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Mês: novembro 2007

UM DIA DE CHIQUEZA

João juntou sua família e umas economias, colocou dentro de seu fusca azul da cor de seus sonhos, e resolveu levá-los para almoçar fora no último domingo. Depois de passar três dias à pão e água em preparação para a ceia, procurou o restaurante mais caro e famoso da cidade, aproveitando a pequena trégua da miseresma: uma churrascaria que oferece espeto corrido e tem um nome italiano.

Pra começo, teve que aguardar até a uma e meia da tarde para conseguir uma mesa… Entrou, serviu seu prato com tudo o que tinha direito e mais um pouco, inclusive aqueles pratos que só os ricos conhecem, com nome estranho, e sentou-se à mesa. Estava meio perdido, não sabia como usar um guardanapo nem os talheres certos para cada prato, mas conseguiu se virar… Sentia-se meio desconfortável, visto que a cada garfada que tentava levar à boca, surgia, do nada, um garçom oferecendo alguma variedade de carne. Mas conteve seus ímpetos de fugir dali, e permaneceu tentando ser chique, pelo menos uma vez em sua vida.
Quando tentava degustar um molho meio amarronzado, com pedaços de carne sabe-se lá do quê e sabor de pé dos outros, parecido com queijo vencido, aparece a seu lado um sujeito de camisa branca, colete cor de vinho, uma toalha em seu ombro direito, um espeto enorme na mão esquerda e um facão na direita, com os olhos esbugalhados, perguntando:
– Coraçãozinho?
Mais do que depressa, João vira-se para o vivente, cuja masculinidade tornou-se totalmente duvidosa ao proferir aquelas palavras e retruca indignado:
– Ih! Sai pra lá cara!… Eu sou espada!…
Mais alguns segundos e surge outro cidadão com o mesmo traje (devem ter comprado em alguma promoção de ponta de estoque em seis vezes sem entrada), carregando um carrinho com um resto de cadáver de algum animal em cima, um olhar sarcástico, também portava um facão (porque será que todos andam armados por aqui?). O sujeito pára em frente ao João e pergunta aos membros da mesa:
– Vocês querem ovelha?
– Agradeço – Responde, meio sem jeito, o João – mas não tenho lugar para ela lá em casa. Meu quintal é muito pequeno e não tem pasto.
Chega a hora da sobremesa, nosso sonhador de sonhos azuis serve seu prato com uma papinha repleta de bolinhas parecendo olhos de sapo, juntamente com um pudim semelhante a tronco de xaxim ao molho.. Tudo muito saboroso, porém muito estranho… Agora, finalmente cessaram as visitas daqueles uniformizados e armados que pareciam estar sempre em alerta, com a faca na mão, de vez em quando parando para amolar…
Tudo perfeito… Família contente, satisfeita e de barriga cheia. Enquanto esperava na fila do caixa, João experimenta uma bebida estranha que lhe desce corroendo o esôfago… Não reclama, pos é a única coisa que conseguiu de graça, além da sobremesa de olhos de sapo, naquele restaurante.
A conta é mais salgada que o churrasco que ele não comeu por orientações odontológicas, mas vale a pena pagar caro para ser chique por um dia e depois voltar à miseresma cotidiana de alma e bolso lavados.

Márcio Roberto Goes
Cada vez mais chique
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3 Comments

UM ENCONTRO MUITO BEM MARCADO


01/11/2007

CAÇADOR ONLINE
03/11/2007
JORNAL INFORME

Esta semana, vivi um dos momentos mais marcantes na minha modesta vida de professor de Língua Portuguesa e Literatura: Trata-se do “Encontro Marcado” com o escritor catarinense Amilcar Neves, um projeto da UNIMED em convênio com a 10ª GEECT.

Durante um mês e meio trabalhamos, analisamos e criamos em cima de suas crônicas que são publicadas às quartas-feiras no Diário Catarinense. Já havia conseguido resultados fantásticos em sala-de-aula, no que tange à leitura e produção de texto com ênfase no conto e na crônica, porém, a conclusão do trabalho, com a visita do escritor que aconteceu na escola de minha infância: Dom Orlando Dotti, me reservava novas e maravilhosas surpresas…
Dois dias de evento: Na quarta-feira à noite e na quinta-feira pela manhã, vivenciamos a maravilhosa construção de conceitos e do gosto pela Literatura, despertada através de um trabalho simples, mas que surte efeitos imediatos na educação de nossos jovens de ensino médio.
À hora marcada, lá estava eu, “paizão coruja”, com seus anjinhos da EEB Wanda Krieger Gomes e outros professores, prontos para o evento, com alma e coração abertos e curiosos, cheios de dúvidas sobre o autor e sua obra.
Meus alunos (desculpem o exagero do pronome possessivo), residem na periferia da cidade, esquecida e abandonada pelo poder público, num bairro que, por muitas vezes foi protagonista de notícias não muito agradáveis, estudantes que usam da garra e da coragem juntamente com seus professores, para construir o conhecimento numa escola nova, porém sem a estrutura necessária e prometida pela descentralização… Estes alunos, muitas vezes olhados com desconfiança, fizeram um trabalho maravilhoso baseado na obra do autor, apoderando-se de vários recursos tecnológicos de multimídia para “recriar” a partir das crônicas de Amilcar Neves, que observava tudo admirado, como a maioria do público, além de terem demonstrado especial atenção e o respeito merecido a um evento deste porte.
De forma alguma estou desprezando os trabalhos das outras oito escolas envolvidas no projeto, que aliás foram muito além das expectativas e tenho certeza que realizaram trabalhos tão ou mais surpreendentes, mas como professor “coruja”, cansado de ouvir maus comentários sobre a comunidade onde trabalho, sinto-me na obrigação de fazer jus ao trabalho e à dedicação desta garotada que não poupou esforços para participar do evento, mesmo com dificuldades de transporte, visto que a escola localiza-se a mais de oito quilômetros do local do evento. Tenho absoluta certeza, que todo este esforço terá resultados imediatamente perceptíveis, no trabalho dos professores, no boletim e na vida cotidiana destes alunos, que, na sua maioria já despertou para a leitura diária: uma grande prova disso foi o aumento imediato de empréstimos de livros em nossa truncada biblioteca provisória.
Quero expressar, em nome dos meus “anjinhos”, meu profundo agradecimento ao cronista que nos deu o prazer de sua presença para debaternos sobre a leitura e produção de texto, à UNIMED e à Gerência de Educação, que apostaram e acreditaram no potencial de alunos e professores que juntos somam mais de oitocentas pessoas de Caçador e região, em favor da educação pública de qualidade.
Márcio Roberto Goes
Professor, com muito orgulho
http://marciocronicas.blogspot.com/
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