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Mês: outubro 2006

SIMPLESMENTE ASSUSTADOR

PUBLICADO EM: 26/10/2006
JORNAL INFORME

Aproxima-se o Halloween, comemorado em 31 de outubro, véspera do dia de “finados” nos Estados Unidos da Améica… Sou radicalmente contra esta “festa”, que, na minha opinião, além de ser satânica, não tem nada a ver com nossa cultura, e sim com a cultura daqueles que se acham ”donos do mundo” e param a nação para comemorar o “dia das bruxas”, enquanto procuram mais um país para inventar mais uma ameaça, que serve de desculpa para detonar mais uma bomba e proclamar mais uma guerra… matando, mais uma vez, milhares de pessoas inocentes de todas as nações (isso é que é bruxaria, e das bravas)… Mas, em respeito aos meus amigos professores de Língua Inglesa, que precisam deixar seus alunos ao par da cultura dos países que falam este idioma, tolero amigavelmente esta comemoração….
Lembro-me de um fato ocorrido no ano passado, nessa mesma época. Na ocasião, eu exercia a função de coordenador de turno da extensão da Escola de Ensino Médio Irmão Leo, denominada Wanda Krieger Gomes (que hoje tem um prédio próprio “quase” equipado), então funcionando nas dependências da Escola Municipal Morada do Sol, no noturno.
Fiquei incumbido de providenciar um esqueleto para a festa do Halloween que aconteceria à noite na extensão. Consegui emprestado, do laboratório de biologia da Escola, um esqueleto humano em tamanho natural, de algum material sintético semelhante a plástico duro, creio eu… Meu próximo desafio seria transportá-lo sem desmontar, pois correria o risco de não saber mais encaixar as peças, visto que não sou professor de Biologia, além do mais, era todo parafusado… No banco de trás do carro, ele ficaria muito inseguro, arriscando ser arremessado para frente numa frenagem brusca, podendo danificá-lo. No porta-malas, nem pensar!…
A única solução cabível seria colocá-lo sentadinho, ao meu lado no banco da frente, preso pelo cinto de segurança para não correr risco de vida (digo, de morte), além de ficar legalmente correto e espantar o medo de levar uma multa e cinco pontos na carteira.
Foi o que eu fiz. E lá fomos nós pelas ruas da cidade, alegres, sorridentes e assustadores, eu e meu caroneiro magrela. Não pude evitar de fazer algumas paradas no comércio de Caçador, pois precisava pagar umas contas. Em cada lugar que parávamos, éramos recebidos ora com olhar assustado, ora com risos… A verdade é que ninguém se acorajou a chegar perto para conferir a verossimilhança do passageiro…
O trânsito, por vezes, tumultuou-se com nossa presença. Muitos motoristas “quebravam o pescoço” para acreditar no que seus olhos viam… Por conta de meu amigo “ossudo” bicicletas quase perderam o equilíbrio, sacolas foram arremessadas ao chão, veículos quase colidiram, senhoras se benzeram com o sinal da cruz, crianças choraram assustadas… E eu, alí do volante, respondia:
Calma, gente, seria pior se ele estivesse dirigindo!
Creio que em virtude disso, muita gente incrédula (ou não) teve terríveis pesadelos.
Chegou a noite e novamente transitei pelas ruas com meu acompanhante desnutrido até a extensão da escola, no bairro Martello, onde aconteceu uma cena do mesmo nível cômico: Carreguei aquela radiografia ambulante, do carro até a escola, nos ombros, sob os olhares e risos dos alunos… E não parou por aí, depois de entregar minha encomenda, já tinha outra missão me esperando, buscar um caixão preto na fábrica de caixões alí perto… E lá vamos nós reclinar os bancos e abrir o porta-malas para mais uma viagem num trecho, de estrada de chão esburacada, o que exigiu que eu transitasse a mais ou menos cinco quilômetros por hora, parecendo um verdadeiro cortejo (tive até vontade de chorar, mas me contive… Na verdade, estava quase chorando de tanto rir).
Bem!… posso dizer que, mesmo contrariado, vivi intensamente o Halloween no ano passado, pois não é sempre que seu carro serve de transporte para um esqueleto humano e um caixão, no mesmo dia… Assustador!…
Márcio Roberto Goes
Vivo e inteiro
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Bem mais que vinte e poucos anos…

João dos sonhos azuis voltou para casa mais tarde naquele dia, antes, passou na loja de confecções que vende tudo mais barato, com qualidade duvidosa e crediário a perder de vista… Por causa de seu traje marrom, não tão apessoado, foi um tanto mal atendido, mas isso ele tira de letra, já está acostumado a ser discriminado pela sociedade capitalista… Mesmo com o atendimento precário, conseguiu comprar uma jaqueta para sua filha mais velha e parcelar em seis vezes.

-“Por favor, embrulha pra presente!”

-“O senhor não quer ver nada para sua esposa?” … (todo vendedor pensa que o cliente precisa mais do que procura).

-“Não, obrigado! Minha filha completa hoje vinte anos, gostaria de dar a ela um presente significativo, porém, dentro de minhas finanças.”

Nosso sonhador de sonhos azuis, dirige-se ao fusca da mesma cor de seus sonhos e sai contente com o presente de sua filha… Chegando em casa, a encontra baqueada e choramingando. Finge não perceber e entrega alegre, seu presente.

-“Não precisava, papai!” (todo mundo é falso o suficiente para dizer isso)

-“Magina”! Você merece! Aliás, estou te achando muito triste para quem está de aniversário. O que houve?

-“Vinte anos se passaram e não realizei quase nenhum de meus sonhos… Imaginava comemorar este aniversário com um bom emprego, ajudar nas despesas da família e não precisar trancar a faculdade só porque resolveram dispensar os servidores temporários e estagiários da prefeitura… Mas o que vejo é meu pai gastando o que não tem para me dar um presente… Sinto-me velha demais para não trabalhar, mas os empregadores sentem-me com experiência de menos… Não ‘guento’ mais bater de porta em porta, submeter-me as mais diversas humilhações e continuar desempregada, sem dignidade… Aliás, dignidade, nem mesmo o trabalhador tem há muito tempo.”

-“Minha filha, não sou psicólogo, nem doutor… tenho menos estudo que você, mas ouça seu pai: Nada é eterno, um dia tudo acaba, até a experiência exigida pela maioria das empresas… Com certeza você vai colher bons frutos desse sofrimento. O importante, é nunca desistir de sonhar.”

Pobre João! Mal sabe ele que seus sonhos azuis jamais se realizarão enquanto forem contrários aos sonhos daquelas empresas que ameaçam fechar as portas, caso o candidato”X” seja eleito (Aliás tem empresa que não dá aumento real a seus funcionários, com a desculpa de estar falindo, desde o tempo em que eu era operário há desesseis anos atrás… nenhuma delas fechou até hoje). Ou enquanto suas esperanças cor de anil forem distintas dos sonhos negros de “conversa mole” daqueles que se elegeram e ainda se elegem às custas dos desejos puros, ingênmuos e azuis que remetem para uma vida melhor, da cor do céu, da cor de seu fusca, da cor da jaqueta e dos vinte anos sonhadores de sua filha, nascida no Brasil democrático, que já vota, porém ainda não foi vacinada contra a febre amarela fétida da campanha eleitoral.

Márcio Roberto Goes

Alimentando sonhos… ainda

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BURAQUINHO DE RUA


PUBLICADO EM: 15/12/2005
JORNAL INFORME

Era uma vez, um buraquinho de rua, um filhote de Buracossaulo Rex que aguardava sua vez às margens de uma estrada “quase” pavimentada em um dos maravilhosos, pacatos e esquecidos bairros da cidade… Lá, de seu lugar, ele sonhava em ser adulto, seguir os passos de seu pai e vingar sua mãe morta numa operação tapa-burascos: ela não resistiu, como a maioria dos Buracossaulos resiste, mas foi substituída por outro muito maior.

Este filhote cresceu, alimentou sonhos maravilhosos e quase impossíveis de formar uma família unida e partirem juntos para a estrada a fim de lutar pela sobrevivência. Porém, sua cabeça rebelde de adolescente resolveu que deveria aventurar-se no centro da cidade. Lá, sentiu-se realizado, teve oportunidade de crescer, ficou viçoso, encontrou outros da mesma espécie e sobreviveu ainda muito tempo… Destruiu muitos pneus e suspensões, causou muitos tombos e sustos nos pedestres, mas chegou o destemido e arrogante Tapa-buracos, vilão que só ataca no centro, e sem dó nem piedade destruiu nosso protagonista, humilhando-o e deixando-o abaixo do solo.
Porém, um Buracossaulo Rex genuíno que se preze não desiste tão fácil… Juntou as forças que ainda lhe restavam e ressurgiu das cinzas. Acabado, diminuído e sem perspectivas volta a seu querido bairro de origem, onde o Tapa-buracos dificilmente ataca, só quando acredita que seus atos vão ter grande repercussão.
Lá no bairro, reencontra seus amigos que em pouco tempo tornaram-se enormes, alguns na estrada, outros ainda à espera de um lugarzinho, já que as ruas estão lotadas… Conta-lhes dos perigos e da ilusão de uma vida melhor no centro da cidade. Procura um lugarzinho e encontra (sempre cabe mais um buraco nos bairros de Caçador). Lá, finalmente, ele é feliz, continua quebrando carros, derrubando e assustando pedestres, fazendo os ônibus coletivos quase engatinharem, ouvindo reclamações que soam como música a seus ouvidos… Em dia de chuva, ele fica camuflado com sua amiga enxurrada causando maior emoção e surpresa.
Redescobre a vida suburbana, tem tudo o que sonhou em seu próprio lar e espera ter vida longa… Se depender do Tapa-buracos o Buracossaulo Rex terá vida muito longa mesmo, pois nosso vilão urbano ainda não percebeu que suas melhores e maiores presas estão nos bairros.

Márcio Roberto Goes
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Grand Canyon Caçadorense

Dirigindo com atenção pelas ruas da cidade, pude contemplar as belezas naturais e artificiais da nossa querida Caçador…

Porém, quando cheguei no bairro Figuerôa (poderia ser qualquer outro bairro esquecido e abandonado de nossa cidade), na saída para Rio das Antas, percebi que, inexplicavelmente, minha visão começava a ficar trêmula… O que poderia estar acontecendo?… Será que foi a cerveja que (não) bebi?… Será que é estresse ou nervosismo?…

Não! Eu não tenho motivos para estar nervoso ou estressado num bairro tão pacato… Será que é a idade?… Mas ainda sou jovem (ou quase). Será que tenho algum problema de saúde desconhecido por mim: pressão, coração, diabetes, rim, bexiga, intestino, calo ceco, unha encravada, dor de dente?…

Desesperado, antes que minha visão embranquecesse, como no romance do autor português José Saramago: Ensaio sobre a cegueira, parei o carro e desci para procurar ajuda; observei a rua… Ali estava o grande motivo da minha visão trêmula: As ondulações, ou para ser menos elegante: os buracos. É impossível dirigir sem sentir ondulações em ruas tão cheias de saliências.

Conta um amigo meu que reside por ali, que as crateras são tantas, que às margens da rua existem buracos na fila esperando sua vez de pegar a estrada… Deve ser o sonho de todo filhote de Buracossaulo Rex, aliás, no centro da cidade, já observei alguns bichinhos desses perdidos… Pode ser crateras adolescentes rebeldes que fugiram de seus pais do Figuerôa ou de qualquer outro bairro menos favorecido para tentar a sorte (ou azar) no centrão.

Tenho medo que nossa cidade, em breve, seja invadida pelos Buracossaulos Rex que para se reproduzirem são mais rápidos que os coelhos, mas para exterminá-los é mais difícil e penoso que tomar sol em dia de chuva.
Alguma coisa precisa ser feita o mais rápido possível, precisamos mobilizar e alertar os motoristas para não transitarem por estas ruas, pois correm o risco de, repentinamente, serem atacados por um ou mais Buracossaulos, ficando com a visão trêmula e nos casos mais graves, ataque cardíaco depois de receber o orçamento dos reparos nos pneus ou na suspensão danificados por suas garras afiadas e certeiras.

Atenção, o Buracossaulo Rex não tem piedade, é feroz e ataca qualquer veículo que se aproxima… Não adianta correr… Todo cuidado é pouco. Os ônibus da Auto Coletivo já passam pé-antepé nas ruas invadidas por estes predadores, para não acordá-los.

Se assim continuar, chegará o dia em que as ruas do Figuerôa e de outros tantos bairros ficarão intransitáveis… Porém, existe o lado lucrativo na expansão das crateras: podemos aproveitar para fomentar o turismo, afinal, Caçador vai ter seu próprio Grand Canyon artificial, mais uma maravilha construída (ou destruída) pelas mãos (des) humanas.

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RELAÇÕES HOMO-CANINUS

“Quem conheceu um amigo, jamais morrerá…”. Lembrei-me deste trecho de uma canção ao presenciar cenas envolvendo o melhor amigo do homem: o cão… No mesmo dia, encontrei dois cães atravessando duas ruas centrais de Caçador, obedecendo à faixa de pedestres e contrariando os humanos…Quando fiz auto-escola, descobri que pedestre é todo aquele que se move com as próprias pernas, o que comprova que um cachorro é um pedestre e deve portar-se como tal, portanto, nossos dois amigos caninos procederam corretamente.

O cão tem honrado, e muito, o título de melhor amigo do homem (motorista ou não), afinal, ele ama e protege aqueles que lhe dão comida, fato já comprovado cientificamente, além disso, pesquisas mostram que a companhia de um cachorro cura até depressão… Parece cômico pensar que uma doença ocasionada por problemas comportamentais humanos pode ser curada por um quadrúpede irracional que só vive para comer, defecar, urinar, latir e procurar um animal do sexo oposto para cruzar, aliás, neste último aspecto os caninos encontram muitos adeptos “homo sapiens” também.
O “homo caninus” (vamos chamá-lo assim pela grande amizade com o homo sapiens) só não fala porque não tem um maxilar com articulação suficiente, mas compreende melhor que muitos racionais a linguagem humana. Portanto, meu amigo, não se sinta ofendido ao ser chamado de cachorro, isso é um elogio, Quer alguns exemplos?…
O cão percebe quando seu dono não está bem, não pode aconselhar ninguém pelos motivos já citados, mas sabe aproximar-se de maneira a fazer entender que quer ajudar de alguma forma (poucos humanos são capazes desta proesa).
Os caninos não pensam no dinheiro, aliás, preferem ser vira-latas de donos pobres, que lhe ofereçam restos de comida boa, ao contrário dos cães de raça dos ricos que comem somente ração feita de farelo de osso de primeira qualidade, nada saborosa, que só os cães de raça comem, e têm muitos nutrientes para zelar da saúde do cachorro e deixar o pêlo mais forte e brilhoso, enquanto isso, o filho humano do João Ninguém, nada forte nem brilhoso, deve contentar-se com arroz de terceira e feijão (quando tem) e derivados do fubá puro que só filho de João Ninguém come…
Se você brigar ou bater num cão, mesmo sem motivos, ele não pensa duas vezes antes de perdoar, ou melhor, o cão não perdoa porque não condena (muitos seres humanos são rápidos para condenar e lerdos para perdoar)…
O cachorro está com seu dono até o fim e nenhum obstáculo pode separá-los. Como acontece na obra de Machado de Assis, onde o professor Rubião recebe uma grande herança de seu amigo filósofo Quincas Borba, com uma condição: cuidar de seu cão que tem o mesmo nome do dono até que a morte os separe… A fortuna acaba, mas o cão não abandona seu novo dono que depois de uma desilusão amorosa fica louco e morre ao lado de Quincas Borba (o cão que não o condena jamais), coroando-se Napoleão III.
Resumindo, os cães, pedestres ou não, literários ou reais, brilhosos ou opacos, filósofos ou não, têm muito a nos ensinar sobre relações humanas, ou melhor, relações “homo caniunus” que de certa forma são mais humanas que as dos homo sapiens.
Márcio Roberto Goes
24/10/2005
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