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Mês: julho 2007

A LÓGICA DA TRAGÉDIA

25/07/2007
CAÇADOR ONLINE
28/07/2007
JORNAL INFORME
João dos sonhos azuis entra correndo na prefeitura, meio ofegante e com cara de desesperado:
– “Quero falar com o prefeito!… Onde ele está?”
A secretária, muito educada, lhe responde:
– “O prefeito está muito ocupado, inaugurando um pé de couve e depois vai inaugurar meio metro de asfalto casquinha num bairro de nossa cidade, em seguida vistoriar os portais das escolas… Creio que não poderá lhe atender hoje, senhor.”
– “Mas meu caso é urgentíssimo!…”
– “Do que se trata, senhor?”
– “Bati meu carro… quer dizer, meu fusquinha azul!…”
– “ E como aconteceu este acidente, senhor?…”
– “Faltou freio na descida, a pista estava molhada e bati na traseira de um chevete…”
– “Me desculpe, senhor, mas acho que a prefeitura não tem nada a ver com isso.”
– “Por que não? O que vocês têm contra fusca e chevete? Por acaso eles não são carros?”
– “Não é nada disso… Acontece que este acidente não é responsabilidade da prefeitura, e sim do proprietário do veículo.”
– “Como assim?… Eu bati nas ruas desta cidade!…”
– “E por que bateu?”
– “Faltou freio e a pista estava molhada, eu já disse!”
– “A prefeitura não tem nenhuma responsabilidade sobre os freios de seu veículo, senhor…”
– “ Ôpa!… Não é qualquer veículo. É o meu fusquinha azul!…”
– “ Pois bem! A prefeitura não tem nenhuma responsabilidade sobre os freios de seu querido e idolatrado fusquinha azul…”
– “Pois bem, digo eu! Raciocine comigo: Dias atrás um avião perdeu o controle no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, matando cerca de duzentas pessoas. Certo?”
– “Certo! Só quem estava em Marte nos últimos dias não sabe deste acontecimento…Mas o que isso tem a ver com o seu acidente?”
– “Olha, graças à Deus ninguém morreu no meu acidente, mas eu tive danos materiais e o prefeito vai ter que ser responsabilizado.”
– “Isso não tem fundamento!”
– “Continue seguindo meu raciocínio: O avião desgovernado era da TAM, não conseguiu pousar por causa da pista molhada e de alguns problemas de manutenção, mas todos estão responsabilizando as autoridades: é o prefeito da cidade, é o governador de São Paulo e até o presidente teve que dar um pronunciamento à nação…”
– “E daí?”
– “Assim como as autoridades estão sendo responsabilizadas pela tragédia com o avião da TAM e a responsabilidade da empresa parece estar em segundo plano, sinto-me no direito de responsabilizar o senhor prefeito pelo meu acidente com meu fusca azul e deixar minha responsabilidade também em segundo plano, respeitadas as devidas proporções… Tem lógica ou não tem?…”

Márcio Roberto Goes

Voando baixo…
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FOGO DA CONFIANÇA


18/07/2007

CAÇADOR ONLINE
21/07/2007
JORNAL INFORME

Sabe aqueles dias que você acorda com um aperto no peito, uma angústia incontrolável, uma vontade de chorar sem saber a razão?… Pois é! Aconteceu comigo… Dia desses acordei com todos esses sintomas e muito mais. Precisava de um alívio, um consolo… Precisava de alguém para conversar, desabafar… Alguém de confiança, um amigo de verdade…

Mamãe já está na glória Eterna (quanta falta faz seu colo!), papai também, os irmãos todos ocupados com seus afazeres… Ligo para meu melhor amigo… Nada! Celular fora de área!…
Mas era preciso desabafar! Não podia passar mais um segundo sequer com essa angústia no peito e esse grito preso na garganta…
Socorro!… Cadê todo mundo?… Fui abandonado… Será que não tem uma alma viva por perto que possa me ouvir?… Será que estou condenado a morrer de tédio e depressão?… Será que não tenho ninguém por mim?… Será?… Será?… Será?
Já que ninguém me ouve, é melhor me distrair. Ligo o rádio e só ouço música de amores que não deram certo, ou de relacionamentos marcados pela traição: Uma choradeira que me faz mergulhar ainda mais neste mar de ansiedade… Na internet, só notícias de acidentes fatais naquela curva que todo mundo sabe que mata, mas insiste em percorrê-la acima da velocidade permitida… No meu e-mail um monte de recadinhos, apresentações do power point e correntes que se eu não repassar, terei azar pelos próximos sete anos ou nunca mais terei sorte no amor, mas se forem repassados, terei uma grande surpresa em pouco tempo do tamanho da quantidade de pessoas para quem eu enviar… Bah! E ainda existe gente que acredita nisso… É, parece que meu dia está prá lá de deprimente: nada me agrada, parece que o mundo virou as costas para mim. Nova tentativa: Visito meu Orkut… metade dos recados é composta por um monte de bichinhos formados com os caracteres, que no momento não têm graça nenhuma e outra metade vem de perfis clonados noticiando a morte fictícia de algum artista famoso com um link para visualizar as fotos do acidente… Será que os clonadores de perfil não se tocam que ninguém mais cai nessa?…
Minha última esperança é a televisão: Nããããããoooooooo!… Fogo!?… Onde?… No hangar da TAM, em São Paulo matando cerca de duzentas pessoas: Mais um acidente aéreo quase previsível, mas que não mereceu a atenção das autoridades anteriormente… Meu Deus, em que mundo vivo?… Será que vale a pena viver?…
Enquanto preparava minha forca para resolver de vez minha angústia, eis que entra o comercial de uma distribuidora de gás: aquela do botijão azul, mostrando as vantagens de se usar aquele produto, com depoimentos de pessoas contentes. Uma delas, um senhor de mais ou menos meio século de vida, diz sentir confiança na chama azulzinha do gás em questão…
Oh!… Meus problemas acabaram! Larguei a corda que quase já estava em meu pescoço e corri até o bujão para certificar-me da cor: É azul!… Uhú!… Encontrei o amigo que precisava. Aquele que estará comigo todos os momentos de minha vida…
Mais que depressa acendi as seis bocas do meu fogão e comecei a desabafar: Todas elas me ouviram carinhosa, silenciosa e calorosamente. O fogo salvou a minha vida! Pra quê sofrer, quando se tem um fogão a gás e um botijão azul que solta fogo da mesma cor? Vou recomendar essa para meu amigo João dos Sonhos Azuis… Afinal, para alguma coisa deve servir a propagandas sensacionalistas… Pelo menos para sonhar… e desabafar.

Márcio Roberto Goes

Queimando de alegria!
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“PAN” PARA QUEM TEM FOME


10/07/2007

CAÇADOR ONLINE
14/07/2007
JORNAL INFORME

Nesta sexta-feira 13, não sei se por sorte ou azar, inicia-se oficialmente os Jogos Pan Americanos no Brasil… Reconheço, como a maioria dos brasileiros, a importância de um evento deste porte para divulgar o nosso país por toda a América e pelo mundo afora. Bem sabemos que o Brasil tem muito a crescer ainda, mas em vista de cinco ou seis anos atrás evoluimos consideravelmente na questão social e na diminuição da desigualdade entre as classes… Quem não gosta nada disso são os grandes empresários que vivem na fartura às custas da mão de obra do proletariado que não tem direito a um fio sequer da fatia do bolo que a empresa lucra com o seu trabalho, não sabe para onde vai tudo aquilo que suas mãos produzem, muito menos o dinheiro que elas geram… Não tem como não se indignar, mas de qualquer forma, nosso país merece este evento esportivo.

Bem, voltemos ao Pan: Para quem está atento aos noticiários, já deve ter percebido que a expectativa é grande pela espera deste grandioso evento e entre uma e outra notícia dos boletins do Pan, percebe-se, discretamente que os gastos com o evento ultrapassaram demasiadamente o orçamento previsto: O que era para ficar em alguns milhões de reais (não sei o número exato, mas nem os organizadores parecem saber), já ultrapassa os cinco bilhões (estou jogando baixo)… Ufa! Parece que passou um pouquinho: mais ou menos quatro bilhões, um valor que não cabe na minha cabeça nem na minha conta corrente. É! Acho que deve estar no limite de tolerância de 400%… “Coisa pouca!”.
De forma alguma estou contestando o valor gasto com os jogos, tenho certeza que o retorno será maior… Só não entendo porque não foi previsto antes! Isso está me cheirando mais à superfaturamento que à burrice dos organizadores… Algum distraído andou perdendo essa verba: Procure em seu bolso… Não está por aí?… Pois é, nem mo meu!… E certamente nem no bolso daquele trabalhador que construiu a vila do Pan, reformou e construiu complexos esportivos, trabalhando de sol a sol, sob os braços abertos do Cristo Redentor, eleito uma das maravilhas do mundo moderno, arriscando o “pêlo” e comendo marmita fria para o povo das Américas aplaudir seus atletas…
Onde está o dinheiro?… Certamente na conta de quem menos necessita.
O esporte pode fazer a moral de uma nação, como acontece no Brasil com o futebol e nos “inimigos do mundo” com o basquete, porém, quando existem outros interesses capitalistas e desumanos, a moral despenca… Mas porque pensar em moral quando se tem dinheiro sobrando?… Parece que a tal moral se aplica somente para os pobres, fato visível nas campanhas feitas na “poderosa do plim-plim” e em outras emissoras de TV com umas animações “meia boca”, questionando a população sobre seus atos e culminando com a seguinte frase:
“A corrupção existe em vários níveis e em nenhum deles ela é boa: Nem no governo, nem nas escolas (…) muito menos na sua vida”…
Parece que o pobre, que é o menos corrupto por excelência (justamente por isso que é pobre), é também o mais cobrado…
Não podemos esquecer que nosso país é um forte candidato à sede da copa de 2014: Será que vai estourar o orçamento outra vez? É melhor o “povo lá de cima” ficar atento e preparado para “engordar” o bolso enquanto torcemos por nossa seleção-canarinho e estouramos nosso mísero orçamento para ver vinte e dois homens correndo atrás de uma bola, porém torcemos só por onze deles.
E o povão?… Não sei!…Deve estar passando fome… Chega! Já estourei meu espaço previsto para esta coluna…

Márcio Roberto Goes

Cadê meu dinheiro?… “Pan!!!… Sumiu!?
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ETERNAMENTE JOE


04/07/2007

CAÇADOR ONLINE
07/07/2007
JORNAL INFORME

Joe era um cara legal, não tinha inimigos (pelo menos não que eu soubesse), Estava sempre aberto às novidades, se desenrolava com facilidade e gostava de estar por dentro de tudo.

Meu amigo era baixinho (cerca de cinqüenta e dois centímetros) e gordinho, mas isso não fazia a menor diferença, pois sempre era flexível o suficiente para tomar a forma do membro que se aproximasse de suas bordas…Usava um chapéu de papel para esconder a carequinha sexy, vivia de língua de fora e não se fazia de rogado em mostrar seu sabor uva para qualquer um que se aproximasse… Vivia gosmento, fato que não o tornava menos importante, pois lhe permitia um melhor deslize, coisa que sabia fazer muito bem… Tinha os olhos azuis, da cor do céu, mas permanecia com os pés na terra e a cabeça na intimidade alheia…
Meu amigo Joe, apesar de não ter braços nem pernas, cativava as pessoas ao seu redor, e se permitissem, as fazia “ver estrelas” ao meio dia: Era só entregar-se ao momento, “relaxar e gozar”, seguindo o brilhante e proveitoso conselho da dona “Martinha Suplicy”, que veio no momento em que o povo menos precisava de ironia…
Bem, voltemos ao meu amigo fiel (ou quase!…): ele era um cara “quietão”, sempre “na sua”, não incomodava ninguém – os outros é que se incomodavam com ele – Sentava com a turma do fundão, sempre encostado na parede graças à fita adesiva, mas não dizia uma palavra enquanto o professor explicava a matéria, nem no resto da aula… Na verdade, ninguém conhecia a sua voz, sabia-se apenas que ele era cheio de gaz e muito leve, não guardava rancor, nem mágoas…
Porém, um dia, um professor mal amado, estressado, desequilibrado, carrasco e invejoso não suportou sua presença em sala, julgando-o pelas aparências: Afinal, um cara cheio de ar, sabor uva, gosmento, baixinho, gordinho, emborrachado e de boca fechada, não servia para a sua aula preocupadamente preparada, somente para pessoas normais. Um “tchô”, que depende de um nó na soleira para manter-se cheio, não merecia viver entre os outros jovens inteligentes e espertos…
Munido de uma caneta esferográfica pontiaguda e afiada, aquele “mestre do terror” caminhou cegamente em sua direção até o fundo da sala. Seus colegas afastaram-se prevendo o perigo que os cercava. Sem se dar conta da atrocidade que estava prestes a cometer, o professor desferiu um único e certeiro golpe sobre o pobre e indefeso Joe que não teve sequer uma mísera chance de se defender…
Era o fim!… Meu amigo Joe explodiu e com ele toda uma história abreviada inutilmente, pois ainda tinha dois anos de validade. Seus amigos, que o construiram com muita dedicação e carinho a partir de um preservativo que não conseguiu preservar a própria vida, criaram até uma comunidade no Orkut em sua homenagem e deixaram em seu lugar, no dia seguinte, uma mensagem de consolo e saudades:
“ Joe, foi muito bom ter conhecido você. Foi uma tragédia o que lhe fizeram… sentiremos sua falta, nunca deixaremos de lembrá-lo, pois você faz parte de nossas vidas. Amamos vc!… Bjus!… Ass: Seus eternos amigos da turma 204.”
Ele se foi sem dizer uma palavra, sem reagir… Pobre, miserável, estraçalhado e virgem…

Márcio Roberto Goes

Profundamente comovido
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Preto no Branco


Está na moda a inclusão das pessoas com necessidades especiais na escola… Pena que a humanidade se deu conta da importância de um perfeito convívio do ser humano, respeitando diferenças e necessidades só agora que virou moda (e lei…). Hoje temos uma maior atenção ao ser humano enquanto pessoa e cidadão, dando menos importância para a cor ou raça… Pelo menos na teoria.

Presenciei um exemplo concreto da inclusão na sala de aula, outro dia conversando com uma colega da rede municipal de ensino. Ela conta que, obedecendo a uma lei municipal, todas as escolas públicas municipais de Caçador adotaram o quadro branco em sala-de-aula… Que maravilha!… Adeus ao pó branco no chão, às mãos ressecadas, à seqüência de múltiplos espirros em virtude da rinite alérgica que muitos professores adquiriram “de graça” durante sua carreira e a tantos outros inconvenientes que só o giz é capaz de provocar no ser humano, principalmente nos professores, que dependem desta ferramenta indispensável, mesmo nas aulas mais dinâmicas. Nossos mestres, não tendo outro recurso, principalmente os alérgicos, como eu, são obrigados a comprar o próprio giz,visto que as “entidades” mantenedoras das escolas públicas não disponibilizam de giz anti-alérgico.
Parece que a qualidade de ensino tão prometida por tantos governos não abrange a saúde do professor, e temos que suportar ainda a visita de alguns “espertinhos” que entram em nossas escolas e em uma hora de palestra tentam nos convencer de que precisamos de suplemento alimentar para zelar de nossa saúde, podendo adquirí-lo pela taxa simbólica de quase duzentos reais por mês (não é por nada, mas esse valor excede nosso precioso vale alimentação).
Queixas à parte, voltemos à minha conversa com a colega da rede municipal: Disse-me que as escolas, agora disponibilizam de dois quadros, um branco e outro negro, um em cada parede da sala… Parece politicamente correto, afinal não é porque temos um quadro branquinho e bonitinho, que vamos abandonar o negro (que na verdade é verde): isso seria, no mínimo, uma atitude altamente racista para uma escola que procura incluir e respeitar as diferenças. O único problema é que o uso da lousa fica a mercê da livre escolha do professor e o aluno é obrigado a “dançar conforme a música”, ora virado para o branquinho, ora virado para o negão.
Minha imaginação fértil, porém verossímil, já visualiza os alunos, no início da aula fazendo apostas para descobrir que quadro o professor da primeira aula vai utilizar. Digamos que seja o branco: todo mundo virado prá cá… Na segunda aula é o quadro-negro: todo mundo virado pra lá… Na terceira, novamente o branco, todos para cá… E assim por diante, durante as cinco aulas do turno, numa gangorra insuportável.
Mas nada é de todo mal: resolvemos assim uma contestação insistente dos alunos, que sempre pedem aulas “diferentes”, além de saberem que a cada aula podem, sem medo de repreensão, deslocarem-se ao menos para virar o corpo, a cadeira e a mesa…
Qual é a razão de existirem divergências quanto ao uso do quadro branco? Afinal, livrar-se das inconveniências do giz é um sonho da maioria dos professores… Ou será que fazer o aluno de “bobo” ainda está acima do sonho do quadro branco e do pincel, substituindo o pó e a tosse seca?… Será que é por causa do custo do pincel, relativamente maior que o do giz?… Ou porque o giz não precisa ser tampado quando está em desuso para não evaporar?…
Independente da razão, a maior lição que tiramos deste fato é a inclusão, respeitando as diferenças entre brancos e negros, afinal, ninguém gostaria de responder um processo por abandonar o bom e velho quadro negro, só porque um branco “engomadinho” tomou o seu precioso lugar.
Márcio Roberto Goes
Comigo é preto no branco…
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