Tesoura neles
Segundo o Dicionário Aurélio digital, a palavra tesoura pode ter inúmeros significados:
Pode se tratar de uma “peça longitudinal, de madeira ou de ferro, nos jogos dianteiros dos carros de quatro rodas”, o que parece meio vago para a minha pobre inteligência de um cérebro mortal, pois, no Brasil, bem sabemos que todos os carros têm quatro rodas, pelo menos na regra geral, em se tratando de automóveis.
Sob outra ótica, tesoura pode ser o “cruzamento das rédeas com que os cocheiros dirigem uma parelha de tiro”: também parece meio complicado para um encéfalo que não se preocupa com estes pequenos e importantes detalhes da vida cotidiana.
Esta palavrinha medíocre pode significar também “cada um dos barrotes de madeira presos obliquamente aos jazentes, para os segurarem na carreira de construção”… Opa!… Começaram clarear minhas idéias, pois sou filho de carpinteiro e alguma coisa eu entendo destes conceitos de construção, pelo menos consigo me virar nas reformas do dia-a-dia. O mesmo posso dizer deste outro conceito: “Conjunto de peças de madeira ou de ferro, que sustenta a cobertura de um edifício”… Vejo que valeu a pena ouvir alguns conselhos e instruções de meu finado pai… Nada é por acaso!
Seguindo nossa utilíssima pesquisa morfológica no Aurélio, invadimos a zoologia para dizer que a palavra tesoura tem o seguinte significado: “Ave passeriforme, tiranídea (Muscivora tyrannus), de coloração geral cinzento-clara, alto da cabeça preto, meio do vértice amarelo, asas e uropígio pardo-escuros, cauda preta e retrizes exteriores marginadas de branco na parte basal”… Meu Deus!… Com tanta riqueza de detalhes, chego a suspeitar que esta ave tenha sido batizada por José de Alencar em um de seus romances clássicos.
Não podemos deixar de citar o lado cultural, esportivo e histórico da tesoura: “Golpe desequilibrante em que o capoeirista salta com uma perna atrás do joelho do adversário e a outra no seu abdome, com o objetivo de derrubá-lo”.

E assim, poderíamos elencar tantos outros significados para esta palavrinha, que por vezes parece insignificante para nossas vidas, mas o sentido mais conhecido dado para a tesoura na Língua Portuguesa é: “Instrumento cortante, constituído por duas lâminas reunidas por um eixo, sobre o qual se movem, abrindo em cruz” que serve para cortar… A verdade é que o ser humano moderno não vive sem tesoura, mas há algum tempo venho notando o crescente uso deste pequeno objeto para uma nova finalidade: “Substituta de maçaneta”. Meus amados e diletos alunos, como todo brasileiro, encontraram um jeitinho para driblar a situação caótica em que se encontra a maioria das portas da nossa escola. Devido ao vento encanado e ao vandalismo, dificilmente encontramos um trinco inteiro, por isso, este pequeno objeto chamado de tesoura, está sendo promovido a “trinco mestre”, pois só ela é capaz de girar o buraquinho quadrado destinado à penetração da maçaneta na porta de um lado para outro a fim de abri-la.
Pois é!… As coisas são mais simples do que parecem, quem complica são as autoridades, cheias de teorias e mais teorias, que raramente saem do papel, sobre a escola perfeita. Enquanto isso, os alunos mostram-se maravilhosamente sábios, buscando, do seu jeito, soluções para problemas básicos que não são resolvidos pelas teorias vindas de cima…
Tesoura: um instrumento que abre muitas portas, inclusive a do conhecimento filosófico da educação pública.
Márcio Roberto Goes
Inspiração democrática
Aconteceu de novo!… Não acredito!… I do not believe!… Yo no creo!… De repente, me pego, novamente, sem a mínima inspiração. A noite já não é uma criança… A cidade já está dormindo… Eu, no entanto, permaneço sem sono e sem idéia… Porque será que sempre “dá um branco” no cérebro, justamente na hora em que mais precisamos dele?… Ufa!… Ainda bem que isso não me aconteceu quando fiz o vestibular há alguns anos, nem ao realizar a prova do concurso público que me efetivou na rede estadual de ensino… Sobretudo, agradeço por não precisar fazer nenhuma prova (que a meu ver não prova nada) neste exato momento.
O recurso é puxar da memória e “descascar” um palavrório bonito e convincente, daqueles que a maioria dos políticos usa em época de campanha… Ops! Desculpe-me, esqueci que não se pode falar de alguns aspectos da política durante o pleito eleitoral, sob pena de estas palavras serem usadas em favor de uns e contra outros… Aliás, alguns fatos me fazem aplaudir a nossa justiça eleitoral, pois estamos vivendo a campanha mais rigorosa de que se tem conhecimento desde que o país se abriu novamente para a democracia. A meu ver, todas estas exigências contribuem para aumentar a igualdade de condições entre os candidatos, e exigir deles o máximo possível de idoneidade, além de diminuir consideravelmente a poluição visual em nossas ruas.
Algumas decisões merecem destaque, como: Limite máximo de tamanho para as placas que só deverão estar presentes em propriedades privadas, com a devida autorização do proprietário, que de forma alguma, poderá receber qualquer benefício financeiro ou material por isso; A proibição da distribuição de qualquer tipo de brinde para o eleitor, com exceção dos famosos “santinhos”, fato que torna impossível a compra de votos de qualquer forma (Pelo menos é o que se espera)… Não serão permitidos também os costumeiros showmícios, o que obriga os candidatos a gastarem mais saliva e apresentarem propostas concretas se quiserem atrair a atenção; além de muitos outros bloqueios que tentarão fazer desta, a campanha mais limpa e democrática da história… (assim espero)…
Porém, no meio de tantas restrições, um fato me deixa intrigado: Porque é que o tempo de propaganda no rádio e na televisão não é dividido igualmente entre as coligações?… Este tipo de propaganda ainda está vinculado ao número de deputados federais que os partidos participantes têm na assembléia, fato que vai à contramão da democracia e da igualdade de condições no pleito eleitoral. Trata-se de eleições para o executivo e o legislativo municipais, portanto, o foco principal deveria ser o município e não a capital federal, apesar de lá existirem representantes eleitos por nós e que deveriam lutar por nossos interesses.
De qualquer forma, apesar dos pesares, vivemos num dos países mais democráticos do planeta. Sabemos que nem sempre foi assim: durante a ditadura, conforme a posição política que o indivíduo tomava, assinava gratuitamente um atestado de perseguição e morte. Somos um país jovem, ainda engatinhando na democracia, porém estamos muito além de alguns países desenvolvidos que querem ser “donos do mundo”, mas não conseguem sustentar o capitalismo que eles mesmo criaram.
PS: Espero não ser surpreendido por outro “branco” destes em meu cérebro novamente… Principalmente na hora de votar.
Márcio Roberto Goes
A escada da esperança
Uma escada em frente à catedral, tendo um homem sentado: uma cena corriqueira, não fosse o fato de o homem segurar nas mãos uma carteira de trabalho e a cédula de identidade, pressupondo mais um cidadão em busca de sustento e dignidade… Expressava tristeza e desânimo em seu olhar, estava cansado de procurar algo, talvez inalcançável: um emprego…
O que estaria passando pela cabeça daquele senhor quase maltrapilho naquele patético momento?… Seria mais um dia perdido?… O que diria sua esposa em seu retorno ao lar naquela tarde cinzenta e lastimável?… Será que tem esposa?… Já teve um dia?… Foi ele abandonado, talvez, por causa do desemprego?… Quantas bocas esperam, em sua casa, pelo alimento que não vem e nem tem previsão de vir?… Será que tem casa?… De que maneira será recebido por seus familiares, se os tem?… Quantas portas já se fecharam para aquele cidadão?…
Desemprego não é doença, mas dói… E esta dor é sentida por todas as pessoas que rodeiam aquele senhor, muito novo para aposentar-se e muito velho para começar um novo emprego, rotineiramente chamado de “preguiçoso e vagabundo” por não trabalhar e taxado de “burro” por não ter estudo… Mas, quem sabe, a vida não lhe deu a oportunidade de estudar, ou quando teve a chance, mesmo tardia, de aprimorar seus conhecimentos, sua prioridade foi o sustento dos seus entes queridos, dedicando-se diuturnamente àquela empresa que não reconheceu seu valor e sua experiência, nem investiu na educação escolar de seu funcionário, e para economizar encargos, simplesmente o demitiu…
Por outro lado, teria ele perdido o emprego por não ser um bom funcionário na concepção do empregador, “dono” do capital e de sua vida profissional…?
Com certeza, os responsáveis por sua demissão têm mesa farta, lucram muito mais do que precisam e não têm tempo a perder pensando no olhar triste, cansado e desanimado de um senhor que “eles” colocaram sentado na escada da catedral, tendo em mãos sua única fortuna: a carteira de trabalho, onde consta a experiência adquirida naquela empresa que sem dar-lhe direito a réplica, abortou sua dignidade…
Como ele, quantos outros se encontram na mesma lastimável e desumana situação: sem emprego nem esperança, já que não são exemplares aos olhos capitalistas (do tipo: “meu nome é trabalho, não tenho família nem sentimentos”), nem podem contar com um bom “padrinho” para empregá-los ou dar-lhes um “carguinho” prometido na campanha eleitoral?… Certamente, se todos os excluídos de nossa cidade, que buscam o emprego, a dignidade, a subsistência, o direito à vida, parassem para refletir sua situação no mesmo local, a escadaria da catedral precisaria ser ampliada com urgência.
Ah, se aquela escada falasse!…
Márcio Roberto Goes
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