primeiro destino dos investimentos…

 

 

Márcio Roberto Goes

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