- Vim retirar uma queixa…
- Que queixa?…
- Desaparecimento de pessoa.
– Há sim, você quer dizer, boletim de ocorrência?…
– É, deve ser isso mesmo!…
– Quem desapareceu?
– Eu.
– Você?…
– Sim! Registraram a ocorrência que eu sumi, mas aqui estou eu…
– O desaparecido é você?
– Não, eu já apareci…
– Então, você é o aparecido que desapareceu?…
– Meu nome é Joaquim, vulgo Quincas, e não aparecido… Peraí! Até que não é má idéia. Quero mudar de nome… Aparecido é um nome simpático, podem me chamar de Cido. (para um bêbado até que ele raciocina bem)
Nem mesmo o delegado sabia porque insistia em prosseguir com o diálogo, mas a cena era tão hilariante que merecia mais um pouco de fatos, afinal estava cansado da rotina patética daquele órgão público:
- Porque você desapareceu?
– Na verdade, eu fugi…
– E porque fugiu?
– Pra beber!…
Porque você bebe?…
– Pra fugir…
– Fugir do quê?…
– Da minha mulher. Ela briga muito comigo…
– Por que razão ela briga?
– Por que eu bebo…
- Porque você bebe?…
– Por que ela briga comigo… (Isso já está parecendo um trecho do “Pequeno Príncipe”, espero que Saint Exuperry também não me cobre direitos autorais).
E a conversa seguiu neste ritmo por muito tempo, o suficiente para a família ser informada que o desaparecido apareceu, embriagado como sempre e desorientado. A família já sabia, ele já havia passado por lá quando foi informado do boletim de ocorrência que agora tenta retirar:
- Eu não sou ladrão nem assassino pra “ponharem” meu nome aí neste computador, doutor…
– Não existe nenhuma queixa contra você, só foi registrado seu desaparecimento…
– Mas eu já apareci, aliás, nunca notei minha falta, sempre estive em minha companhia.
- Agora vá, sua família está esperando…
– Eu vou, mas antes quero registrar uma ocorrência…
– Que ocorrência?…
– Um desaparecimento…
– Quem sumiu desta vez?…
-Eu de novo…
– Como assim?…
-Vou sumir novamente, se eu voltar para casa, minha mulher vai me encher as paciências…
– Bem, se esta é sua intenção, não vejo outra saída senão deixá-lo retido por vinte e quatro horas…
– Na cadeia dá pra beber?…
– É claro que não!…
– Então eu volto para casa, vou escutar “um monte”, mas assim tenho pretexto pra tomar meus tragos… Anote aí: o desaparecido apareceu.
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