BRINCANDO DE BONECA
por Márcio Goes in outubro 14th, 2007
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13/10/2007
JORNAL INFORME
Fazer compras parece um ato corriqueiro na vida de um ser humano, principalmente num fim de tarde, em semana de pagamento: aí todos se encontram naquele supermercado que tem as melhores promoções (ou pensa que tem).
Há alguns dias atrás, como acontece todo mês, fui às compras, para garantir a alimentação e uma vida basicamente confortável durante um mês. Estacionei meu possante prata, cor de chaminé, muito diferente do fusquinha azul da cor dos sonhos do João, que por coincidência também estava lá com sua família a fim de encher seu “herb blue” de compras… Acionei o alarme e adentrei ao estabelecimento, visualizando lá da porta o carrinho que seria meu companheiro pela próxima meia hora, “zanzei” por todo o mercado afim de lembrar o que faltava em casa porque, como também acontece todo mês na vida de um cronista desprecatado, esqueci de levar a lista de compras, o que sempre resulta em coisas de mais e coisas de menos na minha prateleira.
Escolhi minhas compras com calma, passei no caixa, onde fui atendido por uma moça altamente simpática e obsequiosa, naquela esteira que dispensa qualquer esforço da operadora-de-caixa, a não ser o ato de posicionar o código de barras na direção do sensor e entregar a mercadoria ao ponta-de-caixa para ser devidamente empacotada e colocada num outro carrinho.
Na saída, acompanhado pelo auxiliar, também cortês, dirigi-me novamente ao meu “pratinha 91”, desliguei o alarme e guardamos as sacolas no banco de trás. Tudo acompanhado, meio de longe, por uma menina cujo olhar e expressão corporal revelavam a intenção de falar comigo tão logo o funcionário do supermercado se afastasse.
“É mais uma criança pobre, explorada pelos pais” – pensava com meus botões - “que vai me pedir um trocadinho e comovido eu vou puxar cinquenta centavos da carteira para um pseudo desencargo de consciência e satisfeito, dormir tranqüilo com a certeza (também pseudo) do dever cumprido…”
Concluída a tarefa, agradeci ao rapaz que adentrou ao estabelecimento afim de cumprir seu dever de proletariado. A menina, conforme o previsto, se aproximou: trajava uma calça de moleton e uma jaqueta vermelha com logo de uma escola particular, certamente presenteada por terceiros, visto que não tinha jeito de ser aluna de escola “chique”. Ao aproximar-se, percebi que sua vestimeta era extremamente simples, porém, exageradamente limpa, o que derrubou cinquenta por cento da minha primeira impressão. Mostrando-me uma bonequinha feita com parte de uma garrafa Pet e roupinha caprichosamente confeccionada em crochê, aquela criança dirige-se a mim, proferindo palavras de uma educação exemplar:
“Moço, quer comprar uma bonequinha? É minha mãe quem faz… preciso arrecadar dinheiro para minha formatura do PROERD amanhã… ”
Não pensei duas vezes, tratei logo de comprar uma bonequinha, mesmo que não tenha utilidade alguma, mas certamente a atitude daquela menina pré-conceituada erroneamente por mim, convenceu-me que era uma boa causa. Afinal, qualquer dinheiro empregado na educação, não é gasto, e sim investimento. Recordei-me saudosamente da minha faculdade, cujo percurso foi feito com muito sacrifício e num dado momento, minha família e meus amigos promoveram uma macarronada para angariar fundos com o objetivo de pagar minha dívida com a universidade que já tinha tomado proporções irreversíveis. Atitude que salvou minha vida acadêmica. Quem sabe a vida estudantil e profissional daquela menina, cuja relação comigo foi tão efêmera, não tomará rumos mais otimistas através de meu ato e de tantos outros que solidarizaram-se pela sua causa. Afinal, ela não quer nada de graça, está apenas conquistando sua cidadania, oferecendo algo como agradecimento àquelas pessoas que a ajudam…
Mais uma lição de perseverança na minha vida.
Márcio Roberto Goes
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