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Mês: maio 2007

E A AMOLAÇÃO CONTINUA…


23/05/2007
CAÇADOR ONLINE
26/05/2007
JORNAL INFORME

Depois de uma semana perambulando pela cidade, gastando o precioso combustível de seu fusquinha da cor de seus sonhos, em busca de um atendimento humano e merecido para seu dente molar inferior direito, João dos Sonhos Azuis volta a seu bairro com nome de família perto do cemitério municipal, para procurar desesperadamente atendimento de um dentista habilitado. Porém a resposta é a mesma que ele tem ouvido em todo lugar que passa:

– “Não podemos atendê-lo, aqui só atendemos crianças, adultos é só…”
– “…no Bom Jesus, eu sei… Mas acontece que lá me disseram que eu deveria ser atendido aqui, porque eu moro aqui. E agora, vamos ficar nesse vai e vem até quando? Já fui até no PET em busca de solução, mas o buraco do meu molar continua aberto e doendo…
– “É, mas aqui só atendemos crianças…
Nosso sonhador olhou para todas as direções daquele posto de saúde e não avistou uma única criança para ser atendida… Achou tudo aquilo estranho e mesmo não sendo sua obrigação, procurou pensar numa solução:
– “Eu trabalho no bairro Martello. Será que não posso ser atendido lá?”
A atendente “passou a mão no telefone” e ligou para o posto do CAIC, deixando uma consulta marcada para o dia seguinte. João já não se importava de perder mais um dia de trabalho, já havia se estressado demais para ficar nervoso de novo e adquirir uma gastrite que poderia levar a mesma via-sacra para ser tratada por um médico.
Na tarde seguinte, ausentou-se por mais algumas horas do trabalho e foi até o posto do CAIC no horário marcado. Não conhecia ainda o ambiente e perguntou no balcão:
– “Onde fica o dentista?”…
– “Última porta à esquerda.”
– “Obrigado!”
Esperou algum tempo até que surge na porta uma moça de luvas cirúrgicas, touca e máscara brancas, só aparecendo os olhos por detrás dos óculos de proteção que lhe pareceram muito solidários. Mais tarde descobriu que se tratava da Dra Graziela, que lhe atendeu prontamente, com a mesma simpatia e carinho de sua auxiliar Lindacir. Nosso protagonista amolado só esperou porque fez questão de deixar todas as crianças serem atendidas primeiro (no caso, lá haviam crianças de verdade na fila), porque se dependesse da disponibilidade da doutora (essa vale a pena chamar de doutora, mesmo não tendo cursado um doutorado) e da atendente, ele teria resolvido seu problema antes. Mas de qualquer forma, esperar uma coisa garantida não é perda de tempo. Foi muito agradável sua espera: pode conversar com as crianças e encontrou até um velho amigo que trazia sua filha para ser atendida.
Chegando sua vez, a doutora deixou bem claro que não costumava atender pessoas de outros bairros (na verdade, não é sua obrigação), mas como ele já havia corrido a cidade toda atrás de atendimento, ela faria este serviço. Cuidadosamente restaurava seu molar que viajara todo o município em busca daqueles poucos minutos que outros não disponibilizaram para um cidadão justo e trabalhador que procura fazer tudo “dentro dos conforme”…
Terminado o trabalho, João dos Sonhos Azuis, extremamente agradecido volta ao seu fusquinha do cor de seus sonhos, prometendo fazer um agradecimento público pelo trabalho e dedicação dispensados a ele por aquela dentista, que exterminou de uma vez por todas com a amolação de seu molar.
Márcio Roberto Goes,
Mas pode me chamar de
João dos Sonhos azuis…
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TALENTOS DA ESCOLA – Osmar Pavelski


O RESPEITO PROFISSIONAL ACABOU?

Têm certos “profissionais da Educação” que vão às Unidades Escolares apenas com o intuito de “derrubar” outros colegas (não estou generalizando)…

Um Professor, meu colega, contou-me que em um determinado Colégio, Conceituado dessa cidade uma pessoa que se diz SUPERVISORA, mas que certamente não tem uma SUPER VISÃO (como a águia, ou se é que enxerga alguma coisa), chegou ao mesmo e perguntou se Ele estava do “nosso” lado ou contra “nós”.

Pergunto: Que lado? A qualidade de ensino, a solidariedade, o amor aos nossos alunos, a compreensão com os pais que trabalham dia e noite para manter os filhos na escola, ou será que é o lado da luta por uma escola pública de qualidade? Talvez o lado de uma aula bem preparada, de uma escola planejada? De qual lado será que era a pergunta? Aliás perguntas a estas questões que deixou de ser tema e de ser preocupação de educadores exatamente por causa dessas pessoas mal amadas, mal elaboradas e resolvidas, incompetentes que em vez de chegar dez minutos antes para ajudar chegam na hora para criticar o que está feito.

Ás vezes me pergunto: Quando a GEECT vai às escolas para ver esse tipo de colegas que apenas estão nas Unidades escolares para escolher Diretores. E diga-se de passagem não é a primeira vez.

Gostaria muito de comandar este Colégio para mostrar para Estes “Educadores (as) qual o seu lugar”. E para terminar pergunto. Será que essa SUPER tem qualidade para ocupar esse cargo?????? Não está na hora de rever a função da SUPER se está a contento dessa escola?

Será que não é chegada a hora de sermos SUPER AMIGOS? Pense nisso.

Osmar Pavelski
Diretor geral
ESCOLA ESTADUAL DE EDUCAÇÃO BÁSICA
PROFESSORA WANDA KRIEGER GOMES
CAÇADOR – SC
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AMOLAÇÃO MOLAR


16/05/2007

CAÇADOR ONLINE
18/05/2007
JORNAL INFORME


Meu personagem preferido, “João dos Sonhos Azuis” mora em um bairro esquecido e abandonado da cidade que leva o sobrenome de seus fundadores e fica perto do “campo santo” municipal, numa rua ladrilhada com um calçamento “meia boca”, batizada com nome de país e sua residência fica bem em frente a uma boca-de-lobo entupida há anos. Apesar disso, seu modesto e querido bairro tem um posto de saúde muito bem equipado com enfermeira, médico e dentista extremamente contentes trabalhando única e exclusivamente para o bem do povo (…acorda tchô! Isso é utopia!!)…

Certo dia, reunido com sua família, João estava a comer pinhão assado na chapa do fogão de lenha: um deles assou demais e ficou duro o suficiente para destruir a obturação de seu dente… Uma lástima! Mas continuou comendo , mesmo com o panelão do molar aberto, tentando mastigar do outro lado.
Porém, no dia seguinte, a cada alimento que se aproximava de seu molar inferior esquerdo, o dente pesteado respondia com uma fisgada irresistível de tirar água do “zóio”… A solução era procurar um dentista. Foi o que ele fez: Tirou seu fusca azul da garagem de lona provisoriamente definitiva e dirigiu-se até o posto de saúde. A moça, muito simpática lhe dá uma resposta um tanto antipática:
“Dentista para adultos só no bairro vizinho. Corra até lá que você ainda consegue encontrar o posto aberto e poderá marcar uma consulta para amanhã.”
“Tudo bem!” – Pensou João lá com seus sonhos da cor de seu besourinho da Wolksvagen, afinal já esperou e perdeu um dia de trabalho, não custava perder mais um dia e a cesta básica do mês para se livrar da amolação de seu molar, apesar de observar que não tinha uma “alma viva” esperando para ser atendida naquele momento.
Chegando ao bairro vizinho, encontra uma rotina um pouco diferente. A simpatia da atendente é a mesma, porém o posto parece estar mais movimentado com algumas pessoas na fia esperando a vez. Nosso querido sonhador com dor de dente explica a situação e as razões que o levaram até aquele posto e recebe uma resposta com o mesmo nível de simpatia do posto de seu bairro:
“Nããããooooo! Eles são obrigados a lhe atender, afinal o senhor mora lá e o seu caso é urgente!”
“Que eu moro lá e que é urgente, eu sei, mas parece que eles não sabem, tanto é que me mandaram até aqui. O que eu faço? Não posso ficar correndo “prá lá e prá cá” sem sequer ser atendido decentemente por um profissional habilitado.”
“Então, o senhor vai até o posto central e fala com o fulano responsável”
Já que nem o amável e Bom Jesus pôde resolver seu problema, lá vai nosso amolado João percorrer oito quilômetros com o cheirinho de gasolina que ainda resta no seu Herb azul em busca de solução para seu molar teimoso. Encontra mais uma simpatia em forma de moça que lhe dá a única informação desnecessária naquele momento:
“O fulano acabou de sair, porém temos a dentista que chega daqui a pouco, às cinco da tarde, e atende emergências… Mas ela só vai medicar, não faz restaurações.”
“Muito obrigado, já estou dopado de remédios para a dor.”
Assim, nosso amigo volta a seu “lar, doce lar” desolado e amolado, percorrendo de um lado a outro da cidade só para ter violado seu direito à saúde, garantido pela constituição que não reconstitui qualquer molar dolorido e destruído por um pinhão.
Mas nem tudo está perdido: fontes fidedignas me garantem que ele finalmente foi atendido, mas isso é assunto para o próximo capítulo de “Amolação molar”…
Márcio Roberto Goes

Não me amola, molarzinho de m…!
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MEUS RABISCOS



09/05/2007

CAÇADOR ONLINE

12/05/2007

JORNAL INFORME


Há muito tempo venho tentando despertar em meus alunos o gosto pela leitura. Mas na maioria das vezes, o resultado não é exatamente aquele que eu e tantos outros companheiros de profissão esperávamos… Para mim a dor parece dupla, pois além de ser professor, sou escritor, ao passo que a cada reclamação que ouço dos meus alunos em se tratando da prática da leitura, soa como uma cobrança sórdida do meu dever não cumprido.
Escuto reclamações das mais diversas possíveis e imagináveis, do tipo: “Nossa escola não tem biblioteca”… (essa até que tem algum fundamento), ou “Não tenho tempo de ir à biblioteca pública”, ou ainda “A biblioteca pública fica muito longe de casa”… e a pior de todas, que derruba qualquer professor de Língua Portuguesa e Literatura : “Não tenho ‘saco’ pra ler… ou… tenho preguiça de ler”. Infelizmente, a maioria das pessoas ainda não despertou para a importância da leitura (infelizmente!)… E aí, meu trabalho torna-se quase impossível, desafiando a cada dia minha criatividade e minha capacidade de persuasão.

Numa tentativa quase desesperada de fazer de meus alunos “jovens leitores”, resolvi, dia desses, disponibilizar algumas crônicas e contos de um “determinado escritor”, para que todos pudessem ler, analisar os elementos da narrativa e comentar o conteúdo dos textos… Bingo!!!… Naquele momento, me senti como se estivesse descobrindo a roda. Pude perceber seus olhinhos brilhando… ora rindo de alguma situação engraçada ou de algum erro de digitação, ora querendo saber o significado de algum verbete difícil que aquele escritor por vezes usava só para “matar a pau”…
No passado, acreditei muito naquele ditado: “Santo de casa não faz milagre”… Mas parece que o caminho está em casa mesmo, afinal, não consegui muitos resultados com os grandes clássicos , que para muitos alunos soam como autores abstratos e lendários, muito distantes de sua realidade (Não estou, de maneira nenhuma, querendo dizer que devemos deixar de ensinar as escolas literárias, pelo contrário, devemos usar de meios criativos para isso…). No entanto, quando contemplam uma obra de um escritor “de carne e osso” (como acontece há dois anos no encontro marcado, promovido pela UNIMED e a 10ª GEECT, que trouxe à Caçador dois grandes escritores catarinenses: Maicon Tenfen e Silveira de Souza), o conceito de literatura muda consideravelmente, tornando-se mais agradável e transformando a leitura num dos prazeres da humanidade.
Voltando à minha técnica alternativa de leitura em sala: Poucas vezes pude observar tanta dedicação em um trabalho por parte dos alunos… um silêncio ensurdecedor, descomunal dentro de uma sala-de aula (a não ser em dia de prova)… os olhos atentos nas folhas impressas em preto no modo econômico, cujo único atrativo eram as palavras… nenhum apelo visual extra, nenhuma promessa de recompensa para quem ficasse “quieto”, nenhum pedido de “silêncio por favor”, enfim, nenhuma exigência… Todos movidos pela curiosidade de ver os escritos de seu professor.
Se eu soubesse, teria usado antes meus rabiscos pelo bem da educação, afinal a mudança mais impactante que pode acontecer, parte de nós mesmos, e a partir dela, mudamos também o meio em que vivemos: a maior prova disso é que além da leitura, alguns alunos estão despertando também o gosto e a vontade de pôr no papel as suas idéias, ou seja: a vontade de ser escritor… Não é maravilhoso?… Não sou perfeito, nem quero ser, mas descobri o verdadeiro sentido de outro ditado: “As palavras convencem. Os exemplos arrastam”. Sabe-se lá quantos “rabiscos” maravilhosos de nossos professores não se encontram lá no fundo da gaveta, privando seus alunos de uma leitura agradável e concreta?
Não existe deleite maior para um professor, do que ver seu aluno seguindo seu exemplo… E para o aluno, o fato de ver uma obra de seu “mestre”, desperta nele o ímpeto de ser também protagonista do conhecimento.

Márcio Roberto Goes

Rabiscado e rebuscado
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SAUDADE SIM, TRISTEZA NÃO


Esta é a história de duas guerreiras, que venceram na fé e no amor todos os obstáculos que a vida lhes trouxe.

Dona Áurea era uma católica convicta, devota de Nossa Senhora, amante da oração e da caridade, jamais se deitava para dormir sem rezar o terço, trabalhava em vários movimentos da Igreja, como: apostolado da oração e pastoral da saúde, admirava e cuidava das plantas como pedras preciosas; tinha cinco filhos, sendo quatro de sangue e um de coração, todos criados a custa de muito trabalho e dedicação. Só tinha dois vícios, o chimarrão, que sempre partilhava com a vizinhança, e o cigarro, grande antagonista de nossa história.

Esse vilão que a acompanhou durante quase toda a sua vida terrena de sessenta e oito anos, lhe rendeu um câncer no pulmão, que a levou ao Hospital Nereu Ramos em Florianópolis, onde passaria os últimos dias de sua vida, acompanhada de sua única filha mulher.

Logo na entrada do hospital, profetizou com a seguinte frase, já na cadeira de rodas, diante da imagem do Sagrado Coração de Jesus em tamanho real: “Oh meu Senhor Jesus, eu me entrego a Ti, seja feita a Tua vontade”.

Durante vinte e oito dias em meio a soro, dreno, inalação e tubos de oxigeno, contagiou médicos, enfermeiros e pacientes com seu jeito otimista e cômico de ver a vida. Certa vez sentiu a presença de um anjo que a ungiu com óleo os pés, as costas e os ombros. Fato que fez ela e a filha acreditarem na cura até então utopia.

Os dias passavam e o oxigeno tornava-se cada vez mais raro para aquela senhora, deixando nossas duas guerreiras cada vez mais próximas, mais humanas e mais divinas. Aliás, algo que o sofrimento tem de bom é a capacidade de tornar as pessoas mais fraternas.

Foi no dia dezenove de dezembro de dois mil e quatro, um domingo ensolarado e quente, que aconteceu a cura de nossas duas guerreiras: Estavam elas no quarto do hospital, o oxigeneo de Áurea regulado na capacidade máxima, já não fazia mais o efeito necessário para mantê-la viva, seu pulmão fora todo dilacerado e escoado pelo dreno. A filha, vendo que a hora estava próxima começa a rezar o terço com o rosário entre as mãos dela e da mãe, que com muito sofrimento ainda tenta acompanhar as contas daquela oração que foi sua grande defensora durante toda a vida…

Dois anjos em forma de criança aparecem na janela chamando aquela guerreira para sua maior e última vitória… Uma leve brisa enche o quarto até então sufocado pelo calor e pela carência de ar puro, trazendo o sopro de uma vida nova.

Atendendo ao chamado, ela deita sua cabeça pela última vez, sobre o leito, tendo em suas mãos o rosário e as mãos trêmulas de sua filha também guerreira. Seu semblante de sofrimento e dor agora é sereno, de uma serenidade tamanha, que nos faz acreditar que a vida vale a pena e que nenhum sofrimento é maior que a nossa capacidade de vencer.

Tenho certeza que, como filho mais novo, vou levar seu exemplo por toda a vida, com saudades sim, mas tristeza não, porque a vida dessa guerreira foi marcada por muito sofrimento, vencido com otimismo e alegria de viver, que contagia até hoje, parentes e amigos.

Márcio Roberto Goes

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