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Sonhos azuis – Capítulo I

(Onde a ficção se confunde com a realidade)

– “Não!… Não é possível!… Fiz quinze aulas de volante e nunca encostei no cone! Por que, justo no dia do teste eu derrubo a baliza?… Nem eu mesmo me perdoo por esse vexame… Não acredito! O que dirão meus amigos, minha família? Como vou dar-lhes a notícia, já que me saí muito bem em todas as aulas?”… Assim voltava, reclamando para si mesmo o João que acabara de fazer o teste de volante, e mesmo sem saber, tinha a certeza do resultado. Ficou muito nervoso e teve pouca atenção ao realizar o teste… acabou reprovando, pois a Autoescola é exigente, afinal, tem o dever de formar bons condutores de veículos automotores. Mas ele precisava tentar novamente para, enfim, realizar um de seus mais sonhados objetivos…

 

Quinze dias depois, João volta a fazer o teste, após ter realizado mais algumas aulas de volante, desta vez, mais atento… Conseguiu, enfim a aprovação. Uma vitória, pois antes de começar as aulas na Autoescola, mal sabia colocar a chave na ignição. Sem fazer o mínimo esforço para conter sua alegria, João volta para casa, crendo que seria uma das últimas vezes que voltaria a pé, sorridente e quase saltitante de tanta euforia. Tinha vontade de contar a novidade a cada criatura viva que cruzasse seu caminho. Há dez anos que atingira a maior idade, todo esse tempo esperando pelo tão sonhado dia em que teria sua Carteira Nacional de Habilitação em mãos. Agora era só esperar o prazo legal e retirá-la na autoescola onde realizou as provas teóricas e práticas, após alguns dias de curso. Mais um obstáculo vencido em sua vida, que não fora tão fácil assim até o momento para aquele sonhador que nunca perdera as esperanças de ter uma vida melhor e melhorar também a vida de sua família…

 

João… um nome simples e comum, tanto quanto a “Salve Rainha”. Um jovem João, no meio de tantos outros Joãos… Silva, sobrenome também comum, advindo de várias árvores genealógicas… Este é nosso protagonista. Tem muitos sonhos: casar, ter filhos, terminar a faculdade, deixar a vida de peão… sonhos azuis, da cor do mar, da cor do céu… Um de seus sonhos está prestes a se realizar: comprar um carro, seu primeiro… e o mais cogitado é um fusca; pensa que algumas economias sofrivelmente juntadas, sejam o suficiente para a entrada e como seu nome sempre foi limpo, pode financiar o restante em suaves prestações.

Sua mãe, dona Áurea (que significa: da cor do ouro), é a pessoa mais preciosa de sua vida, uma senhora com sessenta e seis anos, amiga da vizinhança e sempre disposta a ajudar no que for preciso… Em sua casa sempre tem chimarrão quentinho e hospitalidade, o que deixa qualquer visitante bem à vontade…Mãe de cinco filhos, sendo João o último e único a morar ainda com ela, que no auge dos seus vinte e oito anos nunca se casou.

Nascido na década de setenta, João não teve direito nem mesmo a um berço, dormia na cama de casal entre o pai e a mãe, nunca presenciou sequer um gesto de carinho entre eles, desde que se conhecia por gente… Seu pai, também João, cujo nome do filho o homenageava, era um carpinteiro de mão cheia, construíra a casa simples de madeira, onde moravam, com as próprias mãos em três etapas, uma delas quando João já tinha seus cinco anos, idade da sua primeira festa de aniversário, dali pra frente, lembra-se mais nitidamente da vida conturbada em família. Certa vez, teve que juntar os cacos de um prato jogado ao chão por seu pai que chegara bêbado e, por algum motivo não se agradara com a comida oferecida carinhosamente por sua mãe. Cresceu vendo um casal derrotado na sua escolha pelo matrimônio. Áurea casou por obrigação, grávida do primeiro filho, então teve mais três e um adotado. Terminou como termina qualquer relacionamento que começa mal: a separação. A senhora guerreira já não aguentava mais viver com um alcoólatra nervoso e violento e João já não suportava tanto sofrimento de sua mãe. Ambos depois de uma briga do casal por causa da bebida, saíram de casa, passaram uma noite na sua madrinha. No dia seguinte, voltaram com novas ideias para lutar pela felicidade e por uma vida mais confortável. Porém, a convivência estava cheia de feridas que, a cada dia sangravam mais. João, o pai, resolve abandonar a família no dia em que João, o filho completava seus dezesseis anos, logo depois de estragar sua festa de aniversário, chegando bêbado. Os convidados, disfarçadamente, saíram um a um… Naquele momento, João assumia, aos dezesseis anos, o papel de homem da casa e conseguiu, enfim construir, com sua mãe um lar feliz…

Dona Áurea, como toda mãe preocupada com seu filho, não gostou muito da ideia de comprar um carro. Parecia perigoso, principalmente pelo fato de seu filho nunca ter dirigido sozinho antes. Passava por sua cabeça vários acidentes noticiados na TV, rádio e jornais, envolvendo veículos automotores nas estradas do Brasil:

“Tem certeza que você terá condições de pagar, meu filho?”

“Olha mãe, prefiro pagar um financiamento a continuar gastando dinheiro com transporte para trabalhar e estudar”…

“Mas, meu filho, carro dá despesa e você ainda tem a faculdade para pagar.”

“Penso que, apesar de tudo, um veículo será muito útil para nós, mamãe. Poderemos ir e vir a hora que quisermos e para onde quisermos, sem compromisso com horário ou passagem, além do mais, já sou bem grandinho e mereço um pouco de conforto.”

Mesmo contrariado, numa sexta-feira, João começa sua busca por várias revendedoras da cidade. Já estava decidido, queria um fusca, carro simpático e apaixonante, além de ter manutenção barata… Na primeira revendedora, encontra um besourinho branco, ano 94.

“Se você quiser, pode levá-lo para passar o fim de semana com ele, e na segunda-feira, fechamos negócio.” – Disse simpático e interesseiro, o vendedor.

“Não posso! Minha carteira de motorista não está pronta e ainda me sinto inseguro”

“Onde você mora?”

“Fica um tanto longe.”

“Pode levá-lo! No trajeto até sua casa não tem polícia, principalmente se for pelos bairros, desviando o centro e as rodovias.”

“Obrigado! Prefiro não arriscar, mas daqui a pouco volto com um motorista.”

Teófilo, seu melhor amigo, irmão de coração, inclusive, considerado como filho por dona Áurea, é um jovem que tem muito em comum com o João: Não bebe, não fuma, é caseiro, não gosta de relações fugazes, prefere compromissos sérios… Um ano e meio mais novo que João, porém com muita experiência ao volante. Seu melhor amigo foi o primeiro a visitar seus pensamentos quando tentou providenciar um motorista. Teófilo (que significa, amigo de Deus), aceita prontamente, volta com João à revendedora e conduz o fusca até sua casa… Antes resolvem dar uma passeada pelas ruas da cidade, já que ao volante estava agora um motorista de verdade, com carteira e tudo. Durante o trajeto, o fusca apaga duas vezes, numa delas, João precisa descer e empurrar…

O carro é maravilhoso. Tem tudo o que o João sonhava, menos uma bateria forte. No segundo dia teve que fazê-lo pegar no tranco de novo. Um martírio!… Se passasse o fim de semana a pé, os transtornos, com certeza, seriam menores. Abandonou aquela condução em frente a sua casa por todo o resto do sábado e durante o domingo.

Na segunda-feira, depois de fazer o carro funcionar na quinta tentativa, em companhia de Teófilo, devolve o fubicão de tração humana ao vendedor, que apressadamente pergunta, já com a nota na mão e pronto para imprimir o boleto:

“E aí, vamos fechar negócio?”

“Não! A ideia de ter um carro que constantemente precisa pegar no tranco, não me agrada. Também não preciso de um poço de óleo em frente à minha casa, que só serve pra bonito, sem realizar sua tarefa principal que é transportar-nos para onde quisermos.”

“Não fique nervoso… – prosseguiu o vendedor – Sentimos muito pelos transtornos causados no fim de semana. Podemos resolver todos estes problemas fazendo uma revisão geral… Ou, se não lhe agrada, temos outros veículos melhores e mais novos…”

“… E por consequência, mais caros… Não! Prefiro ficar a pé e o meu objetivo é um fusca: é mais a minha cara…”

Procurou por alguns dias em várias revendedoras de Caçador, sem sucesso. Nada lhe agradava…Um vazava óleo, outro tinha problemas mecânicos, outro estava com estofados em estado lastimável, outro ainda, apresentava uma décima camada de pintura muito meia boca e precária… Só encontrava bomba: Volante tampinha de margarina com duas voltas e meia de folga, pneus carecas desalinhados e desbalanceados, assoalho podre, lataria pré-histórica, ausência de pedal de acelerador, extintor ou retrovisor, parte elétrica comprometida… tudo em terrível estado de conservação e superfaturado por seus vendedores…

Quando estava quase desistindo, distraidamente passa em frente a uma revendedora, que ainda não havia recebido sua visita por pensar que só tinha carros de valores muito altos, a julgar pelo capricho e beleza de sua fachada (um infeliz engano) , onde viu projetado todos os seus sonhos, fato que o fez pensar diferente: Lá estava ele: lindo, inteirão, polido, simpático e sorridente: Um fusca azul, da cor do céu, da cor do mar, da cor de seus sonhos…

Após alguns segundos, onde o tempo pareceu parar, seus olhos não conseguiam se mover, seu sorriso não deixava de brilhar naquela face sofrida e esperançosa, seus pés já não sentiam o chão… Estava nas nuvens, flutuando diante de uma máquina simples, de tecnologia alemã, criada para a guerra, que se tornou o carro mais popular do Brasil e quiçá do mundo… De olhar estático e admirado, o boquiaberto João é surpreendido por um vendedor simpático e disposto a ajudá-lo.

“Em que posso ser útil, senhor?”

“Hã?… Como?… Ah! Quanto custa aquele fusca azul?”

“Sinto muito, mas já estamos fechando negócio com ele.”

Por um instante, nosso sonhador de sonhos azuis perdeu o chão, desta vez de desgosto. Sempre andou a pé. Nunca tivera a oportunidade de dirigir seu próprio automóvel para se locomover com mais rapidez e conforto. Finalmente, depois de vinte e oito anos, tem em mãos sua carteira de habilitação, conquistada com muita dedicação e perseverança. Nunca conseguiu economizar o suficiente para realizar seu único sonho de consumo… Agora que estava prestes a satisfazer seu ego com um carrinho da cor de seus sonhos, é surpreendido com uma resposta negativa que o deixa remoendo de remorso por acreditar numa ilusão fantasiosa, quase uma obsessão… Pobre João! Era tudo o que sonhara até então… Sua única pretensão de consumo, razão das suas economias… Sentiu uma lágrima correndo teimosa e dolorida em seus olhos, mas conteve-se. Baixou a cabeça e dirigiu-se vagarosamente, sem palavras até a saída da revendedora. Quando pode ouvir, de longe o vendedor dizendo:

“Volte amanhã. Se o cliente não fechar negócio hoje a tarde, conforme o prometido, eu seguro o fusca pra você.”

João, então ergue a cabeça de vagar, sem acreditar no que seus ouvidos acabaram de escutar, respira fundo e trêmulo, vira-se desconfiado para trás, perguntando:

“Está falando comigo?”

“Sim!”

“Quer dizer que ainda tenho uma chance?”

“Amanhã, logo cedo.”

“Combinado! Amanhã estarei aqui às oito e meia.”

Nosso sonhador, vê então, ressuscitar seu sonho azul polido, inteirão, de estofado preto e películas cinquenta por cento nos vidros… Volta para casa com uma esperança renovada em seu peito de sonhador, Queria muito levar seu automóvel, razão de suas economias sofrivelmente juntadas, no dia seguinte… Porém, com aquele frio na barriga que aperta desde os rins até a garganta, expressando o medo de ouvir outra resposta negativa… Talvez não suportaria mais um tombo, mas precisava tentar… era sua última e preciosa chance. Poxa! Todos os seus amigos tinham carro, só ele sempre a pé. Seu sonho era simples: um fusca… Só um fusquinha… Não estava exigindo muito da sorte: “Só um fusquinha” – pensava ele… “Nada mais que um fusquinha…”

 

Capítulo II

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