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Mês: fevereiro 2007

TRÊS DIAS DE MAMATA?

Carnaval, significa, na semântica original da palavra: “adeus a carne”. Já foi uma festa cristã, trazida pelos portugueses para durante três dias degustarem desenfreadamente carnes, já que na quarta-feira de cinzas começava a quaresma e durante todos os quarenta dias que antecedem a Páscoa, em respeito à tradição e aos princípios religiosos, não se comia nenhum tipo de carne, exceto peixe.

O tempo passou e a etimologia deste verbete também mudou. Segundo o dicionário Houaiss virtual, carnaval é: “Período de festas profanas que começa três dias antes da quarta-feira de cinzas, caracterizado por danças populares em que as pessoas se fantasiam e usam máscaras para comemorar (…) A festa celebra a alegria nos dias que antecedem o início da quaresma.”
Percebe-se que uma festa cristã tornou-se profana facilmente no Brasil. Mas isso é só um detalhe, o que importa é que o carnaval é uma festa popular … Será?… Voltamos ao Houaiss: Popular quer dizer: “Que pertence ao povo, que concerne ao povo (…)” Pois bem, o carnaval pertence ao povo, certo? Errado! Só se povo quer dizer carioca e nordestino, porque aqui no sul, não vejo nenhuma empresa liberando seus funcionários para brincar o carnaval durante os três dias antes da quaresma. Quando o fazem, é só na quarta-feira de manhã, pesando como dívida que deve ser paga com horas extras, ou sacrificando o fim de semana do trabalhador braçal… Enquanto isso, Rio de Janeiro, São Paulo e todos os estados da região nordeste se divertem sem preocupação com trabalho ou outras coisinhas fúteis e supérfulas de obrigação de qualquer ser humano que tem um pingo de responsabilidade…
Apesar do carnaval não ser oficialmente feriado no Brasil, o congresso nacional, bem como autoridades estaduais e municipais não trabalham nestes dias… As aulas são dispensadas e a maioria dos funcionários públicos também têm folga. Por que o trabalhador assalariado também não pode usufruir do mesmo direito?… Afinal, o carnaval é uma festa popular brasileira! Será que o pobre assalariado, que paga devida e sofrivelmente seus impostos, luta para sobreviver e sustentar seus entes queridos não é nem considerado brasileiro?… Será que o carnaval, como festa popular só serve como ponto facultativo para aqueles que são considerados mais brasileiros, só por viverem em detrerminadas regiões deste país continental, carnavalesco, “abençoado por Deus e bonito por natureza”?
Acho que o poeta foi muito infeliz ao escrever estas palavras, ou nunca veio ao sul durante o carnaval. Também não foi muito feliz aquele que escreveu: “ Quem trabalha o ano inteiro tem direito, em fevereiro, a três dias de mamata”. Olha, se alguém viu um trabalhador de nossa cidade usufruindo destes três dias de mamata, me avise, porque eu não encontrei. Moro perto de uma madeireira e pude constatar que ela e todas as empresas de Caçador funcionaram normalmente durante todos os dias de “folia”, e tenho certeza que se algum funcionário tentou fazer valer seu “direito” a três dias de mamata foi severamente punido com a suspensão da cesta básica (É!… faltou um dia, não precisa comer…), advertência, ou até demissão, enquanto seu patrão aproveitou para viajar … afinal, ele pode arrumar as malas e fugir quando quiser, pois não precisa cumprir horários rígidos nem levar a empresa nas costas com o serviço braçal: já existe alguém que faça isso por ele para o bem da empresa, do país e do próprio empregado.
Infelizmente, é doído, mas é real: milhões de brasileiros que trabalham, inclusive durante o carnaval, não tem a mesa farta e nem o que vestir, enquanto o luxo e a luxúria desfilam descaradamente na Marquês de Sapucay. O dinheiro e o luxo que faltam aqui, sobram lá. O preço de um tapa-sexo chega a ser maior que um traje completo que poderia agasalhar uma criança no inverno rigoroso de nossa região e trazê-la mais conforto… Mas a pobre criança, bem como seu pai assalariado, só tem direito a ver o carnaval na telinha da poderosa do plim-plim, comendo feijão com bijú e polenta. Isso quando seu pai não falta nenhum dia ao trabalho e tem direito à cesta básica.
Márcio Roberto Goes
De volta ao trabalho
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O MAIOR PROBLEMA DO MUNDO

O MAIOR PROBLEMA DO MUNDO

(uma crônica irônica)


Qual é o maior problema do mundo?…

É o meu!
O meu problela, é daqueles de deixar qualquer fofoqueiro de plantão “com a pulga atrás da orelha” querendo saber detalhes… Sim, porque a vida da gente é igual a motor de fusca: todo mundo acha que entende e tem a solução… Por que então ninguém resolve o problema do meu pobre, seco e miserável fusca?!… Será que sou a única criatura neste mundo globalizado, poluído, capitalista selvagem, egoísta e destruído que não consegue resolver problema algum, inclusive o meu que é o maior do mundo?… Céus! Vivo rodeado de gêneos que não fazem outra coisa a não ser tentar provar constantemente pra eles e pra mim mesmo que o único burro sou eu…
Quando vivi o drama de uma separação, quase todos do meu círculo social já estavam prevendo, menos eu… Quando bati o carro pela primeira vez (que por coincidência era um fusquinha azul), todo mundo sabia no que ia dar antecipadamente, menos eu… Quando reprovei na sexta série, até minha mãe sabia antes de mim… Quando apanhei na escola, todos já previam (porque fui me meter com o líder da gangue?)… Todos sabem, todos entendem da minha vida… Menos eu!… Contudo, tenho certeza, que ainda não sou o único ingênuo a sofrer o julgamento dos gêneos.
Mas tenho um problema ainda maior, que ninguém sabe e nem tem a solução… O maior do mundo, que deixa “no chinelo”, a violência urbana, ou mesmo o aquecimento global, do qual minha hipocrisia não me deixa sentir culpa cada vez que acelero meu 1.6 a gasolina, não contribuo com a reciclagem, tomo banho egoisticamente demorado, deixo torneiras e luzes ligadas durante muito tempo, sem a menor utilidade; ou ainda queimo, além do necessário, lenha e gás…
Por que pensar nestes fatores globais, se o mundo não tem noção do meu problema, que é mais grave do que a fome de alguns países africanos (sem falar na fome brasileira que também é um problemão), representada por imagens que correm a Internet, do tipo que mostra um abutre a espera do último suspiro de uma criança esquelética, já sem forças para levantar apoiando o rosto no chão miserável e sujo daquele continente, esquecido pelo planeta e por mim, que não tenho nada com isso. Fato que não gera a menor culpa em mim, que por muitas vezes tive minha mesa farta ao ponto de passar mal de tanto comer, sem o menor remorso de exclamar: “Ai meu Deus! Comi demais!”…
Afinal, meu problema é maior que a seca no nordeste, os furacões, enchentes e desastres ecológicos do centro-oeste, as mudanças bruscas de temperatura no Brasil e no restante do planeta… É muito maior que a cratera que se rendeu à cobiça dos homens, não contentes em dominar a Terra, agora buscam o subterrâneo e em nome do progresso e do conforto do metrô abreviam a vida de inocentes…
É triste, mas é verdade. Vivo num planeta que tem um “lesado” que fala inglês e pensa que é dono deste mundo, da vida e da morte daqueles seus opositores que não falam seu idioma, não cultuam sua religião ou não deixam o “miseravinho” explorar seu petróleo ou sua água potável e supérfula (para os outros, não para ele que até já tem bases militares na nossa Amazônia)…
Mas, o que são estes desconfortos globais perto do meu problema?… Aliás, problema não: um problemão. Simplesmente o maior do mundo, que o próprio mundo não quer e nem precisa saber. Contudo, o meu egoísmo garante: Para mim, o maior problema do mundo é o meu!… Por quê?… Ora!… Simplesmente porque é meu!
Márcio Roberto Goes
Irônico, mas solidário…
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PREÇO DE BANANA

PUBLICADO EM: 08/02/2007
JORNAL INFORME

Quem não conhece o seu Mezomo?… Mais especificamente seu Milton Mezomo, com seus dois metros e meio de bigodes para cada lado, que apesar de sua luta diária contra o problema de coluna, nunca deixa de realizar boas obras e protagonizar pensamentos e frases, no mínimo intrigantes… Julgo ser um filósofo não compreendido pela sociedade…

Sua cabeça, assim como o corpo, nunca pára: sempre tem uma idéia nova para resolver os problemas do cotidiano de um exímio carpinteiro e sua família, contando-as com aquele sotaque de descendente de italiano inconfundível, idéias como afixar dois vaga-lumes na aba do boné para plantar grama à noite, amarrar um tijolo em cada ponta do chale para não resvalar do pescoço das mulheres chiques… Ou ainda, quando alguém estiver cochilando no sofá da sala, basta prender um chinelo na mão do preguiçoso (se for uma imitação de Rider, melhor…) e em seguida, fazer cócegas no nariz ou orelha, simulando uma mosca… O ser dormente acorda assustado e tenta acertar a mosca com a mão, que na ocasião terá mais um contra-peso a seu favor, o chinelo, que também pode ser substituído por um tijolo maciço… E inúmeras outras idéias que só o seu Mezomo tem e o espaço desta coluna seria insuficiente para narrá-las todas.
Certo dia, passou em frente à sua casa um caminhão, desses que nos tiram da cama às onze e meia da madrugada de domingo com aqueles auto-falantes muito mal regulados e uma voz de “taquara rachada” gritando: “Óia a fruita!… Óia a fruita!… Dona Maria, traga a bacia que hoje tem melancia!…” Na ocasião, a promoção era de banana: cinco quilos por dois reais.
O nhô Bigode chamou sua filha mais nova, deu-lhe dois reais e pediu-lhe que trouxesse cinco quilos de banana para a sobremesa da família. A menina dirigiu-se até o caminhão e fez o pedido ao vendedor que estava perdido no meio das bananas em cima da carroceria, pesou a mercadoria e entregou para a moça que levou aquela bananada para casa toda contente.
“Minha filha, aqui não tem cinco quilos!” Exclamou seu pai com as bananas na mão. Mais do que depressa foi até o porão, que tem de tudo, inclusive uma balança, e conferiu exatos três quilos e meio.
Por um azar (ou sorte) do destino, o mesmo caminhão passou novamente no dia seguinte com a mesma proposta. O nosso protagonista, que não se deixa enganar com facilidade, coçou os bigodes e tratou de providenciar uma sacola que levou até o caminhão junto com sua balança para comprar mais bananas para a sobremesa. Com a balança numa mão e a sacola na outra, seu Mezomo ordenou:
“Quero cinco quilos de banana, mas desta vez, eu também vou pesar, porque ontem vocês enganaram minha filha, que chegou em casa só com três quilos e meio… Se agora estiver errado, eu chamo a polícia, porque vocês estão fazendo propaganda enganosa.”
Assustado, o motorista e possível proprietário do estabelecimento itinerante desceu da máquina e dirigiu-se até o cliente, perguntando:
“O que está acontecendo aqui?”
“Este piá de b… enganou minha filha ontem, quero ver ele me enganar hoje”
Depois de tudo esclarecido, o motorista, transtornado pela traquinagem de seu ajudante (possivelmente orientada por ele mesmo), resolve ressarcir o prejuízo do dia anterior e deixa o comprador, cuja raiva já era maior que os bigodes, pesar as bananas com sua própria balança.
No final, nosso filósofo italiano nos dá uma lição de cidadania, fazendo cumprir seus direitos de consumidor. Porém, quantas pessoas possivelmente tenham sido enganadas por não terem uma balança em casa e nem a noção do peso exato da mercadoria adquirida? Infelizmente, situações como essa são freqüentes no mundo capitalista selvagem…

Márcio Roberto Goes
Oitenta e um quilos bem pesados
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A BATATA ASSASSINA


PUBLICADO EM: 01/02/2007
JORNAL INFORME
Os dois, apesar da diferença de dez anos na idade, costumavam brincar, na maioria das vezes, juntos… e juntos também faziam traquinagens atípicas para tio e sobrinho. Certa vez, tentaram construir um herói japonês de madeira e o resultado foi surpreendente: Mais parecia um grilo… E para aproveitar o ensejo, pintaram de verde aquele grilo gigante devorador de cabeças, pois ele foi responsável por um “galo” na testa do Alisson (o sobrinho), de quatro anos, quando tentava pegá-lo de uma prateleira… Em outra oportunidade, três anos antes, Márcio (o tio) salvara o sobrinho de um tombo da varanda da casa segurando-o pela calça plástica…
Mas as anormalidades de uma relação sadia entre tio e sobrinho, não param por aí… Um certo dia, estavam os dois na casa da dona Áurea, mãe do Márcio e avó do Alisson, sem fazer nada (o que nesse caso é perigosíssimo…), então encontraram um sadio, útil e instrutivo passatempo: Uma batata, que servia de objeto para arremesso para qualquer lado.
Na primeira parte, Marcinho era o arremessador e deveria acertar um pote de margarina vazio, localizado estrategicamente em cima da mesa, numa distância de vinte centímetros… Moleza! Um ponto para o mais velho… Mas o mais novo não se conteve e colocou o alvo a quarenta centímetros, rigorosamente medidos e conferidos por três vezes: novamente o tio acertou sem maiores esforços… Era preciso complicar mais a vida do jovem tio, então seu desafiante sobrinho colocou o pote-alvo, que já havia sido ferozmente acertado por uma batata por duas vezes a oitenta centímetros, cuidadosamente medidos e conferidos: O pote foi acertado em cheio, sem chances de reação e despencou, em queda livre até o chão, percorrendo desesperadamente uma distância de noventa centímetros até encontrar-se com o assoalho… O alvo, depois de atendido e medicado, foi posto então na beirada da mesa, na extremidade contrária ao arremessante, que em duas tentativas acertou aquele pote que novamente, apesar de todos os esforços acabou colidindo com o chão da cozinha…
Dona Áurea, que cuidava da lida de sua pequena lavoura nos fundos, nem imaginava o que estava por vir, e os dois lá, permaneciam firmes no desafio, capazes de qualquer coisa para manter a diversão rolando…
Inho, o mais novo, coloca então aquele pobre, miserável e azarado pote de margarina em cima do fogão, a mais ou menos um metro e meio de distância do “Pateta dentuço”, que em uma única tentativa, acerta o alvo com aquela batata, que parecia não estar gostando muito da brincadeira, da mesma forma que o pote, que novamente obedeceu a lei da gravidade e seu destino foi o chão frio e lustroso da cozinha…
Agora era a última etapa da brincadeira: A batata deveria acertar o alvo margarináceo na quina do balcão, distante mais ou menos dois metros do arremessador, onde haviam também alguns utensílios de cozinha, como forno elétrico, torradeira, liquidificador, batedeira e um filtro de água com um copo de vidro do mais alto gabarito, não era qualquer copo, desses que a gente compra nos mercados servindo de embalagem para extrato de tomate.
Todo cuidado é pouco nesse momento… Depois de muita concentração, a batata foi arremessada e o tiro foi certeiro… no copo que transformou-se nuns quatro mil, quinhentos e vinte e cinco pedaços, mais ou menos…
A brincadeira acabou, era preciso juntar toda aquela sujeira e substituir o copo antes que a dona da casa voltasse da horta… Mais do que depressa, a dupla dinâmica reparou o erro e dona Áurea, ao voltar, encontra os dois olhando para o alto e assoviando, cena típica dos disfarçados dos desenhos animados, que não deixam nenhuma suspeita do crime…
Márcio Roberto Goes
Inocente, até que se prove o contrário
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