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Mês: junho 2008

As várias tribos da escola

Alguns anos se passaram desde que eu ingressei no cotidiano da escola pública e até agora não encontrei a “fórmula perfeita” para educar de forma marcante e duradoura a nossa garotada, a não ser quando nós, educadores, agimos com o coração e o aluno aprende pela emoção… Afinal, tudo que causa emoção é inesquecível.

O que acumulei neste tempo de magistério foram algumas experiências que merecem destaque, aliás, acho que mais aprendi do que ensinei durante este tempo: Aprendi que o ser humano pode ser infinitamente surpreendente e de forma altamente positiva quando a ele é dado um estímulo, uma motivação que resultam na transformação do indivíduo em cidadão atuante na sua comunidade.

Coincidentemente (ou não), estes grandes avanços aconteceram todas as vezes em que, por algum motivo, rompi relações com a gramática pura e resolvi valorizar a leitura, análise e produção de texto de forma livre e democrática, transformando a sala de aula num ambiente descontraído e paradoxalmente produtivo, pois quando o aluno sente-se à vontade, mostra suas verdadeiras qualidades (e defeitos também, é claro), seus mais genuínos talentos, desenvolvendo-os destemidamente. Mas para isso, é necessária que se conquiste a confiança do educando, fator que quando o fazemos de forma despretensiosa, torna-se cada dia mais difícil e muito mais trabalhoso que a aula tradicional, pois neste caso geramos uma relação de cumplicidade com os estudantes.

Pois foi nestes momentos de “liberdade” que colhi alguns subsídios para classificá-los, mesmo que de forma jocosa:

O aluno pombinha: É aquele que vive empoleirado na janela fiscalizando o movimento lá fora…

O aluno lagartixa: Ao chegar na sala, sua primeira atitude é grudar no paredão dos fundos… Para tirá-lo de lá, só com o milagroso sinal que anuncia o intervalo.

O aluno passarela: Desfila o tempo todo de um lado para outro, buscando a atenção do público.

Aluno torneirinha: Toda aula, religiosamente, precisa ir ao banheiro, mesmo que o reservatório esteja vazio, só para prevenir…

A turma do mijo: É a galera que sempre marca encontro no banheiro para colocar as fofocas em dia sentindo os aromas fétidos, sólidos ou líquidos, do campo.

O aluno Van Gogh: É um artista de muito talento, pena que suas obras são pintadas nas mesas e nas paredes da escola e as serventes insistem em destruí-las.

Narcisista: Ama tanto a si mesmo que deixa seu nome escrito, na maioria das vezes, com corretivo, em todos os lugares por onde passa. Esta é uma classificação inerente às meninas e sempre vem antecedida por “100% Fulana de tal”…

Mas é claro que tem aqueles, imensa maioria, que tomam posição a favor dos estudos e mesmo fazendo parte de um dos grupos acima, conseguem avançar no conhecimento sem medo nem vergonha de aprender. Por trás de todos eles, existem seres humanos que, na maioria das vezes, ao receberem uma oportunidade realizam grandes feitos, deixando educadores e família surpresos e agradecidos.

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O maníaco do porão

Tudo começou numa tarde de quarta-feira quando três amigas e uma penetra estavam fazendo um orçamento de camisetas para sua turma: tarefa que lhes foi dada… E para elas, missão dada é missão cumprida… Bem, tudo parecia muito bom e simples, mas… Tudo o que é bom, um dia estraga.

Elas se deslocaram até uma malharia, cujo nome não será divulgado por motivos de segurança. A atendente, cover da Fafá de Belém, explicou que elas deveriam ir até um serigrafista… Elas foram: até aí, nada de sobrenatural.

Chegando lá, tiveram uma sensação estranha: “Ora, pois!”… Era num porão, e além de tudo o porão era escuro e de lá de dentro, ouvia-se algo que parecia ser o barulho de uma máquina triturando ossos… Assustador!

Como eram corajosas, elas resolveram entrar (mas todos sabemos o que acontece com as pessoas corajosas), observaram o local e viram coisas horrendas: Em uma banheira velha eram criadas duas criaturinhas inocentes, duas lindas e meigas tartaruguinhas, com uma luz vermelha fluorescente que as ofuscava… Imagine a cena: Um porão todo escuro com um clarão vermelho.

Mais além, uma aranha gigante que parecia muito real, mas não se vê aranhas reais daquele tamanho; um desenho medonho da morte e fotos de pessoas felizes, mas não sabemos se ainda vivem.

De repente, cessou o barulho e uma sombra monstruosa veio na direção delas. Quando se aproximou, elas “gelaram” e paralisaram completamente os sentidos, então a sombra em forma de homem perguntou com uma voz grossa:

– “O que vocês querem?”

Elas se afastaram do balcão e explicaram o que queriam… A sósia da Fafá de Belém tinha dito, anteriormente, que o que elas procuravam custaria R$ 16,00, mas ele disse que sairia por R$ 23,00. Abismadas, mas sem coragem para pechinchar, elas estavam como robôs, só conseguiam resmungar: – “Ahâm! Ahâm!

O homem era alto, entroncado, lábios finos, sobrancelhas grossas, da sua cabeça brotavam tufos de cabelo, ele trajava um macacão tipo o do assassino do “Massacre da serra elétrica” e estava todo sujo de manchas vermelhas que lembravam sangue… Mas não podemos afirmar nada…

Naquela altura da conversa, se o indivíduo lhes dissesse que custaria R$ 100,00, elas concordariam… Depois disso, nunca mais as vi: uns dizem que elas saíram de lá e caminharam sem rumo, outros já afirmam que não as viram sair de lá nunca mais.

Mas o que posso garantir é que isso é assustador e até o fim do ano, as camisetas vão chegar vermelho-sangue…

Você que está lendo esta história, tome cuidado! Quando passar perto de serigrafias ou porões, pois garantimos que você entrará, mas não podemos dizer que você sairá de lá.

Patrícia Aparecida Pelepe e Priscila Barrichelo
3º ano 01 – Ensino Médio
EEEB Wanda Krieger Gomes – Caçador – SC

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Amor em versos didáticos

Já que acabamos de viver o dia dedicado aos namorados, resolvi dar minha pequena parcela para alimentar ainda mais o amor nos corações apaixonados, ainda que com um pouco de atraso, afinal, o amor perpassa as barreiras do tempo, “não tem idade, não tem hora, nem lugar”, já dizia o poeta… E por falar em poeta, que tal um poema?… Mas como se começa um poema de amor?… Bem, primeiramente, inicia-se com a própria palavra amor, “segundamente” (hehe… só brincando de neologismo), seria apropriado o uso de uma figura de linguagem, neste caso, não existe nenhuma mais romântica que a metáfora, ou a prosopopéia… Então prepare-se… Lá vão meus primeiros versinhos:

“Amor é fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente”

Lindo, né?… Pena que Camões teve a mesma idéia há mais de quinhentos anos, e já foi parafraseada por Renato Russo e tantos outros poetas. Além do mais, apesar de ser uma brilhante metáfora, comparar o amor com fogo é até perigoso: vai que ele se materializa (o amor não deixa de ser matéria) e transforma seu monitor em chamas?… Bem, preciso de algo mais original… Aí estão o terceiro e o quarto versinhos do meu primeiro poema de amor:

“Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure”

Estou profundamente surpreendido com esses versos que da minha mente saem, pena eles também já terem sido pensados por Vinícius de Moraes e cantados nas mais diversas vozes… E olha a chama servindo de metáfora de novo… Tenho medo de me queimar com o amor!

Nas sou um sujeito utópico e sonhador “pleonasmático” (outra neologia: to ficando bão nisso…) e não desisto por tão pouco. Por isso resolvi apelar para os mais profundos de meus sentimentos que moram lá na parte mais inacessível de meu coração, cavoucar profundamente o encéfalo para ver se de dentro de um cérebro cronista também brotam poesias de amor… E descasquei:

“O amor é uma antítese:
Vida que leva à morte,
Morte que leva à vida…
Pois quem ama
A cada dia morre um pouco
Para viver a pessoa amada”

Legal, né?… Esse eu gostei, adorei, amei… Lindo! Super! Hiper! Master! Mega! Power!… Manero! Canal! Massa!… Tipo assim: tudo isso porque é meu, só meu… Não apelei para nenhum poeta famoso nem para os abutres de plantão. É uma obra minha… Uhú!!! Gostei dessas “paradinha”!

Bem, agora preciso terminar com alguma coisa chique, tipo aquelas conclusões de dissertação, cheias de palavras cultas… Lá vai “os finalmente”:

Em virtude dos argumentos apresentados, conclui-se que o amor, por ser um sentimento universal, pode estar em todos os corações e nas mais diversas formas de personificação, ao passo que pode-se chamá-lo de intertextualidade.

É isso, o amor é uma intertextualidade intertextualizada! Tá ligado?

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Abutres de plantão

Publicado em:
06/06/2008 – www.cacador.net
07/06/2008 – Jornal Informe

A vida tem me reservado cada surpresa, que se fosse escrever tudo daria um romance: Algumas delas são boas, outras, nem tanto, como esta que há algum tempo se repete, vem indignando-me profundamente e desafiando meu pobre cérebro mortal em busca de alguma explicação, fazendo-me pensar a que ponto chega o ser humano tentando obedecer à lei do menor esforço e querendo levar vantagem em tudo… Aliás, os meus colegas homo-sapiens se esquecem que ao levarem vantagem em alguma coisa, cria-se um semelhante em desvantagem.

Quando iniciei o curso de Letras, há alguns anos atrás, alguém me procurou para oferecer-me sua “ingênua” prestação de serviços: o mercenário em questão aproveitava-se da preguiça de alguns estudantes para fazer seus trabalhos acadêmicos, inclusive TCC (trabalho de conclusão de curso), cobrando altas cifras pelo produto… Serviço completo, dentro da metodologia e tudo… Um espetáculo que permitia a qualquer um assinar o atestado de corrupto-mor antes mesmo de entrar no mercado de trabalho. Minha resposta foi curta e grossa: -“Sinto muito, mas jamais serei seu cliente” – por dois motivos: Primeiramente porque meu salário no momento era curto demais para gastar com a minha preguiça e financiar a corrupção, e em segundo lugar, minha mãe sempre me ensinou a fazer as coisas do jeito certo, para que ninguém tenha “uma vírgula” a argumentar contra.

Quatro anos depois, tenho um diploma na parede me garantindo uma abreviatura que se resume em mais quatro letrinhas no início do meu nome: Prof. … Pode não ser grande coisa, mas o diploma é meu: conquistei-o com muita garra e dedicação, como a maioria dos acadêmicos que passam por “maus bocados” para concluir enfim a faculdade.

Não satisfeito, matriculei-me num curso de pós-graduação Lato sensu, e “pedalei” para fugir dos “financiadores de preguiça de plantão”. Meu Deus!… Será que tenho cara de quem não tem capacidade suficiente para produzir uma monografia?… Acaso meu semblante revela algum tipo de preguiça crônica para a leitura, pesquisa e escrita?… Não!… Acho que se trata mesmo é de abutres de plantão esperando a carniça da imoralidade e da corrupção que fede de longe, inclusive no meio acadêmico. Mais tarde descobri que isto é um fato que ocorre com muita freqüência nas universidades de todo o Brasil.

Um dia, alguém me ligou – não lembro o nome, mas nem faria questão – pedindo-me que lhe fizesse um trabalho de faculdade. Pagava bem!… Outra vez, obriguei-me a esquecer da educação que recebi na infância e dei-lhe um sermão inesquecível sobre imoralidade e corrupção… Sempre oriento meus alunos que corrupção, além de imoral, é crime e que eles devem valorizar seus talentos e fortalezas, investindo no conhecimento… Isso requer muito empenho por parte do estudante e não de terceiros. Desta forma, que moral teria um professor vendendo trabalhos prontos para financiar o ócio improdutivo?

Se continuar assim, criar-se-ão monstros profissionais, que futuramente estarão por aí, falsificando documentos, desenvolvendo estratégias para pular etapas nas mais variadas situações da vida e obedecendo cegamente à lei do menor esforço. E o pior, muitos destes monstros estarão no poder, financiando sua própria preguiça com dinheiro público. Parece mentira, mas não é!

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