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Mês: março 2008

Diário de um Professor

Diário de um Professor

Publicado em:
28/03/2008 – www.cacador.net
29/03/2008 – Jornal Informe

Querido diário, ao ruído insistente e destemido do meu despertador, acordo meio “desacorçoado”, com os olhos inchados e ainda com aquele restinho de sono que parece nunca ser suficiente para uma segunda-feira de manhã… Automaticamente, desperto para a realidade paradoxal de mais um dia e mais uma semana de trabalho pela frente, jogo uma água no rosto, escovo os dentes, pulo a parte do café da manhã, escolho a roupa, embarco na minha “máquina de transporte” ano 91 e viajo oito quilômetros até a escola onde leciono, sem direito ao vale transporte garantido por lei para os outros trabalhadores “normais”…

Ao descer do carro, no portão, já encontro meus alunos com um sorriso no rosto e alguns até de braços abertos me esperando, bem como, os demais professores. Fato que reanima minhas forças para prosseguir nesta digna, maravilhosa e desvalorizada profissão pública… Já na sala dos professores, me descontraio totalmente no meio de reclamações, esperanças e temores dos meus colegas quanto às turmas, o trabalho e o próprio governo: É o aumento que não vem… Ou melhor, vem disfarçado de abono e depois para incorporar é uma luta mais difícil que tomar sol à meia noite; é aquela turma problema que parece não ter jeito; o livro-ponto que insiste em permanecer na mesa, mesmo na era da informática, quando seria muito mais simples o cartão ponto, condenado por todos aqueles que não costumam cumprir horário… A sirene toca… Que maravilha! Não existe lugar melhor para um professor do que a sala-de-aula… É hora de dirigir-se até a turma da primeira aula. Como sempre, encontramos todo tipo de aluno e a maioria deles prefere esperar o professor no corredor e entrar depois dele.

Querido diário, às dez horas, vamos todos para a assembléia do sindicato, fato que nos rendeu meia falta na folha de pagamento… O que?… Meia falta?… Parece que as pessoas encarregadas de computar as faltas estão precisando urgentemente de uma calculadora, pois… Raciocine comigo, querido diário: Trabalhamos das 7h45min até às 10h00, ou seja, mais de cinqüenta por cento do período matutino, o que dá setenta e cinco por cento do período todo para quem é contratado por quarenta horas semanais… Portanto corresponde a um quarto de falta, e não a meia falta como contaram erroneamente. Parece-me uma tremenda injustiça, dar meia falta para quem trabalhou setenta e cinco por cento do período, visto que, o restante do dia letivo foi cumprido fielmente… Isto está me cheirando a medo da mobilização da classe, o que implicou numa atitude extremamente autoritária, na tentativa de nos desmobilizar…

– Mas é a lei! – Me dizia alguém – que determina que meia hora de atraso já entende-se por meia falta… Parece que essa “lei” só é aplicada para assembléias sindicais, meu amigo diário, pois para bater palmas nas inaugurações daquelas casquinhas verdes, a escola pode parar, perfeitamente, sem nenhum prejuízo para o professor ou para o ano letivo.

Infelizmente, a democracia existe muito bonitinha, mas só no papel, porque na prática, continuamos vivenciando um poder executivo cheio de excelentíssimos engravatados por fora e “podres” por dentro, que governam para poucos… E o povo que os elegeu?… Tenho certeza, querido diário, que este povo logo, logo será lembrado com a proximidade das eleições e depois vai atacar a amnésia outra vez.

Querido diário, tenho vontade de chorar por mim e por todos os meus colegas que não têm sequer o direito de se reunir para discutir propostas e soluções para os problemas que há muito tempo rodeiam o magistério público e até hoje nenhum governante acordou para a importância da educação na vida de um povo…

Márcio Roberto Goes
Mais um “oreia seca” tentando ser ouvido…

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Final Feliz (Cristiane da Silva)

Final Feliz

(Baseado no poema “Três Apitos” de Noel Rosa)

Eu não quero mais te ver

Nem tocar, nem te beijar

Quero tudo apagar

E no fim te esquecer.

Minha vida vou mudar

O passado apagar

Para viver melhor vou lutar

E com você não mais ficar.

Não voltarei atrás

Espero que você não volte

Tudo que aqui começou…

Aqui acabou

Não te amo mais

Estarei mentindo

Em dizer que ainda te quero…

sinto cada vez mais

Que estou te esquecendo

Você não significa nada.

Tudo foi em vão

E esse é o fim

Da nossa relação…

Cristiane Batista da Silva
1ª série 01 matutino
EEEB Wanda Krieger Gomes – Caçador – SC

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O Céu é Lindo!

Publicado em:
07/03/2008 – www.cacador.net

Durante muito tempo ouço falar na importância da inclusão das pessoas portadoras de necessidades especiais na sociedade e, sobretudo, na escola que é o meu cotidiano… Mas o que eu tinha visto até então não passava de teorias e mais teorias, no meu trabalho nunca havia me deparado com alguém especial… Outro dia, observando as escolas onde trabalho, percebi que poucas pessoas pensam na importância de se manter em ordem os aspectos físicos que dão as condições necessárias para os portadores de necessidades especiais se locomoverem o mais confortavelmente possível: Numa delas não visualizei uma única rampa de acesso às salas, somente aos sanitários… Parece-me que um cadeirante teria que assistir aulas no banheiro, para poder ter seu direito de ir e vir garantido…

Noutra escola, equipada com rampas de acesso a todos os pisos e salas-de-aula no mesmo nível dos corredores, porém sem adaptações nos sanitários… Neste caso, o cadeirante tem acesso exclusivamente à sala, devendo deixar suas necessidades fisiológicas para sua casa. Fiquei muito triste ao ver destruído um dos corrimãos da rampa: acho que o vândalo que fez isso (espero que não seja nosso aluno, mas provavelmente é) nunca teve em sua família nenhum portador de deficiência, porque se o tivesse, saberia que em algum momento aquele corrimão naquela rampa seria útil para alguém melhorar sua locomoção… Parece que a inclusão ainda não inclui como deveria.

Este ano estou vivendo uma experiência quase inédita em minha vida: voltei a trabalhar com alunos de ensino fundamental e pela primeira vez, na rede municipal, como ACT (admitido em caráter temporário), onde encontrei, na sexta série um aluno especial, o Marcelo, que enxerga as belezas da vida com os olhos da alma. Graças a Deus e a este menino, acabo de descobrir uma nova forma de linguagem: O Braille. Trata-se de um alfabeto baseado numa seqüência de pontinhos em auto-relevo que torna possível a leitura através do tato… Que coisa boa! Esta era a chance que eu precisava para pôr em prática tudo o que aprendi sobre inclusão na universidade e nos vários cursos durante minha carreira.

Mas só eu aprender, não seria o suficiente… Era preciso que toda a turma tivesse pelo menos uma base, desta forma “diferente” de escrita. Então disponibilizei uma cópia do alfabeto Braille para cada aluno e pedi que meu amigo escrevesse algumas frases simples afim de seus colegas, inclusive eu, tentarem traduzir… A grande surpresa ainda estava por vir: Todas as frases que traduzimos tinham por base a palavra “lindo”, com as devidas concordâncias. Mas o que mais me surpreendeu e me deixou profundamente emocionado foi esta frase: “O céu é lindo!”. Qualquer pessoa a classificaria como uma frase “tosca” para um aluno de sexta série, não fosse o fato de ele ser deficiente visual.

Este momento, para mim, valeu por todos os cursos de aperfeiçoamento (que muitas vezes são feitos visando somente o certificado) e tudo o que debatemos sobre inclusão na faculdade… Mas o deficiente sou eu, porque foi preciso um “cego” me dizer que o céu é lindo para que eu despertasse para a beleza infinita e azul do universo que nos rodeia. Acabo de comprovar o dito popular: “o pior cego é aquele que não quer ver”.

PS: Nunca mais reclamo do desconforto dos óculos, ou das lentes de contato embaçadas…

Márcio Roberto Goes
Míope, mas feliz!

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