Press "Enter" to skip to content

Mês: outubro 2008

Voto do além

 Após “baixar a poeira” das eleições municipais ainda me recordo de algumas cenas infelizmente corriqueiras em uma época de campanha. Fatos que chegam a ser hilários em meio à corrupção aberta e explícita que ainda sobrevoa todo pleito, apesar das restrições feitas pela justiça eleitoral.
 Em certa comunidade retirada do centro, andávamos com um de nossos candidatos a vereador, de porta em porta, pedindo voto de forma limpa e transparente, procurando discutir as idéias socialistas com o povo daquela localidade. Quando conversávamos com uma senhora que nos atendeu da janela mesmo e demonstrou estar pouco, ou nada interessada naquela conversa… O que ela queria mesmo era levar vantagem de alguma forma, a julgar por suas palavras claras e objetivas:
 – “Olha moço! Eu vou votar naquele candidato que me der umas madeiras para construir um barraquinho pro meu filho que vai casar. Mas tem que ser antes das eleições, porque depois ninguém mais aparece” –  (não posso discordar deste detalhe…).
 Percebi então que não adiantava nada falar de programa de habitação, ou de casas populares. Ela não pensava no bem comum, só no seu umbigo, como grande parte dos eleitores… Aliás, isso me faz lembrar a campanha anterior, quando a equipe de um dos candidatos tentava expor um plano habitacional para pessoas que viviam debaixo de lonas e a resposta foi a seguinte:
 – “Nós só queremos uma lona nova e isso o amarelinho bicudo já prometeu.”
 E por falar em ave em extinção, dois dias antes das eleições, ao chegar em casa tive uma surpresa incomensurável: Na minha caixa de correio, três cartas pedindo voto para um dos candidatos a prefeito, com diferentes remetentes. Uma endereçada a mim e duas para meu pai. Todas as três falavam das coisas boas feitas pelo candidato até então, e das coisas ruins feitas (ou não) pelo seu principal opositor, algumas coisas até tinham fundamento, mas a maioria das palavras parecia rinha de “piá ranhento” que perdeu a pelada na rua e guarda ódio pelo seu adversário. Até aí tudo bem, pois os candidatos devem aparecer e pedir o voto, ou seja, para se fazer uma boa campanha, deve-se expor e fazer o marketing pessoal, do contrário, ninguém poderá adivinhar o que o fulano fez ou poderá fazer pelo bem comum.
 Tudo estaria normal se não fosse um pequeno detalhe: Meu pai faleceu há mais de dois anos, além disso, antes de partir dessa pra melhor, já fazia dezesseis anos que ele não morava e nem votava mais em Caçador.
 Sinceramente, não sei qual é a vantagem de se pedir voto para um defunto… Talvez o candidato acreditasse numa força divina que o intercedesse lá no céu, ou que a família se comovesse com tamanha dedicação ao nosso finado pai e descarregasse todos os votos neste vivente.
 Teoricamente, todo cidadão tem o direito de votar e ser votado, desta forma, já que meu pai recebeu duas cartas pedindo voto, mesmo estando na glória eterna, estou pensando seriamente em lançá-lo como candidato a deputado nas próximas eleições, já que dos vivos, até o presente momento, não vi nenhum projeto realmente favorável ao povo que os elegeu.

 

Márcio Roberto Goes

1 Comment

O guarda-cana

Uma praça… Um banco… Um homem deitado… Seus dois melhores amigos por perto: um cão e um litro de cachaça (aprecie com moderação… O cão). O litro jogado ao chão, já vazio… O homem jogado no banco, já quase cheio (da vida e da cachaça)… O cão jogado pela vida, mas de prontidão, cheio de orgulho por seu dono “tomado” pela bebida que antes era inofensiva dentro do litro, mas agora torna-se doce veneno que faz o homem esquecer da vida cheia de desassossegos e vazia de oportunidades, pelo menos para um bêbado deitado no banco da praça às quinze horas de uma daquelas quintas-feiras cinzentas de sua vida…

 
 Uma praça… Um banco… Um homem… Qualquer homem… João-ninguém, que poderia ser alguém, mas está embriagado e jogado naquele banco frio, sujo, desconfortável, para ele um divã, cujo psicólogo é nada mais que um cachorro de prontidão, desnecessário, pois ninguém aproxima-se de seu herói, sequer para saber se ainda vive, julgá-lo, culpar o boteco da esquina, rebaixá-lo orgulhando-se de não estar na mesma situação, ou quem sabe, ajudá-lo de alguma maneira exibicionista e hipócrita, ou mesmo prestá-lo, de coração, a merecida assistência, enquanto ser humano…

 
 Uma praça… Um banco… Um homem… Qualquer homem… Maltrapilho sem família… Em casa (se tiver), uma família sem seu maltrapilho mor, preocupada com a ausência (ou não) de seu membro mais sublime… O cachorro de orelhas em pé… O homem de braços caídos… O litro deitado no solo, tão inútil quanto o homem: ambos já foram úteis… O enchimento de um e o esvaziamento do outro, os tornaram desnecessários… Pior: um estorvo para a sociedade… Eles não podem continuar ali: incomodam… Estorvam… Atrapalham… Enojam… Desanimam… Mas ninguém faz nada. Por quê? Medo da reação do vira-lata ou da sociedade?

 
 Uma praça… Um banco… Um homem… Qualquer homem… Um cão de guarda… Qualquer cão que ocupa a vaga de melhor amigo de alguém, com um agravante: Esse alguém é um dependente químico, ou simplesmente um bêbado que também merece ter um melhor amigo, com um agravante: seu melhor amigo é um cão, que merece ter um dono… Quem é o dono de quem?… Quem protege quem?…

 
 Uma praça… Um banco… Um homem… Qualquer homem inconsciente, contando com a assistência de um quadrúpede consciente, que o protege dos outros conscientes bípedes e da sua justiça que foi injusta com aquele que perdeu a consciência, a identidade e as oportunidades da vida… Que vida?… Que

 

oportunidades?… Que identidade?… Que consciência?… Que sociedade?… Que cidade?… Que país?…
 Que praça?… Que banco?… Que homem?… Que cachorro?…

 

 

Márcio Roberto Goes
 Quem?… 

1 Comment

O ratão que virou leão

 Era uma vez, um queijo… Um enorme queijo que era compartilhado com quase oitenta mil ratinhos, destes, quase quarenta mil tinham o direito de escolher seus líderes, pois eram mais maduros que os demais, carregados de experiências e sabedoria… Afinal o queijo era muito importante para eles, significava a própria vida, e de fato o era, pois era aquele queijo que os sustentava, portando todos amavam e cuidavam a seu modo do queijo gigante.
 A cada quatro anos os ratinhos tinham a oportunidade de escolher, através do voto, seus líderes… Então se organizavam os candidatos, que pediam apoio a outros ratos para unir forças a fim de derrubar os adversários.
 E eis que houve uma disputa entre três ratões: O ratão bicudo que já tinha o poder do queijo há quatro anos, o ratão do pé “vermeio”, e o ratão da estrelinha… Todos os três organizaram-se de acordo com seus princípios buscando forças para poder administrar o queijo gigante e também ter a oportunidade de morder uma fatia um pouco maior…
 O grupo do ratão bicudo reuniu outros seis grupos de ratos que trabalharam para ele em três frentes de batalha, deveriam lambê-lo e limpá-lo para que parecesse límpido aos olhos dos demais ratinhos… A família do ratão do pé “vermeio” conseguiu o apoio de mais três grupos de ratos, lutaram todos unidos e ajudaram a construir as metas para melhor repartir o queijo… A equipe do ratão estrelinha não conseguiu apoio e resolveu lutar sozinha mesmo, apesar de alguns ratinhos lutarem por sua conta e apoiarem os outros dois ratões às escondidas…
 Foi dada a largada e todos os ratos começaram a batalha, tentando convencer a rataiada de que tinham as melhores propostas para a partilha do queijo gigante… O ratão bicudo se gabava das melhorias momentâneas feitas por ele no queijo, como medidas emergenciais para conseguir mais votos… O ratão do pé “vermeio” mostrava tudo o que tinha feito pela rataiada, apesar de não ter nascido naquele porão… O ratão da estrelinha ficava no meio do fogo cruzado, por vezes atacava, timidamente, um e outro.
 Nos últimos dias antes da votação, os três ratões organizaram as melhores estratégias para ganhar o pleito, porém o ratão bicudo teve a melhor (ou pior) idéia: Adiantou-se e repartiu algumas migalhas do queijo com os ratinhos mais magros conquistando a confiança deles… Resultado: foi escolhido pela maioria da rataiada para administrar o queijo por mais quatro anos. Então os seis ratões que apoiaram o ratão bicudo transformaram-no num leão invencível, o que os reduziu à calda, mas isso não tinha a menor importância, eles estavam todos no poder, poderiam fazer o que quisessem com o queijo, mesmo sendo calda de leão. Porém, leões não comem queijo, nem necessitam dele, só precisam disponibilizar algumas migalhas aos ratinhos para engordá-los e depois devorá-los…
Mas agora, o ratão bicudo que virou leão tem um grande problema: Como repartir a maior fatia do queijo com sete ratões famintos que lutaram em três frentes de batalha e agora fazem parte de sua calda?
Como diz meu amigo Zé: É melhor ser cabeça de rato do que calda de leão.

 

Márcio Roberto Goes

Leave a Comment

Ele percebeu

 
Ele andava pelas ruas, e resolveu prestar atenção em tudo, desde a pessoa que passava a sua frente, até o movimento das árvores que recebiam o mesmo vento que soprava a sua face.
Neste dia, ele percebeu que não conhecia ninguém, até mesmo aqueles com quem conversava todos os dias! Todos não passavam de estranhos: no ônibus que pegava sempre, nas calçadas onde andava, os que olhavam as vitrines… Além de serem anônimos a ele, eram completamente esquisitos.
Olhares distantes, perdidos, famintos. Sorrisos abertos, amarelos ou inexistentes. Sem dúvida pessoas com personalidade, caráter e sonhos diferentes.
Mas a parte mais triste da história, não foi perceber que todo mundo era estranho! Nem mesmo se dar conta de que nunca havia percebido isto antes!
A parte mais lamentável foi cair na real, e compreender que, tão estranhas e insignificantes aquelas pessoas eram para ele, também se refletia de igual maneira sua existência para os outros.

 

Alisson Roberto Cachinski

Acadêmico do curso de Educação Física

UnC –  Universidade do Contestado

Campus Caçador

 

Leave a Comment

Ao mestre, com carinho…

 

 Durante nossas vidas, muitas pessoas marcam profundamente e nos ajudam até a construir nossa personalidade… Além do mais, precisamos dos outros para nos completar e os outros necessitam de nós para completarem-se.
 Neste contexto, comigo não seria diferente: Tive muitas pessoas marcantes na minha vida, seja de forma positiva ou negativa, mas gostaria de ressaltar a extrema importância que tiveram, e continuam tendo meus mestres, na construção de minhas vitórias, já que estamos próximos do dia dos professores. Peço licença aos inúmeros educadores que fizeram parte da minha vida, para homenagear um deles. Sei que todos os meus mestres permanecem em minhas atitudes e em minha personalidade, afinal eles me ensinaram e acreditaram neste “oreia seca” que devagar está conquistando seu espaço na sociedade… Mas um deles é o primeiro e principal responsável por hoje eu estar escrevendo estas palavras que agora você lê no jornal impresso, ou pela Internet.
 Certo dia, quando ainda cursava Letras na Universidade do Contestado, fui corajosamente desafiado, juntamente com o restante da turma, para produzir uma crônica, com data e hora marcados para a entrega: trabalho solicitado pelo professor de Teoria da Literatura, Nilton Preveda… Os dias passavam rápido e nada de eu ter uma idéia criativa o suficiente para a tal crônica, parece que tudo o que acontecia no Brasil e no mundo não me dava a devida inspiração.
 Quando de repente, em sala de aula, presencio um fato corriqueiro, mas que no momento mereceu um texto, fazendo valer a característica da crônica enquanto obra literária: “Aproveitar o momento para fazer graça e reflexão”… Bingo!… Na hora mesmo, puxei da caneta e “descasquei”…. O resto da aula nem ouvi, só sei que ao terminar meu rascunho, mostrei para meu mestre que parou a aula para fazer uma leitura em voz alta… Nossa!… Me senti uma criança de quarta série que tem seus versinhos lidos pela professora para a sala inteira…
 Talvez, meu mestre não saiba, mas aquele foi o pontapé inicial para muitos outros textos que ficariam algum tempo engavetados até que eu pudesse publicá-los, isso porque ele, que também cursou sofrivelmente uma faculdade como eu, acreditou nos meus rabiscos e regou esta semente.
 Sei que tenho muito que aprender, mas jamais me esquecerei daqueles professores que sempre acreditaram que um dia eu seria um deles, sobretudo o Nilton, mesmo não sendo mais meu professor, é um grande incentivador da minha modesta obra, além de ser meu espelho profissional.
 A você, Nilton Preveda, meus mais sinceros agradecimentos por todas as exigências à minha pessoa, que só me fizeram crescer profissionalmente, e onde quer que eu vá, lembrar-me-ei do teu exemplo e das tuas orientações. Desta forma estendo a todos os mestres que creram nas minhas fortalezas, a minha singela homenagem. Obrigado por ajudarem a me apaixonar pela educação!

 

 

Márcio Roberto Goes
Professor, com muito orgulho

Leave a Comment