Press "Enter" to skip to content

Mês: julho 2008

A escada da esperança

 

 Uma escada em frente à catedral, tendo um homem sentado: uma cena corriqueira, não fosse o fato de o homem segurar nas mãos uma carteira de trabalho e a cédula de identidade, pressupondo mais um cidadão em busca de sustento e dignidade… Expressava tristeza e desânimo em seu olhar, estava cansado de procurar algo, talvez inalcançável: um emprego…

 
O que estaria passando pela cabeça daquele senhor quase maltrapilho naquele patético momento?… Seria mais um dia perdido?… O que diria sua esposa em seu retorno ao lar naquela tarde cinzenta e lastimável?… Será que tem esposa?… Já teve um dia?… Foi ele abandonado, talvez, por causa do desemprego?… Quantas bocas esperam, em sua casa, pelo alimento que não vem e nem tem previsão de vir?… Será que tem casa?… De que maneira será recebido por seus familiares, se os tem?… Quantas portas já se fecharam para aquele cidadão?…

 
 Desemprego não é doença, mas dói… E esta dor é sentida por todas as pessoas que rodeiam aquele senhor, muito novo para aposentar-se e muito velho para começar um novo emprego, rotineiramente chamado de “preguiçoso e vagabundo” por não trabalhar e taxado de “burro” por não ter estudo… Mas, quem sabe, a vida não lhe deu a oportunidade de estudar, ou quando teve a chance, mesmo tardia, de aprimorar seus conhecimentos, sua prioridade foi o sustento dos seus entes queridos, dedicando-se diuturnamente àquela empresa que não reconheceu seu valor e sua experiência, nem investiu na educação escolar de seu funcionário, e para economizar encargos, simplesmente o demitiu…

 
 Por outro lado, teria ele perdido o emprego por não ser um bom funcionário na concepção do empregador, “dono” do capital e de sua vida profissional…?

 
 Com certeza, os responsáveis por sua demissão têm mesa farta, lucram muito mais do que precisam e não têm tempo a perder pensando no olhar triste, cansado e desanimado de um senhor que “eles” colocaram sentado na escada da catedral, tendo em mãos sua única fortuna: a carteira de trabalho, onde consta a experiência adquirida naquela empresa que sem dar-lhe direito a réplica, abortou sua dignidade…

 
 Como ele, quantos outros se encontram na mesma lastimável e desumana situação: sem emprego nem esperança, já que não são exemplares aos olhos capitalistas (do tipo: “meu nome é trabalho, não tenho família nem sentimentos”), nem podem contar com um bom “padrinho” para empregá-los ou dar-lhes um “carguinho” prometido na campanha eleitoral?… Certamente, se todos os excluídos de nossa cidade, que buscam o emprego, a dignidade, a subsistência, o direito à vida, parassem para refletir sua situação no mesmo local, a escadaria da catedral precisaria ser ampliada com urgência.

 
 Ah, se aquela escada falasse!…

 

Márcio Roberto Goes

1 Comment

Meu texto de auto-ajuda

Minhas queridas e meus queridos leitores, venho através destas mal traçadas linhas, manifestar minha profunda indignação com a qualidade daquilo que andamos lendo: É um tal de “Em busca da felicidade prá cá” e “Além do segredo prá lá”, “Como salvar seu casamento” pra cá e “Como enriquecer” pra lá… Chega!… Estou farto de livros de auto-ajuda que só servem para aqueles que os escrevem… Apesar de ter certa lógica, pois “autobiografia” trata da vida de quem escreve, logicamente “auto-ajuda” serve para ajudar o autor do livro… De certa forma a obra cumpre com o seu objetivo. Porém, ao ler um destes livros, cria-se a falsa ilusão de que nossa vida vai ficar cor-de-rosa depois da leitura: o que não é verdade, pois a mudança deve ocorrer de dentro para fora e só consegue vencer aquele que, mesmo não lendo um livro desta espécie, tenha determinação e uma imensa vontade de romper com o velho e abraçar o novo, sem medo nem vergonha de ser feliz.

Devo abrir parêntese para um livro maravilhoso e extremamente útil a quem quer descobrir um pouco da essência da liderança sem fórmulas milagrosas e que, apesar de algumas pessoas classificarem-no como de auto-ajuda, creio que não o é: Trata-se de “O monge e o executivo” de James C Hunter. Aliás, levando-se em conta que ele pode causar uma grande revolução interna naquele leitor que entender sua mensagem, então podemos chamá-lo de um livro entusiástico, com argumentos sólidos e concretos sobre a influência de um líder na sua equipe, ou de um pai na sua família, de acordo com seus atos. A auto-ajuda, na verdade está dentro do indivíduo, palavras impressas num livro só servem para despertar a essência da pessoa como ela é, sem máscaras ou disfarces, mas para isso é necessário que o leitor esteja apto a admitir conclusões: Ou se descobre o empurrãozinho que faltava para crescer, ou chega-se a conclusão de que aquilo não tem nada a ver com seus anseios.

Fechado o parêntese, sabe-se que a felicidade, além de ser uma sensação maravilhosa, também implica no âmbito biológico da pessoa: melhora o humor, a saúde e a relação com os demais. Buscar tudo isso em livrinhos que prometem mudanças mágicas é no mínimo arriscado, pois a sensação de decepção é muito mais dolorosa do que a realidade que se tentou modificar com superstições infundadas, ou seja, acreditar que algo abstrato pode mudar sua vida pode acabar num tremendo desapontamento…

Creio piamente que a fé pode remover uma montanha, uma prova disso é a segunda maior montanha russa do mundo que atravessou o oceano até o Brasil e levará quatro meses para ser remontada no Beto Carrero World…  Mas é preciso reunir forças para movê-la, do contrário, só com pensamentos positivos, será impossível transportar os montes para qualquer lugar.

Bem, acho que consegui, mesmo com certa incoerência, construir meu texto de auto-ajuda. E olha que ele me ajudou um bocado nos meus desabafos… Afinal, auto-ajuda é para ajudar-se a si próprio. Com o perdão do pleonasmo, neste caso o “si próprio” sou eu. E o meu eu interior agradece o meu eu exterior pela profunda ajuda concedida gratuitamente, fazendo o meu eu interior refletir e concluir que: a auto-ajuda é importante, desde que o eu interior não se iluda com fórmulas milagrosas dos outros “eus exteriores” que só querem ganhar dinheiro em cima das diversas carências dos demais “eus interiores”.

1 Comment

Relações homo-caninus

”Quem conheceu um amigo, jamais morrerá…”. Lembrei-me deste trecho de uma canção ao presenciar cenas envolvendo o melhor amigo do homem: o cão… No mesmo dia, encontrei dois cães atravessando duas ruas centrais de Caçador, obedecendo à faixa de pedestres e contrariando os humanos… Quando fiz auto-escola, descobri que pedestre é todo aquele que se move com as próprias pernas, o que comprova que um cachorro é um pedestre e deve portar-se como tal, portanto, nossos dois amigos caninos procederam corretamente.

O cão tem honrado, e muito, o título de melhor amigo do homem (motorista ou não), afinal, ele ama e protege aqueles que lhe dão comida, fato já comprovado cientificamente, além disso, pesquisas mostram que a companhia de um cachorro cura até depressão… Parece cômico pensar que uma doença ocasionada por problemas comportamentais humanos pode ser curada por um quadrúpede irracional que só vive para comer, defecar, urinar, latir e procurar um animal do sexo oposto para cruzar, aliás, neste último aspecto os caninos encontram muitos adeptos “homo sapiens” também.

O “homo caninus” (vamos chamá-lo assim pela grande amizade com o homo sapiens) só não fala porque não tem um maxilar com articulação suficiente, mas compreende melhor que muitos racionais a linguagem humana. Portanto, meu amigo, não se sinta ofendido ao ser chamado de cachorro, isso é um elogio, Quer alguns exemplos?…

O cão percebe quando seu dono não está bem, não pode aconselhar ninguém pelos motivos já citados, mas sabe aproximar-se de maneira a fazer entender que quer ajudar de alguma forma (poucos humanos são capazes desta proesa).

Relação Homo CaninusOs caninos não pensam no dinheiro, aliás, preferem ser vira-latas de donos pobres, que lhe ofereçam restos de comida boa, ao contrário dos cães de raça dos ricos que comem somente ração feita de farelo de osso de primeira qualidade, nada saborosa, que só os cães de raça comem, e têm muitos nutrientes para zelar da saúde do cachorro e deixar o pêlo mais forte e brilhoso, enquanto isso, o filho humano do João Ninguém, nada forte nem brilhoso, deve contentar-se com arroz de terceira e feijão (quando tem) e derivados do fubá puro que só filho de João Ninguém come…

Se você brigar ou bater num cão, mesmo sem motivos, ele não pensa duas vezes antes de perdoar, ou melhor, o cão não perdoa porque não condena (muitos seres humanos são rápidos para condenar e lerdos para perdoar).

O cachorro está com seu dono até o fim e nenhum obstáculo pode separá-los. Como acontece na obra de Machado de Assis, onde o professor Rubião recebe uma grande herança de seu amigo filósofo Quincas Borba, com uma condição: cuidar de seu cão que tem o mesmo nome do dono até que a morte os separe… A fortuna acaba, mas o cão não abandona seu novo dono que depois de uma desilusão amorosa fica louco e morre ao lado de Quincas Borba (o cão que não o condena jamais), coroando-se Napoleão III.

Resumindo, os cães, pedestres ou não, literários ou reais, brilhosos ou opacos, filósofos ou não, têm muito a nos ensinar sobre relações humanas, ou melhor, relações “homo caniunus” que de certa forma são mais humanas que as dos homo sapiens.

Leave a Comment

Os distraídos sofrem

A vida de um distraído é totalmente vulnerável aos acontecimentos do mundo ao seu redor, que muitas vezes passam despercebidos por ele, porém não para o restante da humanidade que ri descaradamente da situação.

Amigo leitor, já aconteceu de você estar no quentinho das cobertas, prestes a dormir o sono dos justos, já no último mistério do terço e de repente sua mente lhe acorda como num flash, para avisar que esqueceu alguma coisa? Algo como: “Será que tranquei a porta?” Nesta ocasião, meio a contragosto, obriga-se a deixar o aconchego dos cobertores para tirar a teima que na maioria das vezes é alarme falso, desperdiçando cinco preciosos minutos de sono em nome da distração compulsiva… Então, já passou por isso? Eu também. Saiba que você não está sozinho no clube dos desatentos, que sofrem com este distúrbio.

Nós, distraídos, constantemente temos lapsos de memória. Do que eu estava falando mesmo? Há, sim! Estava tentando descobrir onde deixei a chave do carro. Enquanto não encontro, vamos mudar de assunto. Os desatentos, além de tudo deixam de prestar atenção a detalhes fundamentais da vida cotidiana, que para um atento seria perfeitamente perceptível e… Encontrei a chave! Mas, onde está o carro?

Dia desses, eu voltava do trabalho, dirigindo meu pratinha 91, ouvindo despreocupadamente uma canção do “Tchê Garotos”:

“E joga as mãos pra cima… Tristeza não interessa… Vamo fazê festa! Vamo fazê festa!”

Quando de repente, encontro à minha frente um carro “devagar, quase parando”, com o pisca alerta ligado. Na frente dele outro, e mais outro, e mais outro. O que estaria acontecendo? Será que todos resolveram testar o pisca alerta ao mesmo tempo? Houve algum acidente? Alguma blitz? Conferi os bolsos, estava com todos os documentos e o cinto de segurança devidamente conectado. O que é um congestionamento na vida de um professor faminto que só teria quinze aulas naquele dia, o que totaliza os três períodos e cada minuto é precioso? Diante destes fatores, não havia motivos para me preocupar. Como sou um sujeito pacato, não me irrito por pouca coisa resolvi relaxar. Aumentei o som e continuei curtindo a música com o alerta ligado para acompanhar meus colegas de engarrafamento:

“E joga as mãos pra cima… Tristeza não interessa… Vamo fazê festa! Vamo fazê festa!… Uhú!!!”

E neste ritmo, com a “sonzera” detonando e o cotovelo esquerdo para fora, esperava alegremente o descongestionamento, quando pude visualizar o primeiro carro da fila fazendo a curva para a direita, dando-me a oportunidade de identificá-lo claramente:

Não pode ser! Eu não acredito! Como não percebi antes, meu Deus? É o carro da funerária! Estou no meio de um cortejo! E agora?

Mais do que depressa, desliguei o som que pareceu demorar duas horas e meia para desativar, tamanha era minha agonia. Procurei logo achar uma esquina para escapar daquela situação. Bem feito! Quem manda ser distraído assumido?

Leave a Comment

Cabeças do Futuro

Depois da classificação das várias tribos da escola, tenho recebido inúmeras manifestações das mais diversas formas, quanto ao conteúdo do texto, seja por e-mail, ou nos bate-papos do cotidiano em meio às discussões sobre o mapa político que hora se desenha para as eleições municipais, cheio de entraves, falcatruas e interesses pessoais acima dos interesses do povo, haja vista o descarrego de siglas numa suposta “quase vitoriosa” coligação que se assim for, vai faltar cabide para tantos penduricalhos, outros ainda teimam em permanecer na briga, mesmo sabendo que não têm apoio, nem mesmo na própria casa.

Mas vamos ao que interessa, deixemos os desabafos para outra hora, afinal, o povo logo perceberá os verdadeiros interesses daqueles que pleiteiam o executivo e o legislativo municipal. O que tenho para dizer agora é que fiquei devendo, dentre as várias tribos da escola, uma classificação: a da imensa maioria composta por bons alunos. Tipo assim… Foi citado, mas não foi nomeado. Tá ligado, mano???

Após perder o sono por causa desta gafe, pesquisar, pensar, raciocinar, analisar, confabular… (Poxa! Chega de tanto verbo no infinitivo, parece objetivos de TCC…). Enfim, após várias tentativas, eis que a resposta vem de uma aluna do segundo ano de ensino médio: “Vamos chamar os bons alunos de CDF”… “Mas esta sigla já é conhecida e não me agrada nada o significado!”… A sigla pode ser jocosa, mas o novo sentido dado por minha aluna é maravilhoso, veja só:

CDF: Cabeças do futuro… Bingo! Descobri! Encontrei a resposta! Uhú!…

Beleza! Vamos chamar, de hoje em diante, todos os bons alunos de CDF (Cabeças do futuro). Isso deveria pular a etapa da gíria e transformar-se instantaneamente em neologia, os grandes escritores deveriam utilizar este novo termo em suas obras para falar dos alunos que estudam, os jornais poderiam divulgar em primeira página, merecia um Globo Repórter especial em sua homenagem, uma emenda na reforma ortográfica prevista para 2010, etc.

Nesta nova concepção, o CDF deixaria de ser aquele aluno que de tão estudioso chega a ser chato e parece ter um “repelente de gente” em sua pele, pois passa a maior parte do tempo solitário.

O novo CDF é aquele que estuda, lê, debate, constrói o conhecimento sem deixar de ser criança ou adolescente, com suas características e conflitos. Além do mais, o “Cabeça do futuro” está liberado para fazer parte de qualquer outra tribo, sem prejuízos à escola ou a ele mesmo. É aquele protagonista anti-herói, cheio de defeitos, mas que se destaca por aproveitar e investir nas suas virtudes e fortalezas.

Penso que minha dívida moral com os bons alunos esteja paga. Não sei a origem exata deste novo significado da sigla que deveria ser um pré-requisito para os políticos que só pensam no futuro da comunidade em época de eleição, só sei que, minha aluna, ao ajudar-me nesta difícil missão de classificar os estudiosos, acabou classificando também ela mesma como uma “cabeça do futuro (CDF)”.

Agora estão completas as principais tribos da escola. Qual é a sua?.

Leave a Comment