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Mês: dezembro 2007

A FLOR E O LOBO


28/12/2007

CAÇADOR ONLINE
29/12/2007
JORNAL INFORME

-“Atenção, ‘Flor do campo!’ Tem carta prá você…”
Dizia a voz do locutor no quadro “Namoro no Rádio”… Enquanto isso, a destinatária ouvia ansiosa e atentamente seu radinho pré-histórico que só pega AM e entre uma e outra canção do Roberto Carlos ou do Amado Batista, o recado tão esperado. Ao ouvir seu pseudônimo no rádio, estampou-se um sorriso em seu rosto já cansado e desiludido com tantos amores fracassados, o que é normal para uma senhora sexagenária e solteirona por opção até então.
Mais do que depressa, largou seus afazeres e pôs-se a trocar de roupa afim de ir até a emissora buscar sua tão esperada cartinha. No caminho, que percorria com seu carrão importado, pensava consigo:
– “Será que é bonito?… Está na minha faixa etária?… Tem posses a meu nível?… Tem curso universitário?… Veste-se bem?… Que perfume ele usa?…”
Entrou na secretaria da rádio com o coração quase saltando pela boca:
– “Olá! Sou a flor do campo. Vim buscar minha cartinha.”
A correspondência era de um tal “Velho Lobo do Mar”… É!… Pelo pseudônimo parecia ser um homem experiente. Seguiram algum tempo trocando telefonemas e e-mails… E a Flor do campo cada vez mais apaixonada, marcou então um encontro na capela Nossa Senhora Aparecida. Ele estaria de terno e ela de vestido vermelho…
No dia e hora marcados, cinco minutos antes, lá estava ela, com seu vestido vermelho de seda e o rosário na mão para disfarçar, sentada no primeiro banco, a espera de seu príncipe encantado. Logo sente uma mão acariciando lentamente seu ombro nu. Quase não se contendo de tanta emoção, ela olha lentamente para trás e visualiza o que parecia ser a gota d’água para erradicar de vez sua crença no amor… Lá estava o “Velho lobo do Mar”, esperando por um suspiro amoroso de sua amante virtual: Cabelos grisalhos (os poucos que ainda restavam), olheiras profundas condenando ser também sexagenário (ou quem sabe septuagenário), que sustentavam um olhar apaixonado e esperançoso… um sorriso quase que totalmente desprovido de dentes, unhas por fazer e com um verdadeiro estoque de adubo para cebola entre elas e os dedos. Trajava um paletó marrom, uma camisa branca que parecia nunca ter visto um ferro de passar roupas com o colarinho na mesma cor do paletó, uma gravata vermelha tão asseada quanto as unhas, calça preta com as barras acompanhando a escala cromática do paletó e do colarinho, provavelmente tingidas pelas ruas de chão de algum bairro abandonado e esquecido pelo poder público, os sapatos marcando as dobras, necessitando urgentemente de uma lustrada… Numa das mãos tão limpas quanto o resto, uma carteirinha do transporte coletivo e na outra, um guarda-chuvas, apesar do sol estar brilhando lá fora, iluminando aquele encontro que tinha tudo para ser inesquecível.
– “Muito prazer! Sou o Velho Lobo do Mar… Você deve ser a Flor do Campo.”
– “O desprazer é todo meu!… Acho que está havendo algum engano aqui. Pode economizar seus uivos que a Flor do Campo acaba de murchar.”
É!… Nem sempre o amor é cego!

Márcio Roberto Goes

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Uns mais iguais que os outros

Não me agrada nada o fato de escrever sobre fatos negativos às vésperas do Natal, aliás é apropriado para o consumismo que todos estejam solidários afim de gastar mais com presentes para sustentar o “natal capitalista”… mas calar-me, neste momento não seria uma atitude digna de um profissional da educação.

Pensei que tivesse visto de tudo no cotidiano escolar, mas esta semana fiquei sabendo de um fato que me fez perceber o quanto o ser humano pode ser desgraçadamente surpreendente quando assim o deseja.

Um colega de profissão passou por momentos inaceitáveis na vida de um funcionário público, ainda mais se tratando de um professor, profissional do conhecimento, que nos ajuda a crescer intelecto e moralmente.

Durante os exames finais, uma aluna foi surpreendida por ele ao portar uma prova parcialmente respondida junto com a sua que estava ainda em branco. Meu amigo fez o que deveria ser feito no momento: Retirou a prova da menina e anulou o exame, numa atitude extremamente justa e apropriada… Em seguida, a tal aluna corrupta e desonesta retirou-se da sala-de-aula, aparentemente, admitindo sua derrota, voltando pouco depois e tomando assento. Alguns minutos mais tarde, o professor é surpreendido por um senhor que invade a classe sem pedir licença, cheio de razão, pedindo satisfações do sucedido e desfere um tapa no seu rosto, perante toda a turma.

Bem, o caso agora está na justiça, não cabe a mim julgar, mas como profissional da área, não posso silenciar diante de tal acontecimento, e sei que se a lei for cumprida, este senhor pode ser condenado de dois a quatro anos de cadeia, por agredir um funcionário público durante o exercício de sua função.

Sei também que este é só mais um caso em meio a tantos outros que acontecem no dia-a dia

da escola: e não só agressão física, moral também… nem sei qual é a pior, só sei que desta já sofri inúmeras que resultaram em vários boletins de ocorrência.

Parece que a violência nas escolas está mais perto e com maior freqüência do que imaginamos, e o pior é que tudo isso continua impune: Atualmente, existem muitos órgãos que protegem “o trigo e o joio” no meio dos adolescentes, porém poucos defendem o profissional de educação, sobretudo da escola pública, obrigado a trabalhar sem o mínimo de estrutura e segurança necessárias a qualquer profissão.

Infelizmente, a escola, com o passar dos anos, assumiu muitas responsabilidades que antes eram da família, que agora agride o professor no perfeito exercício de seu dever… Prefiro pensar que aquele senhor só “errou a mira”: o tapa, na verdade seria merecido pela aluna infratora (Opa! Espero não ser condenado por isso)…

Um médico, um advogado, um pedreiro, um carpinteiro, ou qualquer outro profissional… são respeitados pela profissão, além de serem reconhecidos por ela que torna-se referência para as pessoas ao redor… Um professor, algumas vezes não é respeitado, nem como ser humano, ferindo até mesmo a Constituição que diz: “Todos são iguais perante a lei”… Que lei?… Quem são esses iguais contemplados pela constituição?… Porque “uns são mais iguais que os outros”?…

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Meu Ano Letivo

Meu ano letivo começou, como sempre, cheio de esperanças, temores e surpresas. Reencontrei professores e alunos, encontrei novos estudantes ingressantes no ensino médio, igualmente cheios de esperanças, e principalmente, temores.

Já no início das aulas que começaram com duas semanas de atraso na rede estadual, conheci uma figura fenomenal em forma de aluna, que para ler diariamente vencia um grande obstáculo criado por sua mãe que não a deixava permanecer com a luz do quarto acesa por muito tempo, obrigando-a a fazer sua leitura iluminada pela luz de neon do celular.

Da mesma forma que nos anos anteriores, reforcei as boas e grandes amizades do ano passado e fiz novos, grandes e bons amigos entre professores e estudantes, principalmente de ensino médio, que é a minha grande paixão de educador, fazendo crescer ainda mais meu amor pela educação pública, sobretudo na escola Wanda Krieger Gomes, onde sou professor efetivo, com muita alegria.

No meu ano letivo, vivi maravilhosas experiências: certo dia, entro na sala-de-aula e me surpreendo com algumas alunas que grudaram na parede, letra a letra, as seguintes palavras: “Não faça de sua vida um rascunho, pois pode não dar tempo de passar a limpo.” E olha que por pouco eu não impedi esta traquinagem que deu uma lição de moral em todos aqueles que se acham no direito de riscar as paredes da escola com palavras obscenas e deselegantes.

Presenciei trabalhos e projetos maravilhosos, como o trava-línguas, o JIWA (jogos internos Wanda Krieger), além do Encontro Marcado com o escritor catarinense Amilcar Neves, onde nossos alunos provaram ser muito mais civilizados do que pensa grande parte da população.

No meio do ano, lamentavelmente, perdemos uma aluna que teve sua vida terrena abreviada aos catorze anos, vítima da diabete… quase no fim do ano, um de nossos melhores alunos do noturno perde três dedos da mão direita: uma mutilação perfeitamente evitável, vítima do capitalismo selvagem e do descaso das grandes empresas com a segurança dos trabalhadores de “chão de fábrica”, expostos, constantemente a todas as situações de risco dentro de uma indústria, sem ter ao menos o direito à parte justa que lhes

cabe por aquilo que suas mãos calejadas produzem para “engordar” o bolso de seus patrões.

Neste ano letivo, fui eleito regente de uma turma concluinte do ensino médio, fato que me deixou surpreso inicialmente, mas rendeu-me inúmeras alegrias e vai deixar, com certeza, muitas saudades… Saudades também senti ao visitar duas escolas da minha vida, para debater sobre a importância da leitura e da produção de texto na vida de estudantes de ensino médio, com ênfase no conto e na crônica. Uma delas, talvez tenha visitado pela última vez, já que será demolida e substituída por mais uma “casca modelo” da descentralização pintada de verde.

Meu ano letivo está quase no fim, porém o conhecimento não se limita apenas em duzentos dias bem ou mal trabalhados durante um ano. Uma vez educador, sempre educador…

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COVEIRO POR UM DIA


08/12/2007

CAÇADOR ONLINE
08//12/2007
JORNAL INFORME

Feriado é dia de acordar lá pelas onze e meia da madrugada, nem que “teje” escuro… No último, que aliás desafortunadamente caiu bem no meu dia de folga, na hora marcada, despertei-me depois de uma noite cheia de bonitos sonhos coloridos… minha primeira atitude depois de ir ao banheiro e “tirar a ramela do zóio”, foi levar o lixo até a grade ao pé do muro: fui assoviando uma canção qualquer do Roberto Carlos, ou do Amado batista, não me recordo ao certo, só sei que era boa o suficiente para minha memória de rato não lembrar a letra nem o título.
Ao voltar, mais ou menos do segundo para o terceiro degrau da escada que dá acesso à varanda e à porta principal da residência oficial de verão, primavera, outono e inverno deste ilustríssimo que vos escreve, olho para a direita, próximo ao porão, sigo mais dois passos e me obrigo a olhar novamente… Meus olhos míopes e ceratocônicos não acreditavam naquilo que viam: Um cadáver!… Sim, um cadáver… atirado ao chão, ensopado pela chuva que “varou” a noite… jogado, abandonado, esquecido, desprezado…
Ergui os óculos até a testa, esfreguei meus olhos com o dedo “pai de todos” (mesmo contrariando os conselhos do oftalmologista, que só me permite coçar os olhos desde que seja com meus cotovelos…), olhei novamente e cheguei a triste conclusão de que era a mais pura verdade: Eu amanheci o dia com um cadáver ao lado de minha casa… Por um instante fiquei “desnorteado”, não sentia mais o chão debaixo de meus pés (de fato, estava eu no quarto degrau da escada), olhando fixamente para um cadáver que apesar de fresco, era muito mal cheiroso e peludo… Nenhuma novidade, pois as raposas já têm um odor não muito agradável em vida, quem dirá depois de mortas.
Passado o susto, subi o restante dos degraus pensando: Como aquele cadáver foi parar no pé da minha escada?… Será que desgostou-se da vida e se jogou do telhado, desanimado por um amor não correspondido?… Teria ele provado o doce veneno do leite adulterado e tomado uma congestão de soda cáustica com água oxigenada?… Seria um produtor rural que teve seus produtos apreendidos e ficou sem o mínimo de renda para sua sobrevivência e por isso resolveu terminar com a própria vida?…
Seja qual for a “causa mortis”, a única atitude a ser tomada seria enterrar a “disgranenta” da raposa (ou gambá: nunca sei quem é quem), antes que algum desorientado reconheça o corpo, faça o velório e encontre o defunto vivo andando pela rua depois de três dias…
Foi o que eu fiz: Providenciei uma enxada e, mesmo debaixo da chuva fina que já principiava novamente, pus-me a cavar, afim de dar ao raposão um enterro digno de um ser que não fez nada mais do que lutar por sua sobrevivência que o destino, ou a espingarda de um ser humano incomodado e desumano, abreviou violentamente, sem dó nem piedade, vindo dar seu último suspiro na casa de alguém que, ao contrário dos seres normais, certamente escreveria sua história catastrófica, eternizando-a numa coluna de jornal.
Missão cumprida. O corpo está enterrado e camuflado, acima de qualquer suspeita, nos fundos da casa. Mas sua morte ainda permanece um mistério, digno de um romance policial com investigação detalhada de Sherlock Holmes ou de uma reconstituição no programa “Linha Direta” da poderosa do “Plim! Plim!” …

Márcio Roberto Goes

Pagando de coveiro

http://marciocronicas.blogspot.com/

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