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Mês: setembro 2006

O DESAPARECIDO

PUBLICADO EM: 25/05/2006
JORNAL INFORME

Tudo estava perfeito e absurdamente rotineiro na delegacia aquela manhã…
Subitamente, entra porta adentro, o senhor Joaquim, coincidentemente, mesmo nome do protagonista da obra: “A morte e a morte de Quincas Berro d’água”, e também por coincidência embriagado (espero que Jorge Amado não me cobre direitos autorais). O senhor, bêbado entra sem pedir licença e vai direto falando com o delegado de plantão:

– Vim retirar uma queixa…
– Que queixa?…
– Desaparecimento de pessoa.
– Há sim, você quer dizer, boletim de ocorrência?…
– É, deve ser isso mesmo!…
– Quem desapareceu?
– Eu.
– Você?…
– Sim! Registraram a ocorrência que eu sumi, mas aqui estou eu…
– O desaparecido é você?
– Não, eu já apareci…
– Então, você é o aparecido que desapareceu?…
– Meu nome é Joaquim, vulgo Quincas, e não aparecido… Peraí! Até que não é má idéia. Quero mudar de nome… Aparecido é um nome simpático, podem me chamar de Cido. (para um bêbado até que ele raciocina bem)
Nem mesmo o delegado sabia porque insistia em prosseguir com o diálogo, mas a cena era tão hilariante que merecia mais um pouco de fatos, afinal estava cansado da rotina patética daquele órgão público:
– Porque você desapareceu?
– Na verdade, eu fugi…
– E porque fugiu?
– Pra beber!…
Porque você bebe?…
– Pra fugir…
– Fugir do quê?…
– Da minha mulher. Ela briga muito comigo…
– Por que razão ela briga?
– Por que eu bebo…
– Porque você bebe?…
– Por que ela briga comigo… (Isso já está parecendo um trecho do “Pequeno Príncipe”, espero que Saint Exuperry também não me cobre direitos autorais).
E a conversa seguiu neste ritmo por muito tempo, o suficiente para a família ser informada que o desaparecido apareceu, embriagado como sempre e desorientado. A família já sabia, ele já havia passado por lá quando foi informado do boletim de ocorrência que agora tenta retirar:
– Eu não sou ladrão nem assassino pra “ponharem” meu nome aí neste computador, doutor…
– Não existe nenhuma queixa contra você, só foi registrado seu desaparecimento…
– Mas eu já apareci, aliás, nunca notei minha falta, sempre estive em minha companhia.
– Agora vá, sua família está esperando…
– Eu vou, mas antes quero registrar uma ocorrência…
– Que ocorrência?…
– Um desaparecimento…
– Quem sumiu desta vez?…
-Eu de novo…
– Como assim?…
-Vou sumir novamente, se eu voltar para casa, minha mulher vai me encher as paciências…
– Bem, se esta é sua intenção, não vejo outra saída senão deixá-lo retido por vinte e quatro horas…
– Na cadeia dá pra beber?…
– É claro que não!…
– Então eu volto para casa, vou escutar “um monte”, mas assim tenho pretexto pra tomar meus tragos… Anote aí: o desaparecido apareceu.

Márcio Roberto Goes
Sempre sóbrio

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MISERESMA BICOLOR

PUBLICADO EM: 13/07/2006
JORNAL INFORME

João estacionou seu fusca azul da cor de seus sonhos em frente ao posto de saúde de seu bairro e adentrou ao recinto:

– Moça, como é que eu faço para consultar o dentista?
– É urgente?
– Sim! Tô co buraco aberto, e é bem na frente, veja!…
– Amanhã às oito e meia.
– Não dá pra ser hoje?
– Não! À tarde só atendemos crianças. Venha amanhã às oito e meia que o doutor vai atender você em caráter de emergência.
– Sim! Eu venho hoje com o buraco aberto e serei atendido amanhã com urgência?!… Entendo… Urgência do dia seguinte!…

Na manhã seguinte, João volta, desta vez a pé, afinal, veículo nenhum anda sem o nosso combustível auto-suficiente, mesmo que seu fusca azul da cor de seus sonhos fosse total flex, jamais funcionaria só com oxigêneo. Trajava uma calça social azul, camisa xadrez de preto com amarelo-ovo, um colete vermelho-sangue, paletó verde-água e sapato marrom com cadarços brancos (um luxo!… colocou seu melhor traje para aquela consulta)… Depois de algum tempo esperando, é chamado pelo dentista, senta-se na cadeira, quase na horizontal, obrigado a olhar para um refletor que não inspira nem um pouco de fama, somente dor. O doutor faz a restauração… Trabalho perfeito! Só não encontrou a resina da mesma coloração do dente do João, mas não é de todo mal ter um sorriso bicolor.
– Este seu dente sofreu uma fratura por deslocamento, João…
– Que nome chique prum troço que dói tanto, doutor!…
– De agora em diante, você terá que se cuidar, não poderá mais morder com este dente.
– Que utilidade tem um dente que não serve para morder, doutor?… É o mesmo que meu fusca sem combustível: existe, mas não cumpre sua obrigação…
– Deverá tomar cuidado com alimentos mais duros, como a carne.
– Doutor, há meses que eu não como carne. Isso não será problema.
– Porquê? É penitência?… Mas a quaresma já acabou!…
– Acabou! Mas a miseresma continua… E sem previsão para terminar…
E lá se foi o João, com seu sorriso bicolor, resgatar seu fusca azul da cor de seus sonhos, que também não sobrevive à miseresma auto-suficiente. Em uma das mãos, um litro descartável de refrigereco vazio que sobrou da última ceia de Páscoa; e na outra, cinco pila pra gasosa… Na mente, a esperança de que um dia, aqueles excelentíssimos eleitos mostrando o sorriso na campanha mostrem agora trabalho a fim de fazer o povo ter motivos para sorrir… A consciência?… Tranqüila! Pois agora abstem-se da carne não por necessidade, mas por orientações odontológicas.
Afinal, mesmo na miseresma o sorriso, ainda que bicolor, é essencial.

Márcio Roberto Goes
Sempre sorridente
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JOÃO MARIA

Hoje, escrevo sobre um personagem real e marcante na minha vida: João… não o dos sonhos azuis, mas sim, João Maria Goes: Um homem de bem, apesar de seus altos e baixos. Escolheu entre tantos, o ofício de carpinteiro, casou-se com Áurea Brasilícia da Silva Goes com quem teve quatro filhos de sangue e um de coração, criados a custa de serrote, martelo e prego. Tinha uma queda pelo álcool que lhe rendeu a separação após trinta anos de vida conjugal.

Sempre foi de poucas posses, conquistadas através de sua profissão digna e essencial… Com certeza, em cada canto desta cidade, existe uma obra ou uma reforma feita por ele em seus anos de glória.
Há oito anos encontrava-se em Blumenau com seu filho mais velho e há quatro dias já debilitado e fragilizado pelos seus setenta e dois anos de idade e complicações no pulmão em virtude do cigarro.
O carpinteiro-mor da família Goes tomba, debilitado, rendendo-se à pneumonia, no dia da árvore (21/09/2006), matéria-prima de sua profissão… Construiu casas e mais casas de madeira… Esquadro disso, prumo daquilo, nível, vigas, caibros, paredes, telhados, assoalhos, forro… Tudo passava pelas suas mãos hábeis de carpinteiro que em seus últimos dias já não tinham coordenação motora o suficiente para escrever, e pelos seus olhos clínicos e profissionais que já não definiam mais as dimensões de uma parede.
Entregou várias moradias nas empresas por onde passou, ou nas empreitadas particulares… Hoje, o que lhe resta por direito é a casa derradeira, também de madeira, porém com espaço suficiente apenas para repousar seu corpo cansado e realizado de semblante sereno. Sua última morada não foi construída por ele, afinal nem faria questão (ninguém faz), mas seu corpo tomba na madeira beneficiada, semelhante àquelas que, por suas mãos transformaram-se em residências e hoje são seu descanso derradeiro e formal.
Sua vida construída pelas ferramentas que mereciam tanto zelo, agora se rende ao único destino certo da vida terrena: a morte para o corpo e a glória para a alma… Seu Góis, como era conhecido, finalmente dá sua contribuição na construção celestial.
Dorme em paz, meu pai, um dia haveremos de nos encontrar novamente. A vida aqui na Terra continua, porém mais saudosa com a falta do “véio Góis”, numa família que agora fica sem pai, nem mãe. Assuma alegre e modesto, como sempre foi, esta nova empreitada…

Márcio Roberto Goes

O filho mais novo

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O triste fim de uma sombrinha

Era uma vez, uma sombrinha (aquela mesma da crônica: O professor no banco dos réus) dessas que a gente compra em qualquer loja de um real (aliás, não se encontra nada a R$ 1,00 nessas lojas). Uma sombrinha “made in Taiwan” azul estampada com lindas rosas amarelas, pequena a ponto de fechada caber na bolsa e grande a ponto de aberta servir de proteção contra o sol ou a chuva. Uma sombrinha bonita, mas simples… tão simples que chega a ser frágil, de uma fragilidade tão grande que tem até medo de ir à escola, tanto é que só freqüenta as aulas nos dias de chuva.

Foi num desses dias de chuva que ela preparou-se para ir à aula: seu lugar já estava reservado na bolsa, envolvida numa sacola amarela do supermercado, ao lado do estojo em forma de guaxinim, também made in Taiwan, com dois zíperes: um para lápis, caneta, borracha e apontador; outro para o corretivo e o celular que é a ferramenta básica dos alunos na escola moderna, destinado a tocar justamente no ápice daquele problema matemático envolvendo álgebra, no meio do segundo argumento daquela brilhante e agradabilíssima dissertação argumentativa, ou no terceiro elemento dos não-metais da tabela periódica, mais conhecida do que a “Salve Rainha”, porém, mais difícil do que contar estrelas ao meio dia.

Junto com a sombrinha e o guaxinim, transporta-se um caderno universitário com Tiago Lacerda na capa, adesivos que dizem tudo mas não falam nada na contracapa e no seu interior, entre uma matéria e outra, o autógrafo dos “amigos” com recados simpáticos que arrancam suspiros da menina apaixonada… Tudo isso, dividindo espaço com os trabalhos de biologia e química a serem entregues e ainda por terminar, o rascunho da cola da prova de português, o cartão do “bolsa família” além de um CD original made in Paraguai do Daniel… Uma bolsa típica de uma adolescente de 1º ano de ensino médio.

Porém, nossa protagonista fica por pouco tempo nesse ambiente agradável e caloroso, logo ela é aberta para proteger alguém da chuva. No caminho, retém a água e a joga para os lados com aquela classe que só os guardachuváceos sabem fazer, sem deixar cair nenhum pingo na jovem estudante. Ao chegar à escola, está molhada demais para voltar a fazer companhia ao guaxinim e ao Tiago Lacerda. Continua aberta, desta vez parada na última carteira da fila da parede.

No entanto, seu sossego dura pouco: chega a professora de português, decidida há apenas duas semanas a aplicar prova naquela turma, naquele dia, naquela hora, e incomoda-se com a presença daquela sombrinha. É necessário fechá-la para aproveitar melhor o espaço da sala, contudo foi fechada com tamanha agressividade que chegou a quebrar (até hoje ninguém provou, mas como o objeto apareceu quebrado, a professora deve ser condenada).

Por fim, lá está ela, pobre sombrinha… destruída, dilacerada, estraçalhada… tão inútil quanto o boné do colega ao lado, o chicle de bola da menina da frente ou o piercing adolescente e rebelde da fila da janela… Nunca mais encontrar-se-á novamente com o guaxinim ou com o Tiago Lacerda, nunca mais ouvirá a 9ª sinfonia de Beethoven no celular a seu lado… Sombrinha miserável, agora não passa de um monte de arames com um tecido florido que cheira queijo vencido.

Toda a turma se comove a ponto de clamar por justiça e acusam a professora, tendo como advogada a mãe da aluna dona da falecida sombrinha. Justiça seja feita! Não podemos permitir que professoras malucas continuem destruindo sombrinhas made in Taiwan por aí, à luz do dia sem que haja uma punição severa e exemplar.

Ao final da aula sobram apenas papéis no chão, chiclé por baixo das carteiras e em cima desenhos altamente artísticos, pano, vassoura, balde e uma servente que despreocupadamente joga a sombrinha para a sua derradeira morada: o lixo… A essas alturas, pela lógica dos fatos, posso até visualizar, no lixeiro uma coroa de flores com a seguinte frase escrita em letras douradas numa faixa roxa:Aqui jaz uma sombrinha azul estampada com lindas rosas amarelas. Eternas saudades.

Assinado: O Guaxinim

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DE QUEM É A VACA?


PUBLICADO EM: 29/06/2006
JORNAL INFORME

DE QUEM É A VACA?

Era uma vez, uma vaca jovem, bonita, gostosa e safada que gostava muito de pular cerca… Que vida boa levava ela! Cada dia era um touro diferente… Apesar dos conselhos de sua mãe, mansa, velha, experiente e chifruda, ela continuava a viver uma vida perigosa e depravada. Até que se apaixonou por um touro jovem, sarado e viril de uma propriedade vizinha, entregou-se a ele de corpo, alma e chifres… Foi uma paixão avassaladora que a deixou de quatro, orelhas murchas e cola erguida pelo bonitão. Só que, ao erguer a cola, esqueceu-se do preservativo, fato que rendeu-lhe uma gravidez indesejada e muito preocupante.

Temendo a reação da “vaca véia”, a pobre rês apaixonada e embuchada foge com seu príncipe taurino para a propriedade vizinha. O corno reprodutor desconfia de sua amada chifruda, mas mesmo “com uma pata atrás”, aceita aquela pobre ninfeta bovina e passam a viver juntos.
Mas, mesmo para os bovinos, a vida de casado não é nada fácil, principalmente se o marido é um renomado reprodutor e tem, por obrigação “traçar” todas as suas companheiras de curral, se não ele é quem será traçado por um espeto. Vendo seus chifres crescerem, a miserável rês, agora não tão apaixonada assim, fica indignada, mas não pode fazer nada, pois precisa de um pai para seus filhotinhos.
Nascem duas adoráveis vaquinhas: uma puxou o pai, a outra não se sabe… Ocorrência que deixou o bonitão reprodutor cego de cólera e expulsou a vaca safada e o filhote cuja paternidade era duvidosa. A única solução, depois de levar uma patada no traseiro, era baixar a cola e pedir asilo a sua mãe, que provavelmente a perdoaria e aceitaria de volta, porque no coração materno não cabe ódio…
A mãe perdoou e a recebeu de patas abertas, mas o proprietário da fazenda não gostou nem um pouco da situação… E quando os humanos se metem nos problemas dos animais, procuram a justiça humana… Foi o que o fazendeiro fez, levou o caso para a justiça, que achou por bem, fazer o exame de DNA para saber de quem é o animal, já que a rês voltou marcada pelo outro proprietário (soluções modernas para problemas arcaicos).
Enquanto o resultado do DNA não sai, vaca véia, vaca nova e netinha vivem felizes; e o chifrudo bonitão continua exercendo sua função de reprodutor, esperando sua filhotinha crescer para “traçá-la” também.

Animais com animais se entendem perfeitamente, mesmo em linhas tortas, porque entre eles ainda existem o instinto materno e o perdão. Uma patada de luva nos humanos…

Márcio Roberto Goes
Quase humano

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