A escada da esperança
Uma escada em frente à catedral, tendo um homem sentado: uma cena corriqueira, não fosse o fato de o homem segurar nas mãos uma carteira de trabalho e a cédula de identidade, pressupondo mais um cidadão em busca de sustento e dignidade… Expressava tristeza e desânimo em seu olhar, estava cansado de procurar algo, talvez inalcançável: um emprego…
O que estaria passando pela cabeça daquele senhor quase maltrapilho naquele patético momento?… Seria mais um dia perdido?… O que diria sua esposa em seu retorno ao lar naquela tarde cinzenta e lastimável?… Será que tem esposa?… Já teve um dia?… Foi ele abandonado, talvez, por causa do desemprego?… Quantas bocas esperam, em sua casa, pelo alimento que não vem e nem tem previsão de vir?… Será que tem casa?… De que maneira será recebido por seus familiares, se os tem?… Quantas portas já se fecharam para aquele cidadão?…
Desemprego não é doença, mas dói… E esta dor é sentida por todas as pessoas que rodeiam aquele senhor, muito novo para aposentar-se e muito velho para começar um novo emprego, rotineiramente chamado de “preguiçoso e vagabundo” por não trabalhar e taxado de “burro” por não ter estudo… Mas, quem sabe, a vida não lhe deu a oportunidade de estudar, ou quando teve a chance, mesmo tardia, de aprimorar seus conhecimentos, sua prioridade foi o sustento dos seus entes queridos, dedicando-se diuturnamente àquela empresa que não reconheceu seu valor e sua experiência, nem investiu na educação escolar de seu funcionário, e para economizar encargos, simplesmente o demitiu…
Por outro lado, teria ele perdido o emprego por não ser um bom funcionário na concepção do empregador, “dono” do capital e de sua vida profissional…?
Com certeza, os responsáveis por sua demissão têm mesa farta, lucram muito mais do que precisam e não têm tempo a perder pensando no olhar triste, cansado e desanimado de um senhor que “eles” colocaram sentado na escada da catedral, tendo em mãos sua única fortuna: a carteira de trabalho, onde consta a experiência adquirida naquela empresa que sem dar-lhe direito a réplica, abortou sua dignidade…
Como ele, quantos outros se encontram na mesma lastimável e desumana situação: sem emprego nem esperança, já que não são exemplares aos olhos capitalistas (do tipo: “meu nome é trabalho, não tenho família nem sentimentos”), nem podem contar com um bom “padrinho” para empregá-los ou dar-lhes um “carguinho” prometido na campanha eleitoral?… Certamente, se todos os excluídos de nossa cidade, que buscam o emprego, a dignidade, a subsistência, o direito à vida, parassem para refletir sua situação no mesmo local, a escadaria da catedral precisaria ser ampliada com urgência.
Ah, se aquela escada falasse!…
Márcio Roberto Goes
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