HERAR É OMANO
por Márcio Goes in janeiro 3rd, 2007
No meu texto da semana passada cometi um erro terrível… Mesmo “atraZado”, reconheço minha culpa… minha tão grande culpa (Ah!…Que falta faz o Word, que corrige tudo sozinho!… Às vezes viaja um pouco na maionese, é verdade, mas é tão cômodo!), motivo pelo qual recebi um e-mail de alguém que se sentiu comovido com meu “erro”… Bem, se erro de Português causasse comoção, eu não faria outra coisa além de chorar ao ler as placas informativas e classificados da minha cidade… De qualquer forma, agradeço, de coração a contribuição deste dileto leitor e quero deixar claro que minhas palavras a seguir não têm o menor pretexto de vingança, apenas quero abrir uma discução gramatical.
Este fato inusitado cujo protagonista fui eu mesmo, fez-me lembrar de tudo o que eu aprendi com meus mestres na faculdade (eles também erram e nem por isso são menos inteligentes)… Lá eu aprendi a “lidar” com as diferenças e a perceber que na Língua Portuguesa (que é um dos mais belos e complexos idiomas do mundo), ou em qualquer outro idioma, não existe certo ou errado, mas sim, diferenças linguísticas, fato que só faz enriquecer nosso idioma, que tem um sistema aberto dos mais versáteis do mundo: todos os dias nos deparamos com neologismos e nem o dicionário consegue acompanhar tal velocidade de evolução… diante disso, um “erro” gráfico de representação de fonema como este acima pode passar desapercebido aos olhos de qualquer leitor… Ôpa!… Poderia passar desapercebido se o equívoco não fosse cometido por um ilustríssimo, exelentíssimo, magnífico, magnânimo, estupefato e célebre professor de Português… embora eu não faça a mínima idéia do que significam a maioria desses termos: pronomes de tratamento e adjetivos, tão em desuso, no Brasil quanto a mesóclese, a preposição “per”, ou a conjugação correta da segunda pessoa em qualquer verbo, mas é bonito e toda pessoa que tenta ser “elegante” usa e abusa desses termos falando difícil e confundindo o povo que tem outro idioma de origem simples…
Pois é! Sou professor de Língua portuguesa e Literatura, tento orientar meus alunos quanto aos diferentes aspectos linguísticos , semânticos e morfológicos de nosso idioma materno… (Nossa!… rasguei o verbo agora… também sei falar difícil, pô!…), mas jamais poderei interferir em suas raízes linguísticas… Nossos alunos devem primeiro perceber a diferença entre fala e escrita, para depois começarem a produzir… (No caso, meu engano foi na escrita… ainda bem)…
Na verdade, nós professores de Português, cientistas da Língua, temos a difícil missão de ensinar “Português” num país que fala “Brasileiro”, talvez seja por isso que tantos alunos reprovam na língua materna, o que é, no mínimo, um absurdo… Como é que alguém pode reprovar no idioma que fala desde criança? Alguma coisa está errada no aluno ou no idioma que tentamos enfiar “goela abaixo”, como fizeram os Jesuítas com a religião dos índios há quinhentos anos… Sim, nosso idioma já distanciou-se tanto de Portugal, que deveríamos criar a “Língua Brasileira”, ou seja, a língua do povão, com gramática, morfologia e semântica próprias. Digo isso, porque apesar de meus inúmeros esforços, não consigo entender metade do que os portugueses falam, e uma parte considerável do que escrevem… Mas a gramática é a mesma aqui e lá em Portugal… O que há de errado então?… Será que não temos o direito de ter nossa própria língua?… Até quando vamos nos comportar como colônia obedecendo e ensinando regras e nomenclaturas totalmente desconhecidas na prática cotidiana do nosso povo?… Falo isso com a convicção de um professor descendente de Portugueses que fala “brasileiro” num país onde a elite, que fala Português (erroneamente, na maioria das vezes) manda até na língua do povo…
Porém, se acabassem as diferenças linguísticas, que pretexto usariam aqueles que se elegem falando “difícil”?… Como poderiam continuar se impondo para a pleb de fala simples e leve?
Márcio Roberto Goes
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