Missão solidária

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Missao solidaria marista

Muito mais importante do que estar numa comunidade em situação de vulnerabilidade social, é querer estar ali, enquanto poderia estar em qualquer outro lugar, curtindo as férias, se divertindo, ou em família…

Foi isso que aconteceu, no início deste ano, com cerca de cento e trinta pessoas, na maioria jovens em situação financeira confortável, além de irmãos maristas, pastoralistas, lideranças comunitárias e juvenis, ao assumirem os trabalhos da MSM (Missão Solidária Marista)… Desde que conheci a Pastoral da Juventude, uma expressão ecoa em meu cérebro e inquieta meu coração: “Protagonismo Juvenil”… Lá se vão quase trinta anos de trabalho com a juventude e essas palavras continuam movendo a maioria dos sonhos e movimentos deste que vos escreve…

Todas as minhas utopias reviveram ao participar, ainda que modestamente das Missões aqui no loteamento onde moro, que tem por padroeira a querida Santa Terezinha do Menino Jesus, exemplo de uma vida terrena que não foi além da sua juventude de vinte e quatro anos, mas que até hoje, quase cento e vinte anos depois de sua morte, permanece na memória e no coração de católicos do mundo inteiro como jovem intercessora e devota domenino Jesus, professando uma fé inocente e infantil…

Como crianças, vi os missionários descobrindo muitas coisas que não faziam parte do cotidiano da cidade de onde vieram. Um deles, o Leonardo, de Curitiba, me mostra na tela do celular, uma foto do pôr do sol no bairro Martello… Raramente vi imagem tão linda. Ela estava aqui o tempo todo, mas sou adulto demais para perceber tamanho espetáculo cotidiano. O jovem em missão exibia com os olhos brilhando a imagem, deixando claro o quão maravilhoso era para ele, poder presenciar aquela cena.

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Outra feita, recebi três jovens missionários para bater um papo em minha meia água própria. Leonardo, Guilherme e Filipe, não exitaram em entrar na residência oficial deste escriba, ficar à vontade, partilhar café, pipoca e bisteks… Ao saírem, já era noite e novamente vejo uma criança no corpo de um jovem olhando admirado e boquiaberto para o céu: Que lindo!… Dizia ele… No centro de Criciúma, não dá para ver as estrelas, pois as luzes das ruas e dos edifícios ofuscam… Filipe é o nome do missionário que proferiu essas palavras e, com ele, fiquei alguns minutos admirando nosso céu… De fato, o progresso e as tecnologias não nos deixam contemplar o universo infinito e maravilhoso com os olhos e o coração de uma criança…

O trabalho de um missionário vai muito além das visitas, obras comunitárias e celebrações… Ser missionário é partilhar… Partilhar seu trabalho, suas ideologias, suas esperanças, temores, alegrias e tristezas, mas acima de tudo, partilhar a vida… Os missionários levam um pouco de nós e deixam um pouco deles conosco…

Hoje, alguns dias depois da partida destes jovens generosos, vejo uma capela restaurada que nos inquieta a restaurar também nosso coração e nossa comunidade. Pois a Igreja só tem sentido se for composta de pessoas, do contrário não passa de uma construção de alvenaria cheia de formas e cores… A verdadeira Igreja não se prende ao templo. Ela está onde estiver o povo. Se o templo não servir para reunir a comunidade e transformá-la evolutivamente na fé, na oração e na partilha, de nada servirá o espaço físico…

Deus se agrada com os louvores, porém se agrada muito mais com as pequenas partilhas despretensiosas do cotidiano que, se juntadas, fazem seu povo se reconhecer enquanto comunidade e assumir, em conjunto, as lutas e os sonhos de um lugar melhor para se viver…

Márcio Roberto Goes

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Ano vai, ano vem

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tornozeleira

A vida é uma caixinha de surpresas…” Não sei quem foi o primeiro a dizer isso, mas devia ter uma vida muito emocionante… A verdade é que, se fizermos uma análise, percebemos que sofremos inúmeras mutações durante nossa pequena vidinha terrestre, algumas temporárias, outras definitivas, outras ainda supostamente definitivas, mas quando vemos, tudo volta a ser como era antes e, a bem da verdade, o início e o fim são muito semelhantes…

2015 pode não ter sido um ano fantástico, nem catastrófico para desânimo dos videntes pessimistas de plantão, mas foi um ano marcante, pelo menos para este “quatro zóio” que vos escreve… Vi o mundo voltar os olhos para o Brasil, por conta de uma lama derramada pela cobiça em cima de inocentes e o próprio Brasil, através da grande mídia voltar-se, ao mesmo tempo para a Europa, dando as costas ao povo que sofria com os exploradores de minérios e de vidas…

Vi as discussões políticas se acalorarem em nome desta, ou daquela ideologia e o povo no meio deste fogo cruzado, ainda assim, mantendo o sonho de um dia este conflito de ideias cessar e o país voltar a ser dos brasileiros e pelos brasileiros…

Passei por um processo de DNA, cujo resultado foi negativo, me deixando indignado e aliviado ao mesmo tempo. A ideia de ser pai, não me parecia má, mesmo diante das circunstâncias em que aconteceu… Mas este professor que se acha escritor permanece sem herdeiros…

Por conta da generosidade abusiva que me rendeu algumas dívidas, tive que renunciar meu fusquinha, ficar a pé por uns dias e depois de motoneta… Não tenho queixa, pois sempre é um prazer caminhar pelas ruas do Martello. O problema é se deslocar para o centro, pois dependendo do local de destino, é preciso tomar dois ônibus e pagar duas passagens, já que o terminal rodoviário é uma utopia desde que me conheço por gente… e olha que já tenho quatro décadas de vida caçadorense…

A escola, como sempre, me trouxe muitas alegrias, revigorando ainda mais meu amor pela educação e pelos jovens, fiz novos amigos, me despedi daqueles que terminaram o ensino médio, conheci novos colegas, passei por novas experiências, uma delas, inédita em Santa Catarina, na equipe que organizou as eleições diretas para gestor, ouvindo e debatendo o plano de gestão em todos os segmentos da escola: funcionários, alunos, pais e comunidade… Por fim, fui convidado a ocupar o cargo de assessor: Uma grande alegria e um grande desafio…

Já no final do ano, fui prestigiar meu irmão mais velho que veio de Blumenau para participar do circuito patrocinado por um plano de saúde. Ele que correu e eu que torci o pé. Mais uma vez, novas experiências: Algumas horas de cadeira de rodas, três dias de muletas e o resto do ano mancando…

Por fim, 2015 foi o ano em que comecei de carro (ou melhor, de fusca) e terminei com uma tornozeleira no pé direito… Mas não dá nada, em 2016 estarei com os dois pés no chão, porém com as utopias nas alturas, encarando desafios, dando o melhor para vencer barreiras e preconceitos em busca da escola dos meus sonhos…

Feliz 2016 para todos nós que ousamos sonhar e realizar…

Márcio Roberto Goes

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Meu pé, meu querido pé

Assim cantava o ratinho do Castelo Rá Tim Bum: “Meu pé, meu querido pé que me aguenta o dia inteiro”… Quantas vezes, na vida lembramos de alguma parte do nosso corpo?… Quantas vezes lembramos que temos joelho, cotovelo, dedo mínimo, ou pé?… Na maioria das vezes, só percebemos que os temos quando batemos na quina da mesa, enroscamos em algum móvel, ou machucamos de alguma forma…

Pois é… Num certo domingo, este que vos escreve, permanece acordado desde as cinco e meia (fato raríssimo) para tomar café com o mano véio, vindo de Blumenau, especialmente para participar do circuito patrocinado por um plano de saúde, como exímio corredor que é…

Na largada, fotos, aplausos e incentivos para nosso irmão mais velho já na casa dos cinquenta, porém com disposição de dar inveja a qualquer novinho… Depois da largada, só nos restava esperar a chegada… Mais fotos, risos, palhaçadas com a irmã e a sobrinha e eis que se passaram dez minutos até que tive uma brilhante ideia: “Vamos procurar um lugar aberto para fazermos um lanchinho”… Nos dirigimos até o carro oficial da família e, ao subir no canteiro central a fim de atravessar a rua Santa Catarina isolada por cones coloridos que serviram de chapéu em algumas fotos anteriores, eis que, na descida do canteiro lembrei que eu tenho pé direito… E da pior forma possível, virando-o violentamente…

E lá estava eu, empacotado no chão, com uma dor terrível no pé que quase virou no avesso sentindo o asfalto nas mãos e joelhos como nunca havia sentido antes… Primeira tentativa de voltar à vertical frustrada pela dor… O jeito foi tentar de novo imitando o saci até o carro… Minha irmã, sempre sensata, suspendeu nossa procura por lanche e me levou direto ao pronto socorro, onde tive, pela primeira vez a sensação de ser transportado por uma cadeira de rodas… Gostei, mas confesso que não é um sonho para a vida toda…

Enquanto esperava atendimento, já fazia algumas ligações, tentando emprestar muletas, acreditando ser este meu transporte nos próximos dias… Novo encaminhamento, agora para o hospital, para me encontrar com o ortopedista e fazer uma radiografia com o intuito de saber se não houve fratura… Novamente, a cadeira de rodas foi meu transporte, pilotada pela mana guerreira de sempre, a Martinha

Já no hospital fiz fotos de todos os ângulos do meu queridíssimo pé direito, fotos profundas, radiografias… E o diagnóstico: Não houve fratura, só luxação que seria resolvida com antibióticos, anti-inflamatórios, gelo e repouso… Confesso que o último item me agradou bastante…

Ao retornar para minha residência oficial, de carona com a sobrinha e com a ajuda do amigo Paulinho para levar a moto, descobri, ou melhor, lembrei que tenho também um pé esquerdo que teve que fazer o serviço dos dois para eu poder subir as escadas até meu querido lar… Tenho amigos cadeirantes e com mobilidades limitadas, sempre os respeitei, mas agora, de fato, senti na pele o que é ter uma parte do corpo que não pode cumprir seu papel…

Às vezes, somos como meu pé direito: Por algum fato inesperado, deixamos de cumprir nossa função normal em nossos círculos sociais e a recuperação só depende de nós… Dependemos, inevitavelmente, uns dos outros, com, ou sem problemas… Porém, precisamos vencer nossos preconceitos, limitações, buscar um pé esquerdo para fazer todo o trabalho por um tempo até que o direito se recupere, buscar encosto e auxílio ao que tiver ao redor, para dar sustentação enquanto a recuperação não é completa…

Porém, uma vez reestabelecias nossas funções normais, não devemos esperar uma nova limitação para lembrarmos de nosso papel, tampouco da importância das pessoas que nos cercam… Meu pé, meu sempre querido pé… Fica bem, cara, você é muito importante para mim, mas não esqueça todas as pessoas que se mobilizaram para ajudar na sua recuperação…

São assim os pés, são assim as partes do corpo… É assim a vida!

Márcio Roberto Goes

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As hortênsias

 

A velha casa de madeira bruta, quase tapera, as árvores frutíferas, a cerca-viva, as flores, as hortênsias, o cachorro expressando sorrisos pelo latido e a cauda abanando…

As goteiras nos dias de chuva, o chimarrão, a casca da polenta, o frango à milanesa e a maionese de domingo, o pano branco com água na fronte para baixar a febre, o chá de quebra-pedras, de erva cidreira, de tansagem, de marcela, de casca de laranja, de cavalinha e tantas outras ervas que ajudam a vida a ser mais confortável e saudável, o xarope de babosa…

A mesa arrumada, o café sempre fresco e quentinho com leite, o pão caseiro único, exclusivo e inigualável, a muda de fermento, o bolo de fubá, o macarrão caseiro, o manjar branco, o sagu…

As mãos que afagam, já castigadas pelo tempo e pelo trabalho doméstico. As mesmas mãos que massageiam qualquer desconforto corporal e espiritual… O abraço da despedida, o sorriso da chegada, a bênção antes de dormir, o socorro na madrugada… A palavra amiga na hora do desespero, a exortação na hora do erro, a oração na hora mais difícil…

Cenário perfeito… Ontem rodeado de parentes, amigos e vizinhos, remédio para todos os males do corpo e da alma, alívio para o estresse, aconchego para os carentes num enorme coração de mãe…

Hoje, solidão… Recordações da infância feliz, da adolescência conturbada, da juventude rebelde, do colo materno, do abraço amigo na hora do aperto, do ombro choroso na hora do desespero… Os Natais e Páscoas, aniversários e reuniões de amigos… Saudades da reza do terço, da expressão da fé…

Fé… palavra pequena, mas que tem um significado gigantesco… É só por ela que ainda acreditamos em um dia termos a oportunidade de um novo encontro, um novo abraço e um novo afago… Só pela fé.

Por hora, restam apenas a velha casa quase tapera, as árvores frutíferas, o cão de guarda e as hortênsias… Ah! As hortênsias!…

Márcio Roberto Goes

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É Natal

É Natal! Toda a cidade, o país e o mundo mobilizados, afinal é hora de pensar nos festejos de fim de ano: reunir a família, comer e beber a vontade, dar e receber presentes, enfeitar a casa e as ruas…

O trabalhador tem alguns dias de férias… O vendedor tem mais trabalho… O comerciante espera, vitorioso, as vendas de fim de ano… Enquanto isso, o pobre pai de família espera ansioso por um emprego, a fim de ter décimo terceiro e férias no fim do ano que vem, comprar presentes para a família, dar trabalho ao vendedor e engordar o bolso do comerciante, cujo filho tem brinquedos de última geração, roupas de marca, computador, Internet, celular e uma babá que certamente não tem férias e dá todo o amor e carinho que seus pais resolveram terceirizar… O filho do desempregado vive na periferia, onde nem Papai Noel tem coragem de chegar, brinca com o cachorro, gado de osso, terra e pedras às margens do esgoto a céu aberto… Usa roupas que não servem mais para seus quatro irmãos mais velhos e futuramente deverá deixar para os dois irmãos mais novos. Roupas compradas num bazar beneficente promovido por alguma turma de formandos que esperam ansiosos a colação de grau e uma chance para negociar a dívida com a faculdade, ter direito ao diploma e um lugar no mercado de trabalho, para ganhar dinheiro, comprar presentes, dar mais trabalho ao vendedor e engordar o bolso do comerciante…

É Natal!… Cresce mais a economia de quem não economiza, mas também não reparte… É Natal!… De um lado, miséria, fome e crianças que já não alimentam esperanças de receber presentes do Papai Noel… De outro, luxo e desperdício, e um Papai Noel generoso que, como diz a canção, “não esquece de ninguém”, só dos pobres.

É Natal!… O aniversariante dorme na manjedoura à espera de alguém que ainda lembre o verdadeiro sentido desta data… Ele vai crescer, desafiar as autoridades, repartir e multiplicar o pão, doar-se aos pequenos e aos pobres, inclusive àqueles que já não recebem a visita do Papai Noel, será condenado à morte de cruz, vai vencê-la e ressuscitar ao terceiro dia a fim de salvar a humanidade… Está completando dois mil e quinze anos, não esquece de ninguém, “seja rico, ou seja pobre”… Pena que grande parte da humanidade (ricos e pobres), já esqueceu dEle e prefere acreditar só no Papai Noel, criado e alimentado pelo comércio capitalista que é desumano e valoriza muito mais o “ ter” do que o “ser”.

“Dorme em paz oh Jesus”, porque é natal… O menino santo e pobre da manjedoura, agora dá lugar ao bom velhinho do trenó que traz presentes para uma seleta fatia da população que não tem tempo de comemorar o aniversário de alguém nascido no meio dos animais e que vive para salvar a humanidade.

É Natal!… Então, feliz Natal!!!

Márcio Roberto Goes

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