Sonhos azuis – Capítulo II
» Leia também: Capítulo I…
João, meio cabisbaixo, caminha até o ponto, na esperança de que seja a última vez que volta ao lar de ônibus…
Ponto de lotação é um lugar propício a se conhecer pessoas, além de se presenciar as mais diferentes e hilárias situações: Uma senhora sentada na ponta do banco de madeira de lei, coberto com telhado de tabuinha, moribunda, comendo uma bolacha recheada e se mijando tudo, como se o mundo ao seu redor não importasse… E, na verdade, não importava mesmo, pois ninguém vê os moribundos, ninguém enxerga as pessoas necessitadas, dificilmente alguém pararia para conversar com aquela senhora de casaco marrom e uma calça de agasalho pertencente ao uniforme das escolas municipais, provavelmente doada por alguma instituição de caridade que arrecadou de alguém que, por sua vez, não gostou da cor, ou do modelo… Existem pessoas que acham que escola é lugar de desfile de moda, por isso rejeitam o uniforme, não se tocam que não estão lá para ficar bonitas aos olhos alheios, e sim para aprimorar seus conhecimentos. Então, o uniforme vai parar no cesto de doação, isso quando não vira pano de chão, ou tapete de banheiro…
Logo chega outra senhora, óculos de lentes espessas, guarda-chuvas daqueles de proteger umas oito pessoas mais ou menos que, na ocasião servia de guarda-sol, já que o tempo estava limpo, vestido florido, chinelo de dedo, carregava uma sacola de supermercado e uma bolsa roxa, de onde começou a catar as moedinhas para pagar a passagem. Cumprimentou João com um sinal de cabeça e voltou a procurar o trocado do ônibus…
Em seguida, aproxima-se uma moça, aparentando seus dezessete anos com uma criança no colo, olha enojada para a senhora idosa e invisível no banco e senta, meio contrariada, na outra extremidade. Com uma bermudinha que revela a vontade de fazer mais um filho… ou pelo menos treinar… uma blusinha branca que deixa a mostra a barriguinha, revelando o piercing no umbigo e um sutiã preto, propositadamente vestido para dar o contraste e ser visto por qualquer transeunte… Só tem olhos para o filho, um menino aparentando não mais que um ano de idade…
Um senhor de bengala se aproxima, já com a carteirinha de aposentado na mão, boina cinza, camisa xadrez, calça social e sapatos pretos bem cuidados, cabelos grisalhos exageradamente penteados de frente para trás… Passa pelo João com intenção de cumprimentá-lo, mas seu olhar não desvia do chão, às vezes olha a rua para ver se seu ônibus se aproxima, mas logo volta à inércia. Não nota a presença de nenhuma daquelas pessoas ao seu redor, não percebe alguns conhecidos do outro lado da rua que também tentam chamar sua atenção em vão…
Fato estranho, pois todos que o conhecem, o percebem um cara simples, conversador, não escolhe seu interlocutor, fala com todos como se fossem amigos de infância, sempre chega em qualquer lugar cumprimentando os presentes de mão em mão. Constantemente tem algo agradável para dizer às pessoas, nunca nega um sorriso, ou um abraço a quem quer que seja. Sempre espontâneo, brincalhão. Onde ele vai, a alegria o acompanha, frequentemente faz graça com os atropelos da vida. Ama estar rodeado de gente e nunca se sente desconfortável nas multidões, pois onde quer que vá, sempre existe um conhecido, amigo, colega, ou aluno. Nunca se deixa levar pelas aparências, se dá com todos, jamais alimenta inimizades, prefere calar-se a provocar a ira de alguém. Seu único defeito: ser sonhador.
Naquele momento, nosso sonhador de sonhos azuis já não era o mesmo. Quem o visse pela primeira vez, o julgaria mesquinho, entojado, nojento, “seachão”. Não conversou com ninguém. Sua mente não lembrava nenhuma piada, ou frase que fizesse graça no ambiente, não tinha nenhuma palavra amiga para as pessoas ao seu redor, não abraçou nem pegou na mão de seus semelhantes ali presentes… Estava no mundo da lua. Pobre joão! De tão sonhador, deixou-se abalar pela possibilidade de não realizar um de seus sonhos. Queria o fusquinha, mas “tremia a base” por saber que não poderia tê-lo porque alguém chegara primeiro. Sua mente sonhadora não processava a informação de que poderia ser só mais uma estratégia do vendedor para valorizar o bezourinho azul… Em sã consciência, seria o único a notar a presença da mijona e cumprimentá-la, seguraria, gentilmente a sacola para a senhora do vestido florido contar as moedas mais confortavelmente, faria alguma gracinha para a criança de colo e puxaria papo com o vozinho da bengala…
Oi professor!
Sua inércia, finalmente é quebrada. De repente, passa a perceber novamente o mundo ao redor, a senhora do guarda-chuva, a outra sentada, a menina com a criança no colo, o velho de bengala e, ao seu lado, com um brilho intenso nos olhos, sua melhor aluna…
Oi Roseli! Nem percebi você aí…
É! to vendo que nem olha pro lado. Tá distraído, diferente. Aconteceu alguma coisa?…
Nada! Tô distraído, só isso…
Dizia ele com um sorriso meio tímido nos lábios e os olhos teimando em buscar o chão novamente…
Roseli, que significa bela flor, não acreditou nos disfarces de seu professor, mas conteve sua curiosidade…
E o meu abraço? – Pedia ela mudando de assunto.
Claro, querida! Desculpe-me…
Não foi o abraço de sempre. Parecia frio, distante, sem vontade. Abraçou por obrigação. Não acariciou suas lindas madeixas loiras, não elogiou seu perfume e nem deu um sorriso olhando nos olhos depois do abraço… Roseli tentou conter uma lágrima que quase escorreu pelo seu rosto. Doía o desprezo inexplicável e momentâneo do seu professor mais querido. Como toda adolescente de quinze anos, sentiu-se culpada, mas novamente conteve suas palavras e, mais uma vez, tentou distrair seus sentimentos com uma pergunta…
O senhor vai pra onde?
Moro no Sorgatto…
Já passou! – Disse o senhor da bengala.
João, então transforma seu desânimo em raiva e indignação atípicas para sua personalidade e, meio sisudo, reclama:
Poxa! Perdi o ônibus…
Não! – Interrompe a senhora do guarda-chuva – Você já tava aí encostado quando ele passou, mas você não viu. Tava ca cabeça baixa… Se soubesse que era a tua lotação, tinha te avisado…
Tudo bem. Eu vou a pé mesmo…
E agora professor? – Roseli estava mais indignada que o próprio – Você também… Não ver a lotação passar! Só podia ser você mesmo…
Não faz mal! Sempre andei a pé e nunca quebrei nenhum osso…
Finalmente encontrou uma frase que provocasse um riso meio tímido nos presentes… Abraçaram-se, novamente. Desta vez, o professor pareceu mais espontâneo e melhorou consideravelmente a qualidade do abraço:
Tchau, professor!
Tchau, querida! Se cuide, hem!
Sua aluna mais querida observava, atentamente os passos do professor, enquanto espera o ônibus do Martello, até que ele sumisse na esquina… A caminhada era longa. Descia nosso sonhador a pé, na contramão da Salgado Filho, sempre mirando o chão com seu olhar meio tristonho que parecia atraído por um magnetismo moral até o solo, embora João fizesse um esforço para olhar sempre para a frente… Mas os seres humanos sonhadores são assim. Estremecem a cada vez que projetam um sonho e ele não se realiza de imediato. Para agravar, o professor dos sonhos azuis era ansioso, parecia ter nascido de sete meses. Não suportava esperar. Não gostava de coisas enroladas, nem pela metade, desesperava-se com os atrasos da vida… Jogava alto nos seus pequenos sonhos, achava tudo possível e quando não via resultado, ficava assim, olhando o chão, causando estranheza a todos ao seu redor, principalmente àqueles que o conheciam de longa data… Sentia um nó na garganta, um aperto no peito, um amortecimento fraco, mas perceptível nos braços, um tremor doído nas pernas. Uma angústia sem medida…
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Sonhos azuis – Capítulo I
(Onde a ficção se confunde com a realidade)
- “Não!… Não é possível!… Fiz quinze aulas de volante e nunca encostei no cone! Por que, justo no dia do teste eu derrubo a baliza?… Nem eu mesmo me perdoo por esse vexame… Não acredito! O que dirão meus amigos, minha família? Como vou dar-lhes a notícia, já que me saí muito bem em todas as aulas?”… Assim voltava, reclamando para si mesmo o João que acabara de fazer o teste de volante, e mesmo sem saber, tinha a certeza do resultado. Ficou muito nervoso e teve pouca atenção ao realizar o teste… acabou reprovando, pois a Autoescola é exigente, afinal, tem o dever de formar bons condutores de veículos automotores. Mas ele precisava tentar novamente para, enfim, realizar um de seus mais sonhados objetivos…
Quinze dias depois, João volta a fazer o teste, após ter realizado mais algumas aulas de volante, desta vez, mais atento… Conseguiu, enfim a aprovação. Uma vitória, pois antes de começar as aulas na Autoescola, mal sabia colocar a chave na ignição. Sem fazer o mínimo esforço para conter sua alegria, João volta para casa, crendo que seria uma das últimas vezes que voltaria a pé, sorridente e quase saltitante de tanta euforia. Tinha vontade de contar a novidade a cada criatura viva que cruzasse seu caminho. Há dez anos que atingira a maior idade, todo esse tempo esperando pelo tão sonhado dia em que teria sua Carteira Nacional de Habilitação em mãos. Agora era só esperar o prazo legal e retirá-la na autoescola onde realizou as provas teóricas e práticas, após alguns dias de curso. Mais um obstáculo vencido em sua vida, que não fora tão fácil assim até o momento para aquele sonhador que nunca perdera as esperanças de ter uma vida melhor e melhorar também a vida de sua família…
João… um nome simples e comum, tanto quanto a “Salve Rainha”. Um jovem João, no meio de tantos outros Joãos… Silva, sobrenome também comum, advindo de várias árvores genealógicas… Este é nosso protagonista. Tem muitos sonhos: casar, ter filhos, terminar a faculdade, deixar a vida de peão… sonhos azuis, da cor do mar, da cor do céu… Um de seus sonhos está prestes a se realizar: comprar um carro, seu primeiro… e o mais cogitado é um fusca; pensa que algumas economias sofrivelmente juntadas, sejam o suficiente para a entrada e como seu nome sempre foi limpo, pode financiar o restante em suaves prestações.
Sua mãe, dona Áurea (que significa: da cor do ouro), é a pessoa mais preciosa de sua vida, uma senhora com sessenta e seis anos, amiga da vizinhança e sempre disposta a ajudar no que for preciso… Em sua casa sempre tem chimarrão quentinho e hospitalidade, o que deixa qualquer visitante bem à vontade…Mãe de cinco filhos, sendo João o último e único a morar ainda com ela, que no auge dos seus vinte e oito anos nunca se casou.
Nascido na década de setenta, João não teve direito nem mesmo a um berço, dormia na cama de casal entre o pai e a mãe, nunca presenciou sequer um gesto de carinho entre eles, desde que se conhecia por gente… Seu pai, também João, cujo nome do filho o homenageava, era um carpinteiro de mão cheia, construíra a casa simples de madeira, onde moravam, com as próprias mãos em três etapas, uma delas quando João já tinha seus cinco anos, idade da sua primeira festa de aniversário, dali pra frente, lembra-se mais nitidamente da vida conturbada em família. Certa vez, teve que juntar os cacos de um prato jogado ao chão por seu pai que chegara bêbado e, por algum motivo não se agradara com a comida oferecida carinhosamente por sua mãe. Cresceu vendo um casal derrotado na sua escolha pelo matrimônio. Áurea casou por obrigação, grávida do primeiro filho, então teve mais três e um adotado. Terminou como termina qualquer relacionamento que começa mal: a separação. A senhora guerreira já não aguentava mais viver com um alcoólatra nervoso e violento e João já não suportava tanto sofrimento de sua mãe. Ambos depois de uma briga do casal por causa da bebida, saíram de casa, passaram uma noite na sua madrinha. No dia seguinte, voltaram com novas ideias para lutar pela felicidade e por uma vida mais confortável. Porém, a convivência estava cheia de feridas que, a cada dia sangravam mais. João, o pai, resolve abandonar a família no dia em que João, o filho completava seus dezesseis anos, logo depois de estragar sua festa de aniversário, chegando bêbado. Os convidados, disfarçadamente, saíram um a um… Naquele momento, João assumia, aos dezesseis anos, o papel de homem da casa e conseguiu, enfim construir, com sua mãe um lar feliz…
Dona Áurea, como toda mãe preocupada com seu filho, não gostou muito da ideia de comprar um carro. Parecia perigoso, principalmente pelo fato de seu filho nunca ter dirigido sozinho antes. Passava por sua cabeça vários acidentes noticiados na TV, rádio e jornais, envolvendo veículos automotores nas estradas do Brasil:
“Tem certeza que você terá condições de pagar, meu filho?”
“Olha mãe, prefiro pagar um financiamento a continuar gastando dinheiro com transporte para trabalhar e estudar”…
“Mas, meu filho, carro dá despesa e você ainda tem a faculdade para pagar.”
“Penso que, apesar de tudo, um veículo será muito útil para nós, mamãe. Poderemos ir e vir a hora que quisermos e para onde quisermos, sem compromisso com horário ou passagem, além do mais, já sou bem grandinho e mereço um pouco de conforto.”
Mesmo contrariado, numa sexta-feira, João começa sua busca por várias revendedoras da cidade. Já estava decidido, queria um fusca, carro simpático e apaixonante, além de ter manutenção barata… Na primeira revendedora, encontra um besourinho branco, ano 94.
“Se você quiser, pode levá-lo para passar o fim de semana com ele, e na segunda-feira, fechamos negócio.” – Disse simpático e interesseiro, o vendedor.
“Não posso! Minha carteira de motorista não está pronta e ainda me sinto inseguro”
“Onde você mora?”
“Fica um tanto longe.”
“Pode levá-lo! No trajeto até sua casa não tem polícia, principalmente se for pelos bairros, desviando o centro e as rodovias.”
“Obrigado! Prefiro não arriscar, mas daqui a pouco volto com um motorista.”
Teófilo, seu melhor amigo, irmão de coração, inclusive, considerado como filho por dona Áurea, é um jovem que tem muito em comum com o João: Não bebe, não fuma, é caseiro, não gosta de relações fugazes, prefere compromissos sérios… Um ano e meio mais novo que João, porém com muita experiência ao volante. Seu melhor amigo foi o primeiro a visitar seus pensamentos quando tentou providenciar um motorista. Teófilo (que significa, amigo de Deus), aceita prontamente, volta com João à revendedora e conduz o fusca até sua casa… Antes resolvem dar uma passeada pelas ruas da cidade, já que ao volante estava agora um motorista de verdade, com carteira e tudo. Durante o trajeto, o fusca apaga duas vezes, numa delas, João precisa descer e empurrar…
O carro é maravilhoso. Tem tudo o que o João sonhava, menos uma bateria forte. No segundo dia teve que fazê-lo pegar no tranco de novo. Um martírio!… Se passasse o fim de semana a pé, os transtornos, com certeza, seriam menores. Abandonou aquela condução em frente a sua casa por todo o resto do sábado e durante o domingo.
Na segunda-feira, depois de fazer o carro funcionar na quinta tentativa, em companhia de Teófilo, devolve o fubicão de tração humana ao vendedor, que apressadamente pergunta, já com a nota na mão e pronto para imprimir o boleto:
“E aí, vamos fechar negócio?”
“Não! A ideia de ter um carro que constantemente precisa pegar no tranco, não me agrada. Também não preciso de um poço de óleo em frente à minha casa, que só serve pra bonito, sem realizar sua tarefa principal que é transportar-nos para onde quisermos.”
“Não fique nervoso… – prosseguiu o vendedor – Sentimos muito pelos transtornos causados no fim de semana. Podemos resolver todos estes problemas fazendo uma revisão geral… Ou, se não lhe agrada, temos outros veículos melhores e mais novos…”
“… E por consequência, mais caros… Não! Prefiro ficar a pé e o meu objetivo é um fusca: é mais a minha cara…”
Procurou por alguns dias em várias revendedoras de Caçador, sem sucesso. Nada lhe agradava…Um vazava óleo, outro tinha problemas mecânicos, outro estava com estofados em estado lastimável, outro ainda, apresentava uma décima camada de pintura muito meia boca e precária… Só encontrava bomba: Volante tampinha de margarina com duas voltas e meia de folga, pneus carecas desalinhados e desbalanceados, assoalho podre, lataria pré-histórica, ausência de pedal de acelerador, extintor ou retrovisor, parte elétrica comprometida… tudo em terrível estado de conservação e superfaturado por seus vendedores…
Quando estava quase desistindo, distraidamente passa em frente a uma revendedora, que ainda não havia recebido sua visita por pensar que só tinha carros de valores muito altos, a julgar pelo capricho e beleza de sua fachada (um infeliz engano) , onde viu projetado todos os seus sonhos, fato que o fez pensar diferente: Lá estava ele: lindo, inteirão, polido, simpático e sorridente: Um fusca azul, da cor do céu, da cor do mar, da cor de seus sonhos…
Após alguns segundos, onde o tempo pareceu parar, seus olhos não conseguiam se mover, seu sorriso não deixava de brilhar naquela face sofrida e esperançosa, seus pés já não sentiam o chão… Estava nas nuvens, flutuando diante de uma máquina simples, de tecnologia alemã, criada para a guerra, que se tornou o carro mais popular do Brasil e quiçá do mundo… De olhar estático e admirado, o boquiaberto João é surpreendido por um vendedor simpático e disposto a ajudá-lo.
“Em que posso ser útil, senhor?”
“Hã?… Como?… Ah! Quanto custa aquele fusca azul?”
“Sinto muito, mas já estamos fechando negócio com ele.”
Por um instante, nosso sonhador de sonhos azuis perdeu o chão, desta vez de desgosto. Sempre andou a pé. Nunca tivera a oportunidade de dirigir seu próprio automóvel para se locomover com mais rapidez e conforto. Finalmente, depois de vinte e oito anos, tem em mãos sua carteira de habilitação, conquistada com muita dedicação e perseverança. Nunca conseguiu economizar o suficiente para realizar seu único sonho de consumo… Agora que estava prestes a satisfazer seu ego com um carrinho da cor de seus sonhos, é surpreendido com uma resposta negativa que o deixa remoendo de remorso por acreditar numa ilusão fantasiosa, quase uma obsessão… Pobre João! Era tudo o que sonhara até então… Sua única pretensão de consumo, razão das suas economias… Sentiu uma lágrima correndo teimosa e dolorida em seus olhos, mas conteve-se. Baixou a cabeça e dirigiu-se vagarosamente, sem palavras até a saída da revendedora. Quando pode ouvir, de longe o vendedor dizendo:
“Volte amanhã. Se o cliente não fechar negócio hoje a tarde, conforme o prometido, eu seguro o fusca pra você.”
João, então ergue a cabeça de vagar, sem acreditar no que seus ouvidos acabaram de escutar, respira fundo e trêmulo, vira-se desconfiado para trás, perguntando:
“Está falando comigo?”
“Sim!”
“Quer dizer que ainda tenho uma chance?”
“Amanhã, logo cedo.”
“Combinado! Amanhã estarei aqui às oito e meia.”
Nosso sonhador, vê então, ressuscitar seu sonho azul polido, inteirão, de estofado preto e películas cinquenta por cento nos vidros… Volta para casa com uma esperança renovada em seu peito de sonhador, Queria muito levar seu automóvel, razão de suas economias sofrivelmente juntadas, no dia seguinte… Porém, com aquele frio na barriga que aperta desde os rins até a garganta, expressando o medo de ouvir outra resposta negativa… Talvez não suportaria mais um tombo, mas precisava tentar… era sua última e preciosa chance. Poxa! Todos os seus amigos tinham carro, só ele sempre a pé. Seu sonho era simples: um fusca… Só um fusquinha… Não estava exigindo muito da sorte: “Só um fusquinha” – pensava ele… “Nada mais que um fusquinha…”
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Nostalgia radiofônica
Por conta da divulgação do meu romance de folhetim visitei, esta semana, os estúdios da Rádio Caçanjurê AM e da 92 FM…
A recepção de cara nova, a sala do chefe, agora reciclada, onde no dia nove de setembro de mil novecentos e noventa e seis, às onze horas da manhã, eu recebi a triste notícia da minha demissão, a nova sala da chefe, outrora um depósito, a manutenção, o atual departamento de jornalismo… A antiga sala do mestre Joair dos Santos Lima, apesar de um pouco diferente, permanece lá a espera do jornalista mor de Caçador. A impressão que dá é que ele logo volta, vai sentar naquela cadeira, ajeitar os bigodes e fazer jornalismo na velha máquina de escrever… Voltei no tempo, eu era sonoplasta do jornal, rodava as entrevistas num rolo de fita gigantesco que, às vezes apanhava e distorcia a voz do entrevistado, via através do aquário o seu Joair se segurando pra não rir… Hoje, o entrevistado sou eu e minha voz é fielmente captada por um aparelho minúsculo nas mãos da comadre Rita Martini, que começou a carreira um pouco antes de mim e ainda permanece lá, com Denilson Araújo, Luiz Roberto Damaceno, contundido, a Anne que sinto não conseguir escrever corretamente seu sobrenome, o Flavinho e, é claro, a Tia Ita que me recebeu com a hospitalidade de sempre e me levou conhecer as novas instalações das emissoras de rádio caçadorenses…
Na sequência, não tive como deixar de parar na discoteca, repleta de vinil em desuso e, quem diria, cheia de CDs também obsoletos. Novamente, minha criatividade nostálgica desenhou em meu cérebro a imagem daquele operador de som, apelidado por um dos locutores de Garibaldo, perdido no meio dos bolachões, segurando o disco com a mão até que o locutor anunciasse a música e a agulha, que já estava no ponto, pudesse transitar livremente sobre a superfície do vinil e levasse ao ar o pedido do ouvinte… Isso até enroscar e o sonoplasta ter que dar uma sopradinha de leve na agulha para que ela pulasse o furo… Quantas vezes o sopro era mais forte que o necessário e a agulha ia parar na última faixa, obrigando o operador a abrir o microfone e o locutor a improvisar diante da situação quase constrangedora…
Paramos no estúdio da 92 FM: Tudo diferente, um locutor diante de um computador, cujo monitor de LCD é fixado na parede. Tudo programável, tudo agilizável. Dá até tempo de bater um papinho com a visita, o bloco de comerciais é programado automaticamente. Tem até uma câmera que transmite as imagens em tempo real pela internet… Me senti no BBB… Deus me livre! Sem falar na porta de vidro, que deu um designer todo moderno para a emissora…
E a Caçanjurê? Meu ganha-pão durante três anos de minha vida… Não está mais lá. Agora, de um lado do aquário, é CPA (centro de produções de áudio), do outro é estúdio reserva… Retrocesso de tempo em minha mente de novo: Lá estava eu, dez quilos mais magro e catorze anos mais moço, fones nos ouvidos, microfone a frente na mesa redonda, acordando o povo com o “Cheiro de Terra” e tomando chimarrão com o pessoal no Entardecer na Querência. Durante mais de dois anos conversei com os ouvintes dentro de um estúdio isolado acusticamente, tendo um sonoplasta do outro lado do vidro como companhia… Às vezes, era necessário assumir a técnica também, levava o microfone para o outro lado do aquário e fazia tudo sozinho. Os comerciais eram rodados em três cartucheiras. Os cartuchos utilizados eram de fita K7 que enrolava e desenrolava no mesmo rolo, parando com um bip, que às vezes, vazava no ar, armazenados em uma torre rotatória ao lado da mesa de som. Cada comercial, ou vinheta ocupava um cartucho, portanto, o sonoplasta precisava dar o play em cada comercial separadamente. Um servição que era cumprido agilmente a cada trinta segundos. Por vezes, estava no ar, sozinho, enquanto falava com o povo, puxava um cartucho para a próxima vinheta e sem perceber, a torre toda vinha abaixo. Quem ouvia em casa devia pensar que estava desmoronando a rádio, tamanha era a barulheira… Mas o ruído maior era a mijada do chefe depois…
E onde era o CPA, agora funciona o estúdio da Caçanjurê. Lá encontrei meu amigo Flávio Henrique, solitário, sendo ouvido pela cidade inteira. A tecnologia não precisa mais do trabalho do operador… Tudo me pareceu diferente, novo e de uma estranheza que nos faz pensar o quanto a humanidade evolui sem perceber… Flavinho está no ar, é o show da manhã… Sem aviso prévio me chama para bater um papo ao vivo… Apesar de um pouco enferrujado, consigo dar meu recado… É preciso muito talento para falar na latinha sem saber quem está ouvindo do outro lado… Ser radialista é amar a solidão que reúne multidões, é preciso isolar-se fisicamente do mundo ao seu redor para que o resto da população tenha acesso a ele, se torna necessário abdicar a própria liberdade, momentaneamente para que seus ouvintes sejam livres para analisar as informações audíveis através dos amplificadores. É essencial renunciar ao direito de ir e vir, para que sua voz ecoe em todos os cantos da cidade e penetre nos mais diversos e longínquos lares, ganhando também o mundo através da Internet… Este radialista meia boca que vos escreve tomou outros rumos. Sou imensamente feliz como professor e escritor. Mas, confesso, naquele momento me deu um nó na garganta, uma saudade gigantesca e uma imensurável contrição por não fazer mais parte do mundo fascinante da radiodifusão…
Mas eu não poderia deixar o recinto sem antes relembrar o cafezinho da tia Ita. As xícaras ainda são as mesmas, o cafezinho continua saboroso e a hospitalidade não se corrompeu com o passar do tempo…
A Rádio Caçanjurê é patrimônio histórico de nossa querida Caçador, a história dela se confunde com a história de muitos caçadorenses, incluindo este que vos escreve, cujos olhos avermelham-se neste momento e as lágrimas teimam em escorrer pelo rosto, numa homenagem passional e nostálgica deste que, por três anos, fez parte de sua equipe…
Márcio Roberto Goes
www.portalcacador.com.br
www.cacador.net
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Peitão
Ela era linda! Corpo perfeito (pelo menos para os pseudo-padrões), rosto bonito, olhos estonteantes… Mas tinha um defeito, aliás muitos defeitos, como todos os seres humanos os têm. Não podemos escapar deles. Mas imperfeição trata-se de um ponto de vista: o que é defeito para uns, pode ser qualidade para outros… Como as mulheres nunca sabem quais são os quesitos considerados qualidades pelos homens de verdade, procuram mascarar aquilo que acreditam ser feio com quilos de maquiagem, roupas que valorizam esta, ou aquela parte do corpo, barriguinha a mostra, bermudas e microssaias menores que o cinto… Ou seja, procuram mostrar aquilo que desperta os machos e quando não têm, preferem mascarar, ocultar a essência… Os principais defeitos dela eram: orgulho, sentimento que nos faz ver os outros de cima para baixo e a vaidade excessiva, que nos deixa irremediavelmente descontentes com aquilo que somos e aquilo que temos. Estes, juntos, dão origem a um terceiro, muito querido pelo capitalismo, aliás, criado por ele: o consumismo…
A menina bonita contemplava seu lindo corpo nu no espelho, enxergando aquilo que ninguém mais via ao seu redor, mesmo quando estava quase devidamente vestida: uma celulite aqui, uma estria ali, uma pintinha indesejada acolá… De repente, seus olhos param naquele lugar que nos alimenta nos primeiros meses de nossa vida terrena, algo divino, capaz de fazer um bebê com cara de joelho virar o xodó da família através do leite materno… Mas ela não via todas essas vantagens, só percebia seus seios muito pequenos… “Os homens não gostam”, pensava ela acariciando os mamilos. Estava depressiva, percebia-se feia, descontente… Seu corpo não era perfeito. Não se sentia feliz. Os homens jamais quereriam namorá-la, ou simplesmente pegá-la daquele jeito… A jovem linda, então chorou de desgosto por não poder agradar aos olhos e às mãos de seus possíveis pretendentes. Precisava estufar mais o sutiã e as mãos do ficante. Necessitava chamar a atenção para os desejos mais promíscuos dos homens ao seu redor. Queria ser sexy… gostosa… Não bastava um rosto bonito, um corpo (agora quase) perfeito… Queria mais… Queria ser desejada pelos homens mais pegadores, mas para isso era preciso ter peitos maiores… Só queria ser linda o suficiente para não perder nenhuma chance com o sexo oposto…
Depois da sessão depressão, a garota que já agradava aos olhos alheios, se vê tomada pelo orgulho, vaidade e consumismo. Envolvida por estes sentimentos, procura então um médico a fim de melhorar a autoestima e turbinar seus peitos… Consulta feita, cirurgia marcada… a solução para todos os seus problemas estava a um passo de se realizar… Um ato cirúrgico e duas próteses de silicone seriam o suficiente para que os machos mudassem o conceito sobre aquela fêmea infeliz até então…
Depois da cirurgia, o pós-operatório que quanto maior o avanço da medicina, menor é seu tempo… Processo feito, recuperação sofrivelmente vencida. Novamente, encontra-se nua no espelho, contempla aquela obra magnífica da ciência que transformou duas laranjinhas em melões suculentos e chamativos… Agora estava linda, gostosa, apetitosa, nutritiva: Uma cavalona!… Seus seios pareciam ter sido esculpidos no torno, de tão perfeitos… Precisava divulgar o resultado com urgência. Foi às compras: mais decotes, menos sutiã, mostrava quase tudo, deixava um pouco para as mentes criativas masculinas imaginarem, mas se desse mole, certamente comprovariam in loco… Nunca pegou tanto, nunca foi tão pegada… Estava feliz… Sempre tinha companhia… Todos os machos queriam acariciar seus peitos, sonhavam em cair de boca naqueles melões simétricos, durinhos, empinados, sempre olhando o infinito. Ela era agora uma mulher de peito… Havia satisfeito seus mais profundos desejos sexuais e os dos seus parceiros também, não queria mais nada além de curtir a vida…
E eis que vieram os sintomas: a ardência nos seios perfeitos, a febre, a infecção… O médico de novo, os exames e a constatação: seu sonho de um corpo perfeito se rompeu. Os melões não eram tão perfeitos assim, tinham um grave defeito de fábrica que jamais seria considerado virtude por alguém: silicone industrial, de qualidade contestável, impróprio para o uso no corpo humano… A indústria fez o mesmo que aquela mulher para esconder seus defeitos: mascarou, maquiou, enganou… Agora ela era a vítima. Outra vez na mesa de cirurgia. Era preciso retirar, urgentemente os peitões tão sonhados por ela para que não causasse maiores danos. A recuperação foi muito mais dolorosa… Onde estavam agora aqueles que caíram de boca nos seus melões artificiais?… Por onde andavam os homens que lhe fizeram companhia e trocaram prazeres carnais? O que seria dela agora, sem seu atrativo principal?…
Seu maior erro foi achar que, chamando a atenção para o sexo, seria feliz… Só queria ser popular… E conseguiu! É capa de jornal! Teve implantada uma prótese da empresa que agora está proibida de comercializar seus produtos no Brasil… Mas todos daqueles que usufruíram de seus dotes corporais, agora somem. A eles não interessa a fama, o que importa é que, em algum momento de suas vidas, puderam se gabar que pegaram uma mulher gostosa…
Ela vive a amargura da derrota e do abandono. O corpo é só a casca… “O essencial é invisível aos olhos”, dizia a raposa ao pequeno príncipe na obra de Exupery… Ela cuidou demais da casca e esqueceu-se da essência… Mascarou a realidade a fim de escondê-la. Mas a realidade agora é outra, está mutilada, em nome da vaidade e do consumismo…
Um homem de verdade, olharia sim para seus peitões, mas quando seus desejos descessem dos olhos para a genitália, passariam, inevitavelmente pela avaliação do coração. Este não julga somente o que vê, mas pesa muito o que sente. Portanto, minhas queridas, se quiserem um príncipe encantado, é necessário ter comportamentos e sentimentos de princesa, do contrário terão companhia na balada e na cama, mas ficarão solitárias nas intempéries da vida, principalmente quando a casca for danificada…
Pena que ainda não inventaram uma prótese que aumente o coração, a fim de podermos ver melhor aquilo que os olhos não enxergam…
Márcio Roberto Goes
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Sonhos azuis – Apresentação…
Ainda na faculdade de Letras, tive conhecimento dos romances de folhetins do século dezenove, que são considerados os avós das novelas de hoje, progrediram para as radionovelas e, finalmente, as telenovelas tão conhecidas pelo povo brasileiro.
Naquela época, sem rádio, TV, telefone e, muito menos internet, a distração das mulheres ricas eram os folhetins, distribuídos diária, ou semanalmente para assinantes e, se reunidos os capítulos, formavam um romance completo. Foi o que aconteceu com “Dom Casmurro” de Machado de Assis, publicado primeiramente em folhetins, depois como livro e, já no século vinte e um, torna-se minissérie na rede Globo, com o título “Capitu”… Assim como ele, o pai da verdadeira Literatura prosaica brasileira, José de Alencar, também começou publicando folhetins que serviam, inclusive para reunir as famílias. Como nem todos sabiam ler na época, uma pessoa lia e os outros escutavam atentos. Mas a grande diferença dos romances de folhetins para as novelas atuais é que havia uma interação entre os familiares, além de provocar a criatividade e a análise dos fatos pelos leitores e ouvintes que, desprovidos de imagens, formavam por si os conceitos, subsidiados tão somente pelas descrições subjetivas do autor que não tinha nada mais que palavras para expressar suas ideias…
Me encantei pelos tais romances de folhetins e desde então tento encontrar uma maneira de ressuscitar esta ideia no século vinte e um. Mas como chamar atenção para um folhetim semanal impresso se existe a concorrência desleal das mídias eletrônicas que chamam muito mais a atenção, são muito mais fascinantes e ecologicamente corretas que um caderninho de papel-jornal, cujo destino será forrar o chão de um carro recém-lavado, embrulhar bananas, ou pior, servir de privada para algum cãozinho de estimação?… A solução estava diante dos meus olhos e, com um clic, entendi tudo… O folhetim do século vinte e um não pode ter outro formato que não seja o digital. É claro! A união do arcaico com o moderno. Está aí uma oportunidade de ajudar o povo a começar a gostar de ler. Mas eu precisava de parceria para realizar o projeto e encontrei as portas escancaradas do Portal Caçador, que sempre acreditou na minha obra e nunca me furtou o direito à liberdade de expressão…
Portanto, estamos preparando o primeiro romance de folhetim caçadorense do século vinte e um: Sonhos azuis.
Escrevi este romance a partir de uma crônica “Joãos e Marias” que deu origem a seu protagonista “João dos Sonhos Azuis”: um cara pacato, de hábitos simples que, como a maioria do povo caçadorense e brasileiro, sonha com coisas simples, um casamento perfeito, uma vida em família, um carro, uma casa própria, um grande amor…
Ao contrário dos folhetins do século dezenove, “Sonhos azuis” se identifica com o povão, que vive as intempéries do cotidiano. O escrevi e estarei revisando cada capítulo antes da publicação, com linguagem simples e acessível, descrevendo uma realidade comum à maioria dos leitores deste portal, sempre analisando os fatos de forma filosófica e humana e, é claro descrevendo os encontros e desencontros de mais uma história de amor. Tenho certeza que muitas pessoas vão se identificar com os personagens desta história simples, com poucas células dramáticas, mas preparada com muito carinho e amor que tenho pelas letras e pela educação pública, cujos alunos são a razão do meu trabalho e da minha obra literária. Gostaria de ser o primeiro de muitos, pois vejo uma carência de material literário da nossa terra para ser estudado e analisado em sala de aula…
Agradeço imensamente este portal que, comigo aceitou o desafio de transformar um cronista semanal em romancista. Tenho certeza que, quem gosta de ler, terá uma oportunidade de viver comigo as emoções deste romance que mistura ficção com as realidades da vida moderna e, quem não gosta, poderá desenvolver o gosto pela leitura, já que é de linguagem simples e acessível. Peço a todos que lerem e gostarem, que repassem o link a fim de divulgar os valores da nossa querida terra. São repassadas tantas porcarias nos e-mails e redes sociais. Por que não encaminhar literatura para sua lista de amigos? Tenho certeza que surtirá efeito muito maior que aquelas correntes sem noção que recebemos todos os dias…
Márcio Roberto Goes
http://www.portalcacador.com.br/index.php?ap=3&colunista=11&titulo=Folhetim – Sonhos Azuis – Em breve o 1º Capítulo.
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