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Mês: novembro 2008

Jeito magrão de ser

 

 Num sábado desses recebi uma missão muito proveitosa e edificante: acompanhar duas meninas e um menino da nossa paróquia até Videira para um encontro de jovens… Na hora marcada, estava eu lá, em frente à paróquia pronto pra funcionar meu pratinha 91 e abraçar esta missão. Aliás, tudo que se refere a jovens me fascina, desde que eu era um deles… E na verdade ainda sou, pois já acumulei duas adolescências durante minha vida de três décadas e meia. Além disso, descobri a fórmula da juventude: basta estar sempre rodeado de jovens para ser sempre um deles… Isso é um fato em minha vida, já que trabalho com esta garotada “sangue bom” do ensino médio, que têm me ensinado muito sobre relacionamento humano.
 Um deles, o único menino, não pode ir por causa de um imprevisto… Tudo bem! Fomos só com dois terços da equipe, mais o tiozinho aqui, ora pendendo pra cá, ora pendendo pra lá, nas curvas sucessivas típicas do caminho de Caçador a Videira: fato que não é de todo mal, pois torna a viagem menos monótona.
 Ao chegar na vizinha cidade, nos dirigimos até o local do encontro, onde acompanhei minhas heroínas… O mais incrível é que elas não sentiram vergonha de mim (ou não demonstraram)…
 O encontro foi muito envolvente e participativo, como tudo o que tem o jovem como protagonista, mas um pequeno detalhe me chamou a atenção: Uma jovem, durante a reflexão, profere uma frase um tanto estranha para ser ouvida por um adulto, enquanto apontava para a imagem de Jesus:
“A gente está aqui pela fé… Pela fé no magrão…”
 Magrão?… O que é isso?… Ela chamou Jesus de magrão? – Pensava eu carregado de preconceito e conservadorismo – Onde está o respeito pelas coisas de Deus?…
 Mas imediatamente, meu lado ranzinza deu lugar a meu lado reflexivo que analisou a situação, colocando-se no lugar dos jovens ali presentes:
 Pois bem… “Magrão” é uma gíria dos jovens contemporâneos. Eles a usam para se dirigir aos seus amigos mais íntimos, como forma de saudação: “Aí magrão!”… Logo, eles identificam Jesus como amigo, incluindo-o no seu círculo social… Um cara que tá por perto, no meio deles, vivo e presente, que fala e entende a língua e as características da juventude… Logicamente, não faltaram com o respeito, mas sim, aproximaram o divino do humano, de uma maneira legal e com a cara da garotada…
 Algumas vezes, meus alunos se dirigiram da mesma forma a minha pessoa: “Aí magrão!”, o que também me torna um amigo mais próximo deles… E o mais incrível é que não me senti nem um pouco ofendido, pelo contrário, desta forma podemos conversar de igual pra igual, sem máscaras e nem barreiras de gerações que insistem em ser impostas.
 Pô cara! Foi mal aí Magrão!… Não sabia que você se ligava nessas paradinha de gíria! Só! Valeu?
 É pela fé no magrão que eu ainda acredito nesta juventude, que é a mola propulsora do mundo. E sei que existem muitos jovens, imensa maioria, que ainda acreditam nos valores éticos morais e religiosos, do seu jeito “magrão” de ser… E com certeza, o magrão também se rejubila com o fato de seus jovens buscarem as coisas de Deus, através da intercessão de seu filho, Jesus Cristo: O magrão que já esteve pregadão, mas que agora é presença viva no meio desta juventude.

 

Márcio Roberto Goes

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Solidariedade ameniza o caos em Blumenau

(Por José Carlos Goes)
 
Blumenau – Sobe para 4,8 mil o nome de pessoas desabrigadas em decorrência da calamidade em Blumenau. Mais de 20 mil estão desalojados. Mais um corpo, de mulher, foi localizado em meio a um bambuzal, na Rua Osasco, no Bairro Garcia. Agora, oficialmente são 21 pessoas que morreram por causa das avalanches que desceram dos morros. A cifra pode aumentar nas próximas horas. O número de residências destruídas ou atingidas de uma forma ou de outra é incalculável.
Ontem as equipes de resgate do exército que atua na cidade por terra e pelo ar – através de helicópteros e tanques-de-guerra, construíram pontes destruídas no Bairro Garcia; e acessaram, com as aeronaves as comunidades que estavam isoladas sem luz, água e comida. Muitos moradores desses locais perderam suas casas e foram conduzidos pelos helicópteros aos 52 abrigos distribuídos em diversos pontos estratégicos do município.
Muitos blumenauenses continuam sem água. Eles matam a sede e improvisam a higiene pessoal através da solidariedade. Quem tem água potável em poço artesiano oferece para os vizinhos próximos. Na Rua Max Aldeman, os vizinhos se uniram, arrecadaram recursos, compraram mangueiras uma caixa d’água para captar água de uma fonte natural. Um morador da rua Indaial, no bairro Victor Konder, disponibilizou a cachoeira localizada atrás de sua residência.
Uma grande rede de doações que abastecem os abrigos foi desencadada. Colchões, roupas, cestas básicas estão sendo doadas pelos blumenauenses não atingidos pela catástrofe. Também começam a chegar no município donativos de diversos estados, através das transportadores com filiais em Blumenau.
Enquanto há uma corrente para salvar vidas e proporcionar as condições mínimas de sobrevivênia da população atingida, uma outra ação revolta a cidade: a ação de criminosos que saqueam as casas abandonas. Na Rua Romário Conceição Badia no Bairro Itoupava Norte, a religação da energia elétrica demorou para acontecer porque a fiação que caiu com os postes havia sido roubada. Para coibir essas ações, a Polícia Militar de Blumenau trabalha  com 180 homens destacados de seu efetivo de PMs para circular no município, 16 viaturas rodando continuamente nas ruas da cidade e um helicóptero, o Águia 1, realizando o monitoramento aéreo. São medidas adotadas pelas autoridades a fim de garantir a segurança pública. 
Além do trabalho intenso do efetivo de PMs da própria cidade, Blumenau também conta com o reforço de policiais de outras localidades do Estado. Até o momento, já recebeu 52 homens de Concórdia, 71 de Chapecó e 60 de São Miguel do Oeste – pessoal exclusivamente encarregado da segurança dos abrigos.
Espera-se ainda a chegada de mais 10 policiais da cavalaria de Florianópolis e do Sistema Móvel de Monitoramento, um veículo equipado com câmera que se desloca para as diversas ruas da cidade a fim de monitorar possíveis ocorrências.
Bombeiros com cães farejadores atuam na busca de locais onde há suspeita de pessoas soterradas.
O sistema de transporte coletivo começou a operar precariamente no dia de ontem, porque alguns terminais ainda estão cobertos de lama.

jcgoes@terra.com.br

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O avesso dos avanços

 Um dia destes… normal, melancólico e monótono… ao entrar na sala dos professores da escola municipal onde trabalho, me deparo com um ser estranho e sobrenatural logo na entrada: Um relógio ponto digital… Verdade! E nada de cartãozinho, o negócio é no dedo mesmo. Tem um orifício com um sensor que reconhece o funcionário pela impressão digital. Chique, né?… Pena que ainda não está funcionando, mas em breve fará parte da vida de todos os funcionários municipais de Caçador (assim espero, pois não me agrada nada saber que se trata de mais um desperdício de verba pública..).
 Lembrei-me de um fato ocorrido em uma escola estadual que trabalhei algum tempo: Foi instalado naquele estabelecimento de ensino um relógio-ponto digital, neste porém era necessário passar o cartão… Acontece que só a presença do relógio-ponto já foi suficiente para tirar a paz dos professores: Alguns posicionaram-se contra, diziam que era uma humilhação ter que bater cartão para trabalhar, etc e tal… Ora, ora! A meu ver, humilhação é ter que assinar um caderninho do século retrasado, a caneta, todos os dias na entrada e na saída da aula… Mas o livro-ponto é nosso amigo, registra só o que queremos, sem atraso, sem saída cinco minutos antes, sem faltas injustificadas e sem nenhum prejuízo nas tais horas-atividade, que são outro fantasma no magistério público… O livro-ponto, nosso amiguinho do peito, aceita tudo o que escrevemos… Bem, para resumir a história, o relógio-ponto daquela escola acabou servindo apenas para programar a sirene automaticamente nas trocas de aula.  
 Há dezesseis anos, quando eu trabalhava numa empresa madeireira de Caçador, presenciei um grande avanço: trocamos o cartão-ponto de papel pelo cartão magnético: uma novidade que deu muito o que falar, ficamos um mês batendo os dois cartões a fim de se adaptar… tivemos até curso para aprender a lidar com o “bichinho” que deveria ficar permanentemente pendurado no pescoço, servindo também de identificação dos funcionários… Isso aconteceu quase duas décadas atrás, e naquela época, meus professores já assinavam o livro ponto… Hoje, século vinte e um, o professor sou eu… Me vejo sentado na sala dos professores, com a caneta na mão, escrevendo horário de entrada e de saída e validando com minha rubrica, preenchendo um diário de papel na sala de aula, atribuindo nota, como se pudesse medir numericamente o conhecimento do aluno, enquanto a empresa em que eu trabalhava continua se modernizando a cada dia.
 Qual será a razão de tanta resistência, não só por parte das autoridades, mas também por parte dos professores, no fato de se modernizar a educação pública?… Se a educação é prioridade, porque continuamos usando saliva e giz?… O que o ponto eletrônico tem de tão assustador assim?…
 É! Parece que não são só os governantes que enroscam a escola pública, apesar de serem eles que deveriam lutar realmente por uma educação de qualidade.
 Precisamos romper com as coisas antigas para abraçar o novo, se quisermos ver alguma progressão na educação pública. Sei que o registro das horas trabalhadas não é o mais importante numa escola, mas começa por aí nossa aversão às mudanças que cedo ou tarde, deverão acontecer. Vivemos num mundo globalizado… isso tem vantagens e desvantagens… tudo muda numa velocidade inacreditável e parece que a escola é a única instituição que estacionou no tempo, quando deveria ser a primeira a abraçar as mudanças, pois é nela que nossos alunos são preparados para viver nos contrastes desta globalização.

 

Márcio Roberto Goes

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Derrubando a cerca

 

 Não vai muito longe o dia em que eu fiz uma colação de grau, tornando-me professor habilitado em letras, onde prometi, entre outros, educar meus alunos para a cidadania… Porém lá no fundo do meu coração, onde já brotava um imenso amor pela educação, eu fazia mais uma promessa: Contribuir para que meus alunos tivessem a coragem e a determinação de expressar e defender suas idéias com argumentos sólidos e de maneira diplomática… E o mais importante: não deixar jamais que sejam “abortados” os seus ideais.
 Durante este ano letivo, tive muitas surpresas por parte de meus “pupilos”, tanto de ensino médio, quanto de quinta a oitava série: Uma tarde, como sou regente de terceirão, eu deveria acompanhar minhas alunas da comissão de formatura para fazer orçamento de camisetas. Aconteceu um imprevisto e elas foram sem a minha presença mesmo. No outro dia, contaram-me tudo o que acontecera na jornada da tarde anterior, com uma intensidade e um envolvimento de alguém que julgava muito importante a minha presença naquele momento… Ao ouví-las, declarei: – “Isso  merece uma crônica”… Fui para casa pensando em escrever, mas não escrevi. Na manhã seguinte, a crônica estava pronta, coerente, coesa, impecável, hilária… Foi escrita despretensiosamente por minhas alunas queridas, com padrões invejáveis para alunos de ensino médio…
 Numa outra ocasião, outra aluna traz uma folha para eu ler e dar meu parecer: era um texto que expressava a profunda indignação pelos acontecimentos ao nosso redor, provocados pelos seres humanos e expressados pelo jornal. E o mais interessante disso tudo: Nenhum desses textos valeu nota, elas escreveram pelo simples prazer de expressar suas idéias, fato que deixa qualquer professor “rindo até para a sombra” de alegria do dever cumprido.
 Porém, a maior surpresa deste ano letivo eu tive nesta segunda-feira, quando os alunos da escola onde trabalho, com o apoio dos pais e professores, fizeram uma manifestação pedindo segurança especializada para garantir a integridade física dos cidadãos de bem que usufruem, ou dependem daquele estabelecimento de ensino. Isso depois de muito tempo tentando resolver através de ofícios e reuniões que “não deram em nada”… O último recurso possível foi a manifestação popular com  presença da imprensa local, que nos fez ser ouvidos, finalmente, pelas autoridades. Não foi uma baderna, como ouvi dizer, e sim um protesto pacífico e voluntário, feito pela comunidade escolar, para melhorar o ambiente onde passamos grande parte de nosso tempo. Um exemplo concreto daquilo que prometi na minha colação de grau: educar para a cidadania.
 No dia seguinte, tivemos a presença da Guarda Municipal para nos auxiliar e desde então, não registrou-se mais nenhuma presença de pessoas mal-intencionadas dentro da escola que voltou a cumprir seu papel social.
 Alguém (uma autoridade), me perguntava ainda ontem, ironicamente: – “Agora que transformamos a escola num presídio, está bom pra você?”… Minha resposta foi o silêncio, pois presídio não é lugar de estudantes e professores comprometidos com o crescimento pessoal. Além do mais, eu estava muito feliz para discutir picuinhas… Feliz por ver que nosso trabalho de educadores valeu a pena… Feliz por ter alunos conscientes que não se desmobilizam com represálias excludentes… Feliz porque aquela comunidade, tão “Martellada” pelas críticas e discriminações, foi destaque na mídia através de uma atitude altamente positiva, que surtiu efeito imediato: coisa que não aconteceu quando tentava-se discretamente.
 Não nego e jamais negarei meu apoio integral a qualquer atitude desta natureza que só faz crescer nossos alunos e comunidade… E se preciso for, não deixaremos de lutar por nossos ideais, pois o ser humano é maior do que pensa… E como diz o nosso bispo diocesano: – “Se o boi soubesse a força que tem, derrubaria a cerca”…

 

 

Márcio Roberto Goes

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Lutar pelos nossos direitos

prriEm meio ao mundo em que vivemos, ainda enfrentamos muitos desafios em todos os setores da vida, mas o mais importante é saber enfrentar os desafios de cabeça erguida.
 Eu estava junto a um grupo de amigos, quando a gente começou a questionar e dar as nossas opiniões sobre os últimos fatos acontecidos na escola… Foi aí que tivemos a idéia de mobilizar o maior número possível de professores, alunos e pais para que fizéssemos um protesto reivindicando mais segurança na escola, já que nos sentíamos todos inseguros. Nos reunimos com professores e demais alunos e resolvemos que deveríamos tomar providências rápidas, pois a direção da escola já tinha enviado vários ofícios e a parte administrativa havia participado de diversas reuniões, porém nada tinha sido resolvido.
 Combinamos, então que estaríamos presentes na escola, na segunda-feira (17/11/2008) para pedir que as autoridades tomassem alguma providência na questão da segurança, pois recebíamos ameaças freqüentes e já não tínhamos tranqüilidade para estudar em paz…
 O grande dia chegou, todos estavam lá: alunos, professores, pais unidos pela mesma causa. Logo fomos surpreendidos por diversos meios de comunicação, imprensa falada e escrita, inclusive com transmissão ao vivo pela rádio… Finalmente conseguimos falar tudo o que estava engasgado já há muito tempo.

Tivemos resposta imediata da Gerência de Educação e da Guarda Municipal e hoje, já temos profissionais trabalhando na escola para garantir a integridade física dos alunos, professores e demais funcionários.
 Acho que devemos tomar conhecimento de nossos direitos e lutar por eles, seja na escola, no trabalho, ou nos órgãos públicos. Aos poucos, conseguiremos conquistar uma escola melhor, daqui a pouco um bairro melhor e quem sabe um dia, um país e um mundo melhor.

 

 

Priscila Schikorski Azeredo
Escola Estadual de Educação Básica Wanda Krieger Gomes
Caçador – SC
3º ano 03 – Noturno
Ensino médio

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