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Márcio Goes Posts

Reticências

… Alguém já pensou começar um texto assim…? Com reticências?…

Eu já… Aliás, as reticências são uma constante nos meus escritos… Elas são minha salvação quando não consigo concluir uma ideia, quando preciso seguir o pensamento e me faltam palavras, quando tenho a intenção de fazer o leitor continuar pensando e analisando o assunto, ou para ficar bonitinho mesmo… Eu acho que fica… Será?…

A exclamação indica surpresa, admiração, grito, raiva, espanto… Portanto é muito seletiva… Um sinal de pontuação com capacidade limitada. Não me serve para expressar o que sinto agora… Céus!…

A interrogação vem de dentro, do íntimo: Inter-rogar é rogar algo lá do âmago, do fundo dos pensamentos e do coração. É pedir, perguntar, indagar… Também não tem serventia quando a liberdade de expressão se torna uma necessidade maior que a dúvida… Não acha?

Os dois pontos servem só para dizer que, depois deles, haverá uma explicação de algo que já foi citado. Ou seja, é um sinal quase redundante, pleonásmico: algo que expressa uma repetição, intencional, ou não…

Portanto, estes três pontinhos chamados reticências funcionam como um curinga, nos salvando nos momentos mais absurdos e perigosos das produções de texto. Penso que sejam a mais completa expressão do nada e do tudo ao mesmo tempo… E mesmo assim não merecem uma tecla exclusiva: para construí-lo, é necessário digitar três vezes o ponto final…

Penso que as reticências sejam um bom exemplo do que é a vida… Não temos exclusividade no teclado da existência humana, precisamos nos construir a cada dia, buscar e arriscar novas combinações e, quando encontramos a combinação perfeita, devemos aproveitá-la, mas não é um ponto final, nem uma vírgula. Não há tempo para paradas, a não ser com o intuito de rever as combinações e procurar aprimorá-las… Afinal, a vida continua e sempre encontraremos novas reticências que nos farão continuar mesmo quando parecer o fim…

Márcio Roberto Goes

www.marciogoes.com.br

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O professor maluco

No dia de sua formatura, o professor maluco ergueu os braços para o céu, agradecendo a Deus por aquela conquista e ajoelhouse no palco do auditório da universidadeEmocionouAs luzes todas foram acesas para focalizar com maior clareza aquela cena descomunal. Sua mãe, na plateia chorava emocionada. Seus amigos o felicitaram depois pela atitude emocionante e corajosaEstava feliz, irradiava felicidade por onde passavaAs pessoas percebiam o brilho no seu olhar, próprio de quem fez a escolha certa se orgulha por poder exercer a melhor e mais maravilhosa profissão do mundo: ProfessorFinalmente poderia incluir mais quatro letras antes de seu nome: ProfSeria agora um profissional de verdade, habilitado para a função como nunca, apesar de, desde a primeira fase atuar como professor em algumas escolas que o fizeram amar a educação pública e lutar por ela

As coisas, de vagarinho, iam melhorando na vida daquele sonhador que vivera a infância e a adolescência no meio da pobreza, sem perspectiva, nem ânimo para lutar… Venceu tudo isso antes de receber aquele diploma inacreditável para muitos do seu convívio… Muitos o desanimavam, porém, muitos outros acreditavam piamente nas qualidades que o levariam ao sucesso em breve… Para os desanimadores de plantão, não era possível uma burrice tamanha a ponto de se investir numa graduação sabendo que não teria o retorno financeiro merecido pelo esforço desprendido…

Mas o professor maluco não pensava na questão financeira, aliás, nenhum maluco pensa. Ele queria ser protagonista da própria história e ajudar seus alunos também a serem. Acreditava que poderia mudar a escola, a comunidade, o município, a nação e muito mais, partindo da sua sala de aula…. Prometera a si mesmo ser no mínimo, amigo de seus alunos… E conseguiu: Vivia rodeado de estudantes, todos queriam se aproximar para acompanhá-lo até a sala, disputavam entre si quem carregaria sua pasta. Como diz Ruben Alves, “Por amor, os alunos carregam até a pasta pesada do professor”… Além de tudo, o professorzinho maluco repartia, de igual para igual com seus alunos, esperanças, temores, conhecimentos. Trocava confidências, aconselhava e era aconselhado… Suas aulas eram esperadas ansiosamente.

A teoria só aparecia quando necessário, tudo o mais era prática… Ninguém aprendia só por aprender, sempre existia uma motivação e uma aplicabilidade para aquele conhecimento… Muitos e muitos alunos passaram pela sua vida, aprenderam a querer escrever e escreviam com emoção, colocavam o coração no papel… Com ele, os alunos do ensino médio reaprenderam a abraçar, a ser solícitos, a gostar de contar o que liam, a querer apagar o quadro e carregar a pasta, declamar poesias e ler, com orgulho, suas produções… Como era maluco aquele professor! Distribuía abraços descarada e generosamente pelos corredores… Muitas vezes parecia matar aula, mas quando seus queridos alunos percebiam, estavam trocando ideias, discutindo e escrevendo sobre aquilo que conversaram quando pensavam que não faziam nada… Muitas vezes, de tão maluco que era, ele pedia para seus amados estudantes produzirem um texto, qualquer texto, qualquer gênero, qualquer número de linhas, sobre qualquer coisa, com duas condições: Não valeria nota e deveriam escrever com o coração. Todos faziam… E todos sabiam que, de qualquer forma seriam avaliados…

Um dia, o professor maluco foi duramente questionado… Não se importava com isso, até gostava, pois acreditava ser a discussão uma importante forma de seus alunos crescerem na vontade de se aprimorar e argumentar cada vez com mais convicção sobre o assunto proposto… Mas o questionamento não era dos alunos e sim de seus superiores… Houve denúncias. Ele não sabia dar aulas, não trabalhava direito, não ensinava nada de útil, não preparava os educandos para os vestibulares e as provas teóricas da vida de quem se baseia só nos números… Os números ainda não foram humanizados, os humanos é que foram emplacados e numerados por outros seres humanos que se julgam, sabe-se lá baseados em quê, perfeitos… Foi responsabilizado pela pseudo-burrice dos seus ex-alunos desconhecedores das regras que deveriam ser ensinadas por ele no ensino médio…

Naquele dia, o sorriso do professor maluco inverteu-se… Poxa vida! Ele recebia alunos semianalfabetos e, nem por isso, responsabilizava os professores anteriores. Arregaçava as mangas e tentava recuperar o tempo perdido. Inúmeras vezes conseguia grandes avanços, mas só era lembrado quando não o fazia… E o brilho do professor maluco, aos poucos foi se apagando. E foi se afastando de seus ideais. E foi querendo cada vez menos transformar a sociedade através das aulas. E foi murchando… Andava cabisbaixo pelos corredores. Sofria ameaças… Paranoico, pensava que todos estavam contra ele… Não sentia mais vontade de estar ali com seus alunos, abraçava menos, não aconselhava, nem era aconselhado, não sorria, nem arrancava sorrisos… Estava apático… Morria, aos poucos para dar lugar a uma pessoa arrogante, de mal com a vida, intransigente e de pouquíssimos sorrisos…

Todos notaram a mudança e ninguém gostou. Pobre professor maluco! Havia ajudado tantas vidas e deixava a sua se perder por causa de interesses mesquinhos de alguns pesos mortos que não viam a hora de tê-lo em seu grupo de desmotivadores de plantão… E então o professor maluco percebeu-se no caminho errado. Encheu o quadro e o caderno de seus alunos de teorias e mais teorias…

No ápice de sua desordem moral, o professor maluco se debruçou em sua mesa e, ali mesmo, deixou a dor da ingratidão e da injustiça corroerem sua alma e escorrerem pelos olhos… Ele então chorou… Chorou para não ferir ninguém, condenou-se para não condenar ninguém, calou-se para não calar ninguém… Já não tinha forças para lutar nem sorrir despreocupadamente. Já não via motivos para cultivar a amizade pelos alunos, visto que o fato de serem amigos não estava surtindo o efeito esperado por aqueles que sentam na cadeira de quem pensa que manda…

Enquanto soluçava sua dor doída pelo transpasso do punhal da intolerância, sentiu uma mão carinhosa em seu ombro… Por um momento estranhou, era hora-atividade, não haveria de ter ninguém além dele naquele recinto… Levantou lentamente a cabeça e viu, com os olhos embaçados pelas lágimas, duas alunas. Uma delas, a que estava com a mão em seu ombro, lhe disse:

    • Professor, há dias que quero lhe dizer uma coisa, mas não achava jeito: Já faz dois anos que sonho em ser sua aluna… Antigamente observava você nos corredores da escola, rodeado de gente e pensava: Não vejo a hora de chegar no ensino médio e estar lá no meio daqueles alunos. Conviver com aquele professor tão querido por todos. Agora sou sua aluna e me sinto muito feliz por isso. Você é mais do que um professor, é um amigo para todas as horas. Sinto muito orgulho em ser sua aluna…

O professor maluco levantou-se e caprichou no abraço, daqueles compartilhados só pelos melhores amigos: Bem apertado, sem preconceito, sem medo… O choro agora era de alegria e ambos deixavam a emoção tomar conta daquela sala de aula que, em breve, estaria novamente cheia de alunos sedentos por conhecimento e curiosos para ver qual seria a nova dinâmica que os faria ler, analisar e produzir mais um texto…

Naquele dia, o professor maluco ressuscitou. Voltou ainda mais forte, mais destemido e com a certeza de que sempre esteve no caminho certo. Não esqueceu, porém, que é um ser humano e, como tal, passível de erros. O importante é manter o sorriso e o coração aberto a novas emoções que, facilmente se transformam em obras literárias dele e de seus sempre amados alunos…

Desde então, o professor mais maluco que nunca, resolveu aprimorar sua maluquez e usá-la para o bem da educação pública, sem medo de ser feliz e fazer felizes as pessoas ao seu redor. E percebeu que, na verdade, malucos são aqueles que pregam uma educação de vitrine, cheia de conceitos e regras que só fazem o ser humano se tornar mais dependente dos supostos superiores. Criam padrões que transformam os seres humanos em produtos alienados e obrigados a colocar o cérebro numa forma para serem moldados todos iguais, sem questionamento, sem discussão, sem revolução, sem emoção… Enfim, malucos são aqueles que acham que nossos alunos devem aprender os conceitos prontos daqueles que esperam rendimentos e potencialidades iguais de pessoas diferentes…

Daí o maluco sou eu?

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A casa das sete cadelas

Sempre gostei de cachorros. Nunca imaginei minha vida sem eles… Desde que me conheço por gente, sempre tive um peludo de quatro patas, focinho gelado e cauda abanando ao meu redor. Muitos vira-latas fiéis escudeiros e alguns de raça definida, igualmente fiéis… Nunca paguei por eles… A vida não tem preço e nem pode ser resumida por valores materiais maiores, ou menores de acordo com a raça…

Agora tenho duas adoráveis companhias em minha residência oficial: Um labrador e uma vira-latas que juntos, após momentos românticos, livres pelo pátio, sem se importar com a plateia, já tiveram quase trinta filhotes em quatro gestações…

Nesta última, minha cadela de médio porte, deu à luz onze filhotes. Dois morreram logo depois do parto e sobraram sete fêmeas e dois machos… Infelizmente, uma menina e um menino também não resistiram… É sempre dolorido ter que enterrar um amigo, mesmo que seja canino, mesmo que tenha vivido apenas alguns dias… O que me alegra é que os demais estão fora de perigo…

Então, na minha residência oficial de verão, outono, inverno e primavera, permanecem dois cachorros: Um labrador adulto, quase idoso e um adorável filhotinho, único macho sobrevivente da ninhada… E sete cadelas, contando com a mãe que, aos poucos vai ficando menos agressiva e mais dócil, deixando-me aproximar para verificar seus bebês de vez em quando…

Para muitos, pode parecer algo corriqueiro, mas para este que vos escreve é uma experiência enriquecedora poder ajudar a cuidar de vidas tão frágeis, indefesas e dependentes… Oito vidinhas que ainda não abriram os olhos, nem os ouvidos para este mundo cruel e desumano. Tão novinhos, tão irracionais a ponto de nos ensinar a amar as maravilhas que Deus coloca em nossas mãos…

Parece irônico, quase uma antítese, saber que alguns animais que cabem na palma da mão nos tornam mais humanos… Coisa que muitos humanos não conseguem fazer com seus semelhantes…

Minhas sete cadelas e dois cachorros me ensinam, a cada dia, valorizar o carinho, a atenção, a generosidade que têm entre si e comigo. Nunca ouvi dizer que um animal irracional, quadrúpede e doméstico tivesse praticado bullying com outro semelhante seu, ou com os seres humanos ao seu redor…

Nós, autodenominados seres humanos, racionais, inteligentes, sábios, além de não aprendermos com os animais, ainda, muitas vezes os maltratamos, castigamos e cruelmente os amarramos pelo pescoço, deixando, em muitos casos, a vida toda em uma corrente, cumprindo uma pena que não merecem… Mesmo assim, um cão, quando vê o ser humano que o aprisiona e o castiga, sempre o recebe com alegria e uma cauda abanando…

Um dos cachorros e seis das sete cadelas que aqui estão, ao desmamarem, serão doados. Minha preocupação se dá pelo fato de saber que serão adotados por seres humanos. Espero que os escolhidos não tenham os pensamentos cruéis da maioria, pois essas oito vidas, não merecem ser castigadas por conta do egoísmo humano…

Enquanto não chega o momento da adoção, cá estou, em meio a dois cachorros e sete cadelas que me ensinam a ser menos cruel, mais maleável, amável e carinhoso com as diversas formas de vida que me circundam, inclusive a perereca que canta na pequena lagoa da vertente… Mas isso é assunto para outra crônica…

Márcio Roberto Goes

 

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UM SONHO NÃO SONHADO

02/02/2006 – Adaptado em 11/10/2017

Primeiro de março de mil novecentos e oitenta e um, uma hora da tarde, início do ano letivo na Escola Básica Salgado Filho. Entre os alunos encontra-se um menino de sete anos, está lá pela primeira vez. A única experiência que teve com escola até então, foi no jardim de infância, no ano anterior, onde ficou, desafortunadamente, apenas por um dia, à custa de muito choro, não suportando a ausência da mãe que, apesar de ter cursado apenas a segunda série primária, o ensinou a ler e escrever, e naquela ocasião, o trazia pela mão para seu primeiro dia de aula na primeira série “C”.

Lá estava ele, meio sem jeito, calçando conga azul com solado branco, trajando calça de tergal azul-marinho e uma camisa social branca abotoada nos pulsos: uniforme usado por todos os alunos daquela escola. Entra na fila ao ouvir o sinal, sem tirar os olhos da mãe que o observa apaixonadamente de longe, senta-se num dos últimos lugares de onde pode ainda avistar sua maternal proteção, que permanece por ali até o recreio, quando sua turma é dispensada em virtude de ser a primeira semana de aula.

Aquele menino tímido, inseguro e dentuço jamais poderia imaginar que estava vivendo o primeiro dia dentro de um ambiente que mais tarde seria o seu sustendo e sua realização profissional… Os anos passaram e nosso protagonista sonhava em ser carpinteiro, como seu pai (de fato adquiriu muitos conhecimentos deste ofício); pensou também em ser advogado e até artista… Iniciou sua vida profissional como auxiliar de produção numa indústria madeireira, de onde saiu para ser radialista (sua grande obsessão até então), foi também auxiliar de enfermagem, recondicionador de autopeças, vendedor e até “carpiu” lotes para sobreviver…

Este menino cresceu, reuniu toda a sua experiência escolar e profissional em uma única, envolvente e maravilhosa profissão que não fez parte de seus sonhos infantis ou adolescentes: o ofício de professor… Hoje ele volta à sala de aula com dezessete anos, não de vida, mas de serviço no magistério, calçando sapato preto, trajando calça jeans, camisa polo com uma caneta no bolso, óculos para corrigir o astigmatismo, em uma das mãos uma pasta preta e na outra uma caixa com pincéis e apagador, sua principal ferramenta, tomando o lugar do martelo, do serrote, do microfone, da seringa e da enxada.

Por um instante, vê aquele menino encabulado rompendo as barreiras do tempo e adentrando a sala de aula, sente sua mãe descer do céu e levá-lo pela mão até a classe, dedicando sua espontânea proteção maternal… Volta seus olhos para o céu e agradece àquela que ensinou as primeiras palavras para seu filho caçula, primeiro da família a ter um diploma universitário, ainda que com muito custo e que hoje ajuda muitos outros “caçulas” a descobrirem a importância das palavras em suas vidas…

O tempo passa, a educação muda, os alunos mudam, o menino mudou: agora é um educador, por vezes inseguro e amedrontado, sem saber o que o espera na escola, mas como no primeiro dia de aula, revigora suas forças na maternal proteção e adentra a sala de aula para compartilhar o pouco que sabe com seus alunos, que talvez também sejam, no futuro, felizes e realizados com uma profissão que nunca sonharam.

Márcio Roberto Goes

www.marciogoes.com.br

 

 

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O muro da minha infância

muro infancia

Vivi três décadas e meia no bairro Sorgatto. Lá está enterrado meu umbigo… De lá, guardo lindas e ternas lembranças: A velha casa de madeira, o pomar nos fundos do terreno que o atual morador ainda conserva, o carreiro de hortênsias até a porta da cozinha. O limoeiro que ainda sobrevive, enfim, o cheiro, o sabor, as cores da minha infância estão lá e isso jamais será mudado em meu coração, ou apagado de minha mente…
Vi a rua Estados Unidos se transformar durante os trinta e cinco anos que vivi naquele endereço: Foi aterrada por duas vezes, recebeu construções que, na sua maioria ainda estão lá, foi revestida calçamento de paralelepípedo… Depois de algum tempo, nossa residência foi agraciada por uma calçada que ainda resiste ao tempo e um muro que não passa de quarenta centímetros de altura e, por algum tempo, foi sobreposto por uma cerca-viva…
Constantemente, na infância e na adolescência, durante a noite, me refugiava naquele muro para refletir, curar saudades, temores, rancores, angústias e até o estresse. Por vezes, simplesmente deitava no pequeno muro e ficava em transe só observando a imensidão do céu, identificando as constelações e viajando nas minhas utopias, até que me despertava novamente com uma lambida carinhosa do Bilu, que parecia me chamar de volta para a vida com o amor incondicional que só um cachorro de estimação é capaz de sentir… Mesmo depois que as cercas-vivas cresceram, ainda assim, sentava na calçada e ficava pensando, admirando a imensidão do céu.
Às vezes, era interrompido pelo ruído dos automóveis, raros à noite naquela rua, pelos passos compassados de algum bebum que voltava da bebedeira, ou mesmo alguém que voltava do trabalho…
Hoje percebo o quanto meus pensamentos ingênuos, despreocupados e utópicos naquele muro, ajudaram no meu crescimento pessoal. Um muro que não cumpria sua função de separar nossa família do resto do mundo, por conta de sua baixa estatura, me fazia viajar na imaginação e curar qualquer enfermidade da alma… Às vezes, minha mãe ia, pé ante pé, até a varanda se certificar que eu ainda estava lá. Deixava que ela acreditasse que eu não percebia o seu cuidado… Eu sabia que poderia viajar pelo universo, mas jamais fugiria dos cuidados carinhosos de minha progenitora…
Por vezes, sinto falta daquele muro. O mundo se torna mais cruel à medida que amadurecemos e abandonamos os hábitos da infância e adolescência. Às vezes, se faz necessário voltar no tempo e se fazer ingênuo novamente, contemplar o universo, viajar nas esperanças, temores e utopias…
Meu endereço já não é mais o mesmo, o mundo não é o mesmo, eu não sou o mesmo… Mas o pequeno muro de minha infância permanece vivo em meu coração, me fazendo olhar para o infinito e contemplar o universo, agora com uma estrela especial: minha mãezinha que, certamente, de vez em quando sai, pé ante pé na varanda do céu para me cuidar e se certificar que estou bem, deitado no muro e sonhando, como sempre fiz…

Márcio Roberto Goes

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