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Mês: novembro 2006

MURO DAS LAMENTAÇÕES

Um jovem recém-casado resolve plantar uma árvore em frente a sua casa, talvez seguindo aquela máxima que diz: “um homem, para ser feliz, deve fazer um filho, plantar uma árvore e escrever um livro” (não necessariamente nesta mesma ordem)… Agora só faltam dois passos: o filho e o livro…

 

Pois bem, aquela plantinha inofensiva cresce vagarosa e silenciosamente, abrindo com total liberdade seu leque de galhos e folhas verdes, penetrando o solo, sem pudor, bem à vontade, em busca de alimento e sustentação…
Que maravilha!… Aquela árvore crese livre, leve e solta, até que seu proprietário resolve construir, sem consultá-la,uma calçada ao seu redor e um muro ao seu lado, símbolo máximo da insegurança do capitalismo selvagem e egoísta, que , neste caso, separa o homem de sua árvore, mas serve também para separar nações e causar até guerras…
Porém, árvores não se entregam facilmente… Nossa protagonista permanecia crescenco em tamanho e graça, indiferente àquele paredão de concreto (quase armado), que acabou não resistindo a seus impulsos irriquietos, vagarosos e silenciosos de sempre buscar o infinito… O muro cedeu… quebrou… rachou… esquartejou… Em outras palavras: se abriu, entregando-se àquele tronco grande, grosso e teimoso.
Indignado com aquela fissura, o proprietário, cheio de cólera, agora não tão jovem assim e antes mesmo de fazer um filho e escrever um livro prepara suas armas mortíferas e sangrentas: a motosserra e o machado, que juntos têm um poder destrutivo semelhante a bomba de hidrogêneo, para acabar com a fotossíntese e o oxigêneo…
Sem dó, nem piedade, aquele homem, fora de sí, sente a cada machadada uma vitória, permitindo-se levar pelo riso sarcástico… A árvore chora, deixando escorrer a resina sobre a calçada que nunca suportou sua capacidade de crescimento e desenvolvimento… Para dar o “tiro de misericòrdia”, o lenhador, antagonista improvisado e desequilibrado aciona a motosserra que penetra sua seiva de uma extremidade a outra… Não resistindo à cobiça da construção civil, aquele pé de vida, depois de tantos anos é derrubado… cortado da sociedade… rachado… e a única herança que lhe resta por direito é o fogão à lenha: destino de toda planta que tira o sossego de um muro.
Mas a natureza é sábia e teimosa… ao destruir aquela árvore, o homem esqueceu,-se da raíz que ainda teima em viver e buscar o infinito. Luta do seu jeito infeliz, penetrando ainda mais o solo num sofrimento inenarrável e buscando inutilmente a superfície outra vez. Por vezes, a terra retumba, numa atitude de protesto e solidariedade ao esforço daquele ser vivo que já não se permite mais ser tão vegetativo…
A terra treme, a raíz cresce, a calçada se parte de ódio (sim, porque o ódio só parte o ser que odeia, não o odiado), ciúmes e superficialidade… E o muro, com uma profundidade razoável, porém, não maior que as raízes, entrega-se às forças da natureza e num ato desagradável e humilhante, cai como uma peça de dominó… No tombo leva todo o sonho e a cobiça do capitalismo que separa vidas e em nome deste “aparteid”, destrói a natureza silenciosa, nobre e gigante, que às vezes tarda, mas nunca falha, nem deixa de ser justa…

Márcio Roberto Goes
Fugindo do IBAMA

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SAÚDE PARA QUEM?


PUBLICADO EM: 09/11/2006
JORNAL INFORME

Tenho recebido muitos e-mails comentando sobre meus textos publicados no jornal, seja negativa ou positivamente… Todos expressam a opinião e a vontade do povo, onde estruturo a maioria de minhas crônicas e contos. Agradeço, mais uma vez, de coração a todos os leitores, que me surpreendem a cada dia pelo número elevado de manifestações, prova de que os Caçadorenses estão lendo mais frequentemente… e um povo que lê, não engole qualquer “sapo”, além de ter mais subsídios para formar opínião.

Peço licença aos leitores para destacar uma contribuição que recebi recentemente, de um profissional do magistério, como eu e que faz parte do quadro de professores da rede municipal, comentando sobre a situação da saúde caçadorense. Transcrevo, na íntegra, seu depoimento que chega a ser um desabafo:
“A Saúde caçadorense, há muito, tempo vem sofrendo, não é de hoje, mas agora, sabemos que os únicos seres que são profissionais neste município são os médicos, bioqúimicos e dentistas. o restante dos funcionários públicos, não necessita de profissionalismo, nem de flexibilidade no horário, afinal não precisa de mais nada.

Observemos o exemplo dos professores municipais, que tem hora/atividade vigiada, ou seja, não há flexibilidade no horário. O pessoal da central, também concursados e efetivos, não têm flexibidade no horário e não são nada. Sabe-se que para prestar um concurso público, é preciso graduação em faculdade reconhecida e estágio probatório, a pessoa precisa comprovar escolaridade e prova de títulos, portanto estamos falando de profissionais das mais diversas áreas.
Agora o caos da saúde convém lembrar, vem sendo negociado há muitos anos, saúde é tema de campanha política, mas não é política de governo, esqueçam os pobres e miseráveis nas filas dos postos de saúde, no Peti, nos hospitais, esqueçam seus preciosos votos na hora da urna, mande-os para a outra urna, a funerária…
Ou seja, os preciosos funcionários que não tem flexibilidade no horário, querem ampliar seus vencimentos, então sejam claros, negociem seus salários sem tentar enganar as outras classes… E quanto a administração pública, está na hora de parar de brincar com os cidadãos caçadorenses, e deve lembrar-se que foi o voto de quem acreditou em melhores dias que os colocou à frente desta administração.”
Com certeza, estas são palavras que estão entaladas na garganta de muitos funcionários públicos e do povão caçadorense, que indignado, não aguenta mais ver tanta regalia para tão poucas pessoas, que além de tudo ameaçam fazer greve para não cumprir horário (será que eles já ouviram falar de cartão-ponto?)… E se enchem de moral para criticar os professores, quando estes paralizam em busca de melhores salários e condições de trabalho… A urna funerária que meu colega destaca, é o destino de todo ser humano. Enquanro este dia não chega, é melhor fazer o possível para ser bem lembrado no futuro e ter um epitáfio (currículo póstumo) bem apessoado, sobretudo em se tratando de autoridades eleitas pelo povo.
Respeito e admiro o trabalho dos médicos, e sei que a maioria é composta de ótimos profissionais… Porém isso não os torna diferentes dos outros servidores de nível superior, principalmente os professores que são obrigados a cumprir quarenta horas semanais, conforme contrato, comendo pó de giz e “engolindo sapo” em nome da qualidade (?) da educação…
Um professor, nem sempre precisa do médico… Mas o médico, inevitavelmente, necessitou de um professor até para assinar seu diploma…
Márcio Roberto Goes
Em hora atividade
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A ESPERANÇA É A ÚLTIMA QUE MORRE

PUBLICADO EM: 02/11/2006
JORNAL INFORME

Dizem que eu “ando mais que notícia ruim” e “sou mais conhecido que feijão preto”… Não acho tudo isso, mas na medida do possível, faço o que posso para ser agradável, porém, sou gente, e gente tem ocilações de humor pertinentes a qualquer ser humano… Pois bem: É verdade que ando por quase toda a cidade, visto que trabalho a oito quilômetros de minha residência, mesmo não tendo direito a transporte coletivo gratuito (apesar de monopolizado) como a maioria dos trabalhadores (talvez por ser funcionário público), vou ao trabalho ora com transporte particular, ora com veículo próprio, gastando nosso combustível auto-suficiente…

Numa dessas minhas andanças, meu amor pela educação e a equipe pedagógica me permitiram conhecer a Escola Municipal Esperança, situada no bairro Santa Terezinha: longínquo, esquecido e abandonado pelo poder público, com pouquíssimo saneamento básico e moradias em estado lastimável… Foi lá que conversei com a diretora Ivonete D’agostini e com sua equipe de apoio que me relataram o seguinte fato:
Uma das professoras percebeu que uma de suas alunas baixara consideravelmente o rendimento escolar… ao averiguar o fato, descobriu-se que a criança estava há quatro dias quase sem comer, tendo como única refeição: a merenda escolar… é claro que nenhuma criança aprende direito mal alimentada. A equipe pedagógica comovida, resolveu conhecer sua família, instalada em baixo de uma lona sustentada por uma parede emprestada, tendo como assoalho a terra vermelha do meio-oeste catarinense que quando chove, transforma-se em lama, molhando e sujando a cama das crianças (cama???… um colchão, em estado deprimente!!!). Além disso, sua irmãzinha, recentemente tinha sido picada no rosto por uma aranha, ferimento que se agravava a cada dia, e seu pai estava há algum tempo desempregado, como sua mãe.
Mais do que depressa, a equipe pedagógica da escola, correu atrás de recursos, mesmo não sendo esse o papel da escola, afinal, seja de quem for a culpa, é inadmissível deixar uma família decair dessa maneira, não dando às suas crianças o direito à vidadigna, à alimentação e à moradia… Infelizmente, ao consultar os órgãos competentes, foram surpreendidos por uma série de burocracias que exigiam até o endereço, constando nome da rua e número da casa… (que casa??? Não sabia que barraco de lona também era obrigado a ser numerado!!!)…
Sem retorno dos órgãos públicos, a escola procurou outras entidades, e recebeu apoio do Lions Centro, que atendeu prontamente a solicitação, disponibilizando a esta família: cesta básica, uma casinha de madeira, que está longe de ser o ideal, mas melhorou consideravelmente as condições desta família, tratamento para a criança ferida e um emprego para o pai, na colheita da maçã, em Fraiburgo… Depois desta, não reclamo mais da distância do meu trabalho, pois não há emprego em Caçador, mesmo que temporário, para os caçadorenses mais humildes, que são obrigados a enfrentar um transporte precário, apesar de gratuito para trabalharem na cidade vizinha…
Enfim, a escola fez aquilo que não era seu papel: assistência social, mechendo com todos os recursos possíveis para resolver um, de muitos problemas que enfrenta a periferia de nossa cidade… Que isto sirva de exemplo para outras entidades, principalmente as públicas, para diminuir a burocracia e aumentar o leque de atenção à população bairrista e plebéia, maior responsável pela eleição daqueles que prometeram melhorar sua vida.
Bonito exemplo de comprometimento com a comunidade foi dado por uma istituição que tem por objetivo levar o conhecimento à população. A escola Municipal Esperança, fez mais do que isso, levou um pouco de cidadania para a família de sua aluna.
Dizem que a esperança é a última que morre, neste caso ela continua viva, graças a uma equipe de profissionais e a uma entidade filantrópica, que comoveram-se e abriram seu coração para as causas populares…
Márcio Roberto Goes
Ainda esperançoso
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