De volta ao começo

GEDSC DIGITAL CAMERA

 

Nostalgia… Um sentimento que, junto com a saudade, faz a gente querer voltar no tempo, não pra fazer diferente, mas para que tudo seja igual às lembranças… Por conta de meus escritos que chamo de crônica, já visitei várias escolas da região para ter uma conversa franca com alunos dispostos a querer gostar de ler e escrever… Sim… Pois para se escrever bem, é necessário gostar do que lê, ler o que gosta e, por consequência gostar de escrever e escrever sobre o que lhe causa prazer…

Recebi um convite irrecusável: visitar a Escola Municipal de Educação Básica Alcides Tombini, no bairro Sorgato, onde passei três décadas de minha vida… Nasci e me criei naquelas ruas… Claro que, antes de chegar ao destino, dei uma passeada pelo bairro da minha infância e juventude… Muita coisa mudou, casas antigas de cores novas, casas novas sobre terrenos antigos…

A casa de minha infância já não existe mais, deu lugar a uma nova e moderna edificação, acolheu uma nova família… Mas um fato que me emocionou profundamente foi perceber que o novo habitante daquela que outrora fora minha residência oficial, mantém preservadas as plantas cultivadas por muitos anos pela minha mãezinha, principalmente as árvores frutíferas dos fundos do terreno…

As ruas continuam com aquele calçamento que remete minha mente viajante há trinta anos, quando as pedras estavam sendo assentadas pelas mãos cuidadosas dos funcionários da prefeitura com um martelo de borracha. Trabalho que resiste ao tempo, muito diferente daquelas casquinhas de ovo jogadas nas ruas dos bairros hoje em dia que ousam chamar de asfalto… O calçamento de paralelepípedo demora mais a ficar pronto, mas dura muito mais sem precisar de manutenção, além de ser menos agressivo ao meio ambiente, já que uma das matérias-primas do asfalto é o petróleo… Mas o asfalto casquinha de ovo se torna mais visível em menos tempo, ideal para tempos de eleição, quando é necessário mostrar o serviço que não foi feito em quatro anos…

Mas o dever me chamava, então parei de sonhar e guiei meus 147 motivos para ser feliz até a escola… Chegando lá, encontro a professora Andrieli Boeno e seus alunos de sétimo ano me esperando com um café colonial delicioso e literário… Partilhamos tudo: o lanche, as experiências, as crônicas, as histórias, sorrisos, esperanças e temores…

Conhecer escolas, conversar com alunos e professores, ver realidades diferentes na educação pública, trocar ideias… Tudo isso me faz amar ainda mais o melhor lugar do mundo para se conhecer pessoas fantásticas: a sala de aula… Ver aqueles olhinhos brilhando diante da Literatura que brotava de cada conversa em volta do café partilhado, nos faz acreditar piamente na escola como agente transformador da sociedade em que está inserida…

Manhã maravilhosa se encerra, me despeço da galerinha, entro na minha caixinha de fósforo prata da Fiat, e dirijo de volta até o Martello, que acolhe este que vos escreve há nove anos… No caminho, vou pensando na experiência de se voltar ao local da infância com algo a contribuir para a comunidade… A história daquele bairro segue com, ou sem mim, mas a alegria de reviver estes momentos, relembrar peculiaridades que ajudaram no crescimento pessoal e profissional de um professor-escritor, fazem tudo valer a pena: A Literatura, a crônica, a experiência… A Vida…

Márcio Roberto Goes

www.marciogoes.com.br

www.radioativacacador.com.br

Publicado em Caçador, Cotidiano, Educação

Não precisa

227cf832d2f59ff618fa5679fe4ee997

Não precisa ser do MST para apoiar a luta daqueles que não têm um pedaço de chão para plantar. Sabe-se que existem muitas pessoas infiltradas no movimento que não defendem os mesmos interesses, mas não é justo sacrificar toda uma coletividade por causa de uma meia dúzia…

Não precisa ser beneficiário do Bolsa Família para defender as lutas do povo empobrecido. Sabe-se que existem muitas pessoas que usufruem sem, na verdade, necessitar, mas não é justo chamar todos os beneficiários dos programas sociais de “vagabundos” por conta de alguns que burlam o sistema. Para isso existem as denúncias que podem ser feitas e investigadas…

Não precisa ser beneficiário do PROUNI para defender os universitários e lutar para que todos, do operário ao empresário, tenham uma educação com a mesma qualidade…

Não precisa receber benefício da lei Rouanet para prestigiar e defender a cultura popular. Sabe-se que muitos artistas consagrados já não precisam deste benefício, mas a imensa maioria trabalha, e muito para viver da arte e, mesmo assim, não são valorizados como deveriam, recebem um cachê vergonhoso dos estabelecimentos onde se apresentam, apesar dos proprietários lucrarem muito com isso… Além do mais, a maioria dos fãs investe mais de cem reais para ver artistas de renome nacional, mas se recusa a pagar uma dezena de reais para ver o artista local tocando num barzinho, sobrevivendo, aos trancos e barrancos, quase sempre tendo que ter outro emprego para garantir o sustento…

Não precisa ser mulher para ajudar nas lutas feministas, na conquista de espaço, nas batalhas por seus direitos e por seus sonhos… Não precisa ser estuprada para se indignar e se envergonhar com a situação, lutando por justiça…

Não precisa estar o tempo todo na rua, manifestando, batendo panela (Aliás, cadê as panelas?) para lutar por um país melhor… A luta contra a corrupção começa quando não me rendo a ela no cotidiano, quando não busco levar vantagem em tudo, quando peço a nota fiscal de minhas compras, quando não furo as filas da vida, quando respeito o direito de meus semelhantes…

Enfim, não preciso ser nem assumir todas estas lutas, mas preciso de um ideal, algo que mova meus atos e minhas ideias. Preciso, enfim ser autêntico sem deixar de ser alguém na multidão lutando pelas causas populares…

Levando-se em conta esta lógica, é possível compreender o fato de alguns empobrecidos pelo sistema defenderem seus opressores… Afinal, não precisa ter muito dinheiro para defender os interesses da classe alta e, em muitos casos, opressora…

Só existem empobrecidos porque uma minoria muito organizada e convincente fica com a maior fatia do bolo deixando o restante para a maioria oprimida dividir e se sentir agradecida aos opressores que lhe fornecem muito menos do que as mãos do trabalhador produzem…

Márcio Roberto Goes

www.radioativacacador.com.br

Publicado em Cotidiano, Educação, Língua Portuguesa, Política Marcado com: ,

A Escola Dos Meus Sonhos

Lá no fundo dos meus sonhos existe uma escola com amplas portas sempre abertas, onde encontram-se os professores, no início do turno, recebendo seus alunos com um caloroso abraço e um sorriso sincero de boas-vindas.

Na escola dos meus sonhos, que fica lá no fundo da minha mente e num cantinho todo especial do meu coração, existe um amplo jardim, onde crianças e jovens interagem com a natureza amando-a, respeitando-a e preservando-a de uma forma tão sólida que se reflete em seus lares voluntária e naturalmente… Lá não se vê nenhum papel no chão e todo o lixo é reciclado…

Nesta escola situada lá nos confins do meu cérebro utópico e bem no meio do meu coração apaixonado pela educação, cada professor tem a sua sala personalizada e a cada troca de turma, vai esperar, na porta, aqueles que são a razão de seu trabalho, cumprimentando-os novamente com um sorriso sincero estampado em seu rosto… Lá os professores e funcionários não se importam em perder parte do tempo com o relacionamento humano… Na minha “escolinha, o professor torce e luta pelo crescimento pessoal dos seus alunos que ocupam o lugar reservado a grandes amigos em seu coração, não se importa de fugir do conteúdo e aconselhá-los de vez em quando, de uma forma despretensiosa e sincera… No educandário dos meus sonhos só se aceita professores que tenham, além da formação acadêmica, o amor ao próximo no seu currículo…

Na escola dos meus sonhos não existe livro-ponto, pois as pessoas que lá trabalham, amam o que fazem, nunca faltam e quando precisam ausentar-se por motivos inevitáveis, sentem uma grande angústia por estarem longe da sua paixão… Nesta escola, o professor é valorizado e respeitado, trabalha com uma estrutura completa, sabe fazer uso de todas as tecnologias e nunca se cansa de aprender…

Na minha escola, escondida no meio das minhas utopias, tem uma biblioteca ampla, arejada, mobilhada e (principalmente) cheia de livros, onde o aluno encontra-se com seus mestres, pois é lá que eles estão na tal hora atividade”.

Na escola dos meus pensamentos grandiosos, não se usa mais o divã da sala dos professores, aliás nem existe tal lugar, somente um ambiente altamente agradável onde professores, alunos e funcionários passam o mesmo recreio, comem o mesmo lanche e participam das mesmas conversas… Lá no fundo da minha mente e bem no meio do meu coração, tem uma escola onde todos lutam pelos mesmos ideais, caminham na mesma estrada, rumo ao conhecimento que não se importa com a quantidade de dias letivos, acessível a todos de forma eclética e dinâmica…

De repente minha mente para, meu coração retoma o compasso monótono, volto para a realidade e percebo que parte da escola dos meus sonhos já existe… Só a casca… Ainda está verde… E as intempéries não a deixam amadurecer como deveria.

Márcio Roberto Goes

www.radioativacacador.com.br

Publicado em Caçador, Cotidiano, Educação Marcado com: , , ,

Em defesa de Tomé

saotomé

 

E jesus apareceu, ressurreto aos apóstolos que estavam trancafiados todos no mesmo lugar, cheios de medo e insegurança… Mas Tomé não estava lá… Onde estava?… Sei lá… Poderia estar em qualquer lugar, menos ali escondido… Certamente, Tomé foi o único que não se amedrontou diante do golpe que culminou na execução de seu mestre… Os outros, ao contrário, se fecharam a queixarem-se: – Jesus morreu… Mataram nosso mestre… Está tudo acabado… E agora?… – Talvez, Tomé possa ter feito os mesmos questionamentos em sua mente e em seu coração, mas em vez de ficar se lamentando, preferiu sair da zona de conforto e continuar a luta por justiça iniciada por Jesus… Naquele momento é que se poderia saber se os ensinamentos do messias tiveram alguma valia para seus apóstolos… “Só se sabe quando o discípulo realmente aprendeu, na ausência do seu mestre”…

Mesmo assim, jesus saúda seus amigos medrosos com a paz e dá a eles autoridade sobre seus liderados… E Tomé?… Certamente recebeu esta autoridade depois, com maior merecimento… Não é possível que o Cristo, filho de Deus, tenha esperado justamente o momento em que um apóstolo estava ausente para aparecer aos outros… Acredito que esse, condenado por tantos como incrédulo não tenha ficado por muito tempo com aqueles “cheios de fé”. É fácil ter fé trancado num quarto sem conhecer a realidade ao seu redor… É mais cômodo, não exige compromisso, não exige ação… É só acreditar nas sombras que se refletem na parede refletidas pela entrada da caverna (Platão)…

Ao saber do acontecido, Tomé diz claramente que só acreditaria se encostasse nas feridas de Jesus… O que muitos chamam de falta de fé, pode-se entender também como prudência, pois frequentemente acontece de se esperar um milagre sem fazer o mínimo de esforço para alcançá-lo… Mas Deus é bom e o filho dele também. Por isso apareceu primeiro para os medrosos de plantão e mesmo assim não tomaram coragem de sair dali para continuar sua a obra…

Uma semana depois, Jesus aparece novamente aos apóstolos… O detalhe é que eles continuavam lá, fechados, com medo, mas desta vez, Tomé estava presente, no mesmo instante caiu de joelhos, dizendo: – Meu Senhor e meu Deus!… Ao passo que Jesus respondeu: Você acreditou porque viu. Feliz quem acredita sem ver… Não se tratava de uma comparação com os outros discípulos, pois todos também acreditaram ao vê-lo na semana anterior e, mesmo assim, permaneceram confortavelmente trancafiados em sua fé… Desta forma, não faz sentido chamarmos o pobre Tomé de incrédulo, pois os outros também creram nas mesmas condições que ele. A única diferença é que ele viu depois…

Sejamos, pois, sensatos na nossa fé, assim como Tomé. Pois não é possível ter fé sem contestação, sem serviço, sem partilha, sem luta pelos desfavorecidos… Deus se alegra com os louvores, mas se alegra muito mais com a capacidade de seu povo transformar a realidade através da partilha…

Márcio Roberto Goes

www.radioativacacador.com.br

Publicado em Cotidiano, Educação, Política Marcado com: , , ,

Colo materno

COLO1

Numa bela manhã de quarta-feira ensolarada, transitava eu com minha forminha de pão prata que me dá 147 motivos para ser feliz pelas ruas do centro da cidade… Nem lembro direito o que eu tinha que fazer no centro, mas eu estava lá, ouvindo uma rádio FM qualquer, cantando junto uma letra qualquer, observando despretensiosamente o movimento dos carros e das pessoas nas calçadas. Gente indo e vindo… Pacotes e mais pacotes… Sorrisos… Caras fechadas… Passos rápidos… Caminhar lento… Carros estacionados em vaga proibida com o pisca alerta ligado, como se isso tornasse o motorista menos culpado. Imprudências inúmeras, falta de sinal para conversões, ou mudança de pistas… Gentilezas raras na faixa de pedestres… Ou seja… Trânsito normal para uma cidade de quase oitenta mil habitantes que completa oitenta e dois anos de emancipação…

Mas uma cena me chamou especial atenção: Uma moça, aparentava não mais que seus dezessete anos… Uma criança no colo, devia ter menos de um ano. Subentende-se que seja seu filho, subentende-se também que trata-se de mais um caso de gravidez na adolescência. Não me cabe aqui julgar as circunstâncias, e sim os fatos corriqueiros como faz todo cronista que segue a regra (ou não)…

Sei de muitos casos de meninas que engravidam, acham maravilhoso, se consideram guerreiras por serem mães solteiras, postam fotos orgulhosas da barriga crescendo… Mas depois que acriança nasce, deixam para os avós cuidarem, terceirizando assim a responsabilidade da maternidade…

Com muita alegria, constato que não é o caso em questão: Esta moça carregava seu filho muito perto de si, caminhando vagarosamente, ora olhava para o caminho, ora olhava orgulhosa para seu rebento ao colo… Acariciava seus cabelos, beijava carinhosamente o rosto e a fronte, balbuciava alguma coisa no seu ouvidinho… E o bebê retribuía a abraçando com toda força que seus bracinhos permitiam… Aparentavam ser mãe e filho felizes…

Estudiosos dizem que a personalidade do ser humano se forma nos seis primeiros anos de vida, portanto, esta moça não sabe o bem que está fazendo por aquela vidinha que carregou nove meses na barriga e agora segura carinhosamente em seu colo materno, protetor e amoroso…

Poucas coisas me emocionam, apesar de algumas pessoas entendidas no assunto dizerem que sou altamente sensitivo. Esta cena marcou minha mente e meu coração de tal forma que me fez parar o carro e observar com maior atenção. À medida que a mamãe coruja se aproximava, fui percebendo que conheço a moça. Foi minha aluna nestas minhas voltas pela educação pública… Não chamei a atenção, não acionei a buzina para não atrapalhar o momento… Havia uma barreira para o resto do mundo. Só havia ela e o filho numa longa caminhada despreocupada pela Avenida Senador Salgado Filho e um escritor meia boca parado dentro de um Fiat 147 admirando a cena de queixo caído… Desta forma, pouco importaria se eu chamasse a atenção, ou buzinasse… O resto do mundo não importava para ela, para a criança, tampouco para mim…

Como sempre, minha mente ficou matutando por horas sobre aquilo… Parece que ninguém mais notou além de mim. Em tempos de ódio espalhado por todos os segmentos da sociedade, intolerância, discriminação, preconceito, atos ilícitos, modinha de luta contra a corrupção (só a de Brasília, o resto querem que a gente esqueça)… Enfim, em tempos de conflitos ideológicos, políticos e egoísticos, ninguém tem tempo para observar a mais sublime demonstração de amor de uma jovem mãe pelo seu bebê em vias públicas… O amor contagia, mas é preciso estar aberto aos sinais…

Márcio Roberto Goes

www.radioativacacador.com.br

Publicado em Caçador, Cotidiano, Educação, Língua Portuguesa, Política Marcado com: , ,

Arquivos