Aula de cidadania

CAM00455

Uma escola pública que sofre com o descaso das autoridades no maior e mais populoso bairro de Caçador e, por consequência, com o maior número de eleitores… Não é novidade pra ninguém que escrevo sobre meu querido Wandão que continua daquele jeitão, sem teto na área de convivência, obrigando alunos e professores a molhar os pés e cobrir a cabeça para transitar nos dias de chuva e tals…

Confesso que cansei de lutar… Cansei de não ser ouvido… Cansei de ver meus queridos alunos se dedicando ao máximo pela qualidade de ensino desassistidos por aqueles que são eleitos para cuidarem deste patrimônio de aprendizado e de convivência científica entre jovens e professores… Percebo que a comunidade escolar também cansou de nadar contra a maré e resolveu fazer a sua parte…

Meus alunos do noturno deram um exemplo de empenho comparecendo em peso nas aulas de reposição da greve durante as férias: Prova de que, apesar de minha desistência (da boca pra fora), a luta continua e, se os alunos estiveram presentes nas aulas de reposição, é sinal que entenderam e apoiaram nossa ausência nos dias de paralisação… Nota 10 na aula de cidadania…

Além disso, nas últimas semanas, alunos e professores resolveram, apesar da estrutura precária, embelezar a escola com pinturas artísticas… Mas não se trata de qualquer arte. É arte com cidadania. As paredes foram pintadas com temas que abordam a sustentabilidade, o cuidado com a natureza, a reciclagem, a compostagem… Entre personagens de Maurício de Souza, borboletas, pôr do sol, Simpsons, encontram-se frases e imagens que nos remetem à reflexão sobre o que fazemos com nosso lixo… Será que reciclamos e reaproveitamos o que é possível?… Será que somos generosos o suficiente para dar o destino certo para cada lixo a fim de manter nossa qualidade de vida?

CAM00461

Não me admiraria se chegasse o dia em que a comunidade da Escola Wanda Krieger Gomes, cansada de esperar solução, pusesse a mão na massa para arrumar o telhado, além de outros problemas estruturais… Uma vergonha para as gravatas, pois estaríamos fazendo aquilo que seria de competência delas…

Aqui, o povo faz o que pode pela nossa escola… E lá na ilha, estão nos representando como manda a constituição?… Estão defendendo os interesses deste povo desassistido que os elegeu?

Senhores ilhados, está na hora de seguirem o exemplo desta comunidade escolar dedicada em melhorar nosso ambiente e fazerem aquilo que lhes compete… Que tal atravessarem a ponte até o meio-oeste do continente e participarem de uma aula de cidadania conosco?…

Márcio Roberto Goes

 

www.radioativacacador.com.br

www.portalcacador.com.br

www.cacador.net

Publicado em Caçador, Cotidiano, Educação, EEB Wanda Krieger, Política

Um pai carpinteiro

véio góis

 

Lembro bem daquele dia

Tinha um cerrote na mão

Sempre mantendo a cadência

Assim meu pai me dizia:

Meu filho, para serrar

Precisa mais jeito que força

Pega bem firme no cabo

É só puxar e voltar

Como Jesus, eu tive um pai carpinteiro

Com ele aprendi a serrar e pregar

Eu tive um pai carpinteiro

Como Jesus, eu tive um pai carpinteiro

E bem cedo aprendi a trabalhar…

Eu tive um pai carpinteiro

Lembro bem daquele dia

Tinha um martelo na mão

Sempre mantendo a cadência

Assim meu pai me dizia:

Meu filho, para pregar

Precisa mais jeito que força

Pega bem firme no cabo

É só mirar e bater

Como Jesus, eu tive um pai carpinteiro

Com ele aprendi a serrar e pregar

Eu tive um pai carpinteiro

Como Jesus, eu tive um pai carpinteiro

E bem cedo aprendi a trabalhar…

Eu tive um pai carpinteiro

Assim também é a vida

Com nossos sonhos na mão

Sempre mantendo a cadência

Sem perder a direção

Pois para sobreviver

Precisa mais jeito que força

Sem desviar o caminho

Sem esquecer os conselhos

Como Jesus, eu tive um pai carpinteiro

Com ele aprendi a serrar e pregar

Eu tive um pai carpinteiro

Como Jesus, eu tive um pai carpinteiro

E bem cedo aprendi a trabalhar…

Eu tive um pai carpinteiro

(Márcio Roberto Goes)

Publicado em Caçador, Cotidiano, Educação

A vida pelas lentes

CAM00473

Certa vez, quando ainda trabalhava numa emissora de rádio, comecei a sentir minha visão embaralhada ao fitar, no estúdio, as paredes brancas cheias de furinhos… O problema não eram as paredes, eram meus olhos. Ao consultar o oftalmologista, o diagnóstico foi certeiro: Miopia. Anos depois, descobri que se tratava mesmo de astigmatismo e ceratocone (Afinamento da córnea), fatos que me fazem ter uma visão desfocada. Uso óculos há quase vinte anos, mas sou totalmente dependente deles há uma década, quando as deficiências se agravaram…

Quando coloquei óculos pela primeira vez, parecia que eu já tinha nascido com eles, tamanha foi a rapidez da minha adaptação e, desde então, os tenho como um charme. Procuro entendê-los como acréscimo e não como um fardo que devo carregar por toda a vida. Já fiz a experiência das lentes de contato, mas não me adaptei com um corpo estranho dentro destes olhos castanhos ceratocônicos e astigmáticos… Não posso fugir do fato que hoje, os óculos são minha marca registrada e preciso deles, inevitavelmente para ver o mundo a minha volta quase como as pessoas de visão normal o enxergam.

Por conta dessa dependência, guardo sempre o grau anterior como reserva e tenho óculos escuros com meu grau, para um melhor conforto visual à luz do dia sem prejudicar a qualidade…

E eis que, dia desses, na escola, ao mexer com a armação, meus óculos têm uma perna mutilada. Fiz o que pude para reimplantá-la sem sucesso, já que para arrumá-la, eu precisava estar com os óculos na mão, o que significa que não estaria cumprindo seu papel em frente a meus olhos, me ajudando a decifrar o mundo ao meu redor. Meus colegas de visão perfeita me ajudaram a remendar a perna do pobrezinho e então, ele voltou manco para seu lugar, remendado com fita adesiva… Com uma perna frouxa, já não era mais o mesmo, pois não se encaixava com perfeição e me fazia perder o foco… A solução foi apelar para os óculos de sol que eu havia usado no trajeto até a escola…

Porém a parada pedagógica se estendeu até anoitecer e lá estava eu, de óculos escuros, na sala de planejamento, à noite… Estranho, mas era a melhor qualidade de visão que eu poderia ter no momento…

Pobrezinhos de meus óculos, companheiros inseparáveis, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, sempre prontos a me mostrar o mundo como ele é (pelo menos o que é visível), Agora ali, jogados num estojo, sem uma perna, depressivos, sem cumprir com seu papel… Mas nada dura para sempre, logo serão encaminhados à óptica para diagnóstico e, possível reparo, enquanto isso, os óculos reserva interrompem seu merecido descanso para voltar a ativa, apesar de defasados, ainda me fazem enxergar melhor do que com sua ausência…

Assim somos nós: essenciais para as pessoas ao nosso redor, porém, jamais insubstituíveis e, por vezes nos encontramos contundidos física, ou moralmente, nos obrigando a buscar o reparo necessário para que possamos voltar a cumprir nosso papel, substituído então, por uma defasagem, ou pela penumbra dos óculos escuros que nos obrigam a usar em algumas situações para que os outros não percebam a direção do nosso olhar…

As pessoas e as lentes dos óculos devem ser atualizadas constantemente para não perderem o foco, do contrário, a visão de mundo estará constantemente defasada…

Márcio Roberto Goes

www.radioativacacador.com.br

www.portalcacador.com.br

www.cacador.net

Publicado em Caçador, Cotidiano, Educação Marcado com: , ,

Humanas prioridades

telhado wanda

Reposição de aulas: Isso acontece pelo fato de alguns professores comprometidos com as causas populares, terem feito greve por algum período a fim de lutar por melhorias na educação pública. Além da greve, particularmente na escola Wanda Krieger Gomes, tivemos outras manifestações: paralisações e mobilizações envolvendo alunos, pais, professores, APP, Conselho deliberativo, Grêmio Estudantil e toda a comunidade escolar para cobrar das autoridades competentes os reparos urgentes de que a escola necessita…

Se formos comparar o antes e depois das manifestações, a única diferença é o tempo que passou e prejudicou ainda mais a estrutura que, se fosse reparada a tempo, seria muito mais simples e barato. Mas sempre existe a desculpa de falta de verba, de licitação e tals… Por aí, pode-se traçar o perfil de prioridades dos governantes que não tratam uma escola sem teto na área de convivência e sem energia elétrica na metade do prédio como algo urgente…

Nós, que ousamos lutar, temos férias reduzidas em julho, precisamos improvisar aulas, em algumas salas, na penumbra de uma escola quase totalmente alagada pelas chuvas. Já presenciei vários tombos por conta do piso escorregadio. As meninas da limpeza não dão conta de passar o rodo cada vez que chove… Mas para as gravatas está bom. Tem sala suficiente, tem estrutura suficiente para a escola funcionar… Queria que uma gravata dessas passasse um dia trabalhando nestas condições…

Alguém pode argumentar que não é culpa de ninguém, foram as intempéries que levaram o telhado e circuitaram a rede elétrica e os reparos são muito complicados para serem feitos de uma hora para outra… Concordo que não podemos controlar o tempo, mas já seria possível solucionar tudo isso, visto que o problema se arrasta por mais de um ano…

Me recordo da última enchente que alagou parte da SDR: Tudo foi resolvido e a estrutura reparada em pouquíssimo tempo, aliás, as folhas ofício, vitimadas pela enxurrada, foram gentilmente cedidas para as escolas usarem a vontade. Até hoje estamos aproveitando papéis enrugados e destorcidos pela enchente… Parece que a única coisa partilhada com a educação pública, neste caso, é o prejuízo, pois nosso querido Wandão não mereceu reparos com a mesma urgência…

Muitas pessoas que ocupam cargo de confiança já vieram ver os estragos, mas nada foi feito. Esperamos por meses por uma dita licitação que nunca se resolve. Mas penso que seja este um caso de calamidade pública e deveria ser tratado com a urgência que merece.

Infelizmente, educação pública só é prioridade nos palanques podres da politicagem que, infelizmente, contamina nossas relações políticas entre povo e governantes… Mas as gravatas esquecem que só estão lá pelo voto popular e que são pagas por nós para trabalhar pela comunidade que espera o dia em que seus direitos sejam, de fato, respeitados…

Enquanto isso, continuamos trabalhando na penumbra e molhando os pés para chegar até a sala de aula… Mas isso não é nada. É mais importante construir elevados e viadutos para melhorar o fluxo no trânsito. Pena que só os seres humanos votam, pois as máquinas são as mais favorecidas depois das eleições e nossos estudantes precisam se conformar em buscar algo tão inútil para os governos como o conhecimento. Não me admira que os jovens pensem primeiro em fazer a carteira de motorista pra depois pensar numa faculdade. Afinal os automóveis têm mais benefícios que os seres humanos…

Márcio Roberto Goes

www.radioativacacador.com.br

www.portalcacador.com.be

www.cacador.net

Publicado em Caçador, Cotidiano, Educação, EEB Wanda Krieger, Política, Utilidade Pública Marcado com: , ,

O homem que tudo queria…

MENINO SONHADOR

Era uma vez um menino que nada tinha além daquilo que necessitava para sobreviver… Mas ele queria mais, ele queria ser, ele queria ter… Ser homem, ter trabalho, ser alguém reconhecido, ter dinheiro…

O menino cresceu, agora era um homem… Um homem que nada tinha, que lutava, tentava, arriscava, trabalhava… O homem que nada tinha queria ter, então começou a comprar… Comprava tudo… de todos… Se identificasse um por cento de necessidade, comprava, comprava e comprava… E o capitalismo o amava, pois o homem gastava e as pessoas que tudo vendiam, lucravam, lucravam e lucravam com o homem que tudo comprava… Comprava isso e aquilo, queria ser mais, queria ter mais: carro, casa, móveis confortáveis, utilidades inúteis…

E o homem que tudo comprava acumulou bens e dívidas… Percebeu que não precisava de tantas coisas, então resolveu repartir com quem nada tinha… Repartiu tudo o que era e tudo o que possuía: Seus bens, seu automóvel, sua casa, seus alimentos, suas roupas… Só não repartiu as dívidas. E elas aumentavam assustadoramente… Mas o homem que tudo partilhava ainda tinha o nome limpo e começou a fazer empréstimos daqueles que tudo tinham, mas não repartiam sem que fosse devolvido com juros… E os banqueiros ficaram felizes, consignaram a dignidade do homem que tudo partilhava…

Então, o homem tinha dinheiro novamente e voltou a comprar, repartir, comprar de novo e partilhar novamente… Um ciclo sem fim de generosidade e dívidas…. Ele queria ser, ele queria ter, ele queria repartir…

Um dia, o homem que tudo partilhava ficou sem crédito, nome sujo, vida sofrida, dívidas e mais dívidas… Mesmo assim, não deixou de partilhar, fazia tudo o que podia para todos que não podiam, ou não queriam admitir que eram capazes… Continuou repartindo seus bens, seu conhecimento, sua vida… As dívidas, outra vez, não foram repartidas, pois ninguém quer dívida dos outros, mesmo que o outro seja quem o ajudou um dia… A vida dá voltas e, numa dessas voltas, o homem que tudo repartia ficou por baixo… Aqueles que tudo recebiam dele, ficaram por cima, pararam de ser favorecidos pelo homem que, agora, nada tinha…

O homem que tudo partilhava perdeu tudo, os bens, a dignidade e até a confiança. Só não perdeu o conhecimento adquirido no decorrer da vida… Neste momento, aqueles que tudo tinham, pois foram ajudados pelo homem que tudo partilhava, o condenaram… O acusaram de ser o culpado da própria desgraça, o questionaram, queriam saber o que ele fez com tudo o que tinha… O homem não sabia responder, pois os generosos, dificilmente lembram de seus feitos, isso é característica dos avarentos que sempre acham um modo de cobrar o pouco que fazem pelos outros…

Então ele voltou a ser um menino… Um menino sonhador, queria ter novamente, queria ser novamente… Seu coração queria voltar a ter para voltar a repartir, mas sua mente o ordenava a segurar tudo o que conquistasse para si… Mas o menino que um dia foi homem, não se deixou contaminar pela cobiça. Só queria poder fazer algo pelos mais próximos, queria poder voltar aos “bons tempos” em que vivia rodeado de amigos que usufruíam, despreocupadamente daquilo que tinha e daquilo que era… Mas ele já não tinha nada… Ele já não era mais nada… Era um menino que só caiu porque um dia subiu… Subiu de mãos dadas com os demais e, quando caiu, poucas mãos o tentaram segurar. Não tiveram forças. Sem querer, o deixaram despencar e se juntaram aos que o criticavam de forma cruel…

É fácil pisar em quem já está no chão… É fácil empurrar quem já está caído… É fácil condenar quem já sofre a condenação do sistema… O capitalismo que tanto o seduziu, agora o deixou na mão, cheio de boletos para pagar o conforto dos outros sem se importar com o fato de que ele não tem o básico para sobreviver… Aqueles que tudo vendiam já não o tratavam mais como cliente preferencial. Agora era um inadimplente, sua caixa de coreio e seu telefone sabiam muito bem disso, provaram o gosto amargo da falta de planejamento, da ação mais pelo coração que pela razão…

A sofreguidão o ensinou a ser de novo um menino… Voltou a sorrir… Custou, mas ergueu, com muito custo, a cabeça e a dignidade, decidiu lutar novamente para ter e ser, agora com uma grande diferença: Ele ainda tinha todo o conhecimento que ninguém conseguiu consignar nem roubar…

Era uma vez um menino que nada tinha, além daquilo que necessitava para sobreviver…

Márcio Roberto Goes

www.radioativacacador.com.br

www.portalcacador.com.br

www.cacador.net

Publicado em Caçador, Cotidiano, Educação, Língua Portuguesa, Política Marcado com: , , ,

Arquivos