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Mês: julho 2009

Preconceito religioso

Fonte: www.google.com.br
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 Numa destas tardes ensolaradas de inverno, quando o frio intenso resolve dar uma trégua, resolvi sair pelas ruas do centro a pé e de roupa social: Sapato preto com meias combinando, calça, camisa e colete azuis, paletó preto… Só faltou a gravata roxa que ganhei do pessoal de Pedagogia quando estive fazendo uma visita a eles…
 Pois bem, nestes trajes saí, “bem bicudo” pelas ruas da cidade, assoviando uma canção qualquer, despreocupadamente olhando as vitrines… Encontrei um conhecido aqui, outro alí, um aluno prá cá, um colega acolá… Quando adentrei numa destas lojas chamadas de “shopping de pobre”, daquelas que, antigamente vendiam tudo a um real, ou a um e noventa e nove, mas agora têm esses valores como preço mínimo, estes estabelecimentos que vendem tanta coisa, na maioria inútil, mas que a gente encontra uma razão de ser…
 Entre uma gôndola e outra, encontrava alguma coisa que me chamava a atenção e parava por alguns segundos, quando aproxima-se um senhor aparentando seus sessenta e poucos anos de paletó creme, camisa verde, calça azul, sapato marrom e puxa conversa comigo:
– Tá encarecendo tudo, né?
– Verdade!
– Você é crente?
 Aquilo me soou meio estranho naquele momento e naquele lugar, mesmo assim, respondi seguramente:
– Sim!
– A gente percebe pela vestimeta… De que Igreja?
– Católica Apostólica Romana…
– Então você não é crente!
 Dizendo isso, pegou a cestinha, continuou fazendo suas compras e me deixou, como a maioria das pessoas desconhecidas que se aproximam de mim, pensando em suas palavras… Ao voltar para minha residência oficial de toda estação, peço ajuda para meu amigo Aurélio digital para entender o sentido da palavra “crente”:
 “Que, ou quem crê”… É o que diz o dicionário. Então por que um católico praticante como eu não é considerado crente?… Infelizmente, convencionou-se no Brasil que crentes são só os evangélicos, que só eles leem e seguem a Bíblia, só eles sabem orar… E o pior, relaciona-se isso a toda pessoa que veste paletó numa tarde normal de inverno… Chamo isso de preconceito religioso, que ao lado do racial, do social e do político, são os piores que a humanidade já alimentou até hoje. Sei que aquele senhor não tem total culpa de pensar assim, alguém enfiou aquilo na cabeça dele…
 Tenho muito carinho e respeito pelos nossos irmãos evangélicos, mas não acho justo que eles monopolizem o adjetivo “crente”, sei que existem muitas Igrejas sérias e bem fundamentadas em suas doutrinas, mas existem muitas por aí, de fundo de quintal, que nem doutrina têm, pregando a Palavra de uma maneira discriminatória, desrespeitando os outros seres humanos que não têm a mesma placa.
 O fato de uma pessoa não acreditar do mesmo jeito que outra, não significa que ela não crê… Existem formas diferentes de cer no mesmo Deus, e tenho a convicção de que Ele não discrimina nenhum de seus filhos, porque então os seres humanos o fazem?… Não importa o lado que bebemos da fonte, o importante é beber da mesma Água Viva…

 

Márcio Roberto Goes

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Amor de irmã

 

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 No início deste ano letivo, deparei-me com uma situação, de certa forma decadente na qualidade de educação dos nossos alunos. Ao solicitar que meus queridos jovens encapassem o livro didático oferecido pelo MEC, uma menina bem apessoada e aparentemente caprichosa, me solta uma bomba moral: “Não sei encapar livro, professor…” Isso no auge de seus quatorze, ou quinze anos…
 Não teve outra forma, precisei ajudá-la… Como ajudei? Mostrando como se faz para que ela realizasse o trabalho… Por que mostrei como se faz? Porque eu sei… Como eu sei? Um dia aprendi… Com quem aprendi? Com minha irmã, que nasceu doze anos antes de mim…
 Em 1981, estava eu ansioso pelo primeiro dia de aula. Era a primeira vez que eu entrava numa escola para nunca mais abandonar a educação pública. Comecei na primeira série, não precisei frequentar a educação infantil, já que eu estava quase alfabetizado por minha mãe, usando de seu conhecimento puro e simples que adquiriu nos dois únicos anos em que frequentou uma escola multisseriada no interior de Lebon Régis…
 Alguns dias antes, minha irmã sentou-se à mesa comigo e ensinou-me, também com seu jeito simples, como segunda mãe, a encapar caderno. Encapamos juntos todos os cadernos que seriam usados por mim durante o ano letivo, com direito a recorte de figura na capa e um desenho bem bonito na folha de rosto, com todos os meus dados, e os da escola onde eu estudaria pelos próximos oito anos de minha vida…
 Foi esta, uma das lições que jamais esquecerei, uma cena que não abandona minha memória… Lembro-me até das figuras usadas na capa e do plástico azul que as revestiram, recordo-me das orientações para usar corretamente a cola, o durex, a tesoura…
 Até hoje, todos os meus cadernos e livros são encapados, graças à maninha que dedicou alguns minutos de seu tempo para ensinar a um pirralho dentuço de sete anos alguns detalhes que revelam capricho e dedicação em tudo aquilo que se faz.
 O pirralho cresceu, a maninha também. Está concluindo agora o curso de magistério, depois de vinte e cinco anos fora da escola. Uma guerreira, cheia de sonhos e expectativas que continua dando exemplo de vida por onde passa… A Marta, agora é Martinha, diminutivo carinhoso adotado por seus colegas de turma, que jamais a discriminam, ou tratam com qualquer tipo de preconceito as diferenças, inclusive de idade, entre ela e a maioria dos alunos a seu redor.
 Na verdade, quando existem diferenças, devem ser usadas para somar e não para dividir as pessoas. Porém, não é isso que encontramos em nosso cotidiano: Discriminação racial, social, religiosa, política, ideológica entre outras besteiras que insistem em fazer parte da vida humana… Mas a Martinha tem provado que o ser humano é muito maior do que pensa e quando acredita em seus sonhos, vai muito além do horizonte, vence barreiras e revela-se grandioso diante dos obstáculos da vida…
 Se olharmos ao nosso redor, sem os óculos escuros do preconceito, veremos muitos outros exemplos como este que transformam a vida de muitas pessoas e no entanto, permanecem anônimos no meio da multidão que não tem tempo para observar as coisas simples da vida. Que de tão simples, são humanas, e de tão humanas, divinas se tornam…

 

Márcio Roberto Goes
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Os dois lados da moeda

Se tem uma coisa que gosto de fazer, além de escrever, é visitar as escolas, estar “de cara” com a situação, ver a realidade dos educandários a meu redor… Na última quinzena, fiz duas visitas inesquecíveis, em ambas fui muito bem recebido e percebi que meus textos estão ajudando aos alunos e acadêmicos a adquirir, ou desenvolver o gosto pela leitura, análise e produção de textos…. A primeira delas, ao curso de pedagogia da UnC, a convite da Rúbia, uma acadêmica de primeira fase, para complementar o trabalho de seu grupo sobre comunicação. Durante cerca de meia hora, conversamos sobre os elementos da comunicação e como esta se dá entre os seres vivos, sobretudo os humanos, únicos capazes de criar linguagens abstratas, entre elas, a escrita, pela qual tenho imensa paixão. Rejubilei-me ao ver um grupo de futuros alfabetizadores, interessados em discutir e analisar os aspectos sociais e linguísticos da comunicação escrita. Foi um prazer voltar à instituição onde cursei licenciatura em Letras e trocar ideias com meus colegas que hora abraçam a mesma profissão que escolhi e que na verdade torna-se um estilo de vida, além de tudo, voltei para casa de gravata nova…

Pedagogia

Para completar minha alegria, fui convidado a fazer uma visita a uma das escolas que ainda mora no meu coração: O Irmão Leo. Fiz uma bonita troca de experiências com duas turmas de segundo ano de ensino médio que trabalharam sob orientação das estagiárias Andrieli e Ivânia, com alguns textos meus… Conversamos sobre a importância de ler e escrever e de como a leitura e a escrita podem transformar a vida de muitas pessoas. Alegrei-me e mais uma vez, senti-me realizado ao ver os olhos e ouvidos daqueles jovens atentos às minhas palavras que resultaram em troca de ideias, haja vista os depoimentos que ouvi durante nosso encontro.

IrmaoLeo

Como sempre, é um prazer visitar e interagir com pessoas envolvidas com a educação, seja de que lado for: dos professores, dos futuros professores, ou dos alunos, afinal os dois lados de uma moeda completam seu valor… Sabemos que não existe método perfeito. Nenhum deles vai suprir de imediato as falhas de nossa educação, seja ela pública ou privada. É preciso uma mudança de conceitos, práticas e condutas em massa, num trabalho a longo prazo, porém, quando se abrem as portas da escola para a comunidade, ou visitantes, abrem-se também as portas do conhecimento para todos os envolvidos.

Creio que desta forma, tenho conseguido realizar meu propósito de escrever para o povo e fazê-lo refletir… Quando chegar o dia, (espero que nunca) em que meus escritos não servirem para as pessoas, principalmente os estudantes, lerem, analisarem e produzirem novos textos, eu aposento o teclado e paro de escrever. Pois a partir do momento em que um texto de minha autoria é publicado, deixa de ser meu e passa a ser de quem o lê…

Agradeço de coração aos meus amigos de pedagogia da UnC, de ensino médio da Escola de Educação Básica Irmão Leo e estagiárias de Letras, pela iniciativa de trocarmos ideias e experiências de vida para nosso crescimento pessoal.

Márcio Roberto Goes

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Pão caseiro

 Sempre que se torna oportuno, falo para meus alunos sobre a importância de aproveitarmos o tempo que temos com nossos pais para aprendermos com eles, pois nossos progenitores não são eternos… Aliás, ninguém o é…
 Foi com meu pai que aprendi lições básicas de carpintaria, como Jesus aprendeu com José: Bater nível, tirar o prumo, cortar uma tábua no esquadro, saber usar um martelo e um serrote de forma que se possa aproveitar mais de seus potenciais, inclusive alguns cuidados com a ferramentaria… Hoje, as duas mesas que tenho em minha residência foram construídas por mim e parte da própria casa foi reformada por minhas mãos, alterando o que meu pai construiu há quase quarenta anos com a ajuda sofrida de meus irmãos…
 Com minha mãe, aprendi a lavar louça, ajudando-a a enxugá-la; a varrer o chão, olhando de longe; a lavar e passar roupa insistindo em fazê-los… Aprendi a fazer bolo de fubá e bolinhos de queijo, este já esqueci a receita, mas ainda posso retomá-la… E tantas outras coisas que tornam minha vida mais prática e confortável, tudo ensinado por minha mãe que lá no fundo de seu coração sabia que um dia isso seria útil para minha vida. Ela estava certa, hoje me viro graças aos seus conselhos e exemplos de vida.

 Papai e mamãe já se foram, ficaram apenas lembranças e os seus ensinamentos. Mas eles vivem em mim, cada vez que construo uma mesa ou uma prateleira, faço um bolo, ou lavo e passo roupa… Porém uma coisa deixei de aprender com minha mãezinha: Fazer pão… Aliás, isso toda mãe do meu tempo sabe muito bem… E cada uma delas tem um pão exclusivo e inigualável. Depois que a dona Áurea faleceu, já provei muitos pães caseiros, todos saborosos, mas nenhum igualou o sabor daquele pão que eu comia na minha infância e juventude…
 Pois bem, depois de trinta e cinco anos de vida, e cinco sem minha mãe, resolvi aprender a fazer pão. Pedi ajuda a muitas pessoas e cada uma me passou uma receita diferente: Numa usa-se óleo de soja, noutra margarina, ou nata… Nesta acrescenta-se um ovo, naquela não… Uma pessoa deixa a massa descansar por meia hora, outra por uma hora, outra ainda não a deixa descansar, mete na forma cansada mesmo… E assim por diante… A verdade é que mesmo não me interessando antes em observar minha mãe fazer pão, ao tentar fazê-lo, minha mente resgatou muitas lembranças que estavam de molho no meu cérebro, como as mãos daquela senhora simples preparando a massa, mesmo sem a ajuda de um cilindro… Inclusive, tive a honra de usar a mesma bacia para misturar os ingredientes…
 Penso que nossa vida seja semelhante ao pão caseiro: A essência, água, farinha e fermento, não muda, mas cada um acrescenta aquilo que considera importante para melhorar o sabor e a consistência. Aprende-se a fazer pão com outras pessoas e a cada receita aprendida, acrescenta-se aquele toque pessoal. Incrível isso!… Até mesmo os pães industrializados têm características diferentes em cada panificadora… Tudo depende das mãos que o fazem.
 Nossa vida é uma massa de pão: está em nossas mãos amassá-la e batê-la para deixá-la crescer, ou meter no forno de qualquer jeito, o que pode ser um desastre. Para tudo o que se quer ter bons resultados, é necessário esperar o tempo certo, fazer a coisa certa, a mistura certa, para que possamos degustar um pão saboroso e fofinho no futuro… Nunca esquecendo, porém da experiência daqueles que vieram antes de nós. Para melhorá-la, é necessário conhecê-la…

 

Márcio Roberto Goes
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