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Mês: junho 2007

ELEFÂNCIA


20/06/2007

CAÇADOR ONLINE
23/06/2007
JORNAL INFORME

Nestas minhas três décadas de vida, muitas dúvidas me assolaram a alma por muito tempo, para algumas delas, até hoje não encontrei resposta: Porque a mosca tem tanta perna se ela voa?… Quanto tempo demora um minutinho?… Existe minuto pequeno?… Quando usamos a palavra “dinheiro” no plural?… Porque ainda não “ponharam” o verbo “ponhar” no dicionário e na gramática?… Porque ainda não precisei dividir uma oração em “sujeito e predicado” a não ser na sala de aula?… Porque ninguém viu um chester vivo até hoje?… Qual é a fórmula da Coca-cola?… Porque chamamos o milho verde de verde se ele é amarelo?…

Porém uma delas desafiou minha débil inteligência nos últimos dias: É possível colocar um elefante na geladeira?… Como?… Basta abrir a geladeira e pôr o bichinho lá dentro!… Parece uma coisa simples e óbvia e assim seria se o tamanho do elefante não fosse desproporcional ao da geladeira, fato que complica, e muito, nossa missão de enfiar um trombudo no refrigerador.
Por várias noites perdi o sono com essa dúvida… O leitor deve estar me chamando de louco, mas parece ser uma loucura menor do que perder o sono se preocupando com picuinhas e alimentando ódio no coração enquanto o ser odiado dorme tranqüilo… Aliás, alimentar ódio é a mesma coisa que tomar o veneno esperando que o outro morra.
Voltemos à nossa questão elefântica e extremamente útil, afinal, sou perseverante naquilo que acredito, e não sossego enquanto não obtenho uma resposta convincente…
Outro dia, na casa da minha namorada, enquanto tentava esquecer desta dúvida cruel, eis que encontro, belo e formoso, um elefante… Verdade, minha namorada tem um elefante em casa… Pôxa vida!… Já faz um ano que ela me “guenta” e eu não havia percebido tal fato tão relevante naquela residência típica de descendentes de italianos, em meio a salames e polentas…
Já percebe-se qual foi a minha idéia no momento!… Durante longas horas, não conseguia pensar em outra coisa que não fosse partir para o lúdico e tentar enfiar aquele mamífero proboscídeo dentro da geladeira.
Tarde da noite, todos dormindo e nós a sós na sala… Meus olhos alternavam entre a geladeira e o elefante, não conseguíamos namorar em paz, até que dirigi-me para minha italianinha e supliquei:
– “Por favor, vamos tirar a teima?… Quero ver se é simples assim para colocar um elefante na geladeira. Você abre a porta do refrigerador e eu soco o bichinho lá dentro! Combinado?”
Foi o que fizemos e achamos exageradamente útil no momento. Não foi tão difícil, pois o elefante colaborou conosco sem fazer barulho ou reclamar.
E lá estávamos nós… Dever cumprido. Conseguimos provar a veracidade do mito que para colocar um elefante dentro da geladeira, basta abrir a porta e colocá-lo lá dentro.
Já era madrugada quando voltei para casa e minha memória, que não é de elefante, já havia esquecido da questão elefântica que embalou nosso namoro até então.
Fiquei sabendo que no dia seguinte, o “sogro véio”, na hora do almoço com a família reunida, indaga surpreso e inconsolável:
“Quem foi o ‘artista’ que colocou o elefante de cerâmica na geladeira?…”
Márcio Roberto Goes
Quem estou?… Onde sou?…
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PASSANDO A LIMPO


14/06/2007
CAÇADOR ONLINE
16/06/2007
JORNAL INFORME

Nestes meus sete anos de magistério (parece conta de mentiroso, mas é verdade…), tenho visto muitas coisas que me surpreendem, mesmo quando penso que não existe mais possibilidades de haver alguma novidade na sala-de-aula em se tratando de relacionamento aluno-professor…
Só Deus sabe o quanto tenho lutado para manter a ordem e o capricho, por parte dos alunos, tentando conscientizá-los dos malefícios de se jogar, inutilmente, papéis no chão, riscar paredes e carteiras, jogar chiclete no piso e muitos outros aspectos que se não fossem rotina na escola, tornariam-na um ambiente mais agradável, além de contribuir para a desaceleração do “aquecimento global”: assunto, aliás que só se tornou uma preocupação real depois que começou a causar danos aos países mais ricos e industrializados do mundo, que ainda resistem às mudanças de comportamento social, urgentes para retardar o caos…
Algumas vezes, aconselhando nossos alunos, conseguimos resultados maravilhosos que nos fazem acreditar que os jovens são realmente passíveis de sofrer e provocar mudanças no meio em que vivem, outras, porém, nos desanimam e nos obrigam a conviver com papéis espalhados pelo chão, chicletes grudados nos sapatos e paredes riscadas com frases não tão agradáveis, que revelam a cultura e o pensamento de alguns de nossos adolescentes; afinal, o ser humano só escreve o que sente, salvo quando o professor o induz assuntos que desconhece.
Dia desses, me preparava para entrar numa sala de primeiro ano de ensino médio, desanimado, já que meu dia anterior não tinha sido nada produtivo, fato que frustra e faz perder o sono a qualquer professor que realmente “veste a camisa” do magistério e tem consciência de seu verdadeiro papel na sociedade… Subi as escadas contando os passos temendo ter outro dia frustrante, chego na sala e algumas alunas pedem uns minutos da minha aula para colar algumas letras na parede da sala. Indignado, minha resposta foi “não”, afinal eu havia preparado uma aula maravilhosa, cheia de conteúdo chato e “massante” que talvez me causasse a ilusão do dever cumprido…
Sentei-me com cara de bravo e fiz a chamada enquanto minhas alunas entristecidas guardavam seus recortes tão carinhosamente preparados sussurando baixinho para eu não ouvir… (mas eu ouvi…):
– “Escolhemos a aula deste professor porque pensamos que ele fosse ‘gente boa’, mas parece que não é…”
Essa foi de cortar o coração… Terminei a chamada, resolvi liberar as alunas para realizarem seu trabalho e fiquei só observando juntamente com o restante da turma que dava apoio moral.
De letra em letra, recortadas com muito zelo e “sem nenhum professor pedir”, via-se formar uma frase altamente filosófica, muito conhecida pelos jovens e que é encontrada facilmente em qualquer caderninho de pensamentos das meninas apaixonadas ou na agenda da “piazada”: “Não faça de sua vida um rascunho, pois pode não dar tempo de passar a limpo”…
Meu Deus!… Quase cometo uma enorme injustiça com essa garotada sem chances futuras de passar a limpo, pois enquanto outros rabiscam as paredes com frases nada filosóficas, com xingamentos e palavrões, “minhas meninas” só queriam enfeitar a parede de sua sala com uma frase edificante que dispensa comentários (ou melhor, eu é que estou dispensando, porque este espaço é limitado).
Perdi uma aula, mas ganhei o dia, a semana e o ano letivo, pois percebi que nossos alunos são capazes de mudar, pacificamente o ambiente, tornando-o respeitoso e agradável. Tenho certeza que estas palavras grudadas letra a letra na parede, surtirão melhor efeito que um aviso impresso pela direção do tipo: “não risque as paredes”, ou “mantenha o ambiente limpo”.
Márcio Roberto Goes
Em tempo, passado a limpo…
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O AMOR

12/06/2007
CAÇADOR ONLINE

Quatro letras,

Duas sílabas,
Muitos significados,
Nenhum sentido…

É a pessoa amada,

Pode ser um filho,
Pode ser o cônjuge,
Pode ser alguém,
Pode ser ninguém…

Confundem-no com sexo,

Com paixão,
Com atração…
Chamam-no caridade,
Assistencialismo,
Fraternidade,
Sentimento…

É perdão;

É força;
Ilusão verdadeira,
Verdade ilusória,
Vida que leva à morte;
Morte que leva à vida,
Pois quem ama
A cada dia morre um pouco
Para viver a pessoa amada.

Márcio Roberto Goes
12/06/2007

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E VAI SEGUINDO A PROCISSÃO…


08/06/2007
CAÇADOR ONLINE
09/06/2007
JORNAL INFORME

Todos os caminhos levam para a praça… Aliás, caminhos enfeitados com o maior bom gosto e dedicação da população católica e adoradores da Eucaristia…

Tudo pronto, às três da tarde começa a celebração, os mais dedicados posicionam-se perto do caminhão-palco que na ocasião faz o papel de altar, já os menos devotos ficam nos arredores, “comendo pelas beiradas” e juntando-se aos atrasados. Quanto mais longe do altar, menor atenção é prestada à celebração, que segue maravilhosa, presidida pelo bispo diocesano… por vezes avista-se uma enorme estaca passando pela multidão… Talvez seja uma cruz, mas olhando mais de perto, percebe-se que a tal cruz está cheia de algodão doce dentro de saquinhos de plástico acompanhados de uma máscara de super-herói ou de algum personagem de desenho animado para chamar a atenção da criançada… Aliás, aos mais distantes, tudo chama a atenção, menos a celebração: o camelô que vende Cds originalmente copiados e pirateados, pensando na economia do povo que raramente tem dinheiro para comprar um original (se pelo menos fosse CD de músicas católicas, ainda teria alguma lógica)… A barraca de churros que pouco se importa com o Cristo passando à sua frente ao alcance do povo através do milagre da transubstanciação: com certeza o filho de Deus não pararia naquele momento para degustar um churro depois de ter repartido o pão da vida onde Ele próprio encontra-se presente…
Além disso, muitos outros aspectos físicos, sociais e ideológicos, altamente instrutivos tomam conta do ambiente enquanto o Cristo passa: O vestido novo daquela vizinha chata que insiste em ser melhor e mais bonita que a dona dos olhos que a observam; A careca branca com uma mancha marrom bem no meio, daquele senhor que só tira o chapéu em ocasiões especiais (e para ele essa é uma delas); A vitrine daquela loja que vende tudo a perder de vista, com juros exorbitantes que certamente não caberão no bolso, mas acredita-se que sim: a barraquinha que vende bonecas de porcelana e lembrancinhas da cidade confeccionadas em pedaços de madeira-de-lei altamente ecológicas; Os amigos que não se viam há tanto tempo; o celular que toca aquela música polifônica do RBD anunciando uma ligação que vem numa hora altamente oportuna (talvez para seu proprietário sim)…
Enquanto isso, os de coração puro, seguem Jesus e rezam por aqueles que apenas realizam um passeio extra nas ruas da cidade em cima de um tapete de maravalha e doações construído com muita fé e dedicação por outros corações que não se pesam em levantar cedo no feriado para preparar a celebração religiosa e histórica de Corpus Christi.
Apesar de tudo, percebe-se que a fé de um povo é maior do que qualquer outra força social existente no mundo moderno e não pode, de maneira alguma ser subestimada, pois milagres acontecem quando existe a fé e a esperança, conquistadas por amor ou pela dor, nos casos mais graves…
A fé conforta e dá uma nova injeção de ânimo nos fiéis, sejam católicos, evangélicos ou de qualquer outra confissão religiosa, pena que este é um detalhe ainda a ser descoberto pela maioria dos batizados na maior igreja cristã do Brasil.

Márcio Roberto Goes

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A IGNORÂNCIA DO BESOURO


30/05/2007
CAÇADOR ONLINE
02/06/2007
JORNAL INFORME

Imagine que você tem a difícil missão de fazer um objeto quase esférico levantar vôo… Algo como fazer um fusca voar… Impossível! não é?

Claro, não existe aerodinâmica o suficiente para fazer um fusca planar, aliás, nenhum automóvel tem: apesar de alguns motoristas insistirem nessa idéia absurda acelerando inconstantemente seus carros potentes, porém não voadores: Conseguem, algumas vezes voar com suas máquinas por alguns segundos, o problema é a aterrissagem nada confortável.
Pois bem. Imaginemos um besouro: tem gente que até tem medo deste bichinho cascudo, nojento e voador… Isso mesmo: voador… e ele é quase redondo, igual ao fusca, parecido com os automóveis mais modernos e construídos com tecnologia de ponta para percorrer maiores distâncias terrestres em menor tempo e com o maior conforto possível.
Porque o besouro voa? … Se dependesse de mim, ele nunca sairia do chão, pois quando bate suas asas, deixando-as ultrapassar a barreira do exoesqueleto, faz um ruído impertinente o suficiente para tirar a paz e o sossego de qualquer ambiente familiar distinto e amigável, sem falar nos gritos das moças desesperadas, quando ele resolve aterrissar em seus cabelos preparados com xampus e condicionadores compostos por cento e não sei quantas proteínas e vitaminas, que deixam suas mechas mais brilhosas e cheirosas e tudo o que menos desejam são as garras desagradáveis deste inseto.
Mas o que faz um besouro voar?… Ninguém lhe deu este direito, pois ele não tem nenhuma aerodinâmica, sofre constantemente quando encontra-se de pernas para o ar tentando voltar a sua posição normal, além de não ter noção do perigo ao arremessar-se contra as luzes de um poste…
A triste e cruel verdade é que o besouro não foi feito para voar: ele voa de teimoso mesmo, ou melhor, de ingênuo… e de uma ingenuidade tamanha que não o deixa perceber seu maior defeito.
Mas se ele não foi feito para voar, então porque ele voa?… A resposta é muito simples e elementar: Por que ninguém foi ousado o suficiente para dizer-lhe que não pode, e mesmo que tentassem dizer a verdade, nada mudaria, afinal ele não ouve nada mesmo…
Quem dera se todos os seres humanos tivessem a ignorância do besouro e criassem um bloqueio para as expressões: “você não pode” e “você não consegue”. Creio que a maioria de nossos fracassos devem-se a nossos ouvidos que insistem em nos trair acreditando nesta falta de capacidade que o mundo insiste em alimentar na sociedade.
O besouro incomoda porque voa quando a maioria pensa que ele não deveria fazê-lo, pois é insuportável vê-lo nas alturas, mesmo sofrível e ruidosamente enquanto rastejamos como cobras traiçoeiras no nosso mundinho de terra seca com nossos problemas e depressões do mundo moderno que nos empurra cada vez mais para o abismo intelectual.
Infelizmente, propaga-se o amor ao caos. Devemos marchar até onde o mercado de trabalho exige, e na direção que ele quiser. O capitalismo não nos permite voar, e quando alguém tenta, é tratado a chineladas, como o besouro, pois seu vôo barulhento incomoda àqueles que adoram rastejar nos seus problemas, em silêncio e propagando a divulgação fétida da pseudo-felicidade em que se encontram.
Ah! Quem dera tivéssemos a surdez e a ignorância do besouro, sem medo de fazer barulho nas alturas… sem medo do esforço que isso pudesse exigir… sem medo das reclamações daqueles que rastejam em busca de vítimas para seus desafetos… Sem medo de ser feliz e fazer felizes aqueles que se encontram ao nosso redor… sem medo de ser besouro.

Márcio Roberto Goes
Quase tão ignorante quanto o besouro…
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